Danielle Steel

Malcia



CAPTULO 1

        Os sons do rgo pairavam no ar e pareciam erguer-se para o cu azul de Wedgwood. Pssaros chilreavam por entre as rvores e, ao longe, ouvia-se a voz cristalina
de uma criana a chamar uma amiga. Era uma manh de Vero, lenta e quente. As vozes no interior da igreja erguiam-se em perfeito unssono, ao cantar os hinos religiosos
que eram familiares a Grace desde a sua infncia. Mas nessa manh ela no era capaz de cantar. Mal se conseguia mover enquanto olhava fixamente para o caixo onde
a me jazia.
        Toda a gente sabia que Ellen Adams fora uma boa me, uma boa esposa e uma cidad respeitada at ao dia da sua morte. Ensinara na escola antes de Grace nascer 
e gostaria de ter tido mais filhos, mas isso no sucedera. A sua sade fora sempre frgil e aos trinta e oito anos ficara cancerosa. O cancro comeara no tero, 
e, depois de se sujeitar a uma histerectomia, fizera tratamentos com quimioterapia e radiaes. A doena disseminara-se pelos pulmes, sistema linftico e depois 
pelos ossos. Fora um combate que durara quatro anos e meio. E agora, aos quarenta e dois anos, ela perecera.
        Morrera em casa e Grace tratara dela sozinha at ao ms anterior. Nessa altura, o pai tivera de contratar duas enfermeiras para a ajudar, mas Grace continuara 
a sentar-se junto dela durante horas, quando voltava da escola. E  noite, era Grace que acodia  me quando ela gritava com dores, que a ajudava a virar-se, a levava 
 casa de banho, ou lhe dava o remdio. As enfermeiras s trabalhavam durante o dia. O pai no as queria l  noite e toda a gente percebia a sua dificuldade em 
aceitar que a mulher estivesse doente. E agora, sentado no banco ao lado de Grace, chorava como um beb.
        John Adams era um homem atraente. Tinha quarenta e seis anos, era um dos melhores advogados de Watseka e certamente um dos mais estimados. Estudara na Universidade 
de Ilinois depois de ser desmobilizado no fim da Segunda Guerra Mundial. Voltara em seguida para Watseka, sua terra natal, situada a cerca de cento e cinquenta quilmetros 
a sul de Chicago. Tratava-se de uma cidade pequena, imaculadamente bem tratada, e os cidados eram profundamente decentes. O pai tratava de todos os seus problemas 
legais e aconselhava-os em tudo sempre que o consultavam. Era ele quem lhes tratava dos divrcios, que resolvia disputas sobre propriedades, apaziguando os membros 
das famlias desavindas. Manteve-se sempre leal e justo e todos gostavam dele por causa disso. Era ele quem escrevia quaisquer reclamaes ou pedidos a fazer ao 
Estado, que tratava de testamentos e que ajudava nas adoes. Juntamente com o mdico mais popular da cidade, tambm seu grande amigo, John Adams era uma das pessoas 
mais estimadas e respeitadas de Watseka.
        Na sua juventude fora a estrela da equipe de basebol da cidade e quando do ingresso na universidade continuara a jogar. Ainda muito jovem havia despertado 
as simpatias de toda a gente. Os pais dele tinham morrido num acidente de automvel e os avs j haviam falecido antes, por isso as famlias da cidade tinham disputado 
entre si o privilgio de o convidar para suas casas at concluir o curso secundrio. Por fim, John Adams acabara por permanecer com duas famlias, em perodos diferentes, 
e ambas apreciavam a sua companhia.
        Conhecia praticamente toda a gente da cidade e desde que se soubera que Ellen se encontrava gravemente doente, algumas vivas e divorciadas comearam a ver 
nele um bom partido. Mas ele nunca lhes dera qualquer ateno, apenas as tratava afavelmente. Dava-se bem com todas e por vezes interrogava-as sobre os filhos. Era 
isso que todos diziam a respeito dele, e muitos homens acrescentavam: "E tinha direito de o fazer. Estando Ellen to doente, seria de pensar que ele comeasse a 
lanar o olhar  sua volta... mas John no  desses...  um marido decente e leal." E era de fato um homem decente, bom e bem sucedido. Os casos de que tratava no 
eram importantes, mas tinha uma grande quantidade de clientes. At mesmo o seu scio no escritrio, Frank Wills, gracejava com ele, dizendo-lhe que no percebia 
por que motivo todos perguntavam por John antes de perguntarem por Frank. Era o preferido de todos.
        - Que  que fazes? Ofereces-lhes produtos durante um ano, sem eu saber? - dizia ele. Frank no era to bom advogado como John, mas era um bom investigador 
e excelente para tratar dos contratos, perscrutando os pormenores. Frank passava cada contrato a pente fino. Mas John  que ficava sempre com as honrarias, quem 
se tornara conhecido a quilmetros de distncia, noutras cidades. Frank passava despercebido, no tinha o encanto nem o aspecto atraente de John, mas os dois trabalhavam 
bem em conjunto e conheciam-se reciprocamente, pois haviam sido colegas na universidade. Naquele momento, Frank encontrava-se sentado algumas filas atrs de John 
e da filha e sentia-se triste por eles.
Frank sabia que John havia de superar o desgosto e que acabaria por ficar bem e, apesar dele agora dizer que no estava interessado, Frank sabia e estaria at disposto 
a apostar que o scio casaria novamente dentro de um ano. Grace  que lhe parecia totalmente destroada e infeliz ao olhar fixamente para as flores amontoadas em 
redor do caixo, junto do altar. Era uma rapariga bonita, ou seria, se quisesse s-lo. Aos dezessete anos era alta e magra, com ombros graciosos e braos compridos, 
lindas pernas, cintura fina e um busto cheio. Mas ocultava sempre a figura por baixo de roupas largas e sem graa que comprava no Exrcito de Salvao. John Adams 
no era de modo algum um homem rico, mas poderia comprar-lhe roupas bem melhores do que aquelas, se ela quisesse. Mas, ao contrrio das outras raparigas da sua idade, 
Grace no se interessava por roupas, nem por rapazes, parecendo fazer o possvel por se desfear e no por se embelezar. No usava qualquer maquilhagem, e deixava 
que o longo cabelo de um louro-escuro lhe casse pelas costas. A franja quase lhe tapava os grandes olhos azuis. Parecia nunca olhar a direito para ningum, nem 
se mostrava interessada em qualquer tipo de conversa. Muitas pessoas ficavam surpreendidas ao aperceberem-se de como ela era bonita, se conseguiam olh-la duas vezes, 
mas quem no a observasse bem no dava por ela. Nesse dia usava um vestido preto que fora da me e que lhe assentava como num cabide. Parecia ter trinta anos, com 
o cabelo esticado e apertado num carrapito sobre o pescoo, muito plida, caminhando ao lado do pai.
        "Pobre rapariga", murmurou a secretria de Frank, enquanto Grace se colocava junto do caixo da me. "Pobre John... pobre Ellen... que grande desgosto."
        De tempos a tempos, as pessoas faziam comentrios sobre a timidez de Grace e a sua insociabilidade. Alguns anos antes correra at o boato de que ela pudesse 
ser um pouco atrasada, mas os professores e os colegas sabiam que isso era mentira. Grace era mais inteligente que a mdia, mas falava pouco. Era uma alma solitria 
e s muito raramente a viam conversar ou rir num corredor, mas logo a seguir apressava-se a ir para casa outra vez, como se receasse estar ali entre os colegas. 
Os colegas sabiam que Grace no era doida, mas tambm no se mostrava amigvel. Tratava-se de uma postura estranha, visto os pais serem pessoas muito sociveis. 
Grace sempre fora uma criana solitria e muitas vezes tinha de ir para casa, quando estava na escola, com um forte ataque de asma.
        John e Grace estavam agora parados ao sol, apertando as mos a amigos e conhecidos, agradecendo-lhes por se encontrarem ali, mas Grace parecia mais distante 
e isolada do que nunca. Dava a impresso de que o seu corpo se encontrava ali, mas a alma e o pensamento estavam muito longe. E com o seu vestido preto, demasiado 
largo, tinha um ar mais pattico do que nunca.
        Quando se meteram no carro a caminho do cemitrio o pai comentou a aparncia dela. At os sapatos eram velhos. Grace calara uns sapatos pretos, de salto 
alto, que tinham sido da me, mas estavam usados e fora de moda. Parecia que Grace queria sentir-se mais perto da me usando as roupas que tinham sido dela. Era 
como se fosse uma camuflagem protectora, mas o vestido e os sapatos no ficavam bem a uma rapariga da sua idade e o pai disse-lho. Na verdade, Grace parecia-se muito 
com a me, mas Ellen era mais forte do que a filha, antes de adoecer, e o vestido era demasiado largo para a sua figura esbelta.
        - No podias ter vestido alguma coisa decente, para valorizar? - perguntou o pai com um olhar de irritao, enquanto se dirigiam para o cemitrio de Saint 
Mary, nos arredores da cidade, seguidos por um cortejo de umas trs dzias de carros. John era um homem respeitado e tinha uma reputao a defender. No lhe ficava 
bem ter uma filha nica que parecia rf.
        - A mam nunca me deixava vestir de preto e eu pensei... pensei que devia... - Olhava-o como a defender-se, sentada com ar infeliz a um canto do carro que 
a agncia fornecera para a ocasio. Era um Cadillac e os colegas dela tinham-no alugado, alguns meses antes, para um passeio. Mas Grace no quisera ir e ningum 
a convidara. Com a me to doente, nem sequer tinha vontade de ir  cerimnia da graduao. Mas fora, claro, e ao voltar a casa, mostrara o diploma  me. Fora aceite 
na Universidade de Ilinis, mas retardara a sua ida para l por um ano, para continuar a tomar conta da me. O pai tambm preferira que assim fosse, pois sabia que 
Ellen gostava que a filha a tratasse e no as enfermeiras. Esperava que ficasse junto da me e no fosse para a escola em Setembro. Grace no discutira com ele. 
Sabia que no valia a pena faz-lo. Nunca valia. O pai era um homem bem-parecido e de xito e esperava continuar a ser. Especialmente com a sua prpria familia. 
Grace compreendia isso e o mesmo sucedera com Ellen.
        - Est tudo pronto l em casa? - perguntou o pai, olhando-a de relance. - Grace disse que sim com a cabea. Apesar de toda a sua timidez e isolamento, Grace 
sabia governar lindamente a casa. Fazia-o desde os treze anos. Durante os ltimos quatro anos fizera tudo pela me.
        - Est - disse calmamente. Deixara tudo pronto antes de ir para a igreja. E o resto encontrava-se em travessas cobertas, no frigorfico. H vrios dias que 
as pessoas lhes levavam comida. Grace assara um peru e uma pea de carne na noite anterior. A sra. Johnson levara-lhes um presunto e havia saladas, empadas, salsichas, 
dois pratos de aperitivos e muitos vegetais frescos, alm de todos os gneros de doces e de bolos imaginveis. A cozinha parecia a de um restaurante de uma feira 
e havia de tudo para todos os gostos. Certamente que iriam receber mais de cem pessoas, ou talvez o dobro disso, devido  considerao que tinham por John e quilo 
que ele representava para o povo de Watseka.
        As pessoas tinham-se mostrado sumamente generosas e a quantidade de coroas e arranjos florais era esmagadora.
        - Parece o funeral de uma pessoa da realeza - disse o velho Peabody, entregando a John o livro de condolncias cheio de assinaturas.
        - Ellen era uma mulher extraordinria! - dissera calmamente John. E agora, pensando nela, olhou de relance para a filha. Era uma rapariga to bonita e to 
decidida a no o mostrar. Grace era assim mesmo, ele aceitava isso e mais valia no discutir com ela. Era uma rapariga cheia de qualidades e fora uma bno para 
ele durante os anos da doena da me. Agora a casa ia parecer-lhes estranha, mas de certo modo, tinha de o confessar a si prprio, ia ser mais fcil. Ellen estivera 
doente tanto tempo, sofrera tanto, que era desumano querer que ela continuasse a viver.
        Olhou para fora, para a janela, e depois observou novamente a sua filha.
        - Estava a pensar como vai ser estranho vivermos sem a mam... mas talvez... - No sabia bem como dizer o que pensava sem a perturbar ainda mais... - talvez 
seja mais fcil para ns. Ela sofria tanto, coitadinha - suspirou e Grace ficou calada. Sabia melhor que ningum como a me sofrera.
        A cerimnia no cemitrio foi breve. O sacerdote disse algumas palavras acerca de Ellen e da sua familia, leu uma passagem dos Salmos e em seguida dirigiram-se 
todos para a casa dos Adams. Uma multido de cento e cinquenta pessoas invadiu a pequena e agradvel casa, pintada de branco, com portadas de madeira verdes e uma 
cerca da mesma cor. No jardim em frente da casa viam-se canteiros com margaridas e nas traseiras, mesmo junto das janelas da cozinha, havia um roseiral que fora 
o enlevo de Ellen.
        O rudo das vozes fazia com que aquela reunio de luto se assemelhasse a um cocktail. Frank Wills encontrava-se na sala, ajudando o dono da casa a receber 
os amigos, e John estava no jardim, rodeado de muitas pessoas. Grace serviu limonada e ch gelado, o pai ofereceu vinho. A comida que Grace preparara era tanta que 
mesmo um to grande nmero de pessoas no conseguiu faz-la desaparecer. Eram quatro da tarde quando os ltimos convidados partiram e Grace comeou a reunir os copos 
e os pratos espalhados por todos os cantos.
        - Temos bons amigos - disse o pai com um sorriso afetuoso. Sentia-se orgulhoso por tanta gente gostar deles. Fizera muito por muita gente durante anos e 
agora todos tinham estado ali, quando ele precisara de sentir o amparo da amizade na sua hora de sofrimento. Observou a filha movendo-se em silncio pela sala, colocando 
pratos e copos num tabuleiro, e compreendeu como tinham ficado ss. Ellen desaparecera, as enfermeiras tinham-se ido embora e eles estavam sozinhos. Mas John no 
era homem para meditar sobre o seu infortnio.
        - Vou l fora ver se h mais copos espalhados - declarou. Voltou meia hora mais tarde com um tabuleiro cheio de copos e pratos, o casaco num brao e a gravata 
desapertada. Se tivesse conscincia de tais coisas, Grace teria reparado que o pai parecia mais atraente do que nunca. Outras pessoas tinham notado isso. Perdera 
algum peso nas ltimas semanas e estava to esbelto como um rapaz.  luz do Sol era difcil ver se o cabelo dele era grisalho ou louro. Com efeito, tinha os dois 
tons e os seus olhos tinham o mesmo azul-brilhante que os da filha.
        - Deves estar cansada - observou o pai. Grace encolheu os ombros e comeou a meter a loua na mquina. Sentia um n na garganta e esforava-se por no chorar. 
Fora um dia terrvel... um ano terrvel... quatro anos terrveis... s vezes apetecia-lhe desaparecer. Mas sabia que no podia. Havia sempre outro dia, outro ano, 
outro dever a cumprir. Desejava ter sido enterrada nesse dia em vez da me. E enquanto olhava para os pratos sujos que ia metendo mecanicamente na mquina, sentiu 
o pai parado junto dela.
        - Queres ajuda?
        - Estou bem - disse calmamente. - Quer jantar, pap?
        - No sou capaz de comer seja o que for. Porque no deixas isto? Tiveste um dia comprido. Porque no descansas um bocado?
        Ela anuiu com a cabea e continuou a meter os pratos na mquina. O pai dirigiu-se para o quarto dele e s uma hora depois  que Grace terminou finalmente 
o seu trabalho. Guardara toda a comida e a cozinha estava impecvel. Os pratos encontravam-se na mquina e a sala estava limpa e arrumada. Grace era muito organizada 
e prosseguiu o seu trabalho, arrumando e endireitando tudo o que via fora do lugar. Era uma maneira de no pensar no que sucedera.
        Quando foi para o quarto, viu que a porta do quarto do pai estava fechada, mas ouviu-o falar ao telefone. Pensou se ele iria sair, enquanto fechava a sua 
porta e se estendia em cima da cama completamente vestida. O vestido preto sujara-se de comida e salpicara-o com gua e detergente ao lavar alguma loua. Sentia 
o cabelo como se fosse de corda, a boca parecia-lhe algodo e o corao pesado como chumbo. Fechou os olhos e as lgrimas comearam a correr-lhe lentamente pelas 
faces, formando dois pequenos rios.
        - Porqu, mam? Porqu? Porque me deixaste? - Fora a traio final, o derradeiro abandono. Que iria fazer agora? Quem a ajudaria? A nica coisa boa era poder 
ir para a universidade no prximo Outono. Talvez. Se ainda a aceitassem. Ou se o pai a deixasse ir. Mas j no havia qualquer motivo para ali ficar. Havia razo 
era para partir, e ela desejava faz-lo.
        Ouviu o pai abrir a porta do quarto e sair para o corredor, chamando-a, mas no lhe respondeu. Sentia-se demasiado cansada para falar fosse com quem fosse, 
at mesmo com o pai, enquanto ali estava deitada a chorar pela me. Ento ouviu a porta do quarto do pai fechar-se de novo e passou-se muito tempo at ela se levantar 
e se dirigir para a casa de banho. Era o seu nico luxo, ter um quarto com casa de banho. A me deixara-a pint-la de cor-de-rosa. A casa, de que a me tanto se 
orgulhara, tinha trs quartos. O terceiro fora destinado a outro filho que desejavam ter, mas o beb nunca viera e a me usara esse terceiro aposento como sala de 
costura, desde que Grace se podia recordar.
        Encheu a banheira de gua quente e foi fechar a porta do quarto  chave antes de despir o vestido preto e de descalar os sapatos.
        Entrou lentamente no banho e ficou estendida na gua, de olhos fechados. Era totalmente inconsciente da sua beleza, de como as suas pernas eram longas e 
bem modeladas, as suas formas graciosas, os seus seios belos. No via nada e no se teria importado mesmo que visse. Deixou-se ficar deitada na gua, de olhos fechados, 
sentindo-se  deriva. Era como se tivesse a cabea cheia de areia. No havia imagens nem pensamentos na sua cabea, no queria ver ningum, nem pensar em coisa alguma. 
Desejava apenas pairar no espao e no pensar.
        Percebeu que estava ali h muito tempo quando a gua comeou a ficar fria e ouviu o pai bater  porta do quarto.
        - Que ests a fazer a, Gracie? Sentes-te bem?
        - Estou bem! - gritou da banheira, despertando do seu estado de transe. L fora comeara a escurecer e ela no se deu ao trabalho de acender as luzes.
        - Vem c para fora. No fiques a sozinha.
        - Estou bem. - A voz dela era montona, o olhar distante, afastando todos do stio onde ela realmente vivia, no fundo da sua alma, onde ningum a poderia 
encontrar nem magoar.
        Ouvia-o ainda junto da porta, pedindo-lhe para sair e para lhe falar, e disse-lhe que iria da a uns minutos. Enxugou-se, vestiu umas calas de ganga velhas 
e uma T-shirt e enfiou por cima um velho camisolo de malha, apesar do calor. E, depois de estar vestida, abriu a porta e desceu as escadas para ir tirar a loua 
da mquina. Ele estava l e olhava para as rosas que cresciam junto da janela da cozinha. Voltou-se quando Grace entrou e sugeriu-lhe:
        - Queres ir l para fora um bocado? Est agradvel. Depois tratas disso.
        - No.  melhor fazer isto j.
        John encolheu os ombros e abriu uma lata de cerveja, depois sentou-se nos degraus e ficou a olhar para os pirilampos que se viam  distncia. Grace sabia 
que a noite estava bonita, mas no queria olhar, no queria ver, nem recordar aquela noite, nem coisa alguma. Como tambm no queria recordar a noite em que a me 
morrera e o modo lamentvel como ela lhe pedira para ser boa para o pai. Era s o que a preocupava... ele... apenas lhe interessava faz-lo feliz.
        Depois de guardar a loua, Grace voltou para o seu quarto e estendeu-se na cama sem acender a luz. Ainda no conseguia habituar-se ao silncio. Continuava 
 espera de ouvir a voz dela, como se estivesse a dormir e pudesse acordar com dores a qualquer momento. Mas Ellen Adams j no sentia dores, nunca mais sentiria. 
Finalmente estava em paz. E a eles s restava o silncio.
        As 22 horas Grace vestiu a camisa de noite, deixando as calas, a camisola e o camisolo cados no cho, em monte. Fechou a porta  chave e meteu-se na cama. 
Nada mais tinha a fazer. No lhe apetecia ler nem ver televiso, o trabalho da casa estava feito e ela no tinha mais ningum de quem tratar. Queria apenas dormir 
e esquecer tudo... O funeral... as coisas que as pessoas tinham dito... o cheiro das flores... as palavras do sacerdote no cemitrio. Ningum conhecia a me nem 
os conhecia a eles tambm, tal como sucedia com ela. Mas isso no lhe interessava. Tudo o que as pessoas queriam e conheciam eram as suas prprias iluses.
        - Gracie... - ouviu o pai bater ao de leve  porta. - Gracie... querida... ests acordada? - Ela ouviu-o, mas no respondeu. Que havia a dizer? Como sentiam 
a falta dela?
        O que ela significara para eles? De que serviria isso? No poderiam traz-la de novo para junto deles. Nada o poderia fazer. Grace deixou-se ficar estendida 
no escuro, envolta na sua velha camisa de noite de nylon cor-de-rosa.
        Ouviu-o ento tentar abrir a porta, mas no se mexeu. Fechara-a  chave. Fazia-o sempre. Na escola, as outras raparigas troavam dela por ser to envergonhada. 
Fechava sempre as portas  chave, para poder ter a certeza de estar s, de no ser incomodada.
        - Gracie? - Ele continuava ali, decidido a no a deixar chorar sozinha. A voz dele era meiga e suave, mas Grace continuou sem responder. - V, deixa-me entrar... 
para conversarmos um pouco... estamos os dois tristes... deixa-me ajudar-te. - Grace no se mexeu e dessa vez John sacudiu a maaneta da porta com fora. - Querida, 
no me obrigues a forar a porta. Sabes que o posso fazer. Deixa-me entrar.
        - No posso, estou doente - mentiu. Grace estava bela e plida, iluminada pela luz do luar que fazia com que os seus braos parecessem de mrmore, mas ele 
no a podia ver.
        - No ests nada doente. - Sabia bem que no era verdade. Enquanto falava com ela, ia desabotoando a camisa. Tambm estava cansado, mas no a queria fechada 
no quarto, sozinha com o seu desgosto. Por isso  que ali estava. - Gracie! - A sua voz subiu de tom e Grace sentou-se na cama a olhar para a porta com ar assustado.
        - No entre, pap - pediu com voz trmula. Sabia que ele era todo-poderoso e tinha medo dele. - No, pap! - repetiu. Ouvia-o forar a porta e sentou-se 
na beira da cama com os ps no cho a olhar para a porta. Mas ouviu os passos dele afastarem-se e ficou imvel, a tremer. Conhecia-o demasiado bem: nunca desistia 
facilmente de coisa alguma e sabia que no o faria.
        Uns momentos depois, ele estava de volta e forava a fechadura com um instrumento qualquer, entrando no quarto descalo e de peito nu, tendo no rosto uma 
expresso de aborrecimento.
        - No precisas de fazer isto agora. Estamos os dois ss. Sabes que no te vou magoar.
        - Eu sei... mas no o pude evitar... desculpe..........
        - Assim  melhor. - Aproximou-se dela e olhou-a severamente: - No h necessidade de ficares aqui sozinha e infeliz. Porque no vens ao meu quarto para conversarmos 
um bocado? - Falava com ar carinhoso e desapontado com as evasivas dela. Quando o olhou, ele viu que a filha tremia.
        - No posso... eu... di-me a cabea.
        - Vamos. - Inclinou-se e agarrou-a por um brao, obrigando-a a levantar-se. - Vem, falaremos no meu quarto.
        - No quero... eu... no! - gritou ela, conseguindo soltar o brao. - No posso! - gritou de novo, e dessa vez ele pareceu ficar zangado. No estava disposto 
quelas coisas nessa noite. No havia razo para isso. Nem necessidade. Sabia o que a me lhe dissera. Olhou-a com ar furioso e agarrou-a com mais fora.
        - Sim, podes. E vais faz-lo. Disse-te para vires ao meu quarto.
        - Pap, por favor... - A voz dela era pouco mais do que um leve gemido enquanto ele a puxava e a obrigava a segui-lo at ao quarto dele. - Por favor, mam... 
- Sentia o peito tenso e um zumbido nos ouvidos enquanto continuava a suplicar.
        - Sabes o que a tua me te disse antes de morrer - disse furiosamente. - Sabes o que ela te disse...
        - No quero saber. - Era a primeira vez em toda a sua vida que se atrevia a desafiar o pai. Costumava suplicar e chorar, mas nunca lutara contra ele como 
nessa noite. Era algo novo nela e ele no gostou disso. - A mam j aqui no est - disse ela, tremendo dos ps  cabea e olhando-o,  medida que esperava arrancar 
algo da sua prpria alma: a coragem para lutar contra o pai...
        - Pois no, no est - disse ele, sorrindo. -  isso mesmo, Grace. J no precisamos de nos esconder, podemos fazer o que quisermos.  a nossa vida... e 
ningum precisa de saber... - Avanou para ela com os olhos brilhantes, enquanto Grace recuava. Depois ele agarrou-lhe os dois braos e, com um s gesto, rasgou-lhe 
a camisa de noite, nos ombros. - Pronto... assim  melhor... mas no  preciso fazer estas cenas... nada disto... s preciso de ti... minha Gracie... s preciso 
da minha beb que me ama e a quem eu amo muito... - S com uma mo, tirou as calas e as cuecas de um s gesto e ficou nu e erecto diante dela.
        -....... por favor... - A voz dela emitiu um longo e triste suspiro de dor e de vergonha, voltando a cabea para no ver aquela imagem demasiado familiar. 
-....... no posso... - As lgrimas corriam-lhe pelas faces. John no compreendia. Ela tinha feito aquilo porque a me lhe pedira. Fazia-o h anos, desde os treze... 
pouco depois de a me ter adoecido e ter sido operada a primeira vez. Antes disso o pai batia na me e Grace costumava ouvi-los, noite aps noite, enquanto chorava 
sozinha, no seu quarto. De manh a me tentava explicar-lhe a causa das ndoas negras, dizendo-lhe que cara, que batera com a cara na porta, ou que escorregara. 
Mas no era segredo. Todos o sabiam. Ningum teria julgado John Adams capaz disso, mas era, disso e de muito mais. Tambm seria capaz de bater em Grace, mas Ellen 
nunca  permitira. Em vez disso, deixara que ele a espancasse e dissera a Grace que fechasse a porta do quarto  chave.
        Por duas vezes, Ellen abortara por causa das tareias brutais. Na ltima, estava grvida de seis meses e depois disso no engravidara mais. As pancadas brutais 
e aterradoras, eram dadas de modo a que no se notassem muito e se pudessem explicar, desde que Ellen estivesse disposta a faz-lo, e ela estava. Amara-o desde os 
seus tempos de escola. Era o rapaz mais bonito da cidade e ela considerara uma sorte casar com ele. Os pais dela eram muito pobres e ela nem sequer terminara o curso 
secundrio. Ellen era uma bonita rapariga, mas sabia que sem John no teria qualquer oportunidade de conseguir uma vida decente. Fora isso que John lhe dissera e 
ela acreditara. O pai tambm lhe costumava bater e ao princpio aquilo que John fazia no lhe parecia nada de especial. Mas as coisas foram piorando com o decorrer 
dos anos e por vezes John ameaava deix-la por ela ser uma intil. Ellen fazia tudo o que ele queria s para que no a deixasse. E quando Grace cresceu, tornando-se 
cada dia mais bonita, foi fcil ver o que ele queria, o que ela teria de fazer para o conservar. E quando Ellen adoeceu e as radiaes e a quimioterapia a afetaram 
to dramaticamente, ela deixou de poder ter relaes sexuais. John disse-lhe ento que se queria continuar casada com ele tinha de fazer alguma coisa para o manter 
feliz. Era bvio que ela no o poderia fazer, no podia dar-lhe o que ele queria. Mas Grace podia. Tinha treze anos e era encantadora.
        A me explicara-lhe tudo, para ela no se assustar. Era uma coisa que a filha podia fazer por eles, para ajudar o pai a ser feliz. Era como se passasse a 
ser mais uma parte deles e o pai gostaria ainda mais dela do que dantes. Ao princpio, Grace no compreendeu e depois chorou... Que pensariam as amigas se soubessem? 
Como poderia fazer aquilo com o pai? Mas a me dizia-lhe constantemente que ela tinha de os ajudar, que era sua obrigao, que morreria se ela no o fizesse. Dizia-lhe 
que o pai talvez as abandonasse e ficariam sozinhas, sem ningum que olhasse por elas. Pintou um quadro terrvel e ps nos ombros de Grace uma grande carga. A rapariga 
soobrou ao peso da responsabilidade e com o horror daquilo que esperavam dela. Mas eles no queriam uma resposta da sua parte. Nessa noite foram os dois ao seu 
quarto e a me ajudou-o. Segurou-a, falou-lhe meigamente, disse-lhe como ela era uma boa filha e como a amavam. E mais tarde, quando voltaram para o quarto, John 
abraou Ellen e agradeceu-lhe.
        Depois disso a vida comeou a ser mais triste e solitria para Grace. Ele no ia ao quarto dela todas as noites mas quase. Por vezes Grace julgava morrer 
de vergonha e havia ocasies em que ele a magoava de verdade. A jovem nunca contou a ningum. Passado certo tempo a me deixou de o acompanhar. Grace sabia o que 
era esperado dela e nada podia fazer a no ser obedecer. Quando discutia com ele, John batia-lhe com fora e ela percebeu que no tinha qualquer alternativa, qualquer 
sada. Submetia-se para que ele no batesse na me, no as deixasse. Mas sempre que Grace no cooperava com ele, ou no fazia tudo o que ele queria, ele voltava 
para o quarto e batia em Ellen, por mais doente ou cheia de dores que ela estivesse. Era uma mensagem que Grace compreendia imediatamente e que a fazia correr para 
o quarto deles, aos gritos, jurando que faria tudo o que ele quisesse. E ele obrigava-a a provar isso vezes e vezes sem conta. Durante mais de quatro anos, fizera 
com ela tudo o que lhe viera  cabea. Ela era a sua escrava de amor, a sua filha. E a nica coisa que a me fizera para a proteger fora comprar plulas contraceptivas 
para ela no engravidar.
        Desde que o pai comeara a dormir consigo, Grace deixara de ter quaisquer amigos. Nunca tivera muitos, porque receava que algum descobrisse que o pai batia 
na me, e Grace sabia que tinha de os proteger. Mas logo que o pai comeara a dormir com ela, Grace achara impossvel falar com qualquer dos colegas na escola, ou 
mesmo com os professores. Tinha a certeza de que descobririam o que se passava, que veriam qualquer coisa na cara ou no corpo dela, como um sinal maligno que ela 
usasse por fora, ao contrrio da me. A maldade era dele, mas ela nunca o compreendera verdadeiramente. At ento. Percebia agora que, tendo a me desaparecido, 
ela j no era obrigada a continuar. Tinha de parar. No aguentava mais. Nem sequer pela me. Era demasiado... especialmente naquele quarto. Ele sempre fora ao quarto 
dela, obrigando-a a abrir a porta. Nunca se atrevera a lev-la para o quarto dele, mas agora era como se quisesse que ela tomasse o lugar da me e o preenchesse 
de um modo que a me nunca o pudera fazer. Era como se passasse a ser a mulher dele. At a sua maneira de falar era diferente.
        E enquanto ela chorava e suplicava, as splicas dela s serviam para o excitar mais. Olhou-a com uma expresso dura e ameaadora, enquanto com um nico gesto 
a atirava para cima da cama onde at dois dias antes se finava a mulher.
        Contudo, dessa vez Grace lutou. Decidira j que no ia voltar a submeter-se e lutou para se livrar dele. Compreendia agora que era loucura pensar que podia 
ficar debaixo do mesmo tecto com ele, sem que o mesmo pesadelo continuasse. Precisava de fugir, mas primeiro tinha de resistir e sobreviver quilo que ele lhe ia 
fazer. Sabia que no podia continuar a consentir... no podia. Embora a me quisesse que ela fosse boa para ele, no podia. Fora boa e obediente demasiado tempo. 
No podia mais... nunca mais... nunca... mas enquanto ela agitava os braos para o afastar, ele caiu com todo o seu peso sobre ela. As pernas foram rapidamente afastadas 
pelas dele e penetrou-a com violncia, provocando-lhe mais dor do que ela alguma vez imaginara poder sentir. Por momentos, pensou que ele a mataria. Nunca fora assim. 
Era como se lhe estivesse a bater com um punho, dessa vez por dentro, e quisesse provar-lhe que era dono dela e podia fazer tudo o que lhe apetecesse. A dor era 
quase insuportvel e por momentos julgou ir desmaiar. O quarto girava  sua volta, enquanto ele continuava a violent-la furiosamente, apertando-lhe os seios, chupando-lhe 
os lbios, at ela ter a sensao de pairar no espao, quase morta, desejando que por fim, misericordiosamente, ele a matasse.
        Mesmo enquanto ele a violava, ela sabia que no podia continuar com aquele sofrimento. Sabia que se encontrava  beira de um precipcio perigoso e que estava 
a lutar pela sua sobrevivncia. E ento, sem mesmo saber como se lembrara disso, percebeu que estavam perto da mesa-de-cabeceira da me. Durante anos tinham estado 
ali inmeras caixas com comprimidos e um jarro com gua. Ela poderia despejar a gua por cima dele, ou bater-lhe com o jarro, mas agora j no havia ali nenhum jarro, 
nem comprimidos, nem gua, nem ningum que os tomasse. Grace estendeu a mo para a gaveta da mesa-de-cabeceira, sem pensar, enquanto ele continuava a violent-la, 
gemendo e gritando. Esbofeteara-a vrias vezes, mas agora apenas queria castig-la com o seu orgo sexual e no com as mos. Apertava-lhe os seios e comprimia-a 
sobre a cama. Grace tinha dificuldade em respirar e a vista enevoada desde que ele lhe batera, mas sentiu a gaveta da mesa-de-cabeceira abrir-se e sentiu a superfcie 
fria e lisa da arma que a me comprara para se defender dos ladres. Ellen nunca se atreveria a us-la contra o marido, nem sequer a amea-lo por pior que ele a 
tratasse a si ou a Grace. Ellen amara-o verdadeiramente.
        Grace apertou a arma na mo e ergueu-a acima da cabea dele. Queria bater-lhe com ela, para o deter. Ele estava quase a acabar, mas Grace no podia permitir 
que ele voltasse a faz-lo. Tinha de o deter, fosse como fosse. No poderia continuar a viver assim. O que se estava a passar nessa noite mostrava-lhe o que seria 
a sua vida futura. Ele nunca a deixaria ir para a universidade, nem para parte alguma, e Grace sabia que, custasse o que custasse, tinha de o fazer parar. E enquanto 
ela empunhava a arma com a mo trmula, ele atingiu o climax com um grito que a fez tremer de dor, de angstia e repulsa. S de o ouvir, o seu dio por ele aumentou. 
E quando lhe apontou a arma, ele ergueu os olhos e viu-a.
        - Sua cabra! - gritou, ainda abalado pela fora do orgasmo. Nunca ningum o excitara tanto como Grace, como a sua prpria carne. Apetecia-lhe devor-la toda, 
movido por instintos primitivos. E agora sentia-se furioso por ela se atrever a desafi-lo. Estendeu a mo para lhe tirar a arma. Grace percebeu o que ele iria fazer. 
Ia bater-lhe e isso excit-lo-ia ainda mais. No podia deixar que isso sucedesse. Ele no voltaria a possu-la, tinha de se salvar, de fugir dele. John estava ainda 
dentro dela quando estendeu a mo para a arma e, tomada de pnico, apertou o gatilho. Quando a arma disparou, com um som que a aterrorizou, Grace estremeceu e ele 
pareceu assombrado: os olhos dele abriram-se desmedidamente e caiu sobre ela, quase a esmagando. Era demasiado pesado e ela mal podia respirar.
O sangue dele caa-lhe sobre os olhos e a boca. A bala atravessara-lhe a garganta e ele sangrava profusamente. Grace fez um esforo terrvel e conseguiu tir-lo 
de cima dela. John ficou estendido de costas, com os olhos abertos, imvel. Da boca saa-lhe um terrvel som gorgolejante.
        - Oh meu Deus... oh meu Deus... - murmurou Grace, ofegante, levando a mo  garganta e olhando-o, Tinha na boca o sabor do sangue dele e no queria olh-lo. 
Ele estava coberto de sangue, assim como a cama, e Grace s conseguia lembrar-se das palavras da me... "S boa para o papa, Grace... s boa para ele..." E fora. 
Dera-lhe um tiro. Os olhos dele moviam-se, mas ele parecia paralisado, continuava imvel. Grace recuou, aterrorizada e olhou para o pai. Quando o fez, vomitou para 
o cho. Quando conseguiu controlar um pouco o tremor que a agitava, foi ao telefone e chamou a Polcia.
        -Preciso... de uma ambulncia... ambulncia... o meu pai foi ferido com um tiro... eu dei-lhe um tiro... - Ofegava, com falta de ar, mas deu-lhes a morada 
e depois ficou a olhar para o pai. Ele no voltara a mexer-se desde que ficara estendido de costas sobre a cama e o seu rgo estava agora inerte. Aquilo que a aterrorizara, 
que a torturara durante tanto tempo, parecia-lhe subitamente pequeno e inofensivo, tal como o pai. O aspecto de John era aterrorizador e pattico. O sangue saa-lhe 
aos borbotes da garganta e de tempos a tempos gemia. Grace sabia que fizera uma coisa terrvel, mas no pudera evit-lo. A arma encontrava-se ainda na sua mo e 
continuava nua, a um canto, quando a Polcia chegou. E ofegava, com um ataque de asma.
        - Meu Deus! - exclamou o primeiro agente a entrar no quarto. Depois viu-a, tirou-lhe a arma da mo e os outros entraram atrs dele. O mais novo dos polcias 
embrulhou Grace numa manta, mas viu as escoriaes no seu corpo, o sangue por toda a parte e reparara na expresso do olhar dela. Parecia louca. Parecia ter estado 
no inferno e no ter ainda sado de l.
        John Adams ainda vivia quando a ambulncia chegou, mas a sua vida estava por um fio. Os paramdicos suspeitavam de que a bala tivesse atingido a medula espinal 
e tivesse perfurado um pulmo. No podia falar e estava completamente paralisado. Nem sequer podia ver Grace. Tinha os olhos fechados e estavam a aplicar-lhe oxignio. 
Mal respirava.
        - Vai salvar-se? - perguntou o polcia mais graduado aos enfermeiros, enquanto eles metiam o ferido na ambulncia.
        -  difcil de dizer - responderam, acrescentando em voz mais baixa: -  pouco provvel.
        A ambulncia partiu e o polcia abanou a cabea. Conhecia John Adams desde os seus tempos de escola. Fora ele quem lhe tratara do divrcio. Era uma excelente 
pessoa. Por que diabo teria a filha disparado sobre ele? Vira a cena que se lhe deparara ao chegar e notara que se encontravam ambos nus, mas isso no era concludente.
        Evidentemente tudo se passara depois de terem ido ambos para os respectivos quartos e provavelmente John dormia sem pijama. Por que motivo estaria a rapariga 
nua, era outra coisa. Era obviamente desequilibrada e talvez no tivesse suportado o desgosto. Talvez censurasse o pai pela morte da me. Fosse o que fosse, havia 
de ser descoberto na investigao.
        - Como est ela? - perguntou a um dos outros policias. Nessa altura encontravam-se ali uma dzia de agentes. Tratava-se do caso mais importante ocorrido 
em Watseka desde que o filho do sacerdote tomara LSD e se suicidara em seguida, dez anos antes. Isso fora uma tragdia, mas o que se passara ali ia ser um escndalo. 
Um homem como John Adams ser morto pela prpria filha, era um verdadeiro crime e uma perda para toda a cidade. Ningum iria acreditar. Estar drogada? - perguntou 
a um dos jovens polcias, enquanto o fotgrafo tirava fotografias ao quarto. A arma do crime fora j metida num saco de plstico e encontrava-se no carro.
        - No me parece. Pelo menos  primeira vista. Est  terrivelmente assustada e com uma crise de asma. Tem muita dificuldade em respirar.
        - Tenho muita pena - disse o polcia mais velho sarcasticamente olhando  sua volta para a sala bem arrumada. Estivera ali poucas horas antes, quando do 
funeral. Parecia-lhe impossvel estar ali agora por aquele motivo. Talvez a rapariga fosse mesmo louca. E acrescentou: - O pai dela est bem pior.
        - Que dizem eles? - perguntou o agente mais novo. - Vai salvar-se?
        - No me parece. A rapariga fez um belo trabalho. Atingiu-lhe a medula espinal e talvez um pulmo. E Deus sabe que mais, ou porqu?
        - Acha que ele estava a ter relaes com ela? - perguntou o policia mais novo, intrigado com a situao. Mas o outro mostrou-se ofendido.
        - O qu? Um homem como John Adams? Sabe quem ele ?  o mais competente advogado da cidade.  um tipo muito decente. Acha que um homem como ele seria capaz 
de ter relaes sexuais com a prpria filha? Voc  to louco como ela, se chegou a tal concluso.
        - No sei... deu-me essa impresso... estavam ambos nus... e ela parece to assustada... tem marcas e arranhes nos braos... e... - Hesitou, perante a reaco 
do seu superior, mas no podia ocultar provas. Provas eram provas. H manchas nos lenis que parecem... - Apesar do sangue havia outras manchas e o jovem polcia 
reparara nelas.
        - No quero saber do que parece, O'Byrne - insistiu. - H mais de uma maneira de essas manchas sujarem os lenis de um homem. O tipo ficou sem a mulher, 
sentiu-se s e talvez estivesse a... brincar consigo mesmo quando a filha apareceu com a pistola e... Talvez ela no soubesse o que ele estava a fazer e se tivesse 
assustado. Mas de modo algum posso acreditar que um tipo como John Adams tenha tido relaes com a prpria filha. Esquea isso.
        - Est bem.
        Os outros agentes estavam j a enrolar os lenis e a met-los em sacos de plstico, como provas, enquanto outro polcia interrogava Grace, no quarto dela. 
Estava sentada na cama, ainda embrulhada na manta que lhe tinham dado ao chegarem. Encontrara o inalador e respirava agora melhor, mas estava mortalmente plida 
e o agente que a interrogava duvidava se ela entendia as perguntas dele. Grace disse que no se recordava de encontrar a arma. S se lembrava de a ter na mo e de 
ela se ter disparado. Recordava-se do rudo e do sangue do pai a cair sobre ela. No recordava mais nada.
        - Como  que ele sangrou sobre si? Onde  que se encontrava? - O agente ficara com a mesma impresso que O'Byrne, embora fosse difcil pensar isso de John 
Adams.
        - No me lembro - disse Grace tremulamente. Parecia um autmato e a sua respirao era entrecortada e difcil.
        - Recorda-se de onde estava quando disparou sobre o seu pai?
        - No sei. - Olhou-o como se no o visse e acrescentou, mentindo: - Estava  entrada da porta. - Sabia o que tinha a fazer. Devia isso  me. Tinha de proteger 
o pai.
        - Estava  porta do quarto quando disparou? - Era impossvel e assim no chegariam a concluso nenhuma. - Acha que outra pessoa poderia ter disparado sobre 
o seu pai? - Imaginava se seria isso que ela pretendia dizer. Um intruso. Mas isso era ainda menos crvel do que ela ter disparado da porta.
        - No. Fui eu quem disparou. Da porta.
        O agente tinha a certeza de que a arma fora disparada  queima-roupa por uma pessoa que se encontrava em frente dele, obviamente a filha. Mas onde estavam 
eles?
        - Estava na cama com ele? - perguntou. Grace no respondeu. Olhou fixamente em frente, como se ele no estivesse ali e soltou um leve suspiro - Estava na 
cama com ele? - repetiu. Grace hesitou um bocado antes de responder:
        - No sei. No tenho a certeza.
        - Como esto as coisas por aqui? - perguntou o agente mais graduado, espreitando pela porta. Eram agora trs horas e j tinham feito tudo o que era necessrio 
na cena do crime.
        O agente que interrogava Grace encolheu os ombros, desanimado. As coisas no iam bem. A rapariga tremia violentamente e o que ela dizia no fazia muito sentido. 
Parecia to atordoada que ele chegava a pensar se ela saberia o que se passara.
        - Vamos lev-la, Grace. Vai ficar detida uns dias. Precisamos de falar mais consigo sobre o que sucedeu. - Ficou calada, mas disse que sim com a cabea, 
continuando sentada, toda suja de sangue e embrulhada na manta. - Talvez seja melhor lavar-se e vestir-se. - Grace disse que sim, mas continuou quieta. - Vamos lev-la, 
Grace. Para ser interrogada - explicou de novo, pensando se ela seria realmente louca. John nunca dissera isso, mas tambm no era coisa que o pai dissesse aos seus 
clientes.
        - Vamos det-la durante setenta e duas horas, enquanto se fazem as investigaes. - Teria sido premeditado? Teria ela querido mat-lo? Teria sido um acidente? 
Que se teria passado? Queria saber tambm se ela estaria drogada e precisava de anlises.
        Grace no perguntou coisa alguma. E tambm no se vestiu. Parecia completamente desorientada, e foi isso que fez com que o agente encarregado do caso pensasse 
que ela era louca. Acabaram por chamar uma mulher-polcia para os ajudar, e ela vestiu Grace como se se tratasse de uma criana, reparando entretanto nas diversas 
escoriaes e ndoas negras que ela tinha no corpo. Disse-lhe para se lavar e Grace obedeceu prontamente. Fazia o que lhe diziam, mas no dava qualquer esclarecimento.
        - Lutou com o seu pai? - perguntou-lhe a mulher-policia, enquanto a ajudava a vestir as velhas calas de ganga. Grace tremia tanto como se tivesse estado 
nua no rctico, mas no respondeu. - Estava zangada com ele? - Silncio.
        Grace no se mostrava hostil nem colaborava. Parecia estar em transe quando passaram com ela pela sala e nunca perguntou pelo pai. Parou apenas um instante, 
na sala, junto de uma fotografia com uma moldura de prata. Era uma fotografia da me e Grace estava junto dela. Devia ter nessa altura uns dois ou trs anos e ambas 
sorriam. Grace ficou a olh-la durante muito tempo, lembrando-se de como a me era bonita e como desejava tudo para Grace. Desejara demasiado. Queria dizer-lhe agora 
que lamentava o sucedido, mas no podia. No obedecera  me. No tomara conta do pai. No podia mais. E agora ele fora-se embora. No conseguia lembrar-se para 
onde, mas fora-se embora. E ela j no ia tomar conta dele.
        - Ela no est realmente bem - disse a mulher-polcia junto dela, enquanto Grace olhava para a fotografia. Queria recordar-se dela. Tinha a sensao de que 
no voltaria a v-la, mas no sabia porqu. S sabia que iam sair. - Vai chamar um psiquiatra?
        - Sim, creio que sim - respondeu o agente encarregado do caso. Pensava agora, mais do que nunca, que a rapariga era atrasada mental. Ou talvez fosse apenas 
fingimento. Era dificil dizer. S Deus sabia o que realmente se passara ali.
        Quando Grace saiu de casa para o ar frio da noite, o relvado estava cheio de agentes. Havia sete carros da Polcia estacionados junto do porto, mas a maior 
parte deles tinha ido apenas ver o que se passara. Faiscavam luzes e havia homens uniformizados por todos os lados. O jovem polcia chamado O'Byrne ajudou Grace 
a entrar num dos carros. A mulher-polcia sentou-se ao lado dela. No se mostrava especialmente simptica com ela. Vira raparigas como ela, drogadas, ou fingindo 
s-lo, que pretendiam mostrar-se perturbadas para no serem responsabilizadas por aquilo que tinham feito. Vira uma rapariga de quinze anos que matara a familia 
toda e dissera depois que ouvira vozes na televiso a dizerem-lhe para o fazer. Na sua opinio, Grace estava a fazer-se passar por louca. No entanto, sabia que tambm 
podia dar-se o caso de Grace no estar a representar e encontrar-se verdadeiramente perturbada, embora no estando louca. De qualquer modo, no era  Polcia que 
competia ajuizar da sanidade mental da rapariga. O psiquiatra encarregar-se-ia disso.
        O percurso at  esquadra foi rpido, principalmente quela hora da noite, mas Grace parecia pior do que nunca quando l chegou. As luzes fluorescentes faziam 
com que a cor dela parecesse verde, quando a deixaram numa pequena cela onde pouco depois um corpulento polcia se lhe dirigiu:
        - Chama-se Grace Adams? - perguntou laconicamente, e a jovem limitou-se a dizer que sim com a cabea. Parecia-lhe que ia desmaiar ou vomitar outra vez. Talvez 
morresse. E isso seria bom. A vida dela era um pesadelo. - Sim, ou no? - berrou ele.
        - Sou, sim.
        - O seu pai acabou de morrer no hospital. Est presa por homicdio. - Leu-lhe os seus direitos, ps uns papis nas mos de uma mulher-polcia que entrara 
com ele e saiu sem mais uma palavra, fechando ruidosamente a porta de metal da cela. Houve um momento de silncio e depois a mulher-polcia mandou-a tirar a roupa 
toda. Grace tinha a sensao de estar a ver um mau filme.
        - Porqu? - perguntou com voz rouca.
        - Vou revist-la - disse a outra, enquanto Grace comeava a despir-se com mos trmulas. Todo o processo foi profundamente humilhante. Por fim apareceu outra 
mulher-polcia para lhe tirar as impresses digitais.
        - Foi vtima de violncia sexual - disse friamente uma das mulheres-polcias, dando-lhe um papel para limpar os dedos. - Que idade tem? - perguntou, enquanto 
Grace a olhava, tentando compreender o que lhe sucedia. Matara-o. Ele estava morto. Acabara-se.
        - Pouca sorte para si. Pode ser julgada por homicdio como adulta. Isso sucede no Ilinis a quem tem mais de treze anos. Se a considerarem culpada, apanha 
pelo menos uns catorze ou quinze anos. Tambm est sujeita  pena de morte.
        Nada parecia real a Grace enquanto as suas mos eram algemadas atrs das costas e a conduziam para fora da cela. Cinco minutos depois, encontrava-se numa 
cela maior com quatro outras mulheres. A havia uma retrete aberta, que cheirava a urina e a fezes. A cela era suja e todas as mulheres que ali estavam se encontravam 
deitadas sobre colches sujos e se tapavam com mantas. Duas das mulheres estavam acordadas mas ningum falava. Tiraram as algemas a Grace, deram-lhe uma manta e 
ela foi sentar-se no nico catre desocupado da pequena cela.
        Grace olhou  sua volta com incredulidade. Tinha chegado quilo. Mas no tivera outra sada. No podia suportar mais. Tivera de o fazer... no planeara faz-lo, 
nada premeditara... mas agora que o fizera nem sequer o lamentava. Era a vida dela ou dele. No se teria importado de ser ela a morrer, mas as coisas haviam sucedido 
assim, sem qualquer inteno ou plano. No tivera alternativa. Matara-o.

CAPTULO 2

        Grace ficou estendida sobre o delgado colcho durante o resto da noite, mal sentindo nas costas as molas metlicas da cama. No sentia coisa alguma. J no 
tremia. Estava apenas ali estendida. A pensar. J no tinha familia. Ningum. Nem pais nem amigos. Pensava no que lhe iria suceder se fosse considerada culpada de 
homicdio. Seria condenada  morte? No podia esquecer o que o polcia lhe dissera. Estava a ser acusada como adulta e a acusao era de homicdio. Talvez a pena 
de morte fosse o preo que tinha de pagar. E se fosse, pag-lo-ia. Pelo menos ele nunca mais lhe tocaria, nunca mais lhe faria mal. Os quatro anos de inferno s 
mos dele tinham acabado.
        - Grace Adams? - Passava pouco das 7 horas quando uma voz chamou por ela. Grace encontrava-se ali h trs horas e no dormira, mas no se sentia to atordoada 
como estivera na noite anterior. Sabia o que estava a suceder. Recordava-se de ter disparado sobre o pai. Sabia que ele tinha morrido e porqu. E no o lamentava.
        Grace foi levada para uma pequena sala com pesadas portas trancadas nas duas extremidades. Mandaram-na entrar para l sem qualquer explicao. Havia ali 
uma mesa, quatro cadeiras e por cima da mesa brilhava uma luz forte. Grace ficou parada, imvel, e alguns minutos depois a outra porta abriu-se e entrou uma mulher 
alta e loura. Olhou friamente para Grace e ficou assim uns momentos. No sorriu nem disse coisa alguma. Limitou-se a observar Grace durante longos momentos. E Grace 
tambm nada disse. Ficou de p na outra extremidade da sala, parecendo uma jovem cora assustada e prestes a saltar dali para fora. Mas no o podia fazer. Estava 
presa. Grace estava calada, mas assustada. E apesar da maneira de vestir, e do seu aspecto desalinhado, havia nela uma calma dignidade. Dava a sensao de ter sofrido 
muito e de ter percorrido um longo caminho para se libertar, sentindo que valia a pena pagar um alto preo pela sua libertao. No havia clera nela, apenas um 
sofrimento prolongado. Na sua curta vida, Grace vira muita coisa, vida, morte e traio, e isso transparecia nos seus olhos. Molly York percebeu isso no instante 
em que olhou para Grace, e sentiu-se comovida pela dor profunda que via estampada no rosto da rapariga.
        - Sou Molly York - apresentou-se. - Sou psiquiatra. Sabe porque me encontro aqui?
        Grace abanou a cabea e permaneceu no mesmo stio. As duas mulheres encontravam-se de p nas extremidades opostas da sala.
        - Lembra-se do que sucedeu a noite passada?
        Grace disse que sim com a cabea, lentamente.
        - Porque no se senta? - A psiquiatra apontou para uma cadeira e ambas se sentaram, em frente uma da outra. Grace no tinha a certeza se a mulher mostrava 
simpatia por ela ou no, mas percebia claramente que no era sua amiga e que obviamente estava ali como parte da investigao criminal, o que significava que era 
potencialmente algum que poderia fazer-lhe mal. Mas no lhe iria mentir. Responderia com verdade s perguntas que ela lhe faria, desde que no quisesse saber muita 
coisa a respeito do pai. Ningum tinha nada com isso. Era obrigao dela no contar a ningum o que se passara, no os embaraar. Que diferena fazia isso agora? 
Ele desaparecera. Nunca lhe passou pela cabea, nem por um instante sequer, pedir um advogado para tentar salvar-se. Isso no lhe importava.
        - De que  que se recorda sobre a noite passada? - perguntou devagar a psiquiatra, observando-a atentamente.
        - Disparei sobre o meu pai.
        - Lembra-se porqu?
        Grace hesitou antes de responder e acabou por ficar calada.
        - Estava zangada com ele? J tinha pensado em mat-lo?
        Grace abanou rapidamente a cabea.
        - Nunca pensei em disparar sobre ele. A arma apareceu na minha mo nem sei como. A minha me guardava-a na gaveta da mesa-de-cabeceira. Ela estava doente 
h muito tempo e tinha medo quando estava sozinha em casa. Mas nunca a utilizou. - Explicava essas coisas  psiquiatra, denotando juventude e inocncia, mas no 
lhe parecia nem louca nem atrasada, como a Polcia sugerira. Tambm no lhe parecia perigosa. A mdica achava-a bem-educada e delicada, mostrando muito controle, 
apesar de ter passado por uma experincia to traumtica e de no ter dormido toda a noite.
        - O seu pai  que segurava a arma? Lutaram por causa dela? Tentou tirar-lha?
        - No. Eu  que empunhava a arma. Lembro-me de a sentir na minha mo. E... - No queria dizer que o pai lhe tinha batido. - E disparei sobre ele - concluiu, 
de olhos baixos.
        - Sabe porqu? Estava zangada com ele? Ele fez alguma coisa que a encolerizou? Lutaram?
        - No... bem... mais ou menos... Era uma luta... era uma luta pela sobrevivncia... Eu... No tem importncia.
        - Deve ter sido muito importante - replicou a psiquiatra. - Suficientemente importante para disparar sobre ele. Bastante importante para o matar, Grace. 
Diga-me uma coisa: j alguma vez tinha disparado uma arma?
        Grace abanou a cabea, parecendo triste e cansada. Talvez devesse ter feito aquilo anos antes, mas nessa altura a me ficaria com o corao despedaado  
sua pobre, triste maneira, ela amava-o muito.
        - No, nunca tinha disparado uma arma.
        - Ento porque o fez a noite passada?
        - A minha me morreu h dois dias... h trs dias, creio. O funeral foi ontem. - Era bvio que Grace estava exausta. Que motivo a levara a discutir com o 
pai? Molly York sentia-se intrigada com a jovem. Sabia que ela lhe ocultava qualquer coisa, mas no sabia o qu. No tinha a certeza se era algo prejudicial para 
ela, ou para o pai. No lhe incumbia a ela descobrir se a rapariga era culpada ou inocente, mas sim determinar se era mentalmente s ou no, e se sabia o que fazia. 
Mas que teria ela feito? E que teria ele feito para a filha disparar?
        - Discutiram por causa da sua me? Ela deixou-lhe algum dinheiro ou qualquer coisa que quisesse?
        Grace sorriu da pergunta, parecendo demasiado sensata para a sua pouca idade. No era de modo algum atrasada.
        - No creio que ela tivesse fosse o que fosse para deixar a algum. Nunca trabalhou e nunca teve coisa alguma. O meu pai  que ganhava todo o nosso dinheiro. 
Ele  advogado... ou era... - disse calmamente.
        - Vai deixar-lhe alguma coisa?
        - No sei... talvez... creio que sim... - Grace no sabia ainda que quando uma pessoa comete um crime no pode herdar da sua vtima. Se fosse considerada 
culpada, no herdaria coisa alguma do pai. Mas nunca fora esse o seu motivo.
        - Ento porque lutaram? - Molly York era persistente e Grace no confiava nela. Percebia que ela no desistia e que havia nela uma expresso de inteligncia 
que a preocupava. Ela via muito, compreendia muito. E no tinha o direito de saber. Ningum tinha nada a ver com o que o pai lhe fizera durante anos. Grace no queria 
que ningum soubesse, mesmo que isso a pudesse salvar. No queria que a cidade inteira ficasse a saber o que o pai lhe fizera. Que pensariam ento deles, da me 
dela? Nem queria pensar nisso.
        - No discutimos.
        - Discutiram, sim - disse calmamente a psiquiatra. Tm de o ter feito. No pode ter entrado no quarto e disparado sobre ele... ou f-lo? - Grace abanou a 
cabea em resposta. - Disparou sobre ele a menos de quatro centmetros de distncia. Em que estava a pensar quando disparou?
        - No sei. No estava a pensar em nada. Tentava apenas... eu... no interessa.
        - Sim, interessa - Molly York inclinou-se para ela, sobre a mesa e falou com ar grave: - Grace est a ser acusada de homicdio. Se ele lhe fez alguma coisa, 
ou a magoou de qualquer maneira,  um caso de autodefesa ou de homicdio involuntrio, no assassnio. Embora ache que est a trair algum ou alguma coisa se me 
disser, deve faz-lo.
        - Porqu? Porque hei-de contar seja o que for a algum? - Parecia uma criana a dizer aquilo, mas era uma criana que matara o pai.
        - Porque se no disser a ningum, Grace, poder ficar muitos anos na priso e isso  errado se quis apenas defender-se. Que lhe fez ele, Grace, para que 
tenha disparado sobre ele?
        - No sei. Talvez eu estivesse perturbada por causa da minha me. - Grace disse essas palavras sem a olhar, agitando-se na cadeira.
        -  Ele violou-a? - Os olhos de Grace abriram-se muito ao ouvir a pergunta. E a sua respirao estava um pouco ofegante ao responder:
        - No, nunca.
        - Alguma vez teve relaes consigo? Alguma vez teve relaes sexuais com o seu pai? - Grace pareceu horrorizada. A psiquiatra estava perto, demasiado perto. 
Detestava aquela mulher. Que queria ela? Tornar tudo pior? Arranjar mais sarilhos? Desgra-los todos? Ningum tinha nada com isso.
        - No. Claro que no! - quase gritou, mas mostrou-se muito nervosa.
        - Tem a certeza? - As duas mulheres fitaram-se. Por fim, Grace abanou a cabea.
        - No. Nunca.
        - Estava a ter relaes com ele a noite passada, quando disparou sobre ele? - Olhou atentamente para Grace e a rapariga abanou novamente a cabea, mas parecia 
agitada e Molly reparou nisso.
        - Porque me faz essas perguntas? - perguntou com ar infeliz. Molly ouvia a sua respirao asmtica enquanto ela respondia.
        - Porque quero saber a verdade. Quero saber se ele a magoou, se teve algum motivo para disparar. - Grace apenas abanou a cabea. - Voc e o seu pai eram 
amantes, Grace? Gostava de dormir com ele? - Mas dessa vez, quando voltou a erguer os olhos para Molly, para responder, esta viu que a jovem estava a ser completamente 
sincera.
        - No. - Detestava, mas no podia dizer isso a Molly.
        - Tem namorado? Alguma vez teve relaes com um rapaz?
        Grace suspirou, sabendo que nunca o teria. Como poderia?
        - No.
        -  virgem? - Silncio. - Perguntei-lhe se era virgem. - A mdica estava a pression-la outra vez e Grace no gostava disso.
        -  No sei. Acho que sim.
        - Que significa isso? Tem brincado?
        - Talvez. - Parecia outra vez muito nova e Molly sorriu. Ela no podia ter perdido a virgindade acariciando-se.
        - Alguma vez teve um namorado? Com dezessete anos j deve ter tido. - Sorriu outra vez, mas Grace limitou-se a abanar a cabea.
        - H alguma coisa que me queira dizer acerca da noite passada, Grace? Lembra-se de como se sentia antes de disparar? Porque o fez?
        - No sei - repetiu Grace obstinadamente.
        Molly York sabia que Grace no estava a ser sincera com ela. Por mais abalada que se encontrasse na altura em que disparara, agora estava bem desperta e 
decidida a no contar o que se passara. A mdica alta e bonita olhou durante muito tempo para Grace, depois fechou lentamente a sua agenda e cruzou as pernas.
        - Gostava que fosse sincera comigo, Grace. Eu posso ajud-la.  verdade. - Se percebesse que Grace se defendera, ou que tinha havido circunstncias atenuantes, 
seria muito mais fcil para a rapariga, mas ela no lhe dava qualquer possibilidade de a poder ajudar. E o que era engraado  que, apesar das circunstncias e de 
Grace no cooperar, Molly simpatizava com ela. Grace era uma bonita rapariga, com grandes olhos de expresso franca. Molly percebia neles uma dor profunda e queria 
ajud-la, mas no sabia como, l chegaria. Mas de momento a nica preocupao de Grace era ocultar o seu segredo e por isso fechava-se completamente.
        - Contei-lhe tudo de que me lembro.
        - No, no contou - disse calmamente Molly. - Mas talvez mais tarde o faa. - Entregou-lhe o seu carto. - Se quiser falar comigo telefone-me. De qualquer 
modo, voltarei aqui para falar consigo. Vamos ter de passar algum tempo juntas para eu poder fazer o meu relatrio.
        - Acerca de qu? - Grace parecia perplexa. A Dra. York preocupava-a. Era demasiado esperta e fazia muitas perguntas.
        - A respeito do seu estado de esprito. Acerca das circunstncias em que disparou, tal como eu as entendo. No me est a dar muitas possibilidades de trabalho, 
de momento.
        - Mas j lhe disse tudo. Senti a arma na minha mo e disparei.
        -  Assim mesmo? - Molly no acreditava nela nem por um minuto.
        - Assim mesmo. - Grace parecia querer convencer-se a si prpria do que dizia, mas no conseguia enganar Molly.
        - No acredito, Grace - retorquiu a mdica, fitando-a.
        - Bem, foi o que se passou, quer acredite ou no.
        - E agora? Que sente por ter perdido o seu pai? - Em trs dias perdera a me e o pai, ficando rf. Isso era um rude golpe para quem quer que fosse, especialmente 
tendo morto um deles.
        - Eu... estou triste pelo meu pai... e pela minha me. Mas ela estava to doente, sofria tanto que talvez tenha sido melhor para ela.
        E Grace? Que sofrimento fora o dela? Era essa a questo que roa Molly. No se tratava de uma garota m que de repente quisera matar o pai. Grace era uma 
rapariga esperta, inteligente e estava a fazer tudo para fingir que no fazia ideia do motivo que a levara a disparar sobre o pai. Custava-lhe tanto ouvi-la repetir 
as mesmas palavras constantemente que lhe apetecia bater na mesa.
        - E o seu pai? Tambm  melhor assim para ele?
        - O meu pai? - Grace ficou surpreendida com a pergunta. - No... ele no sofria... acho que no  melhor para ele - disse a jovem, sem olhar para Molly. 
Ocultava qualquer coisa e a mdica sabia-o.
        - E quanto a si? Tambm  melhor para si assim? Prefere estar sozinha?
        - Talvez. - Foi novamente sincera, por momentos.
        - Porqu? Porque acha melhor estar sozinha?
        -  mais simples. - Sentia-se como se tivesse mil anos, ao dizer isso, e parecia t-los.
        - No creio. O mundo  complicado. No  fcil estar s. Especialmente para uma rapariga de dezessete anos. As coisas deviam ser bem difceis em sua casa, 
para achar prefervel estar s. Como se passavam as coisas?
        - Bem.
        - Os seus pais davam-se bem? Antes de a sua me adoecer, claro.
        - Davam.
        Molly no acreditou nela, mas no disse.
        - Eram felizes?
        - Claro. - Desde que ela tratasse do pai da maneira como a me queria.
        - E a Grace, era?
        - Com certeza. - Mas contra a sua vontade, as lgrimas vieram-lhe aos olhos. A psiquiatra estava a fazer-lhe muitas perguntas dolorosas. - Era feliz. Gostava 
dos meus pais.
        - O suficiente para mentir por causa deles? Para os proteger? O suficiente para no dizer a ningum por que motivo matou o seu pai?
        - No h nada a dizer.
        - Est bem. - Molly levantou-se e aproximou-se dela. - A propsito, hoje vo mand-la ao hospital.
        - Para qu? - Grace mostrou-se de repente aterrorizada, o que interessou imediatamente Molly.
        -  s para a examinar, para ver se  saudvel. Nada de importante.
        - No quero fazer isso. - Grace parecia assustada e Molly observava-a com interesse.
        - Porqu?
        - Sou obrigada a ir?
        -  Claro que . Est metida em sarilhos, Grace. Quem manda so as autoridades. J pediu um advogado?
        Grace olhou-a, parecendo no compreender. Algum lhe dissera que podia solicitar um advogado, mas ela no conhecia nenhum, a no ser Frank Wills, o scio 
do pai, mas nem sequer sabia se o quereria fazer. Que havia de lhe dizer? Era prefervel no o chamar.
        - No tenho advogado.
        - O seu pai no tinha um scio?
        - Sim, mas...  embaraoso cham-lo... ao scio dele.
        - Acho que o deve fazer, Grace - disse firmemente a mdica. - Precisa de um advogado. Pode ter um defensor oficioso, mas ficar melhor com algum que a conhea. 
Era um bom conselho.
        - Est bem. - Disse que sim com a cabea, sentindo-se atordoada. Era tudo to complicado. Porque no se limitavam a dar-lhe um tiro, ou a enforc-la, ou 
faziam o que tinham a fazer, sem a forarem a falar, ou a ir ao hospital. Sentia-se aterrorizada com o que eles poderiam descobrir ali.
        - At logo, ou at amanh - disse afectuosamente Molly. Gostava da rapariga e tinha pena dela. Passara por muito e embora o que ela fizera no fosse certo, 
estava convencida de que algo de terrvel a levara a disparar sobre o pai. E tencionava fazer tudo para descobrir o que realmente sucedera.
        Deixou Grace na cela e foi falar com Stan Dooley, o detective encarregado da investigao. Era um veterano e havia muito poucas coisas que o pudessem surpreender, 
embora aquilo o tivesse feito. Encontrara vrias vezes John Adams no decorrer dos anos e no podia imaginar uma pessoa mais simptica. Ao saber que fora morto a 
tiro pela sua prpria filha ficara assombrado.
        - A rapariga  doida ou drogada? - perguntou Dooley a Molly, quando a viu aparecer no seu gabinete s oito dessa manh. A psiquiatra passara uma hora com 
Grace e no chegara ainda a nenhuma concluso. A jovem estava decidida a no se abrir com ela. Mas havia certas coisas que queria saber e que podia descobrir mesmo 
contra a vontade de Grace.
        - Nem uma coisa nem outra. Est assustada e muito abalada, mas lcida. Muito, mesmo. Quero que a levem hoje ao hospital para ser examinada. Com efeito, quero 
que a levem j.
        - Para qu? Para ver se tomou droga?
        - Se quiserem, mas no creio que seja esse o caso. Quero um exame plvico.
        - Porqu? - Dooley pareceu surpreendido. - Que procura saber? - Conhecia bem a dra. York e sabia que se tratava de uma pessoa sensata, embora algumas vezes 
fosse obstinada quando se tratava dos seus doentes.
        - Quero saber se ela se estava a defender do pai. No  normal uma rapariga de dezessete anos dar um tiro no pai. Pelo menos se pertencem a famlias como 
a dela.
        - Isso  um disparate e voc sabe-o bem, York - respondeu cinicamente o detective. - E a rapariga de catorze anos que matou a familia toda, incluindo a av 
e quatro irmos mais novos? No me diga que tambm se estava a defender.
        - Isso foi diferente, Stan. Eu li os relatrios. John Adams estava nu e ela tambm e havia esperma nos lenis. No pode negar que  uma possibilidade.
        - Sim, posso. Com um homem como John Adams, posso. Era a pessoa mais recta que alguma vez conheci. Havia de gostar dele. - Deitou-lhe um olhar irnico, que 
ela ignorou. Dooley gostava de gracejar com ela. Era uma mulher bastante bonita, oriunda de uma familia de Chicago. Ele gostava de a acusar de gostar de "namorar", 
mas a verdade  que a dra. York no era mulher que brincasse quando estava a trabalhar e ele sabia que ela tinha uma relao regular com um mdico. Mas no havia 
mal em gracejar um pouco. Molly York mostrava-se sempre bem-humorada e era agradvel trabalhar com ela. Dooley respeitava-a por isso. - Digo-lhe e repito-lhe, doutora, 
que John Adams no era pessoa para ter relaes com a filha. Talvez no momento em que ela disparou ele tivesse ejaculado. Quem sabe?
        - No foi por isso que ela o matou - disse friamente Molly.
        - Talvez ele lhe tenha dito que no lhe dava as chaves do carro. Os meus filhos ficam furiosos quando eu lhes digo isso. Talvez ele no gostasse do namorado 
dela. Confie no que eu lhe digo. Ela no o matou em defesa prpria, f-lo friamente.
        - Veremos, Stan, veremos. Agora peo-lhe o favor de a mandar ao hospital para ser observada. Eu vou j passar a ordem necessria.
        - Voc  terrvel. Ns levamo-la l. Est satisfeita?
        - Encantada. Voc  ptimo.
        - Diga isso ao chefe - disse ele, sorrindo. A mdica era simptica, esperta, mas ele no acreditava na teoria da autodefesa. Ela tentava salvar a rapariga, 
mas John Adams no era homem para fazer o que ela achava que fizera. Ningum em Watseka teria acreditado nisso, pensasse Molly o que pensasse, ou o que quer que 
fosse que lhe dissessem no hospital.
        Meia hora mais tarde, duas mulheres-polcias foram buscar Grace  cela, algemaram-na outra vez e meteram-na numa carrinha com grades nas janelas para a conduzirem 
ao hospital. Nem sequer falaram com ela. Limitaram-se a conversar uma com a outra a respeito das prisioneiras que tinham transferido na vspera e do filme que iam 
ver nessa noite, e das frias que uma delas se preparava para gozar no Colorado. E Grace ficou satisfeita com isso. No lhe agradava ter de responder s perguntas 
delas. Agora estava preocupada com o que lhe iriam fazer no hospital. Levaram-na directamente do elevador existente na garagem para uma sala fechada, onde lhe tiraram 
as algemas e a deixaram com um mdico e uma enfermeira. Esta voltou-se para Grace e disse-lhe rudemente que  mais pequena coisa seria novamente algemada e chamaria 
a guarda.
        - Percebeu? - perguntou severamente a enfermeira. E Grace disse que sim com a cabea.
        Sem nada explicarem a Grace, comearam ento a fazer-lhe os exames e anlises que a dra. York pedira. Mediram-lhe a temperatura, a tenso arterial, examinaram-lhe 
os olhos, os ouvidos e a garganta e em seguida auscultaram-na.
        Seguidamente, fizeram uma anlise  urina e vrias anlises ao sangue, para ver se lhe encontravam qualquer doena ou sinais de drogas. Depois disseram-lhe 
que se despisse e quando a jovem ficou nua em frente deles comearam a examinar as ndoas negras e escoriaes que ela tinha espalhadas pelo corpo. Isso despertou 
o interesse deles. Tinha duas ndoas negras nos seios, vrias nos braos, uma nas ndegas e outra na parte de dentro da coxa, bastante acima, o que os surpreendeu. 
Tiraram fotografias de todas, apesar dos protestos dela, e escreveram extensivamente. Grace chorava e protestava contra tudo o que eles faziam.
        - Porque fazem isto? Se j confessei que o matei, para que fazem isto? - Tinham-lhe tirado vrias fotografias  zona da pubis, onde havia duas leses escondidas 
e algumas ndoas negras, e disseram-lhe que se ela no cooperasse a amarrariam. Era uma situao terrivelmente humilhante, mas Grace nada podia fazer para os deter.
        Depois, quando pousaram a mquina fotogrfica, o mdico disse-lhe para se estender na marquesa. At ento ele mal tinha falado. Todas as indicaes eram 
dadas pela enfermeira, uma mulher muito desagradvel. Ambos a ignoravam completamente e falavam das vrias partes do corpo dela como se se tratasse de um animal 
a ser esquartejado num talho e no um ser humano.
        O mdico estava agora a calar luvas de borracha e a cobrir os dedos com uma geleia esterilizada. Disse a Grace para se deitar e deu-lhe uma toalha de papel 
para se cobrir. Ela aceitou-a com gratido mas no se estendeu na marquesa.
        - Que vai fazer? - perguntou, horrorizada.
        - Nunca fez um exame plvico? - O mdico pareceu surpreendido. Afinal ela tinha dezessete anos, era bonita e achava difcil acreditar que fosse virgem. Mas 
se o era, ele sab-lo-ia da a um minuto.
        -No... eu... - A me comprara-lhe as pilulas contraceptivas quatro anos antes e ela nunca fora ao mdico para um exame. Ningum sabia se ela era ou no 
virgem e Grace no compreendia que diferena poderia isso fazer agora. O pai morrera e ela confessara ter disparado sobre ele. Para qu faz-la passar por aquilo? 
Que direito tinham eles de o fazer? Sentia-se como um animal encurralado e comeou a chorar outra vez, agarrada  toalha de papel, at que a enfermeira ameaou amarr-la. 
Grace no teve outro remdio seno fazer o que lhe diziam. Estendeu-se na marquesa, meteu Os ps nos estribos metlicos, apertando os joelhos trmulos um contra 
o outro. A verdade  que das coisas terrveis que lhe tinham sucedido at agora, aquela no era das piores. Reparou que o mdico punha qualquer coisa numa lmina 
de vidro que em seguida colocou cuidadosamente em cima de uma mesa. Tinha inserido um instrumento de metal dentro dela e examinava-a por dentro com a ajuda da luz 
de uma lanterna. Mas nada disse a Grace a respeito do que descobrira.
        - Pronto - disse com indiferena. - Pode vestir-se.
        - Obrigada. - Respondeu Grace com voz rouca. No fazia ideia do que eles tinham visto ou escrito, e o mdico no fizera qualquer comentrio sobre o facto 
de ela ser ou no virgem, e ela era ainda suficientemente ingnua para no ter a certeza de se ele poderia descobrir isso ou no.
        Cinco minutos depois, Grace estava vestida e dessa vez foi conduzida por dois polcias at  sua cela na esquadra, onde ficou com outras mulheres at depois 
do jantar. Duas das mulheres tinham pago a fiana e tinham sado. Estavam ali por prostituio e trfico de drogas e o chulo delas fora busc-las. Uma tomara parte 
no roubo de um carro e a outra por se encontrar de posse de uma grande quantidade de cocana. Grace era a nica acusada de homicdio e as outras no se aproximavam 
dela, como se percebessem que ela no queria ser incomodada.
        Grace acabara de comer um hambrguer seco e duro, colocado sobre uma camada de espinafres ensopados, enquanto tentava ignorar o odor ftido a urina, quando 
apareceu um guarda que abriu a porta, apontou para ela e a conduziu para a mesma sala onde estivera com a dra. York nessa manh.
        A jovem mdica encontrava-se de novo ali, ainda de calas de ganga, depois de um longo dia de trabalho no hospital. Tinham passado bem doze horas.
        - Ol - disse cautelosamente Grace. Era agradvel ver um rosto familiar, mas continuava com a sensao de que a psiquiatra representava um perigo.
        -Como passou o dia? - Grace encolheu os ombros com um leve sorriso. Como havia de ter sido? - Telefonou para o scio do seu pai?
        - Ainda no. No sei bem o que lhe hei-de dizer. Ele e o meu pai eram verdadeiramente bons amigos.
        - Acha que ele no a querer ajudar?
        - No sei. - Mas achava que no.
        Molly olhou atentamente para ela ao fazer a segunda pergunta:
        - Tem alguns amigos, Grace? Algum para quem se possa voltar? - Mesmo antes de Grace falar, ela suspeitava de que no tinha. Se tivesse, talvez nada daquilo 
tivesse acontecido. Molly sabia, mesmo sem perguntar, que Grace era uma rapariga isolada. No havia mais ningum na sua vida a no ser os pais. E eles tinham feito 
o bastante para a arruinar, ou pelo menos o pai fizera. Era disso que suspeitava. - Os seus pais tinham alguns amigos com quem se dessem?
        - No - respondeu pensativamente Grace. Na verdade, eles no tinham amigos ntimos. No queriam que algum pudesse descobrir o seu negro segredo. - O meu 
pai conhecia toda a gente... e a minha me era um bocado tmida... - E nunca quisera que soubessem que o marido lhe batia. - Toda a gente gostava do meu pai, mas 
ele no era muito ntimo de ningum. - Isso bastava para que Molly suspeitasse dele.
        - E quanto a si? Tinha amigas na escola? - Grace limitou-se a abanar a cabea. - Porqu?
        - No sei. Falta de tempo, talvez. Tinha sempre pressa de ir para casa tratar da minha me - respondeu Grace sem a olhar.
        - Era por isso, ou seria por ter um segredo?
        - Claro que no.
        Mas Molly no a deixava.
        - Ele violou-a, no foi? - Ao ouvir aquelas palavras, os olhos de Grace abriram-se muito e ela fitou a mdica, desejando que ela no reparasse no seu tremor.
        - No, claro que no... - Mas ficou com a voz presa, assustada e prestes a sofrer um ataque de asma. Aquela mulher sabia j muita coisa sem ela lho dizer. 
- Como pode dizer tal coisa? - Tentou mostrar-se chocada, mas estava apenas aterrorizada. E se ela soubesse? Toda a gente ficaria a conhecer o seu horrvel segredo. 
Mesmo depois da morte dos pais, Grace continuava a sentir obrigao de ocultar o que se passara com eles. Ela tambm era culpada. Que pensariam as pessoas a respeito 
dela, se soubessem?
        - Tem ferimentos por toda a vagina - disse calmamente Molly. - Isso no acontece com relaes sexuais normais. O mdico que a examinou disse que voc parecia 
ter sido violada por meia dzia de homens, ou por um s homem brutal. Ele fez-lhe muito mal. Foi por isso que disparou sobre ele, no foi? - Grace no respondeu. 
- Foi a primeira vez depois do funeral da sua me? - Olhou atentamente para ela como se esperasse uma resposta, e os olhos da adolescente encheram-se de lgrimas 
que comearam a correr-lhe pelas faces, apesar dos esforos dela para as conter.
        - No... ele no faria uma coisa dessas... toda a gente gostava do meu pai...
        Ela tambm tinha gostado dele e agora s o que podia fazer era defender a sua memria para que ningum soubesse quem ele era realmente.
        - O seu pai gostava de si ou apenas se servia de si?
        - Claro que gostava de mim - respondeu secamente, furiosa consigo mesma por chorar.
        - Ele violou-a nessa noite, no foi? - insistiu Molly. Dessa vez Grace nem respondeu. - Quantas vezes j o tinha feito antes disso? Tem de me dizer. - A 
vida dela dependia disso, mas Molly no queria repeti-lo.
        -  No lhe direi coisa alguma... e no o poder provar - respondeu irritadamente Grace.
        - Porque o defende? - indagou Molly, frustrada. - No percebe o que est a suceder: voc  acusada de homicdio em primeiro grau e podero conseguir que 
seja condenada por isso, se acharem que teve um motivo. Tem de fazer tudo para se salvar. No lhe estou a pedir que minta, digo-lhe para dizer a verdade, Grace. 
Se ele a violou, a magoou, se abusou de si, ento tem atenuantes. A acusao poder mudar para homicdio involuntrio ou at para autodefesa e ser muito diferente. 
Quer realmente passar os prximos vinte anos na priso s para defender a reputao de um homem que lhe fez isso? Tem de me ouvir, Grace, tem de me ouvir. - Mas 
Grace sabia que a me nunca lhe perdoaria se ela denegrisse a memria do pai. A me amara-o cegamente e nunca teria conseguido viver sem ele. Sempre quisera proteg-lo, 
mesmo que para isso tivesse de sacrificar a filha de treze anos. Queria que ele a amasse a qualquer preo, mesmo que o preo fosse a sua prpria filha.
        - No posso dizer-lhe coisa alguma - disse obstinadamente Grace.
        - Porqu? Ele est morto. No pode fazer-lhe mal revelando a verdade. S pode fazer mal a si prpria. Quero que pense nisto. No pode ser leal a um morto, 
a algum que lhe fez tanto mal, Grace... - Estendeu a mo e tocou na da jovem sentada na sua frente. Tinha de a fazer compreender, de a tirar do stio onde ela se 
escondia. - Quero que pense nisto esta noite. Amanh virei v-la de novo. Prometo no dizer a ningum o que me contar. Mas quero que seja franca comigo a respeito 
do que lhe sucedeu naquela noite. Vai pensar nisso? - Grace ficou imvel durante muito tempo, mas depois disse que sim com a cabea. Sim, iria pensar nisso, mas 
nada diria.
        Molly York deixou a jovem Grace com o corao pesado. Sabia exactamente o que se passava, mas no conseguia passar o abismo que as separava. H muitos anos 
que trabalhava com casos de crianas e mulheres vtimas de abuso sexual e quase todas elas queriam proteger os seus algozes. Era muito difcil quebrar esses laos, 
mas geralmente conseguia-o. Com Grace, porm, a tarefa afigurava-se difcil: no cedia um centmetro.
        Molly passou pelo gabinete do detective para ler os relatrios enviados do hospital e ver as fotografias. Quando as viu sentiu-se doente. Stan Dooley entrou 
no gabinete quando ela estava a ler o relatrio e ficou surpreendido por a ver ainda a trabalhar, catorze horas depois de ter comeado o seu dia.
        - No tem mais nada para fazer  noite? - disse amigavelmente. - Uma rapariga como voc devia estar com um tipo, ou sentada num bar, a tratar do seu futuro.
        - Sim? - respondeu ela rindo, agitando os cabelos louros que lhe caam pelos ombros. - E voc, Stan? Vi-o aqui quando cheguei.
        - Tem de ser. Eu preciso de fazer isso. Voc, no. Quero reformar-me dentro de dez anos e voc pode ser psiquiatra at aos cem.
        - Obrigada pelo voto de confiana. - Molly fechou a pasta e pousou-a sobre a secretria com um suspiro. No estava a conseguir chegar a parte alguma. - Viu 
o relatrio do hospital sobre a jovem Adams?
        - Sim.
        -  E ento? - Stan no se mostrou impressionado.
        - O qu?! No me diga que no compreende! - Sentia-se irritada pelo encolher de ombros do detective.
        - O que h para compreender? Ela teve relaes sexuais. Ningum disse que foi violada.
        - Tretas. E teve relaes com quem? Com seis gorilas do zoo? Viu as feridas e leu o que eles descobriram internamente?
        - Ento? Ela gosta de animao. Olhe, ela no se queixa. No diz que foi violentada.  voc quem o diz. Que quer que eu faa?
        - Que mostre algum senso! - quase gritou a mdica. - Grace  uma jovem de dezessete anos e ele era pai dela. Est a querer proteg-lo devido a qualquer noo 
errada de estar a proteger a reputao dele. Mas posso dizer-lhe uma coisa: a rapariga estava a defender-se e voc sabe-o bem.
        - A proteg-lo? Ela matou-o. Que espcie de proteco  essa? Penso que a sua teoria  muito interessante, doutora, mas no leva a parte alguma. Sabemos 
apenas que ela pode ter tido um pouco de sexo violento. No h nada que prove que isso tenha sucedido com o pai ou que ele a tenha violentado. Ela nem sequer diz 
isso. Voc  que o diz.
        - Como diabo  que sabe o que ele fez? - gritou MoIly, mas Dooley manteve-se imperturbvel. No acreditava numa nica palavra do que a mdica dizia. - Foi 
ela quem lhe contou isso, ou est a fazer suposies? Eu procuro explicaes e vejo que essa rapariga de dezessete anos est to isolada que  praticamente como 
se vivesse num outro planeta.
        - Deixe-me dizer-lhe um segredo, doutora York. Ela no  uma marciana.  uma assassina. To simples como isso. E se quer saber o que eu penso de todos os 
seus exames e das suas teorias fantasistas; penso que provavelmente ela saiu para ir ter com um tipo qualquer, depois do funeral da me, e o pai no achou bem. Por 
isso quando ela chegou a casa o pai ralhou-lhe e ela no gostou, perdeu a cabea e matou-o. O facto de ele estar na cama a ejacular foi pura coincidncia. No se 
pode aceitar que um homem que toda a comunidade considera, haja violentado a filha e ela o tenha morto para se defender. Com efeito, falei hoje com o scio dele 
e ele disse mais ou menos o mesmo que eu estou a dizer. Eu no lhe contei coisa alguma, mas perguntei-lhe o que  que ele pensava. A ideia de que John Adams pudesse 
fazer qualquer mal  filha horrorizou-o. Disse-me que o scio adorava a mulher e a filha, que vivia para elas, que nunca enganara a mulher, passava as noites em 
casa e que foi dedicado  mulher at ao dia da morte dela. Disse-me que a filha de John Adams fora sempre um pouco estranha, pouco amigvel e introvertida, e tinha 
poucos amigos. Alm disso, nunca se mostrou muito amiga do pai.
        - L se vai a sua teoria de que ela saiu com um amigo.
        - No precisava de ter um namorado certo para sair durante meia hora e ter relaes, pois no?
        - No quer perceber, pois no? - disse Molly, zangada. Como podia ele ser to teimoso e to cego? Estava a defender a reputao do homem sem sequer ver o 
que havia por detrs.
        - Que devo entender, Molly? Temos o caso de uma rapariga de dezessete anos que matou o pai com um tiro. Talvez seja estranha, ou mesmo louca. Talvez estivesse 
com medo dele, como havemos de o saber? Mas o facto  que ela o matou. E ela nem sequer diz que o pai a violou. No diz coisa alguma. Quem o diz  voc.
        - Grace est demasiadamente assustada e receosa de que algum venha a conhecer o segredo dela. - Tinha visto isso uma centena de vezes. Sabia que era assim 
mesmo.
        - J lhe ocorreu que talvez ela no tenha qualquer segredo? Talvez isso seja s inveno sua por sentir pena dela e querer ajud-la. Sei l.
        - E acha que tambm fui eu quem inventou o relatrio do mdico que a observou e as radiografias que mostram as ndoas negras e as escoriaes?
        - Talvez ela tenha cado pelas escadas. Sei apenas que  voc a nica a falar em violao e isso no  o suficiente, pelo menos com um homem como ele era.
        - E o scio dele? Vai defend-la?
        - No creio. Falou-me em fiana e eu disse-lhe que seria pouco provvel, visto tratar-se de um caso de homicdio. A no ser que a acusao passe para homicdio 
involuntrio, no deve ter fiana. Ele disse-me que provavelmente seria melhor no lhe darem fiana, porque a rapariga no tinha ningum, nenhum stio para onde 
ir. E ele no quer responsabilizar-se por ela.  solteiro e no est preparado para a receber. Disse-me que tambm no se sentiria bem defendendo-a. Acha que lhe 
devemos arranjar um defensor oficioso. No o posso censurar. O homem ficou obviamente muito perturbado com a perda do scio.
        - Porque no h-de ele utilizar o dinheiro que o pai dela deixou para pagar a um outro advogado? - indagou Molly. O que ouvira no lhe agradava, e infelizmente 
estava convencida de que Frank Wills no iria ajudar Grace.
        - No sei - disse Stan. - Ele no se ofereceu para o fazer. Tambm me disse que John Adams era o seu melhor amigo, mas que lhe devia muito dinheiro. A longa 
doena da mulher fizera com que Adams gastasse praticamente tudo quanto tinha. O que possua consistia apenas na sua parte na sociedade e a casa, que no entanto 
estava hipotecada. Wills acha que Adams no deixou grande coisa e no se ofereceu para pagar um advogado do bolso dele. Amanh vou ligar para o gabinete do procurador.
        Molly disse que sim com a cabea, mais uma vez chocada com a solido em que Grace se encontrava. No se tratava de uma coisa muito invulgar entre os jovens 
acusados de crimes, mas com uma rapariga como Grace as coisas deviam ser diferentes. Ela pertencia a uma boa famlia da classe mdia, o pai fora um cidado respeitado, 
tinham uma bonita casa e eram bem conhecidos na comunidade. A jovem mdica achava espantoso que Grace se encontrasse completamente abandonada. E embora no fosse 
esse o procedimento habitual, resolveu falar ela prpria com Frank Wills e tomou nota do nmero dele.
        -  Que tem feito o doutor Kildare? - perguntou Dooley, gracejando e referindo-se ao namorado dela.
        - Anda ocupado em salvar vidas. Trabalha ainda mais do que eu. - Apesar do leve azedume das palavras, sorriu para o detective. As vezes aborrecia-se com 
ele, mas era boa pessoa e ela simpatizava com ele.
        -  pena. Livr-la-ia de muitos sarilhos, se tivesse um pouco de tempo livre de vez em quando.
        - Sim, bem sei. - Sorriu e saiu pondo um casaco pelos ombros. Era uma rapariga bonita, e, ainda por cima, uma boa profissional. Mesmo os polcias que a conheciam 
diziam que se tratava de uma mdica competente, embora tivesse por vezes umas teorias estranhas.
        Mais tarde, j em casa, Molly ligou para Frank Wills e ficou chocada ao ouvir a maneira como ele falou de Grace. Pelo que lhe dizia respeito, afirmou ele, 
Grace devia ser enforcada por ter morto o pai.
        - Tratava-se da melhor pessoa do mundo - disse Wills, parecendo profundamente comovido. Molly no acreditou na sinceridade dessa comoo. - Pergunte a qualquer 
pessoa... no havia ningum nesta cidade que no gostasse dele... a no ser ela... ainda nem posso crer que ela o tenha assassinado.
        Passara a manh inteira a planear a cerimnia fnebre para ele. Toda a cidade l estaria... excepto Grace. Mas dessa vez no haveria reunio em casa, nenhuma 
famlia presente. John Adams tinha apenas a mulher e a filha. A voz de Wills tremia ao dizer isso a Molly.
        - Acha que Grace pode ter tido um motivo para disparar sobre o pai, senhor Wills? - perguntou delicadamente Molly quando ele se acalmou. No queria que ele 
ficasse ainda mais perturbado, pois poderia dar-lhe alguma pista.
        - Talvez ela quisesse dinheiro. Provavelmente pensou que ele fizera testamento e lhe ia deixar tudo, mesmo que no tivesse feito testamento, visto ser ela 
a nica pessoa da famlia. O que ela provavelmente no sabia  que se o matasse no poderia herdar nada dele.
        - E havia muita coisa para deixar? - perguntou inocentemente Molly, sem se referir ao que Wills dissera ao detective Dooley. - Calculo que a parte dele na 
sociedade seja bastante valiosa.  uma firma de advogados muito conhecida. - Molly sabia que as suas palavras iriam agradar a Wills e foi o que sucedeu. Ele ficou 
satisfeito e comeou a falar mais  vontade, dizendo provavelmente mais do que queria.
        - Bastante. Mas ele devia-me muito. Sempre me disse que me deixaria a sua quota quando morresse, mas claro que no pensava morrer to cedo, coitado.
        - E deixou isso escrito?
        - No sei. Mas era um acordo entre ns e eu emprestava-lhe algum dinheiro de tempos a tempos, para o ajudar nas despesas com Ellen.
        - E a casa?
        - Est hipotecada.  uma boa casa, mas no suficientemente boa para se ser morto por causa dela.
        - Acredita realmente que uma rapariga da idade de Grace matasse o pai por causa da casa, senhor Wills? Isso parece-me um pouco exagerado, no acha?
        - Talvez no. Talvez ela pensasse que haveria dinheiro suficiente para ingressar numa universidade da moda.
        - Era isso realmente o que ela queria fazer? - Molly pareceu surpreendida. Grace no lhe parecia ambiciosa; pelo contrrio, julgava-a acanhada e amiga de 
estar em casa.
        - No sei o que ela queria fazer, doutora. Sei apenas que matou o pai e deve pagar por isso. E tenho a certeza de que no deve lucrar com isso. A lei  bem 
clara a esse respeito. Ela no ficar com um tosto do dinheiro dele, nem a quota na sociedade, nem a casa, nada.
        Molly ficou assombrada com o modo como ele falou e pensou se os motivos dele seriam puros, ou se de facto teria as suas razes para lhe agradar que Grace 
estivesse afastada de tudo.
        - E quem herdar? H mais familiares?
        - No. S a rapariga. Mas ele devia-me muito. Eu ajudava-o muitas vezes e trabalhmos juntos durante vinte anos. No se pode esquecer isso como se nada fosse.
        - Com certeza. Estou de acordo - disse tranquilamente. Compreendia mais do que ele pensava, ou queria que ela compreendesse, e no gostava disso. Agradeceu-lhe 
ter perdido o seu tempo a falar com ela e pensou em Grace. Quando o namorado voltou do hospital, nessa noite, Molly contou-lhe tudo sobre o caso. Ele vinha exausto 
depois de passar vinte e quatro horas de servio nas urgncias do hospital, tratando ininterruptamente ferimentos de balas e causados por acidentes de viao, mas 
mesmo assim ouviu-a atentamente. Molly estava profundamente preocupada com o assunto.
        Molly e Richard Haverson viviam juntos h dois anos e de tempos a tempos falavam em casar, sem o terem ainda feito. Mas entendiam-se bem e estavam familiarizados 
com o trabalho um do outro. Era uma situao perfeita para ambos. E o Dr. Haverson era to alto, louro e atraente como a prpria Molly.
        - Parece que a pequena est metida em maus lenis. Ningum quer saber do que lhe possa suceder. E tenho a impresso de que o scio do pai a quer ver afastada 
para ficar ele com o dinheiro que eventualmente possa haver. No  uma situao muito cmoda. E se ela prpria no admite que o pai a estava a violar, que se pode 
fazer?
        Ele parecia cansado e Molly olhou-o, enquanto bebia caf, sentindo-se frustrada.
        - Ainda no sei o que hei-de fazer. Estou a tentar descobrir uma maneira de fazer com que ela me conte o que realmente se passou. No pode ter acordado a 
meio da noite, descobrir que tinha uma arma na mo e matar o pai. Encontraram a camisa de noite dela, rasgada, cada no cho, mas tambm no quer explicar isso. 
As provas esto bem  vista. Apenas ela no nos ajuda a utiliz-las.
        - Hs-de vir a conseguir chegar at ela - disse Richard com ar confiante, mas reparou que dessa vez Molly estava preocupada. Nunca tivera tanta dificuldade 
em fazer com que algum se abrisse com ela. A rapariga estava completamente fossilizada num estado de autodestruio. Os pais tinham-na destrudo e ela no se mostrara 
capaz de se afastar deles. Era assombroso. - Nunca te vi desistir de conseguires que comuniquem contigo. - Sorriu-lhe e tocou no seu comprido cabelo louro ao dirigir-se 
para a cozinha para ir buscar uma cerveja. Trabalhavam ambos como danados, mas havia um bom relacionamento entre eles e sentiam-se felizes um com o outro.
        Quando se levantaram, s 6 horas da manh seguinte, Molly lembrou-se logo de Grace e quando se dirigia para o trabalho olhou para o relgio e pensou em ir 
v-la, mas depois decidiu outra coisa: foi para o seu escritrio e tomou a algumas notas, e eram 8 horas quando entrou no gabinete do defensor oficioso.
        - David Glass j chegou?        - perguntou  recepcionista.
        Glass era o mais novo dos advogados da equipa do gabinete do procurador, mas Molly trabalhara com ele em dois casos e achava-o fantstico. Os seus mtodos 
no eram ortodoxos, mas era inteligente e duro. Viera das ruas de Nova Iorque e sara dos guetos de Bronx  custa do seu prprio esforo, mas, embora no fosse subornvel, 
tinha um corao de ouro e lutava pelos seus clientes como um leo. Era exactamente o que Grace Adams precisava.
        - Creio que est l dentro - respondeu a recepcionista, que j conhecia Molly por a ter visto ali outras vezes.
        A jovem mdica percorreu vrios corredores e finalmente foi encontr-lo na biblioteca do escritrio, sentado junto de uma pilha de livros e bebendo um caf. 
Levantou a cabea quando ouviu os passos dela e sorriu ao v-la.
        - Ol, doutora. Como vai?
        - Bem. E por aqui?
        - O costume. Estou ainda a trabalhar no mesmo caso, a tentar libertar os mesmos assassinos do costume.
        - Quer um caso?
        - Agora  voc quem faz as nomeaes - Ele parecia divertido. Era mais baixo do que ela e tinha cabelo escuro encaracolado e olhos escuros.  sua maneira, 
era bem-parecido. Mas o que mais atraa nele era a sua personalidade, que se sobrepunha aos dotes fsicos: era na verdade uma pessoa atraente. E pela maneira como 
os seus olhos brilhavam quando falava com Molly, era bvio que gostava dela. Quando  que comearam a deix-la escolher os defensores oficiosos?
        - Pronto, pronto. Eu s queria saber se estava disposto. Estou a trabalhar num caso e gostava de o fazer consigo. Sei que vo escolher hoje um defensor e 
lembrei-me de ti.
        - Sinto-me lisonjeado.  assim to mau?
        - Bastante. Possivelmente homicdio de primeiro grau. Pode at ser condenada  morte. Uma rapariga de dezessete anos que matou o pai com um tiro.
        - Simptico. Gosto de casos desses. Que fez ela? Fez-lhe saltar os miolos com uma caadeira ou pediu ao namorado para o fazer? - Embora ali no houvesse 
tanta violncia, ele vira muitas coisas desse gnero em Nova Iorque.
        - Nada de to pitoresco. - Molly olhou-o com ar preocupado, pensando em Grace. -  complicado. Podemos ir falar para qualquer stio?
        - Com certeza. - Parecia ter ficado intrigado. - Bem, vamos para o meu escritrio. - O gabinete dele era pouco maior do que a secretria, mas pelo menos 
tinha uma porta e havia um pouco de privacidade. Molly seguiu-o, enquanto ele tentava transportar os livros e a chvena com o caf. 
        - Ento qual  a histria? - perguntou, logo que Molly se sentou na nica cadeira alm da sua. Molly suspirou. Grace no estava a fazer absolutamente nada 
para se salvar. Precisava realmente de uma pessoa como David.
        - Ela matou o pai a uma distncia de pouco mais de quatro centmetros com uma arma que diz "ter encontrado na sua mo" e que ela disparou sem qualquer razo, 
segundo afirma. Eles formavam uma famlia feliz, ainda segundo ela, mas o funeral da me fora nesse dia. Alm disso, no tinham quaisquer problemas.
        - Ela  mentalmente s? - David parecia apenas medianamente interessado. Apreciava acima de tudo casos difceis. E gostava de gente nova. Por isso  que 
Molly queria que ele se encarregasse do caso. David era a nica possibilidade que Grace tinha de se salvar. Sem ele estaria perdida, embora parecesse no se importar 
com isso. Mas Molly importava-se, apesar de no saber bem porqu, talvez por Grace lhe parecer to infeliz e indefesa. Tinha j desistido de tudo, at da esperana, 
e a sua prpria vida parecia no lhe importar. E Molly queria mudar isso.
        -  s. Profundamente deprimida e com neuroses, mas penso que com boas razes para isso. Creio que o pai abusava dela, sexualmente ou de outros modos. - 
Descreveu os ferimentos internos que tinham descoberto no hospital e falou-lhe do estado de esprito de Grace. - Ela jura que o pai nunca lhe tocou mas eu no acredito. 
Creio que a violou nessa noite e que J o fizera antes, talvez com frequncia.  possvel que sem a presena da me ela tivesse sentido que perdera a sua nica proteco 
e tenha entrado em pnico. Ele tinha de estar mesmo em cima dela para o tiro o atingir como atingiu. Pense nisto. Ele estava em cima dela, violando-a, ela agarrou 
na arma e disparou. S pode ter sido assim que as coisas se passaram.
        - Mais algum pensou nisso? Que dizem os polcias?
        - O problema  esse. Eles no querem ouvir falar disto. O pai dela era um advogado muito conhecido, de quem toda a gente gostava. Ningum quer acreditar 
que ele pudesse dormir com a prpria filha, ou, pior, que a violentasse. Talvez ele lhe tivesse apontado a arma e ela lha tivesse tirado. Quem sabe? Algo se passou 
na vida dessa rapariga que ela no me quer contar. Ningum sabe nada a seu respeito. No tinha amigas e no convivia com ningum fora da escola. Ia de casa para 
a escola e da escola para casa para tratar da me, que estava a morrer. A me morreu h dias e agora o pai est morto e ela no tem ningum. Nem parentes, nem amigos, 
apenas uma cidade inteira que jura que o pai era o melhor homem do mundo e que nunca podia ter feito mal  filha.
        - E voc no acredita neles? Porqu? - Depois de ter trabalhado com ela em dois casos, David aprendera a confiar no instinto de Molly.
        - Porque ela no me diz coisa alguma e eu sei que est a mentir. Est aterrorizada. E est ainda a defend-lo, como se receando que ele regresse do mundo 
dos mortos e a castigue.
        - Ela no diz nada?
        - No. Est petrificada de dor, v-se perfeitamente. Sucedeu algo de terrvel quela rapariga e ela no o quer dizer.
        - Ainda no - David sorriu. - Mas h-de dizer. Eu conheo-a bem.  ainda cedo.
        - Agradeo-lhe o voto de confiana, mas no temos muito tempo.  hoje que lhe vo nomear um defensor oficioso.
        - No tem um advogado da famlia, nem nenhum scio do pai que tome conta do caso? Algum h-de aparecer. - Ficou surpreendido ao ver a jovem mdica abanar 
a cabea.
        - O scio do pai afirma que era muito amigo dele e que no se sentiria bem a defender a filha que o matou. Afirma tambm que no h dinheiro porque foi gasto 
com a doena da me. Resta apenas a casa e a sua quota na firma. E provavelmente ser ele quem herdar tudo, visto afirmar que John Adams lhe devia muito dinheiro. 
No se ofereceu para pagar a defesa dela e eu no confio nele. Pinta o falecido como um santo, e clama que nunca perdoar a Grace ter feito o que fez. Acha que ela 
devia ser condenada  morte.
        - Com dezessete anos? Que tipo simptico! - David parecia agora profundamente interessado. - E que diz disso a nossa rapariga? Sabe que esse tipo no quer 
ajud-la e que poder mesmo ficar com tudo o que pertencia ao pai dela, para pagar supostas dvidas?
        - No sabe, mas parece estar disposta a suportar tudo desde que consiga ficar calada. Creio que ela pensa que  uma obrigao para com os pais.
        - Parece-me que ela precisa tanto de uma psiquiatra como de um advogado. - Sorriu para Molly. Agradava-lhe a ideia de trabalhar de novo com ela e de vez 
em quando acarinhava a ideia de que pudesse vir a existir um romance entre os dois, mas isso nunca sucedera e no fundo ele sabia que nunca sucederia. Mas era bom 
imaginar isso. E as suas esperanas nunca interferiam no modo como trabalhava com ela.
        - Que acha? - perguntou Molly com uma expresso preocupada.
        - Acho que ela est metida em grandes sarilhos. Qual  a acusao contra ela?
        - Ainda no sei bem. Ouvi falar em homicdio em primeiro grau, mas creio que tero dificuldade em provar isso. No existe uma verdadeira "herana" para dar 
motivo a acusarem-na de premeditao. Apenas a casa fortemente hipotecada e a quota na firma de advogados, que o scio afirma ter-lhe sido prometida.
        - Sim, mas ela podia no saber isso e podia no saber que no herdaria do pai, matando-o. Podem de facto tentar a acusao de homicdio em primeiro grau, 
se de facto quiserem faz-lo.
        - Se ela negar qualquer inteno de o matar, podem acus-la de homicdio involuntrio. Isso poder dar-lhe uma pena de quinze anos de priso, ou mesmo uma 
pena de priso perptua. Se for condenada, poder fazer quarenta anos antes de ser libertada. Mas pelo menos no ser a pena de morte. J disseram que ela ser acusada 
como adulta e j ouvi falar em pena de morte. Se ela nos disser o que realmente aconteceu, talvez voc consiga reduzir a acusao para homicdio involuntrio.
        - Bolas! Trouxe-me uma verdadeira pra doce, no foi?
        - Conseguir ser nomeado?
        - Talvez. Provavelmente ho-de considerar que se trata de um caso perdido. Tendo o pai sido uma pessoa to proeminente na cidade, ela nunca ter um julgamento 
justo aqui. Bem, na verdade gostava de tentar defend-la.
        - Quer conhec-la primeiro?
        - Est a brincar? J pensou bem no que eu posso defender? No preciso de uma apresentao, gostava apenas de saber se terei qualquer possibilidade. Ser 
bom que ela fale conosco e nos conte o que realmente se passou. Se no o fizer, poder ser condenada a priso perptua, ou pior. Vai ter de nos dizer o que sucedeu 
- repetiu com gravidade. Molly concordou.
        - Talvez o faa, se confiar em si - disse esperanadamente Molly. - Quero ir falar de novo com ela esta tarde. Ainda no acabei de escrever a minha avaliao 
para o departamento, para dizer se ela , ou no, imputvel. Mas no h de facto dvidas a esse respeito. Tenho andado a demorar um pouco porque queria continuar 
a falar com ela. Creio que precisa imenso de um verdadeiro contacto humano. Molly mostrava-se genuinamente preocupada com a rapariga.
        - Se eles me derem o caso, irei consigo v-la. Primeiro deixe-me ver o que posso fazer. Ligue-me  hora do almoo.
        Tomou nota do nome de Grace e do nmero do processo e Molly agradeceu-lhe antes de sair. Sentia-se imensamente aliviada ao pensar que ele podia ser advogado 
de Grace. Era a melhor coisa que lhe podia suceder. Se existia alguma maneira de a salvar, David Glass havia de a descobrir.
        Molly no teve tempo de lhe telefonar antes das 14 horas e, quando o fez, ele no estava no escritrio. E no voltou a poder tentar falar-lhe antes das 16 
horas, mas estava muito preocupada. Passara um dia infernal a fazer avaliaes para os tribunais e a trabalhar no caso de um rapaz de quinze anos que quisera suicidar-se 
e ficara paraplgico: saltara de uma ponte para a rua, mas a sua juventude atraioara-o, salvando-o da morte. At mesmo ela pensava se no seria melhor ter morrido 
do que passar a vida inteira podendo sentir apenas o olfacto e a audio. At a fala ficara afectada. Telefonou novamente a David ao fim do dia e pediu-lhe desculpa 
pela demora.
        - Tambm acabei agora de chegar aqui - explicou David.
        - Que lhe disseram?
        - Desejaram-me boa sorte. Consideram o caso resolvido. Segundo dizem, ela queria o dinheiro do pai, que era pouco, o que ela ignorava, no sabendo tambm 
que no poderia ser a herdeira do pai se o matasse. Esto agarrados  teoria de que houve premeditao, ou que pelo menos discutiram e ela perdeu a cabea e matou-o. 
Segundo eles  um caso muito simples. Homicdio de primeiro grau, na pior das hipteses. De segundo grau, na melhor. Poder apanhar entre vinte anos e priso perptua, 
ou mesmo pena de morte.
        -  apenas uma garota... uma rapariga... - Molly tinha lgrimas nos olhos ao pensar nisso e depois censurou-se a si prpria por se deixar envolver demasiado 
no caso, mas no podia evit-lo. Havia ali algo de muito errado.
        - E a defesa?
        - Francamente, ainda no sei. D-me algum tempo. Ainda s fui nomeado h duas horas. Nem sequer vi a rapariga. Tenciono ir l daqui a um bocado. Quer ir 
comigo? Pode ser que isso acelere as coisas e quebre o gelo, visto ela j a conhecer.
        - Sim, mas no sei se simpatiza comigo. Eu estou sempre a insistir com ela para me contar o que se passou com o pai e ela no gosta disso.
        - Ainda vai gostar menos de ser condenada  morte. Sugiro que nos encontremos na esquadra s cinco e meia. Pode ir?
        - Sim David.
        - Diga?
        - Obrigada por ter aceitado.
        -Vamos fazer o melhor que pudermos. At j.
        Ao desligar, Molly sabia que iam precisar no s de fazer o melhor mas tambm de rezar para que acontecesse um milagre, para conseguirem ajud-la.

CAPTULO 3

        MolIy York e David Glass encontraram-se junto da priso s 17 horas e subiram para irem falar com Grace. Nessa altura David j recebera todos os relatrios 
da Polcia e Molly levara-lhe os relatrios feitos no hospital e as fotografias. David viu-as e o seu rosto exprimiu assombro.
        - Parece que lhe bateram com um taco de basebol! - exclamou, enquanto observava as fotos.
        - Ela diz que no se passou coisa alguma - disse Molly, abanando a cabea, pensando que seria bom que Grace se abrisse com David. A vida dela dependia disso, 
mas no tinha a certeza se Grace o compreenderia.
        Foram conduzidos para a sala dos advogados, onde havia duas portas, uma mesa e quatro cadeiras. Fora sempre a que Molly falara com Grace e pelo menos a 
sala j lhe seria familiar.
        Sentaram-se durante alguns minutos e esperaram por ela. David acendeu um cigarro e ofereceu a Molly, mas ela recusou. Decorreram uns bons cinco minutos antes 
de o guarda aparecer  pequena janela gradeada, abrir a pesada porta e Grace ficar parada  entrada, olhando-os com hesitao. Vestia ainda as mesmas calas de ganga 
e T-shirt. No havia ningum que lhe levasse roupa e ela nada mais tinha para vestir. Restava-lhe apenas a roupa que vestira na noite em que matara o pai e fora 
presa.
        David Glass observou atentamente Grace quando a viu entrar. Era uma rapariga alta, delgada e graciosa.  primeira vista, parecia muito nova e tmida, mas 
reparou que a expresso dela era a de uma pessoa mais velha. Havia algo de profundamente triste e desanimado nela, e movia-se como uma gazela prestes a fugir na 
clareira de uma floresta. Picou imvel, a olh-los, sem saber bem o que significava a visita deles. Nesse dia passara quatro horas a ser interrogada pela Polcia 
e sentia-se exausta. Tinham-na avisado de que tinha o direito de ter um advogado presente durante os interrogatrios, mas ela j confessara ter disparado sobre o 
pai e no julgava que houvesse qualquer mal em responder s perguntas deles.
        Fora informada de que David Glass ia ser seu advogado e que iria v-la nesse dia. No tivera notcias de Frank Wills e no lhe telefonara. No tinha ningum 
a quem chamar, ningum para quem se pudesse voltar. Lera os jornais desse dia. As primeiras pginas estavam cheias de histrias sobre o crime, exaltando a vida exemplar 
do pai, da sua profisso de advogado e daquilo que ele significara para muita gente. Diziam relativamente pouco a respeito dela. Apenas que tinha dezessete anos, 
que frequentava a Escola Secundria Jefferson e que matara o pai. Havia vrias teorias sobre o que se poderia ter passado, mas nenhuma se aproximava da realidade.
        - Grace, este  David Glass - disse Molly, quebrando o silncio e apresentando-os. - Pertence ao gabinete dos defensores oficiosos e vai represent-la.
        - Ol, Grace - disse calmamente David, observando-a. Ainda no afastara os olhos dela desde que ela aparecera e era fcil ver que estava terrivelmente assustada. 
Mas apesar disso apertou-lhe delicadamente a mo. David sentiu a mo dela tremer enquanto a apertava na sua. Reparou tambm que ela falava de um modo um pouco ofegante 
e recordou-se do que Molly lhe dissera a respeito da asma. - Temos trabalho a fazer - disse Glass. Grace apenas baixou a cabea em resposta. - Li o seu dossier e 
as coisas no esto nada boas para si. Preciso sobretudo que me informe sobre o que sucedeu e porqu. Preciso de saber tudo o que puder recordar. Depois arranjaremos 
um investigador para verificar tudo. Faremos tudo o que for necessrio. - Falava de um modo encorajador e esperava que ela no estivesse demasiado assustada para 
o ouvir.
        - No h nada a verificar - disse Grace, sentada na cadeira, muito direita e olhando-o bem de frente. - Matei o meu pai.
        - Bem sei - declarou ele, no se mostrando impressionado com a afirmao dela e olhando-a atentamente. Percebia o que Molly vira nela. Parecia uma boa rapariga 
a quem tivessem tirado totalmente a vontade de viver. Mostrava-se to distante que parecia quase impossvel chegar at ela. Era mais como uma apario do que uma 
pessoa verdadeira. No havia nada de vulgar nela. Nada que sugerisse que se tratava de uma rapariga de dezessete anos, uma adolescente. No existia nela a vivacidade 
ou a agressividade de uma rapariga de dezessete anos. - Lembra-se do que sucedeu? - perguntou calmamente Glass.
        - De quase tudo - respondeu ela. Havia partes que lhe pareciam vagas, como ter tirado a arma da mesa-de-cabeceira da me. Mas lembrava-se de a ter na mo 
e de ter puxado o gatilho. - Matei-o com um tiro.
        - Onde foi buscar a arma? - A pergunta dele parecia prosaica e nada tinha de ameaador. Glass falava com naturalidade e Molly regozijou-se mais uma vez por 
ter conseguido met-lo no caso. S esperava que ele conseguisse ajudar Grace.
        - Estava na mesa-de-cabeceira da minha me.
        - Como  que a tirou de l? Foi busc-la?
        - Mais ou menos. Acho que a tirei para fora.
        - O seu pai ficou surpreendido quando a viu fazer isso? - Fez a pergunta como se fosse a coisa mais normal deste mundo e ela disse que sim com a cabea.
        - Ao princpio ele no deu por isso, mas quando viu, ficou surpreendido... tentou tirar-me a arma e ela disparou-se. - Os olhos dela abriram-se muito com 
a recordao e logo a seguir fechou-os.
        - Devia estar muito perto dele quando a arma se disparou, no? Talvez assim? - Indicava cerca de um metro de distncia entre eles. Sabia que tivera de estar 
muito mais perto, mas queria ouvir a resposta dela.
        - No... um pouco mais... perto... - Glass disse que sim com a cabea, como se a resposta dela nada tivesse de especial, e Molly fingiu tambm desinteresse, 
embora se sentisse fascinada com a facilidade com que Grace comeara a falar com ele, e como parecia confiar no advogado. Talvez soubesse instintivamente que podia. 
Mostrava-se muito menos defensiva do que estivera com Molly.
        - Mais perto? Talvez a trinta centmetros de distncia? Ou talvez menos?
        - Muito perto... mais perto... - murmurou em voz baixa. Depois desviou o olhar, pensando que Molly lhe devia ter falado das suas suspeitas. - Muito perto.
        - Como foi isso? Que estavam a fazer?
        - Estvamos a falar - respondeu Grace com voz rouca e ofegante. David viu que ela estava a mentir.
        - De que  que falavam?
        A pergunta e o modo despreocupado com que foi feita apanharam Grace desprevenida e ela gaguejou ao responder:
        - Eu... bem... sobre a minha me... creio.
        David fez um gesto que queria dizer que achava isso a coisa mais natural deste mundo e depois recostou-se para trs pensativamente e ficou a olhar para o 
tecto. Falou ento sem a olhar, sentindo as batidas do corao no ouvido enquanto falava:
        - A sua me sabia o que ele lhe fazia, Grace? - Falou to meigamente que os olhos de Molly se encheram de lgrimas, e olhou ento lentamente para Grace e 
viu lgrimas tambm nos olhos dela. - No faz mal dizer-me, Grace. Ningum vai saber alm de ns, mas eu preciso de saber para a poder ajudar. Ela sabia?
        Grace olhou-o fixamente, querendo negar outra vez, mas no pde aguentar mais, no o conseguiu. Disse que sim com a cabea e as lgrimas saltaram-lhe dos 
olhos, correndo-lhe lentamente pelas faces. Ele viu-a, pegou-lhe numa mo e apertou-a entre as suas.
        - Pronto, Grace, pronto. Sabemos que nada podia fazer para o deter. - Ento ela disse outra vez que sim com a cabea e escapou-lhe da garganta um soluo 
de angstia. Tinha querido ter a coragem de no contar a ningum, mas todos a interrogavam, a doutora, a Polcia, e agora ele. E por qualquer razo que desconhecia, 
confiava em David. Tambm gostava de Molly, mas era para David que se queria voltar.
        - Ela sabia. - Eram as palavras mais tristes que ele alguma vez ouvira e, apesar de no ter conhecido John Adams, apetecia-lhe mat-lo.
        - Ela ficou muito zangada com ele? Ou consigo?
        Todavia, Grace assombrou-os, abanando novamente a cabea.
        - Ela queria que eu... disse que eu tinha de o... e... queria que eu o fizesse - disse outra vez, com os olhos cheios de lgrimas, suplicando-lhes que acreditassem 
nela. Ambos acreditaram e os seus coraes voaram para ela ao ouvi-la.
        - H quanto tempo sucedia isso? - perguntou suavemente David.
        - H muito tempo... - murmurou Grace, exausta, olhando-o. Parecia-lhe to frgil e cansada que pensou se ela iria ter foras para sobreviver. - H quatro 
anos... que ela me obrigou a fazer aquilo pela primeira vez.
        - O que  que foi diferente nessa noite?
        - No sei. Mas eu j no aguentava mais... ela tinha morrido. J no precisava de o fazer por ela... ele queria que eu fosse para a cama dela... nunca o 
tinha feito... e ele bateu-me... e... fez outras coisas. - No queria contar-lhes tudo o que ele fizera, mas eles sabiam isso pelas fotografias e pelo exame. - Lembrei-me 
da arma. S queria que ele parasse... que me largasse... no queria disparar sobre ele... no sei. S queria det-lo. - E fizera-o. Para sempre. No sabia que o 
matara.
        Finalmente contara-lhes o que se passara. E de certo modo sentia-se aliviada. E exausta. Era diferente do que contar  Polcia... Sabia que Molly e David 
no diriam a ningum. E acreditavam nela. Sabia que a polcia nunca acreditaria. Achavam que o pai dela era perfeito. Todos o conheciam profissionalmente e alguns 
at jogavam golfe com ele, no clube. Parecia que toda a gente na cidade o conhecia e gostava dele.
        -  uma rapariga corajosa - disse calmamente David - e estou satisfeito por me ter contado. - Tudo se passara exactamente como Molly dissera, ou pior ainda, 
visto que a me a obrigara a faz-lo. Aos treze anos, quando tudo comeara. David sentia nuseas s de pensar nisso. O homem era um tarado e um patife e merecia 
ser morto. Mas seria difcil convencer o jri que Grace se defendera naquela noite, depois de ter passado quatro anos infernais nas mos do pai. Molly no conseguira 
convencer a Polcia. Os agentes estavam todos dominados pela imagem pblica do pai de Grace. No podia deixar de pensar se isso teria o mesmo efeito sobre o jri.
        - Ser capaz de contar  Polcia o que me disse? - perguntou calmamente David, mas ela respondeu imediatamente que no o faria.
        - Porqu?
        - De qualquer modo, eles no acreditariam em mim... e no posso fazer isso aos meus pais.
        - Os seus pais esto mortos, Grace - disse firmemente, e ela estaria tambm, se no o ajudasse e no contasse a verdade. A justificao de autodefesa era 
a sua nica possibilidade. Precisava de provar que ela julgara que a vida dela estava em perigo. E mesmo que no acreditassem nisso, s a poderiam julgar por homicdio 
involuntrio, no assassnio. - Vamos ter de falar disto. Vai ter de contar a outra pessoa, sem ser  doutora ou a mim, o que se passou.
        - No posso. Que pensariam de mim?  to terrvel. Comeou a chorar outra vez e Molly levantou-se e passou-lhe um brao em volta dos ombros.
        -  Eles  que so os terrveis, no  voc, Grace. Vai fazer parecer o que foi: uma vtima. No pode pagar pelos pecados deles, mantendo-se em silncio. 
Precisa de falar. David tem razo.
        Falaram sobre o assunto durante muito tempo e Grace disse que ia pensar, mas no parecia convencida. E quando finalmente se separaram, Molly estava ainda 
assombrada com a maneira como David fizera com que a jovem falasse to rapidamente.
        - Talvez devssemos trocar os nossos empregos, mas o pior  que eu no sei fazer o que voc faz. - disse Molly, censurando-se amargamente por no ter conseguido 
fazer com que Grace confiasse nela.
        - No seja to dura para consigo mesma - retorquiu David. - Se ela falou comigo foi porque voc j a tinha preparado para isso antes. Ela precisava de desabafar. 
H quatro anos que guardava esse segredo. Deve ser um alvio ter falado. - Molly disse que sim com a cabea e David continuou: - Claro que o facto de o matar foi 
tambm um alvio. Foi uma pena no o ter feito mais cedo. Que patife tarado era esse homem. A fazer uma coisa dessas  filha enquanto toda a cidade o considerava 
um santo, um marido e pai perfeitos. D vmitos, no ? S me admiro por ela ter conseguido manter-se lcida. - Na verdade, Grace sofrera danos tanto fsicos como 
mentais, mas continuava lcida, no perdera o controle sobre si mesma. Contudo, nem queria pensar no que lhe sucederia se estivesse presa vinte anos. Mas na manh 
seguinte, quando falou com Grace antes de ela ser acusada oficialmente, Grace continuou a recusar-se a dizer  Polcia o que se passara. O melhor que conseguiu foi 
que ela se considerasse no culpada. A acusao era de assassnio perpetrado com inteno de matar, o que lhe poderia acarretar a pena mxima, ou at a pena de morte, 
se o jri o impusesse.
        O juiz recusou-se a conceder-lhe fiana, o que de qualquer modo era irrelevante, pois no havia ningum para a pagar. E David Glass passou a ser oficialmente 
advogado dela.
        Durante os dias seguintes, David fez tudo o que lhe foi possvel para tentar convencer Grace a contar  Polcia que o pai a violara e que h anos o fazia. 
Mas ela no podia faz-lo. Aps duas semanas terrivelmente frustrantes, David ameaou abandonar o caso. Molly continuava a visit-la frequentemente, mas agora por 
sua conta. O seu relatrio para o tribunal estava j completo. Considerara Grace mentalmente s e imputvel para ser julgada.
        David acompanhou-a durante as audincias preliminares, enquanto um seu investigador falava a toda a gente da cidade, esperando que algum suspeitasse do 
que John Adams fizera  filha. As reaces das pessoas ao ouvirem a sugesto iam da surpresa total  clera. Absolutamente ningum o considerava capaz de tal coisa, 
e diziam isso mesmo. Alguns achavam que se tratava de uma louca teoria inventada pela defesa para justificar aquilo a que muitos deles chamavam assassnio a sangue-frio.
        O prprio David se deslocou  escola para falar com os professores, para ver se suspeitavam de qualquer coisa, mas ningum vira coisa alguma. Descreviam 
Grace como desajeitada e tmida, muito introvertida, mesmo quando criana, ao ponto de ser associal. No tinha virtualmente nenhuma amiga. Desde que o pai comeara 
a ter relaes sexuais com ela, Grace receara que algum pudesse descobrir, por isso afastou-se de todos. Era bvio que os professores a achavam estranha, mas delicada 
e boa aluna. Muitos professores tinham conhecimento da doena da me e achavam que isso a afectava. Alguns disseram a David que ela s comeara a sofrer de asma 
quando a me adoecera gravemente. E, pensou David, quando o pai comeou o seu assdio sexual.
        Estranhamente, nenhum dos professores se admirou muito por ela ter disparado sobre o pai. Consideravam-na "estranha" e, como diziam, algo se "quebrara" dentro 
dela com a morte da me.
        Era fcil imaginar as coisas dessa maneira, ou pensar como a Polcia pensava, que Grace queria herdar o dinheiro do pai, ou que o matara num acesso de clera 
no meio de uma discusso. Era difcil algum acreditar que John Adams levara uma vida de total perverso durante quatro anos e que antes disso espancava brutalmente 
a mulher. Mas apesar das poucas provas existentes, David Glass no duvidou nem um instante do que Grace lhe contara. As palavras dela tinham o toque da verdade. 
Trabalhou com ela durante todo o Vero, tentando encontrar algo a que se agarrar para a defender. Grace acabara por concordar em contar a sua histria  Polcia, 
mas eles tinham-se recusado a acreditar nela. Julgaram tratar-se de uma defesa inteligente arquitectada pelo advogado dela e as tentativas por ele para renegociar 
a acusao no resultaram. Tal como a Polcia, o advogado de acusao no acreditou nela. Desesperado, David foi falar com o procurador do distrito, receando que 
aplicassem uma pena de priso perptua, ou pena de morte  jovem. Mas o procurador nada fez. No havia mais nada a fazer. Iria apresentar o relato de Grace ao jri. 
O julgamento foi marcado para a primeira semana de Setembro. Grace fez os dezoito anos na priso.
        Nessa altura estava sozinha numa cela e os jornalistas tinham-na perseguido todo o Vero. Apareciam na priso e pediam entrevistas. E de vez em quando os 
guardas deixavam-nos entrar para a fotografarem. Eles metiam-lhes umas notas nas mos e de repente Grace sentia-se ofuscada pelo claro de um flasiz quando menos 
esperava. Uma das vezes apanharam-na nos lavabos. E aquilo que ela contara  Polcia h muito que aparecera nos jornais. Era tudo o que ela no tinha querido que 
sucedesse. Sentia que se atraioara a si prpria e aos pais, mas David convencera-a de que era a sua nica esperana de no ficar toda a vida presa, ou, pior ainda, 
de se livrar da pena de morte. E nem sequer isso resultara. Grace estava resignada  ideia de passar a vida na priso e no sabia se acabaria por ser condenada  
morte. Era possvel, at mesmo David admitia isso, embora lhe desagradasse. Caberia ao jri decidir. David estava ainda convencido de que seria capaz de fazer com 
que o jri acreditasse que ela matara o pai para evitar que ele a violasse, ou mesmo que a matasse. Ela era nova, bonita, vulnervel, e havia um inimitvel acento 
de verdade no que ele dizia. David e Molly acreditavam inteiramente nas palavras dela.
        O primeiro golpe foi quando lhes negaram que o julgamento se realizasse noutro stio. David fizera essa petio, alegando que Grace nunca poderia ser julgada 
com iseno em Watseka, pois as pessoas estavam decididamente a favor do pai dela. Os jornais tinham-se apoderado da narrativa dela, aumentando-a e alterando-a constantemente. 
Em Setembro, o que se lia dava a ideia de que ela era uma adolescente louca por sexo que durante meses planeara friamente a morte do pai para ficar com o dinheiro 
dele. O facto de no haver praticamente dinheiro algum parecia ter escapado  ateno da maior parte das pessoas. Havia quem lhe chamasse promscua e quem dissesse 
que ela assediava sexualmente o pai e o matara num acesso de cimes. David no conseguia imaginar como poderiam obter um veredicto correcto da parte de um jri daquela 
cidade, ou mesmo de outra qualquer.
        A escolha dos jurados levou uma semana e, devido  gravidade do caso, o juiz concordou, com o pedido de David, que os membros do jri ficassem em isolamento. 
O juiz era um homem idoso e duro, que gritava com toda a gente e que jogara muitas vezes golfe com o pai de Grace. Recusara-se a desqualificar-se para o julgamento, 
declarando que no tinham sido amigos ntimos e que se sentia capaz de ser imparcial. A nica coisa que encorajava David era o facto de, se no tivessem um julgamento 
justo, ou um veredicto favorvel, poderiam pedir a anulao, ou interpor recurso. Estava j a fazer planos para o futuro e encontrava-se seriamente preocupado.
        A acusao apresentou o caso e foi terrivelmente condenatria. Segundo eles, Grace planeara matar o pai no dia do funeral da me, para herdar o pouco que 
tinham antes que o pai voltasse a casar ou o gastasse. No fazia ideia de que no poderia herdar do pai se o matasse. As fotografias apresentadas como prova mostravam 
que o pai era um homem atraente e a acusao sugeriu repetidamente que Grace estava apaixonada pelo seu prprio pai. Afirmavam tambm que ela chegara ao extremo 
de o querer seduzir no dia do funeral da me, rasgando a camisa de noite e aparecendo-lhe nua, matando-o depois e indo ao ponto de o acusar de violao depois de 
ele estar morto. Havia provas de que ela tivera relaes sexuais nessa noite, explicaram, mas no se poderia provar que tivessem sido com o pai. Suspeitavam que 
ela sara de casa para se encontrar com algum, que o pai ralhara-lhe e ela tentara seduzi-lo. Como ele a repelira, matara-o.
        A acusao pedia um veredicto de crime premeditado, o que acarretaria uma pena de priso por tempo indeterminado, ou mesmo a pena de morte. O crime dela 
fora odioso, disse a acusao ao jri e s pessoas que enchiam a sala, incluindo jornalistas de todos os pontos do pas, e merecia ser punida com severidade. No 
poderia haver misericrdia para uma rapariga que matara o pai e em seguida quisera manchar a reputao dele para tentar salvar-se da priso.
        Era angustiante ouvir o que diziam sobre ela. Grace tinha a sensao de que falavam de outra pessoa enquanto as testemunhas se seguiam umas s outras sempre 
prontas a elogiar o pai dela. A maior parte das pessoas declarava ach-la tmida ou estranha. O scio do pai foi o pior de todos. Declarou que ela perguntara repetidamente 
quanto tinham gasto com a doena da me, e quanto deviam.
        - Limitei-me a dizer-lhe que o pai tinha bastante dinheiro. - Olhou para o jri com ar infeliz e acrescentou: - Acho que no o devia ter dito. Talvez ele 
ainda hoje estivesse vivo - concluiu olhando para Grace com ar reprovador, perceptvel para todos os que ali se encontravam, enquanto ela, horrorizada, o olhava.
        - Eu nunca lhe perguntei coisa alguma - disse em voz baixa para David, que se encontrava a seu lado. Custava-lhe a acreditar que Frank tivesse dito aquilo. 
Nunca lhe falara do pai nem de dinheiro.
        - Tenho a certeza que no - disse David preocupado. O tipo era um malandro e estava a tentar ver-se livre de Grace. David sabia agora que John Adams fizera 
um testamento dizendo que no caso da morte de Grace deixava tudo a Frank Wills. No era muito, mas David desconfiava de que seria mais do que Frank queria que se 
soubesse. Agora estava a fazer tudo para se certificar de que Grace nunca poderia vir a herdar coisa alguma. Se fosse ilibada, poderia ainda vir a herdar uma parte 
da herana. Frank Wills precisava de ter a certeza de que isso no sucederia.
        - Acredito em si - murmurou David em voz baixa. Mas o problema  que mais ningum iria acreditar. Porque o fariam? Ela prpria confessara ter morto o pai. 
E Frank Wills era uma testemunha convincente.
        A acusao acabou finalmente de apresentar as suas testemunhas e foi a vez de David apresentar testemunhas para falarem da personalidade e do carcter de 
Grace. Mas poucas pessoas a conheciam, apenas alguns professores e antigas colegas. Quase toda a gente dizia que a achava tmida e introvertida e David explicou 
que ela era assim exactamente por ter um segredo negro e viver uma vida de terror em casa. E quando chamou a depor o mdico que a examinara no hospital, ele descreveu 
minuciosamente a extenso dos danos que verificara.
        - Pode afirmar com segurana que Miss Adams foi violada? - perguntou a acusao.
        - Com certeza absoluta no. Isso  impossvel. Temos de nos basear at certo ponto nos relatos das vtimas. Mas posso afirmar que houve relaes sexuais 
violentas durante um longo perodo de tempo. Encontrei cicatrizes antigas e leses, juntamente com outras provas.
         - Esse gnero de leses poderiam dar-se com relaes sexuais normais, ou com algum violento ou mesmo degenerado? Por Outras palavras, se Miss Adams fosse 
masoquista ao ponto de gostar de ser punida pelos seus supostos namorados, isso daria os mesmos resultados? - perguntou o advogado de acusao, sem levar em conta 
o facto de nunca ningum lhe ter conhecido um nico namorado.
        - Sim, suponho que se ela gostasse de sexo violento, poderiam ocorrer os mesmos resultados. Mas tinha de ser muito violento mesmo - disse lentamente o mdico, 
e o advogado sorriu maldosamente para o jri. - Calculo que algumas pessoas gostam disso.
        David levantava constantemente objeces e teve um trabalho herico para combater a ideia da premeditao. Chamou Molly a depor e por fim a prpria Grace, 
que foi profundamente comovedora. Noutra cidade qualquer teria convencido at quem tivesse um corao de pedra, mas no ali. As pessoas de Watseka gostavam de John 
Adams e no queriam acreditar nela. As pessoas falavam do caso em toda a parte. Nas lojas, nos restaurantes. O assunto aparecia constantemente nos jornais. At a 
rede de televiso local dava informaes sobre o julgamento durante o noticirio e mostrava insistentemente o rosto de Grace. Era uma coisa que parecia no ter fim.
        O jri esteve reunido para deliberar durante trs dias e David, Molly e Grace esperaram, sentados na sala do tribunal. E quando se cansavam de esperar percorriam 
os corredores durante horas, com um guarda a caminhar calmamente atrs deles. Grace estava agora to habituada s algemas que mal dava por elas quando lhas punham, 
excepto quando lhas apertavam demasiado, de propsito. Isso sucedia geralmente com polcias que tinham sido amigos do pai. Grace sentia que seria uma sensao estranha 
se fosse ilibada e ficasse livre. Mas  medida que os dias passavam parecia-lhe cada vez menos provvel que isso viesse a suceder. Se ficasse livre partiria para 
muito longe dali, para esquecer, para viver como se nada tivesse sucedido. Mas David mostrava-se muito preocupado devido aos obstculos que no conseguira ultrapassar. 
Molly ficava sentada junto de Grace, tentava anim-la. Durante os ltimos dois meses, tinham-se tornado os trs verdadeiramente amigos. Eram os nicos amigos que 
Grace alguma vez tivera e aprendera a confiar neles e a apreci-los.
        O juiz informara o jri que podiam escolher um de quatro veredictos. Homicdio premeditado com inteno de matar, o que poderia acarretar pena de morte. 
Isto se eles achassem que ela planeara antecipadamente matar o pai, e sabia que os seus actos lhe provocariam a morte. Homicdio voluntrio, se ela tivesse de facto 
querido mat-lo, mas no premeditasse faz-lo, acreditando erradamente que tinha justificao para o matar por achar que ele lhe estava a fazer mal na altura. Esse 
veredicto poderia dar a Grace uma sentena at vinte anos de priso. Homicdio involuntrio seria se ele lhe estivesse a fazer mal e ela quisesse resistir-lhe ou 
causar-lhe danos fsicos, mas sem inteno de matar, embora depois lhe causasse a morte. O homicdio involuntrio acarretar-lhe-ia uma pena que poderia ir de um 
a dez anos de priso. E poderia ainda haver o veredicto de fora justificvel se acreditassem na histria dela de que ele a violara nessa noite e que o fizera nos 
quatro anos anteriores, e que ela se defendera dos ataques potencialmente para a sua vida inteira feitos  sua pessoa. David dirigira-se ao jri de um modo impressionante, 
pedindo justia na forma de um veredicto de "fora justificvel" para aquela jovem inocente que tanto sofrera e tivera uma vida de tortura nas mos dos pais. Fizera 
com que Grace contasse tudo ao jri. Era a sua nica esperana de salvao.
        Foi numa tarde de fins de Setembro que o jri chegou finalmente a uma deciso e Grace quase desmaiou ao ouvir o veredicto.
        O representante do jri ergueu-se solenemente e anunciou que haviam chegado a um veredicto: tinham-na considerado culpada de homicdio voluntrio. Achavam 
que John Adams lhe fizera qualquer coisa, embora no soubessem bem o qu e no acreditavam que a tivesse violado, nessa ocasio ou noutra qualquer. Mas provavelmente 
magoara-a e as duas mulheres do jri haviam insistido que os homens bons tambm tem por vezes segredos escuros. As dvidas que elas tinham chegaram para que no 
aceitassem o homicdio premeditado e a pena de morte. Mas o passo seguinte era o homicdio voluntrio e foi disso que acusaram Grace. Acreditavam, como o juiz lhe 
explicara, que Grace julgara falsamente e a residia a chave de ela ter morto o pai. Devido  reputao irrepreensvel que o pai adquirira naquela comunidade, ningum 
foi capaz de aceitar que o pai lhe tivesse feito realmente mal, mas pensavam que Grace julgava isso, embora incorrectamente. Homicdio voluntrio incorria numa sentena 
que podia atingir os vinte anos de priso, segundo o critrio do juiz.
        Por fim, devido  extrema juventude de Grace e ao facto de ela ter acreditado que o seu crime fora justificvel para sua defesa, o juiz condenou-a a dois 
anos de priso e dois anos de liberdade condicional. Considerando as possibilidades foi quase uma ddiva, mas ao ouvir as palavras do juiz e ao tentar compreend-las, 
Grace teve a sensao de ir ficar presa toda a vida. De certo modo, pensava que seria mais fcil se a condenassem  morte. O juiz concordara tambm em selar os registos 
do caso, devido  idade dela e na esperana de que isso no viesse a prejudicar a sua vida quando sasse da priso.
        Grace no podia deixar de pensar no que lhe iria suceder agora. Que lhe iriam fazer? Enquanto ali estivera presa, na esquadra, apanhara ocasionalmente sustos 
com mulheres que a ameaavam, ou lhe tiravam as revistas ou a pasta dentfrica que Molly lhe levava e Frank Wills concordara relutantemente em dar-lhe algumas centenas 
de dlares do dinheiro que o pai deixara, a pedido de David.
        No entanto, ali as mulheres entravam e saam e ela nunca se sentira verdadeiramente em perigo. Era ela que se encontrava ali com mais demora e sob as piores 
acusaes. Mas a penitenciria iria estar cheia de mulheres verdadeiramente criminosas. Fitou o juiz de olhos secos e uma expresso de desgosto. Sentia que a vida 
dela de h muito se perdera. Nunca tivera uma oportunidade. Para Grace estava tudo acabado. Molly viu tambm esse olhar e apertou-lhe a mo. Grace saiu da sala do 
tribunal algemada e com ferros a prenderem-lhe os ps. Agora j no era apenas uma acusada. Era uma condenada.
        Nessa noite, Molly foi visit-la  priso antes de a transferirem para o Dwight Correctional Center na manh seguinte. Pouco lhe podia dizer, mas no queria 
que Grace desanimasse, que perdesse a esperana. Um dia haveria uma nova vida para ela: devia aguentar-se at l. David foi tambm visit-la e encontrava-se fora 
de si com a sentena. Censurava-se por no ter conseguido salv-la, mas ela no o fazia. A vida dela era mesmo assim. Prometera apelar e estava j a tratar disso. 
Telefonara a Frank Wills e fizera com ele um acordo inusitado: pressionado por David, Wills concordara em dar a Grace cinquenta mil dlares do dinheiro deixado pelo 
pai, em troca de ela concordar em nunca mais voltar a Watseka, nem interferir com ele fosse como fosse, nem com aquilo que ele herdara do pai dela. Estava j a fazer 
planos para se mudar para a casa deles nas semanas seguintes e disse a David que no queria que ela soubesse disso.        Achava que era uma coisa que no lhe dizia 
respeito a ela. No queria sarilhos e tencionava ficar com todo o recheio da casa, incluindo as moblias. Tinha j deitado fora quase todas as coisas de Grace e 
s lhe oferecia os cinquenta mil dlares se ela se mantivesse afastada para sempre. No queria aborrecimentos nem querelas com ela, mais tarde. David concordara 
em nome dela, sabendo que mais tarde, quando estivesse livre, Grace iria precisar do dinheiro. Era agora a nica coisa que ela possua.
        Molly tentou desesperadamente encoraj-la quando se foi despedir de Grace.
        - No pode desistir. No pode. J chegou at aqui e h-de fazer o resto do caminho. Dois anos no so uma vida inteira. Ter vinte anos quando a libertarem. 
Ser a altura certa para comear uma vida nova e deitar tudo isto para trs das costas. - David disse-lhe a mesma coisa. Ela devia aguentar-se e manter-se o mais 
segura possvel na priso. Mas todos eles sabiam que no seria fcil.
        Grace tinha de ser forte; no havia outra alternativa. Mas fora forte durante muito tempo e por vezes desejara no ter sobrevivido. Estar morta devia ser 
mais fcil do que passar por tudo quanto ela passara e passaria na priso. Disse isso mesmo a Molly, acrescentando que desejava ter disparado sobre si prpria e 
no sobre o pai. Teria sido muito mais simples.
        - Que disparate! - exclamou a jovem psiquiatra, comeando a andar de um lado para o outro, nervosamente. - No diga uma coisa dessas! Com certeza que no 
se vai deixar desanimar agora. Tem dois anos disto na sua frente. Mas dois anos no so uma vida inteira. E podia ser pior. Assim sabe exactamente quando tudo acabar. 
Com o seu pai nunca podia ter a certeza.
        - Mas como ir ser? - perguntou Grace com uma expresso de terror nos olhos e as lgrimas a correrem-lhe pelas faces. Molly daria tudo para poder alterar 
as coisas para Grace, mas naquele momento nada mais era possvel fazer. Apenas lhe podia oferecer o seu apoio e a sua amizade. Ela e David tinham-se tornado extremamente 
amigos de Grace. Falavam a respeito dela durante horas, revoltados contra todas as injustias de que fora vtima. E agora teria de suportar mais provaes. Tinha 
de ser muito forte. Molly apertou-a nos braos enquanto ela chorava, rezando ao mesmo tempo para que Grace tivesse foras para resistir. Tremia s de pensar o que 
ela poderia ter de suportar.
        - Ir visitar-me? - perguntou Grace com uma voz mal audvel, enquanto Molly tentava incutir-lhe coragem, passando-lhe um brao em volta dos ombros. Ultimamente 
falava constantemente dela. At Richard estava cansado de a ouvir falar da jovem, e o mesmo se passava com os colegas e amigas de Molly. Como David, a psiquiatra 
estava obcecada por Grace e s ele parecia compreender o que ela sentia.
        As injustias que ela sofrera durante tanto tempo, o desgosto e agora o perigo que a rodeava eram uma preocupao constante para David e Molly. Sentiam-se 
como se fossem os pais dela.
        Molly tambm chorou quando a deixou e prometeu ir visit-la no fim-de-semana. David planeava j reservar um dia para a ir ver, para falar sobre a apelao 
e certificar-se de que ela se encontrava o melhor possvel. No lhe parecia que a priso para onde ela ia fosse um stio agradvel e, como Molly, seria capaz de 
fazer tudo para alterar isso. Mas os seus esforos no tinham sido suficientes para a libertar. Por mais que eles tivessem porfiado, no haviam conseguido que ela 
fosse ilibada. A verdade  que tudo se conjugara contra a jovem.
        - Obrigada por tudo - disse Grace calmamente a David, na manh seguinte, quando ele se despediu dela, s sete horas. - Fez tudo quanto podia. Obrigada - 
disse ela com um sorriso plido, beijando-o na face, quando ele a abraou, desejando-lhe que se mantivesse calma e conseguisse ultrapassar sem grandes problemas 
Os seus dois anos de priso. Sabia que se ela quisesse conseguiria. Havia na jovem uma grande fora interior. Isso mantivera-a s durante os anos de pesadelo que 
vivera com os pais.
        - Queria ter feito mais - disse tristemente David. Mas pelo menos no fora acusada de homicdio em primeiro grau. No suportaria que ela tivesse sido condenada 
 morte. E, ao olh-la, apercebeu-se de uma coisa que nunca se atrevera a pensar antes: se ela tivesse mais de dezoito anos ter-se-ia apaixonado por ela. Grace era 
uma pessoa que tinha algo de belo e de forte oculto dentro de si, e isso atraa-o como um man. Mas sabendo o que ela passara e como era jovem, no podia deixar 
que os seus sentimentos se desencadeassem e forava-se a pensar nela como numa irm mais nova.
        - No se preocupe comigo, David. Ficarei bem - disse com um calmo sorriso, desejando que ele se sentisse melhor. Sabia que uma parte dela h muito que morrera 
e que o que restava teria de se aguentar at que uma fora mais alta decidisse que a sua vida estava acabada. Morrer seria muito fcil para Grace porque tinha muito 
pouco a perder, muito pouco por que viver. Mas, bem no fundo de si prpria, sentia que tinha obrigao de sobreviver por causa de Molly e de David. Eles tinham feito 
muito por ela. Pela primeira vez na vida, sentira a presena de pessoas amigas, de pessoas que tudo queriam fazer para a ajudar. No os podia deixar ficar mal. No 
podia desistir de viver, pelo menos por causa deles.
        Antes de a levarem, Grace tocou ao de leve num brao de David e por breves instantes ele olhou-a como se visse nela um halo de santidade. Aceitara o seu 
destino com uma dignidade muito para alm da sua pouca idade. Achou-a estranhamente bela quando a viu afastar-se, algemada. Grace voltou-se uma vez para dizer adeus 
e ele ficou a v-la com os olhos enevoados pelas lgrimas que lhe corriam lentamente pelas faces  medida que ela se distanciava.

CAPTULO 4

        As 8 horas meteram-na na carrinha da priso, algemada e com ferros nas pernas. Tratava-se de mera rotina transferir os detidos daquela maneira, no era nada 
de especial em relao a ela. E, estranhamente, Grace percebera que logo que os guardas tinham um preso acorrentado, deixava de ser para eles uma verdadeira pessoa. 
Era o que se passava com ela. No havia ali ningum para lhe dizer adeus, para lhe desejar boa sorte. Claro que Molly fora despedir-se dela na vspera  noite, e 
David estivera ali nessa manh. Agora os guardas deixavam-na partir sem uma palavra. Ela no lhes dera trabalho, mas no passava de uma condenada como outra qualquer, 
um rosto que em breve esqueceriam, no meio da srie contnua de criminosos que por ali passavam.
        O nico facto notvel nela, no que dizia respeito aos guardas, era que a sua histria fora relatada nos jornais. Mas, essencialmente, nada havia de especial: 
matara o pai,  certo, mas muitos outros o tinham feito. Achavam que ela tivera sorte em no ter sido condenada por homicdio em primeiro grau. Mas sorte era uma 
coisa que Grace tivera pouco.
        O percurso de Watseka a Dwight demorou hora e meia. Os solavancos faziam agitar as algemas e os ferros que lhe prendiam os ps e isso magoava os tornozelos 
e os pulsos da jovem. Foi uma viagem desconfortvel para um destino assustador. Grace foi sozinha durante a maior parte do caminho, at que uma hora antes de chegarem 
a Dwight receberam mais quatro mulheres de uma priso local e uma delas foi acorrentada ao lugar ao lado de Grace. Era uma rapariga de ar rude, uns cinco anos mais 
velha que Grace, e olhou-a com interesse.
        - J alguma vez estiveste em Dwight? - Grace abanou a cabea, no se sentindo nada disposta a iniciar uma conversa. Sempre pensara que quanto mais isolada 
ficasse melhor seria. - Por que motivo aqui ests? - A outra ia direito ao assunto e, enquanto lhe fazia as perguntas, ia avaliando Grace. Logo que a viu percebeu 
que ela nunca estivera presa e que era pouco provvel que sobrevivesse  priso. - Que idade tens, garota?
        - Dezenove - mentiu Grace, aumentando um ano, esperando convencer a inquisidora de que era uma adulta.
        - Andas a brincar s raparigas crescidas, no? Que roubaste? Alguns rebuados?
        Grace limitou-se a encolher os ombros e durante um bom bocado ficaram silenciosas. Mas no havia nada para ver, ou para fazer. As janelas estavam tapadas 
para no poderem ver para fora e ningum as ver a elas.
        - Leste alguma coisa sobre a grande apreenso de droga em Kankakee? - perguntou a rapariga observando Grace. Esta no representava nenhum mistrio, era mais 
ou menos aquilo que aparentava ser: uma rapariga muito nova e deslocada ali. Mas o que a outra no podia saber era o que Grace sofrera para estar ali. O rosto de 
Grace no deixava transparecer coisa alguma, o que restava da sua alma ficara fechado quando deixara David e Molly. E agora ningum podia ver para dentro dela. Pretendia 
manter-se assim e, com sorte, deix-la-iam em paz na priso.
        Ouvira contar relatos horrorosos a respeito de violaes e esfaqueamentos, enquanto se encontrava na priso, mas forou-se a no pensar nisso nesse momento. 
Se conseguira conservar-se viva durante os quatro ltimos anos, tambm poderia sobreviver mais dois anos. Algo daquilo que Molly e David lhe tinham dito dera-lhe 
esperana e apesar de todas as misrias da sua vida queria continuar a viver, pelo menos por causa deles. Agora era diferente. Algum se importava com ela. Tinha 
dois amigos, os primeiros da sua vida. Eram seus aliados.
        - No, no li nada acerca disso - disse calmamente Grace. A outra encolheu os ombros, aborrecida. Tinha o cabelo pintado de louro muito claro que parecia 
ter sido cortado por um serrote junto dos ombros e que h dcadas no vira um pente. Os seus olhos eram frios e duros, como Grace reparou quando ela a fitou, e tinha 
braos fortes e musculosos.
        - Eles quiseram obrigar-me a contar o que sabia sobre os "grandes", mas eu no sou nenhuma delatora. Tenho integridade, sabes? Alm disso, no quero que 
eles me apanhem em Dwight e me dem cabo do canastro. Percebes o que quero dizer? - A pronncia dela era de Nova Iorque e mostrava ser aquilo que Grace esperava 
encontrar na priso. Mostrava-se zangada e dura, mas apesar de parecer saber bem tomar conta de si prpria, estava ansiosa por falar e comeou a contar a Grace que 
ajudara a construir um ginsio e que trabalhara na lavandaria a ltima vez que estivera presa. Contou que assistira a duas fugas durante a sua permanncia na priso, 
mas que todas as mulheres tinham sido apanhadas um dia depois de terem fugido. - No merece a pena, obrigam-nos a ficar presas mais cinco anos, de cada vez que tentamos 
fugir. Quanto tempo apanhaste? Desta vez deram-me pouco tempo. Daqui a nada estou l fora. - Cinco anos... dez... pareciam toda uma vida para Grace, que a ouvia.
        - Dois anos - disse Grace sem acrescentar qualquer outra informao. Parecia-lhe muito tempo, embora fosse realmente menos que dez, ou que tivesse apanhado 
com outro veredicto.
        - Isso no  nada, pequena. Sais num abrir e fechar de olhos. Ento... - sorriu e Grace reparou que lhe faltavam dentes dos lados da boca. - Ento s uma 
virgem, no?
        Grace olhou-a nervosamente ao ouvir a pergunta.
        - Esta  a tua primeira vez, no ? - Ela era realmente uma novata e a ideia divertiu-a. Era a terceira vez que estava em Dwight e tinha apenas vinte e trs 
anos. A sua vida fora sempre muito atarefada. - Que tens feito? Roubos? Roubo de carros? Trfico de drogas?  o que eu tenho feito. Tomo cocana desde os nove anos. 
Comecei em Nova Iorque, quando tinha onze anos. Passei algum tempo numa casa de correco para menores. Era um stio terrvel. Estive l quatro vezes. Depois vim 
para aqui. - Passara quase toda a vida presa. - Dwight no  mau. - Falava da priso como se fosse um hotel para onde ia voltar. - H l algumas boas raparigas, 
e alguns bandos tambm, essa merda da Irmandade Ariana.  preciso cuidado com elas e tambm com algumas negras, que as odeiam. No te metas com elas e no ters 
problemas.
        - E voc? - Grace olhou-a com interesse. A outra era um fenmeno que h trs meses ela no fazia ideia de que pudesse existir. - Que faz quando l est? 
- Cinco anos na priso devia ser uma eternidade. Devia haver alguma coisa para fazer alm de aprender a fazer vassouras e chapas de identificao, o que era menos 
til. Se houvesse alguma possibilidade disso, Grace gostaria de tirar um curso por correspondncia de alguma universidade local.
        - No sei o que farei - disse a outra. - No tenho nada de especial a fazer. Tenho uma amiga que est l desde Junho. ramos muito ntimas at eu ser apanhada.
        - Isso deve ser bom para si. - Devia ser bom ter ali uma amiga.
        - Sim,  isso mesmo. - A outra riu e finalmente apresentou-se dizendo que se chamava Angela Fontino. As apresentaes eram raras na priso. -  verdade que 
o tempo passa mais depressa quando se tem uma coisinha fofa  nossa espera na cela, quando voltamos de trabalhar na lavandaria. - Eram histrias daquelas que Grace 
ouvira contar e que a apavoravam. Disse que sim com a cabea e no prosseguiu a conversa, mas Angela estava claramente divertida com a timidez de Grace. Gostava 
de arreliar as novatas. Estivera tantas vezes em casas de correco no decorrer dos anos, que se tornara muito verstil sobre a sua vida sexual. Havia at alturas 
em que preferia que fosse dessa maneira.
        - Isto parece-te muito ordinrio, no , pequena? Angela, sorriu mostrando os dentes que faltavam em toda a sua glria. - Uma pessoa habitua-se a tudo. Espera 
um pouco e ao fim dos dois anos at podes achar que gostas mais de mulheres. - Grace no podia dizer coisa alguma. No a queria encorajar nem insultar. E ento Angela 
soltou uma gargalhada, ao mesmo tempo que tentava esfregar os pulsos magoados pelas algemas. - Oh, meu Deus, talvez tu sejas mesmo virgem, no ? Se nunca tiveste 
um tipo, talvez nunca precises de abanar o rabinho para arranjares um e te fiques por aqui. No  nada mau.
        Sorriu e Grace sentiu o estmago revoltado. Recordou-se das tardes em que tinha de voltar para casa sabendo o que lhe estava reservado para a noite. Seria 
capaz de tudo para no ter de ir para casa, mas sabia que precisava de tratar da me, e sabia o que sucederia. Agora sentia o mesmo. No podia escapar. Seria violada 
por elas? Ou apenas usada, como fora pelo pai? E como poderia lutar contra elas? Se fossem dez ou doze, ou mesmo duas, que probabilidades teria? O seu corao apertou-se 
ao pensar nisso e na promessa que fizera a Molly e a David de ser forte e de sobreviver. Faria o que pudesse, mas se as coisas se tornassem demasiado insuportveis... 
e se... olhou desanimadamente para o cho enquanto iam saindo da estrada e passavam pelos portes do Dwight Correctional Center. As detidas gritavam e batiam com 
os ps e Grace permanecia imvel, olhando em frente e pensando naquilo que Angela lhe dissera.
        - Pronto, menina, estamos em casa! - Angela sorriu-lhe. - No sei onde te vo pr, mas havemos de nos encontrar dentro de pouco tempo. Hei-de apresentar-te 
s pequenas. Elas vo adorar-te. - Piscou um olho a Grace e ela sentiu-se arrepiar.
        Dois minutos depois, eram conduzidas para fora do carro e Grace, quando se ps de p, mal podia andar.
        O que estava na sua frente era um edifcio sombrio, com uma torre de vigia e uma aparentemente infindvel sebe de arame farpado, por detrs da qual se encontrava 
um mar de mulheres sem rosto, vestindo o que lhe pareceu serem pijamas de algodo azul. Sabia que se tratava de um uniforme, mas no teve tempo de ver mais coisa 
alguma, pois foram imediatamente empurradas para dentro, percorreram um longo corredor, passaram por vrios portes e pesadas portas, arrastando as correntes, com 
os pulsos ainda a arder dos ferros das algemas.
        - Bem-vindas ao paraso - disse sarcasticamente uma das mulheres, enquanto trs corpulentas guardas negras as empurravam para o porto seguinte sem uma palavra.
        - Obrigada, estou encantada por estar de volta. Muito prazer em conhec-la... - continuou, enquanto as outras riam.
        -  sempre assim quando aqui chegamos - disse uma prisioneira negra a Grace, em voz baixa. - Tratam-nos como bosta nos primeiros dois ou trs dias e depois 
deixam-nos em paz. S querem que a gente perceba quem  que manda.
        - Sou eu! - disse uma corpulenta negra. - Se tocarem no meu grande traseiro negro, eu chamo o NAACP, a Guarda Nacional, o presidente. Conheo os meus direitos. 
No quero saber se sou prisioneira ou no, no me pem as mos em cima. - Devia ter mais de um metro e oitenta e pesar uns oitenta quilos. Grace no conseguia imaginar 
algum a for-la a fazer fosse o que fosse, mas sorriu da expresso da rapariga ao dizer aquilo.
        - No ligues ao que ela diz - disse outra negra. Grace sentia-se surpreendida por tantas prisioneiras se mostrarem amigveis. No entanto pairava ali um ar 
de ameaa. As guardas estavam armadas, e havia letreiros por toda a parte avisando de perigos, castigos e punies por tentativas de fuga, ataques aos guardas, ou 
infraces s regras. E as detidas que chegavam tinham mau aspecto, principalmente envergando o que restava das suas roupas. Grace vestia umas calas de ganga novas 
e uma camisola azul-clara que Molly lhe oferecera. S esperava que as autoridades lhe deixassem conservar essa roupa.
        - Pronto, meninas! - Ouviu-se um apito estridente e as guardas uniformizadas, empunhando armas, alinharam-nas  entrada da sala, parecendo treinadoras de 
uma equipa feminina. - Dispam-se. Ponham tudo quanto trazem no cho aos vossos ps. Dispam-se completamente. - O apito soou outra vez para as mandar calar e a guarda 
que apitara apresentou-se como sendo a sargento Freeman. Havia guardas negras e guardas brancas, o que era bem representativo da mistura da populao prisional.
        Grace tirou cuidadosamente a camisola e dobrou-a, colocando-a no cho. Uma das guardas tinha-lhes tirado as algemas e o crculo de ferro em volta da cintura 
onde estavam presos os ferros que lhes prendiam os ps, para que elas pudessem despir as calas. Era um grande alvio tirar os ferros das pernas e Grace descalou 
os sapatos. Ficou surpreendida quando o apito soou outra vez e uma das guardas disse-lhes para tirarem tudo o que tinham no cabelo, quer fossem ganchos ou elsticos. 
Deviam ficar com o cabelo solto e, quando Grace tirou o elstico que lhe prendia o longo rabo-de-cavalo, o cabelo louro caiu-lhe pelas costas.
        - Bonito cabelo - disse uma mulher atrs dela, e Grace no se voltou para ver quem falara. Sentia-se mal ao saber que a outra a observava enquanto ela se 
despia. Poucos minutos depois as roupas de todas encontravam-se em pequenos montculos no cho, juntamente com algumas jias, culos e acessrios. As mulheres ficaram 
completamente nuas, enquanto seis guardas caminhavam entre elas, examinando-as e dizendo-lhes que afastassem as pernas, erguessem os braos e abrissem a boca. As 
mos de uma das guardas revistaram-lhe o cabelo para ver se tinha alguma coisa ali escondida. Em seguida meteu-lhe um pau na boca e obrigaram-na a saltar para ver 
se caa alguma coisa que ela tivesse ocultado em qualquer stio. Depois as mulheres formaram uma fila e, uma a uma, tiveram de se deitar numa marquesa, onde as vaginas 
foram observadas para verem se tinham algo escondido ali. Grace no podia crer que fosse obrigada a fazer aquilo, mas no podia seno obedecer. Uma das raparigas, 
assustada, quis recusar-se a ser examinada, mas disseram-lhe que se no obedecesse seria amarrada para fazer o exame e que depois iria para o segredo, uma cela escura, 
onde ficaria sozinha e nua.
        - Bem-vindas ao pas das fadas - disse uma voz familiar. - Isto  agradvel, no acham?
        - Cala-te, Valentine. H-de chegar a tua vez.
        - Vai dar uma curva, Hartman. - As duas eram amigas.
        - Quem me dera. Queres espreitar quando for a minha vez?
        O corao de Grace batia desordenadamente quando se estendeu na marquesa, mas tratava-se apenas de um exame, que no era pior do que aquilo por que ela j 
passara. Era apenas humilhante por ser feito diante de tanta gente e meia dzia das outras mulheres pareciam observ-la com interesse.
        -  muito gira, queridinha.. queres brincar aos mdicos?... tambm posso espreitar? - Ela fingiu no ouvir e seguiu as outras que se dirigiam em fila para 
o outro lado da sala, onde ficaram  espera de instrues.
        Foram conduzidas ento para a sala do duche, onde as regaram com mangueira com gua quase a ferver. Usaram imsecticidas em todas as areas pilosas do corpo 
e pulverizaram-nas com champ para piolhos, apontando de novo as mangueiras para cima delas. No fim ficaram a cheirar a produtos qumicos e Grace tinha a sensao 
de ter sido fervida em desinfectante.
        Os haveres delas foram colocados em sacos de plstico com os seus nomes e guardados. Alguma coisa proibida tinha de ser enviada para fora a expensas delas 
ou destruda ali mesmo, como as calas de Grace, mas ficou satisfeita por lhe ser permitido guardar a camisola. Deram-lhes ento uniformes, um par de lenis speros, 
muitos deles com manchas de sangue e de urina. Entregaram-lhes tambm um pedao de papel com o nmero da cela e os nmeros delas. Seguidamente, foram levadas para 
outra sala, onde uma guarda lhes deu as indicaes necessrias. Na manh seguinte deviam apresentar-se no trabalho que lhes fosse distribudo. Conforme fosse esse 
trabalho, receberiam entre dois e quatro dlares por ms. A falta de comparncia no trabalho acarretaria uma visita imediata  solitria durante uma semana. Uma 
segunda falta e a estada na solitria seria de um ms. A falta de cooperao geral resultaria na permanncia de seis meses na solitria, sem ter nada que fazer nem 
ningum com quem falar.
        - Tornem as coisas fceis para vocs - disse a guarda encarregada da orientao. - Faam o nosso jogo.  a nica maneira de proceder em Dwight.
        - Tretas! - murmurou algum do lado direito de Grace. Mas era impossvel dizer quem falara. Era uma voz incorprea.
        De certo modo, faziam com que as coisas parecessem simples. Tudo quanto precisavam de fazer era obedecer: comparecer no trabalho e nas refeies, no se 
meterem em sarilhos, voltarem para as celas a tempo e tudo correria bem. Mas lutarem umas com as outras, pertencerem a bandos, ameaarem uma guarda, infringir as 
regras, significaria aumentar as penas. Se tentassem escapar, no seriam mais que "carne morta sobre a sebe", como disse explicitamente a guarda. Falavam com bastante 
clareza, era certo, mas no era to fcil como elas faziam parecer. Era preciso conviver com as outras detidas e elas pareciam to duras como as guardas ou ainda 
mais, e tinham uma agenda totalmente diferente.
        - E que h sobre estudar? - perguntou uma voz l atrs, enquanto as outras troavam.
        - Que idade tens? - perguntou a detida que se encontrava junto dela com ar desdenhoso.
        - Quinze anos. - Era outra menor, como Grace, que fora julgada como uma adulta, mas eram raras ali. Dwight era uma priso de mulheres adultas e os crimes 
de que elas eram acusadas eram certamente de adultas. Como Grace, essa rapariga fora acusada de homicdio e s no fora condenada  morte por ter declarado tratar-se 
de legtima defesa. Matara um irmo depois de ele a ter violado. Mas agora queria estudar e sair do gueto.
        - J estudaste bastante - disse a mulher que se encontrava ao lado dela. - Para que queres mais estudos?
        - Podes pedir para estudar depois de fazer aqui noventa dias - explicou a guarda, prosseguindo logo a seguir com as explicaes do que lhes sucederia se 
alguma vez tomassem parte numa sublevao. S de pensar nisso sentia o corao apertado. A guarda explicou que durante a ltima sublevao tinham sido mortas quarenta 
e cinco detidas. E se ela fosse apanhada no meio da desordem, sem se ter metido em coisa alguma? E se fosse morta por outra prisioneira ou por uma guarda? Como poderia 
sobreviver a uma coisa dessas?
        Quando finalmente conduziram as detidas para as celas, Grace sentia a cabea  roda. Seguiam em fila indiana, vigiadas por meia dzia de guardas e apupadas 
pelas detidas que se amontoavam junto s grades para as ver passar e as olhavam rindo e gritando.
        - Eh, olha para as novatas... yani, yam! - Atiravam beijos, gritavam, e a rapariga que ia  frente de Grace apanhou at com um Tampax, o que fez com que 
Grace quase vomitasse. Era um lugar como Grace nunca sonhara que pudesse existir. Era o pior pesadelo tornado realidade. Uma viagem ao inferno de onde Grace no 
imaginava poder regressar. Tinha ainda o cheiro do insecticida na cara e nos cabelos e quando parou junto da cela que lhe fora destinada comeou a sentir os sintomas 
de uma crise de asma.
        - Adams, Grace, B duzentos e catorze. - A guarda abriu a porta, fez-lhe sinal para entrar e logo que o fez Grace ouviu a chave girar na fechadura. Encontrava-se 
encerrada num espao que devia ter apenas uns trs metros quadrados, com um beliche, e as paredes estavam cobertas com fotografias de mulheres nuas. Havia recortes 
da Playboy e da Hustier e de revistas que Grace no fazia ideia que mulheres pudessem ler, mas que ali liam. Ou que pelo menos a sua companheira de cela lia. O beliche 
de baixo estava muito bem feito e com mos trmulas Grace comeou a fazer a cama de cima. Colocou a sua escova de dentes numa prateleira existente junto da cama, 
juntamente com o copo de papel que lhe fora dado, e a pasta dentfrica. Fora-lhe dito que tinha de comprar os cigarros e a pasta, mas Grace no fumava. No o podia 
fazer por causa da asma.
        Quando a cama ficou feita, Grace subiu para l e sentou-se, olhando para a porta, pensando no que se iria passar a seguir e como iriam ser as coisas quando 
chegasse a sua companheira de cela. Era bvio que as suas preferncias iam para as mulheres das fotografias e Grace preparou-se para o pior. Ficou por isso surpreendida 
ao ver entrar, duas horas mais tarde, uma mulher de expresso azeda, que devia ter perto de cinquenta anos. A recm-chegada olhou de relance para Grace e no pareceu 
impressionada com a beleza dela. S passada uma boa meia hora  que lhe disse ol e acrescentou que se chamava Sally.
        - No quero porcarias aqui - declarou peremptoriamente. - Nem drogas nem visitas de bandos nem pornografia nem nada. Estou aqui h sete anos, tenho as minhas 
amigas e mantenho a cara lavada. Faa o mesmo e tudo correr bem, mas se me causar problemas dou-lhe um pontap que a fao ir parar ao bloco D. Est a entender?
        Grace disse que sim, ofegante. Comeara a sentir o peito cada vez mais oprimido desde essa manh e por volta da hora do jantar mal podia respirar. Tinham-lhe 
tirado o inalador, juntamente com as outras coisas, e a respirao tornara-se cada vez mais ofegante.
        - Se precisa de ajuda, chame uma guarda - disse Sally. Mas Grace no queria chamar as atenes sobre si, a no ser que se visse mesmo forada a isso. Preferia 
morrer do que faz-lo. Mas quando o apito chamou para o jantar e Grace saiu do seu beliche, Sally viu que ela estava realmente aflita.
        - Oh, cus... parece que me trouxeram um beb para aqui. Olhe, eu no gosto de crianas, nunca gostei, nunca quis ter nenhuma. E agora tambm no quero. 
Tem de tomar conta de si prpria.
        Enquanto Sally vestia uma blusa limpa, Grace reparou que as costas e os braos dela estavam cobertos com tatuagens, mas de certo modo isso era um alvio 
para a jovem.
        - Estou bem... na verdade... - murmurou, mal conseguindo falar. Lutava desesperadamente com falta de ar. Precisava do inalador e no o tinha.
        - Claro que est. Mas sente-se. Eu vou tratar disso... por esta vez... - Mostrou-se muito aborrecida enquanto abotoava a camisa, mas continuou a observar 
Grace, que estava cada vez mais plida, enquanto a guarda abria a porta para o jantar. Sally fez-lhe sinal antes de ela se poder afastar e apontou para Grace, que 
se encontrava de p a um canto. - A pequena est a ter um pequeno problema - disse calmamente. - Creio que  asma ou coisa parecida. Posso lev-la  enfermaria?
        - Claro, se quiseres, Sally. Pensas que ela est a fingir? - Mas quando olharam para ela outra vez, viram que Grace estava cinzenta e era bvio que o seu 
problema era real. At os lbios estavam ligeiramente azulados. -  muito simptico da tua parte fazeres de enfermeira, Sally - gracejou a guarda. Sally era conhecida 
por ser uma das mulheres mais duras da priso. Ningum se metia com ela. Fora condenada por dois assassnios. Matara a namorada e a mulher com quem ela a enganara. 
"Isso faz com que as pessoas fiquem a saber como eu penso", costumava ela dizer s mulheres com quem se envolvia. Mas tinha a mesma amante no bloco C h trs anos 
e toda a gente sabia que era como se fossem casadas e ningum se atrevia a arreliar Sally.
        - Vamos - disse para Grace, falando-lhe por cima do ombro e empurrando-a depois para fora da cela com ar aborrecido. - Vou lev-la  enfermaria, mas no 
volte a fazer-me isto. Se tiver um problema, resolva-o. No lhe vou limpar o rabinho s por ser minha companheira de cela.
        - Lamento - disse Grace, com os olhos cheios de lgrimas. No tinha sido um bom comeo e a mulher estava visivelmente zangada com ela. Pelo menos era o que 
Grace pensava. No sabia que a mulher estava com pena dela. Era bvio, mesmo para ela, que Grace estava deslocada naquele ambiente.
        Cinco minutos depois, deixava Grace com a enfermeira. Esta deu-lhe oxignio e por fim resolveu devolver-lhe o inalador. A rapariga ia causar muitos problemas 
se no o tivesse. Mas dessa vez teve de lhe dar outros medicamentos, porque a crise avanara muito na ltima meia hora. Grace sabia muito bem que sem o medicamento 
morreria com falta de ar. Mas naquela altura no estava completamente convencida de que isso no fosse uma bno.
        Chegou ao jantar com meia hora de atraso, abalada e plida, quando a maior parte da comida havia desaparecido. S restava gordura, ossos e molho, aquilo 
que ningum quisera. De qualquer modo, Grace no tinha fome. As crises de asma deixavam-na ficar sempre trmula e agoniada. Sentia-se demasiado perturbada para ter 
vontade de comer. Queria agradecer a Sally t-la levado  enfermaria, mas no se atreveu afalar com ela quando a viu com um grupo de mulheres mais velhas, de aspecto 
duro e cobertas de tatuagens. Sally tambm no deu sinais de a reconhecer.
        - Que vai comer? Filet mignon ou pato assado? - perguntou uma bonita rapariga negra que se encontrava atrs do balco, mas depois sorriu para Grace. - Tenho 
ali duas fatias de pizza guardadas. Est interessada?
        - Sim, obrigada - Grace sorriu, parecendo exausta. - Muito obrigada. - A rapariga entregou-lhe um prato com a pizza.
        Grace sentou-se num lugar vazio a uma mesa onde estavam outras trs raparigas. Ningum a cumprimentou ou pareceu dar por ela. Reparou que Angela se encontrava 
do outro lado da sala, conversando animadamente com um grupo de mulheres. Grace sentiu-se satisfeita por ningum falar com ela e poder comer a sua pizza descansada. 
Ainda estava a sentir dificuldade em respirar.
        - Oh, oh, que bela peixinha tens  tua mesa hoje! - disse uma voz atrs dela, enquanto Grace bebia o caf. A jovem no se mexeu quando ouviu as palavras, 
mas sentiu-se agarrada por trs. Tentou fingir que no sabia o que se estava a passar e continuou a olhar em frente, mas percebeu que as outras raparigas que estavam 
 mesa se sentiam nervosas. 
        - Ento ningum fala aqui? Mas que grupo de cabras malcriadas!
        - Com licena - murmurou uma das outras, levantando-se e afastando-se rapidamente. De repente, Grace sentiu um corpo quente comprimir-se contra as suas costas. 
Agora no podia fingir que no sentia. Inclinou-se para a frente e depois voltou-se e viu uma mulher muito alta e loura com uma figura espectacular. Parecia uma 
verso hollywoodesca de uma prostituta. Estava muito maquilhada e usava uma camisola de homem, muito justa e transparente. Parecia uma das mulheres das revistas 
de Sally. Era quase uma caricatura de estrela pornogrfica.
        - Que bonita rapariga - disse a loura olhando para Grace. - Ests muito s, querida? - A voz dela era um sussurro sensual e ela comprimia a plvis contra 
as costas de Grace. Esta pde ver que a camisola da loura estava molhada, o que fazia com que se vissem claramente os seios e os mamilos. Era como se no tivesse 
nada vestido. - Porque no vais visitar-me um dia? Toda a gente sabe onde eu vivo - disse, com um sorriso.
        - Obrigada - Grace falou com uma voz ainda um pouco ofegante, devido  crise de asma, e a loura sorriu-lhe outra vez.
        - Como te chamas? Marilyn Monroe? - Troava do modo como Grace tinha falado.
        - Lamento. A asma...
        - Oh, pobrezinha... tomas alguma coisa para isso? Mostrava-se preocupada e Grace no queria parecer mal-educada e faz-la zangar. A loura parecia ser dura 
e segura de si mesma. Devia ter uns trinta anos.
        -  Tenho um inalador. - Tirou-o do bolso e mostrou-lho.
        -  Tem cuidado com ele. - Riu e roou os dedos pelos seios de Grace antes de ir ter com as amigas.
        Grace tremia quando ela se afastou e procurou controlar-se acabando de beber o caf, pensando em tudo o que ali vira. Era verdadeiramente uma selva.
        - Tenha cuidado com ela - disse uma das raparigas num sussurro, antes de se levantar. - Brenda  muito dura.
        Depois disso, Grace voltou imediatamente para a sua cela. Passavam um filme nessa noite, mas ela no tinha interesse em ir. S queria ir para a sua cela 
e permanecer l at de manh. Estendeu-se no catre e soltou um suspiro de alvio. Teve de utilizar o inalador mais duas vezes nessa noite antes de se descontrair 
e conseguir respirar normalmente outra vez. E estava ainda acordada s dez horas, quando Sally voltou do cinema.
        A outra no proferiu palavra, mas Grace voltou-se no seu beliche e agradeceu-lhe t-la levado  enfermaria por causa da asma.
        - Ela devolveu-me o inalador - disse.
        - No o mostre a ningum - disse sensatamente. - Aqui divertem-se com as pessoas por causa de coisas desse gnero. Guarde-o e use-o quando estiver sozinha. 
Isso nem sempre era possvel, mas Grace achou que se tratava de um bom conselho e disse que sim com a cabea. Ento, quando as luzes se apagaram e Sally se deitou 
no beliche inferior, falou outra vez com Grace, no escuro. - Vi Brenda Evans a falar consigo. Tenha cuidado com ela.  perigosa. Vai precisar de aprender a nadar 
bem depressa. E at l tenha cuidado consigo. Isto no  nenhum jardim-infantil.
        - Obrigada - murmurou Grace, assustada. E ficou acordada durante muito tempo, enquanto as lgrimas lhe caam silenciosamente pelas faces, indo molhar o lenol, 
ouvindo os rudos l fora, berros e um grito ocasional e atravs de tudo o som confortvel do calmo ressonar de Sally.

CAPTULO 5

        Passadas duas semanas, Grace j conhecia os corredores e salas de Dwight e arranjara trabalho na sala de abastecimento, entregando toalhas e pentes, e contando 
escovas de dentes para as recm-chegadas. Fora Sally quem lhe arranjara a ocupao. Embora fingisse no ter qualquer interesse em ajud-la, parecia tomar conta dela 
de longe.
        Molly fora v-la uma vez e ficara horrorizada com o que ouvira contar de Dwight. Mas Grace insistia que estava bem. E a verdade  que, com grande surpresa 
sua, ningum a incomodara. Chamavam-lhe "peixe" sempre que tinham oportunidade de o fazer e Brenda parara para falar com ela duas vezes, durante as refeies, mas 
nunca fora alm disso. Nem sequer passara outra vez os dedos pelos seus seios. At quela altura sentia-se com sorte. Estava bem e tinha um trabalho decente. A sua 
companheira de quarto era taciturna, mas de uma maneira geral bondosa. Ningum a ameaara, nem a convidara para fazer parte de um bando. Parecia-lhe que daquela 
maneira no seria difcil aguentar os dois anos. Quando David a visitou, Grace estava bem-disposta, o que o tranquilizou. Detestava v-la ali e cada vez sentia mais 
que ela no devia estar ali, mas pelo menos no lhe sucedera nada de grave, e ela insistia em que no corria qualquer perigo. Pelo menos isso era uma satisfao. 
E passaram o tempo da visita a falar acerca do futuro.
        Grace j decidira ir para Chicago quando dali sasse. Devia permanecer naquele estado durante mais dois anos, mas Chicago serviria perfeitamente. E os cinquenta 
mil dlares que Frank Wills lhe cedera do patrimnio do pai seria um ponto de partida. Grace desejava arranjar um emprego, mas antes disso devia aprender a dactilografar 
e seguiria cursos por correspondncia logo que lhe fosse possvel.
        David contou-lhe que apelara e mostrou-se encorajador, mas era difcil dizer o que iria suceder.
        - No se preocupe com isso. Estou bem aqui.
        David ficou a v-la sair da sala das visitas e admirou-se com o seu porte e dignidade: andava de cabea erguida e estava mais delgada do que nunca. Ao v-la, 
ningum diria que era uma prisioneira. Parecia uma estudante universitria. Era impossvel relacion-la com o que se passara com ela. S olhando-lhe nos olhos  
que se podia ver a dor ali estampada. E tudo o que David sabia a respeito dela lhe causava um grande desgosto. No lhe era fcil esquec-la.
        David acenou tristemente ao afastar-se e ela ficou a ver o carro dele desaparecer ao longe. Era ainda mais difcil para ela do que para ele. Sentia-se como 
se fosse abandonada na selva.
        - Quem era? - perguntou uma voz atrs dela. Grace voltou-se e viu Brenda. -  o teu namorado?
        - No - respondeu Grace com calma dignidade. -  o meu advogado.
        Brenda riu abertamente.
        - No percas o teu tempo. Eles so todos uns chulos. Dizem o que vo fazer e como nos vo salvar e no fazem nada a no ser foder-nos literalmente se os 
deixarmos e de todos os outros modos tambm. Nunca encontrei um que valesse um chavo. E a verdade  que - continuou, rindo outra vez - nunca encontrei um tipo que 
valesse fosse o que fosse. E tu? - Olhou atentamente para Grace. Esta reparou que ela trazia uma das suas camisolas molhadas e que tinha uma tatuagem num dos braos: 
uma rosa vermelha com uma cobra por baixo. Junto dos olhos tambm tinha tatuagens que representavam pequenas lgrimas. - Tens um namorado? - Grace sabia que se tratava 
de uma pergunta perigosa e que dissesse o que dissesse ficaria numa situao precria. Encolheu os ombros indefinidamente. Estava a aprender. Comeou a encaminhar-se 
para dentro. - Ests com pressa para ires fazer alguma coisa?
        - No... eu... pensava em ir escrever umas cartas.
        - Que engraada! Parece que ests num acampamento de frias. Vais escrever ao pap e  mam? Mas ainda no me respondeste acerca do teu namorado.
        - Apenas um amigo. - Grace pensava escrever a Molly, contando-lhe da visita de David.
        - Aparece. Isto aqui pode ser divertido. Se quiseres que seja. Ou pode ser uma grande maada.  contigo, menina.
        - Eu estou bem - respondeu Grace, procurando uma maneira de se escapar sem enraivecer Brenda. J tinha percebido por conversas de outras que Brenda era receada. 
Estava metida com um bando e no s consumia drogas como as vendia. Ainda acabaria por se ver metida em grandes sarilhos.
        Mas Brenda no estava a facilitar as coisas.
        - A tua companheira de cela  de vmitos e a namorada dela tambm. J a viste? - Grace abanou a cabea. Sally era muito discreta sobre a sua vida pessoal. 
Nunca dissera uma palavra a Grace sobre isso e fora da cela nunca procurava falar-lhe. -  uma mulheraa negra. Horrorosa. E tu? Gostas de festas? Gostas de p mgico, 
de razes? - Os olhos de Brenda cintilaram ao pensar nisso, mas Grace abanou a cabea.
        - No posso. A asma... - E no tinha interesse por drogas. Mas no disse isso.
        - O que tem a asma a ver com o caso? Tive uma companheira de cela em Chicago que s tinha um pulmo e consumia largamente.
        - No sei - murmurou vagamente Grace. - Nunca me meti nisso.
        - Aposto que h uma poro de coisas que ainda no experimentaste, menina. - Brenda riu outra vez e Grace afastou-se com um aceno amigvel, apressando-se 
em seguida a ir para a sua cela, onde chegou ofegante. Tocou no inalador que tinha no bolso e tranquilizou-se por o sentir. s vezes, s por o tactear, parecia-lhe 
que respirava mais facilmente.
        Nessa noite havia outra vez cinema e Sally foi de novo. A sua nica fraqueza na vida, alm dos retratos de mulheres nuas, parecia ser os filmes. Quanto mais 
violentos, melhor. Grace ainda no fora ver nenhum e gostava de ficar sozinha na cela depois do jantar. Ela era pequena e acanhada, mas Grace chegava a sentir-se 
confortvel ali, longe de toda a gente.
        Depois do jantar, as celas eram deixadas abertas, a no ser que algum pedisse para ser fechada. Isso permitia que as detidas se visitassem, que jogassem 
s cartas ou conversassem. Algumas jogavam xadrez ou Scrabble. As celas permaneciam abertas das seis s nove e as reclusas podiam passear pelos stios autorizados.
        Grace estava estendida na cama a escrever a Molly quando ouviu a porta abrir-se, mas no se incomodou a ver quem era. Calculou que fosse Sally de regresso 
do cinema, e ela no costumava dizer coisa alguma ao chegar. Raramente o fazia, por isso Grace no estranhou o silncio at sentir uma presena junto dela. Levantou 
os olhos e deparou com a cara de Brenda. Esta destapara um seio e pousara-o sobre a cama de Grace. Ao lado de Brenda encontrava-se outra mulher.
        - Ol, beb - disse Brenda acariciando o mamilo, enquanto Grace se sentava na cama. A outra mulher no era to alta como Brenda, mas tinha um aspecto mais 
duro.         - Esta  Jane. Quis vir conhecer-te. - Mas Jane nada disse. Limitou-se a olhar para Grace, enquanto Brenda estendia uma mo e acariciava os seios a 
Grace. Esta quis fugir, mas Brenda segurou-a firmemente por um brao. Isso f-la lembrar, por instantes, do pai e sentiu o peito oprimido. - Queres vir brincar? 
- No se tratava de um convite, mas de uma ordem, e ela parecia uma amazona no seu louro esplendor.
        - No, estou realmente... um pouco cansada. - Grace no sabia o que lhe havia de dizer e no tinha idade suficiente, nem experincia bastante para saber 
o que poderia fazer para se livrar de Brenda.
        - Porque no vens at  minha cela durante um bocado? Ainda temos uma hora at fecharem as celas.
        - No creio... que possa ir - disse nervosamente Grace. - Prefiro no ir.
        - Que delicada. - Brenda soltou uma gargalhada de troa e apertou um seio de Grace com fora e em seguida beliscou-lhe o mamilo. - Queres saber uma coisa, 
queridinha? No me interessa o que possas querer ou no. Vens mesmo conosco.
        -Eu no... por favor... - No queria gemer, mas as suas palavras soavam aos seus prprios ouvidos dessa maneira. De repente, ouviu um estalido e Jane aproximou-se 
mais delas. Grace viu imediatamente que ela tinha uma navalha na mo, e mostrou-lha com um gesto ameaador.
        - No  simptico? - disse Brenda, sorrindo. - Um convite gravado da parte de Jane. Com efeito Jane  perita em fazer gravaes. - Dessa vez riram ambas 
e Brenda abriu a blusa de Grace e lambeu-lhe o mamilo. -  bom, no ? No gostaria que Jane se entusiasmasse e comeasse a fazer entalhes aqui... ela s vezes comete 
uns pequenos erros e isto podia ficar feio. Est bem? Ento porque no saltas do teu beliche e vens conosco? Penso que vais gostar. - Aquilo era o que Grace mais 
receava. Um rapto dentro da priso feito por um bando utilizando sabe Deus o qu e retalhando-lhe a cara com a navalha. Nada do que se passara na sua vida a preparara 
para aquilo, nem mesmo o pai.
        Grace saltou do beliche, ofegante, ainda com a caneta e o papel de carta na mo. Ento, com um s gesto voltou-se como se fosse pousar o papel e deixou-o 
sobre o beliche de Sally. Nele escrevera apenas Brenda. Talvez fosse demasiado tarde. Ou talvez Sally no pudesse ou no quisesse ajud-la. Mas foi a nica coisa 
que pde fazer antes de sair da cela ladeada por Jane e Brenda. Grace era quase to alta como qualquer delas, mas parecia uma criana no meio das duas e de certo 
modo era-o. Nada sabia de mulheres como elas.
        Ficou surpreendida quando no a levaram para a cela delas. Passaram pelo ginsio e depois saram para o exterior, como se quisessem ir apanhar ar. As guardas 
observavam-nas mas no viram nada de estranho quando elas passaram. Muitas mulheres iam fumar um cigarro ou dar um passeio antes de fecharem as celas. Brenda gracejou 
com a guarda enquanto Jane avanava com Grace. A navalha no se encontrava  vista, mas Grace sentia-a bem junto do seu pescoo. Pareciam trs amigas que iam dar 
um passeio e ningum parecia aperceber-se do terror de Grace.
        Uma vez l fora, Brenda encaminhou-as para um pequeno barraco no qual Grace nunca reparara. As guardas que se encontravam na torre no as viam ali. Tratava-se 
apenas de um velho barraco onde guardavam equipamento de manuteno. Brenda tinha uma chave e logo que abriu a porta desapareceram as trs no seu interior. Estavam 
ali mais trs mulheres, encostadas  maquinaria ali guardada, fumando. Uma delas empunhava uma lanterna elctrica. Era o stio perfeito para tudo quanto lhe queriam 
fazer, inclusivamente mat-la.
        - Bem-vinda ao nosso pequeno clube - disse Brenda, com uma gargalhada. - Ela quis vir brincar um bocado - acrescentou, voltando-se para as outras. - No 
querias vir, Gracie... oh, menina bonita... menina bonita... - murmurou enquanto desabotoava a blusa de Grace e esta tentava impedi-la de o fazer. Se fosse possvel, 
elas no queriam deixar marcas, nem roupas rasgadas, a no ser que tivessem realmente de o fazer. Se Grace as forasse a isso, elas podiam ser muito cruis e mais 
tarde, se ela fosse esperta, no contaria nada a ningum.
        Grace sentiu a navalha de Jane encostada ao seu corpo e no fez nenhum gesto para abotoar a blusa. Brenda puxou-lhe ento o soutien para baixo.
        - Uma bela carne jovem, no , meninas? - Todas riram e uma das que j ali se encontravam disse a Brenda para se apressar. As celas seriam fechadas da a 
menos de uma hora. No tinham a noite toda.
        - No gosto nada de comer  pressa - disse Brenda, e todas riram de novo. Ento Grace viu duas mulheres aproximarem-se com um pedao de corda e uma rodilha. 
Iam amarr-la e amorda-la.
        - Vamos a isto - disse uma das mulheres mais velhas. Agarrou Grace por um brao, enquanto uma companheira lhe agarrava o outro, e Grace foi atirada para 
o cho to violentamente que ficou sem respirar. Da em diante comearam a movimentar-se como uma equipa. Duas mulheres amarraram os braos de Grace s pesadas mquinas 
e tiraram-lhe as calas e a roupa interior, enquanto Jane comprimia a navalha contra o estmago de Grace. No valia a pena gritar ou agitar-se e ela sabia-o. Elas 
mat-la-iam. Mal podia respirar e olhou ansiosamente para o bolso onde deixara o inalador. Mas Brenda tambm se lembrou disso. Tirou-o do bolso, segurou-o perto 
da cara de Grace e deixou-o cair no cho ao seu lado. Logo a seguir Jane pisou-o com as suas grandes botas, reduzindo-o a estilhaos.
        - Lamento, pequena - disse Brenda com um sorriso trocista. - Ests pronta? Conheces as regras do jogo? - perguntou, atirando os cabelos louros para trs 
dos ombros e levantando-se em seguida para tirar as calas dela. - Primeiro fazemos-te a ti e depois fazes-nos a ns... uma a uma... vamos dizer-te como... e quando 
e onde, tal como ns gostamos. E daqui em diante... - continuou Brenda, mordendo um mamilo de Grace e acariciando-se a si mesma - pertences-nos. Compreendes? Vens 
aqui sempre que te dissermos, tantas vezes quantas ns quisermos, e fazes exactamente aquilo que desejarmos que faas. Entendes? E se gritas, minha cabra, cortamos-te 
a lngua e cortamos-te as mamas. Compreendes? Uma espcie de mastectomia? Todas riram, excepto Grace, que tremia e respirava de uma maneira ofegante, estendida no 
solo frio e aterrorizada com o que lhe queriam fazer.
        - Porqu? Porque tm de fazer isto?... no precisam de mim... por favor... - Ela suplicava e as outras achavam graa. Ela era to jovem, to fresca, to 
inocente, e sabiam que se no a apanhassem, outras o fariam. Na priso quem primeiro chegava primeiro se aviava.
        - Vais ser a nossa queridinha, no vais, Grace? - disse Brenda ajoelhando-se no cho em frente das pernas abertas de Grace. Esta estava agora completamente 
nua e Brenda comeou a lamb-la. Gostava dessa parte, de as quebrar, de fazer aquilo a uma pessoa a quem ainda ningum o fizera, mostrando-lhe como se encontrava 
indefesa, como podia fazer dela tudo o que lhe apetecesse. Parou por um minuto e tirou do bolso um pequeno tubo com um p branco, que aspirou. Depois passou um pouco 
pelas gengivas e com um dedo ps um bocadinho em Grace, lambendo-a com vigor. -  bom... - gemeu ela, gostando do que estava a fazer, apalpando Grace com os dedos, 
enquanto as outras lhe diziam que se apressasse. Comeou ento a enfiar toda a mo dentro de Grace e esta gemeu de dor. Mas as outras queixavam-se. Queriam que chegasse 
a vez delas. No tinham a noite toda. No era a lua-de-mel de Brenda. - Talvez seja, sua cabra - respondeu Brenda  mulher que se queixava. Talvez eu a guarde s 
para mim, se for boa. - Mas Grace contorcia-se e tentava escapar s mos dela,  insistncia dos seus dedos, embora pouco pudesse fazer com as pernas amarradas. 
Queria gritar, mas no se atrevia, com medo da navalha de Jane. Elas no a tinham amordaado. Precisavam da boca dela para as satisfazer quando acabassem o que queriam 
fazer com ela.
        Grace fechou ento os olhos, tentando fingir que no se encontrava ali, que aquilo no lhe estava a suceder. Ento, de repente, ouviu o som como de uma porta 
a bater. Ouviu tambm Brenda soltar uma exclamao abafada e larg-la, afastando-se para um lado. Quando abriu os olhos, viu uma rapariga negra, alta e esbelta, 
parada  porta. No sabia se seria do bando, mas as outras no pareciam muito felizes por a ver.
        - Pronto, suas idiotas, desamarrem-na. - A rapariga negra era muito alta e estranhamente bela. O branco dos seus olhos parecia enorme  luz da lanterna. 
- Tm cinco segundos para a tirar da, ou Sally ir denunciar-vos. Se eu no sair daqui dentro de trs minutos, ela vai. E calculo que vocs vo para o buraco at 
ao Natal.
        - Tretas, Luana. Tira o teu cu negro daqui antes que te mate. - Jane estava furiosa e dirigia o facho da lanterna sobre Luana ao mesmo tempo que acenava 
com a navalha, ameaadoramente. Brenda mostrava-se tambm furiosa, mas ao mesmo tempo parecia aborrecida. A cocana fizera efeito e ela s queria continuar a fazer 
o que desejava, com Grace, sem as malditas interrupes.
        - Porque  que no vo lutar para outro stio qualquer? - disse Brenda, afastando-se por momentos.
        - Tm dois minutos - disse friamente Luana. -J disse para a desamarrarem. - Luana parecia aterrorizadora, parada  luz da lanterna. Tinha msculos quase 
como um homem e pernas compridas e fortes como as de um corredor olmpico. Era a campe de boxe e de karat da priso e ningum queria meter-se com ela. Jane dizia 
sempre que no a receava. Mas as outras sabiam que era mais conversa do que outra coisa. Luana tinha conhecimentos muito importantes.
        Houve um longo momento de hesitao, mas depois uma das outras mulheres desatou os braos e as pernas de Grace, enquanto Brenda gemia de paixo no satisfeita.
        - Grande cabra! Deseja-la para ti, no ?
        -  J tenho o que desejo - respondeu Luana. - Desde quando precisam de foder crianas?
        - Ela tem idade suficiente - gritou Brenda, cheia de fria e frustrao. - Quem julgas que s? O Lone Ranger? Vai-te foder, Luana.
        - Obrigada.
        Grace levantara-se e vestia-se agora apressadamente, tentando abotoar a blusa com as mos trmulas. No se atrevia a olhar para as outras mulheres com receio 
de que a matassem.
        - A festa est acabada, meninas - anunciou Luana com um sorriso. - Se voltam a tocar-lhe, mato-as.
        - Que raio queres dizer com isso? - perguntou Brenda, aborrecida.
        -Ela  minha. Ouviram?
        - Tua? - Brenda mostrou-se espantada. Ningum lhe dissera. Isso podia tornar as coisas um pouco diferentes.
        - E Sally? - perguntou Brenda com desconfiana.
        - No temos de te dar explicaes - respondeu com frieza Luana, enquanto ia empurrando Grace para a porta. A rapariga respirava com dificuldade e tremia 
dos ps  cabea. Luana empurrou-a com violncia e ela quase caiu. A recm-chegada no era mulher com quem se pudesse brincar. Nenhuma delas o era. Grace estava 
longe de se poder medir com elas e percebia agora como fora louca em pensar que poderia estar em segurana ali. As histrias que contavam eram todas verdadeiras. 
Elas apenas tinham estado  espera.
        - Vocs agora so trs? - lamentou-se Brenda.
        - J me ouviste? Ela  minha. Mantenham-se afastadas dela ou vai haver sarilho. Entendem? - Ningum lhe respondeu, mas a mensagem era clara e Luana era demasiado 
importante para valer a pena aborrec-la. Dois dos irmos dela eram os mais importantes "Muulmanos Negros do Estado" e os outros dois tinham comeado os maiores 
distrbios da histria de Attica e de San Quentin.
        Depois de as ter avisado que se afastassem de Grace, Luana abriu a porta e empurrou a jovem para fora. Agarrou-a por um brao e disse-lhe para avanar, falando 
com ela como se nada se tivesse passado. Cinco minutos depois, estavam no ginsio. O rosto de Grace tinha uma palidez extrema e a respirao dela era ofegante, mas 
ficara sem o inalador. Sally esperava-as a com uma expresso preocupada.
        - Que diabo estavas a fazer com Brenda? - perguntou Sally, irada, enquanto Luana as olhava.
        - Ela entrou na nossa cela. Julguei que era a Sally e nem sequer olhei. Quando levantei os olhos elas estavam mesmo junto de mim e Jane empunhava uma navalha.
        - Ainda tens muito que aprender. - Mas ficara impressionada por Grace ter tido a presena de esprito suficiente para lhe deixar a mensagem. - Ests bem? 
- perguntou, sem saber at onde elas tinham chegado e olhou de relance para Luana para saber a resposta.
        - Ela est bem.  estpida, mas est bem. No foram muito longe. Brenda estava demasiado ocupada a drogar-se para ter ido muito longe. - Ao longo dos anos 
tinham visto muitas raparigas serem violadas e inutilizadas para toda a vida por causa de paus de vassoura e de tacos de basebol. Mas Luana estava ainda aborrecida 
por aquela garota quase ter arrastado Sally para o caso. Fora Luana quem insistira em ir ela prpria e deixar Sally com a incumbncia de chamar as guardas, se fosse 
necessrio. Luana cuidava bem de Sally. Estavam juntas h anos e ningum se atrevia a incomodar qualquer delas, sobretudo por causa dos irmos de Luana, que iam 
v-la quando podiam. Estavam os quatro em liberdade condicional, mas todos sabiam o que poderiam fazer, se se zangassem. Dois viviam no Ilinis, um em Nova Iorque 
e o outro na Califrnia. Nem mesmo Brenda e as suas amigas se atreviam a meter-se com eles, ou com Luana e Sally. Grace ia agora ficar sob sua proteco.
        - Que lhes disseste? - perguntou Sally, quando se dirigiam para a cela que ela ocupava com Grace.
        - Que ela agora  nossa - respondeu calmamente Luana, olhando para Grace com aborrecimento. Tinha dito a Sally que tivesse cuidado com ela. A mida era to 
verde que seria capaz de deitar a casa abaixo. Quando chegaram  cela, Grace comeou a chorar. Respirava com dificuldade e sabia que s no dia seguinte poderia pedir 
outro inalador.
        - No quero saber se ests assustada ou doente - disse-lhe Luana com um tom assustador. - Se voltas a meter Sally em sarilhos, mato-te. No lhe deixas bilhetes 
nem lhe dizes quem te raptou. Tambm no te queixas a ela se te tirarem o remdio ou se te beliscarem o traseiro na bicha para o refeitrio. Se tiveres algum problema, 
vais ter comigo. No sei o que fizeste para te mandarem para aqui, nem quero saber. Mas uma coisa te posso dizer: no foi por teres miolos e se no os arranjas rapidamente 
ainda acabas por morrer.  to simples quanto isso. Por isso trata de te tornares esperta. Ests a ouvir? E entretanto fazes tudo quanto Sally te disser para fazer. 
Se ela te disser para lamberes o cho ou limpares a latrina com as sobrancelhas,  isso mesmo que tu fazes. Percebes isso, pequena?
        - Sim, sim, percebo... e muito obrigada... - Sabia que com elas estaria em segurana. Sally j lhe provara isso. E da em diante, se ela lhes fosse dedicada, 
proteg-la-iam. No queriam nada dela... nem sexo... nem dinheiro; tinham pena dela e ambas sabiam que ela estava deslocada ali.
        Mas a partir desse dia as coisas mudaram. As outras mantinham-se  distncia e mostravam respeito por Grace. Ningum a incomodava, nem se metiam com ela, 
nem assobiavam sequer. Era como se no existisse. Grace levava uma espcie de vida encantada, fazendo o seu caminho por entre os lees e as cobras daquela selva, 
sem nada lhe suceder. As suas nicas amigas eram Sally e Luana.
        Grace foi-se tornando religiosa na priso. A asma incomodava-a agora menos do que lhe sucedia desde h muitos anos. Iniciara o seu curso da universidade 
local por correspondncia e dentro de dois anos poderia acab-lo. Em seguida, poderia estudar  noite at se formar. Tirava tambm um curso de secretria por correspondncia 
para ter mais facilidade em arranjar emprego quando sasse dali e fosse para Chicago.
        At David reparou na mudana que se operou nela. Quando a visitou, viu que se sentia mais confiante e que havia nela uma estranha paz. Isso permitiu-lhe 
aceitar filosoficamente a notcia de que o apelo fora rejeitado e que ela teria de cumprir a pena de dois anos. Passara exactamente um ano desde que fora condenada 
e David tinha dificuldade em aceitar que tivessem perdido outra vez, mas ela pareceu aceitar o malogro com grande resignao. Foi Grace quem o consolou quando ele 
lhe disse que sentia muito ter falhado de novo, mas ela recordou-lhe que a culpa no era dele: fizera o melhor que pudera e ela precisava apenas de conseguir sobreviver 
ali mais um ano. No era fcil, mas Grace olhava agora para o futuro. David sentiu-se comovido ao ouvi-la, mas tambm desgostoso. Sabia que a visitava agora menos 
vezes por ela lhe recordar que no conseguira fazer mais. Tinha ainda uma estranha obsesso por ela. Grace era to bonita, to jovem, to pura e tivera to pouca 
sorte na sua curta vida. E ele, apesar do que sentia por ela, nada pudera fazer para alterar a situao. Isso fazia-o sentir-se mal, impotente e zangado consigo 
mesmo. Por vezes pensava que se tivesse conseguido ganhar a apelao, as coisas teriam sido diferentes. Talvez ele tivesse ento coragem para lhe dizer que a amava. 
Mas tal como as coisas estavam, ele nada lhe dissera e Grace nem suspeitava dos sentimentos de David por ela.
        Molly j se apercebera desses sentimentos h um certo tempo, mas nunca lhe disse coisa alguma a esse respeito, mas o comportamento dele revelara-lhe tudo. 
David falava constantemente de Grace. Molly dissera-lhe que isso no era saudvel e que ele tinha o "complexo do heri". Queria a todo o custo salv-la. Dissera-lhe 
isso e muitas outras coisas verdadeiramente dolorosas. Mas a verdade  que, segundo ele, falhara em ajudar Grace. Por isso se sentia pior cada vez que a via. E durante 
o segundo ano que Grace passou em Dwight, David visitou-a cada vez com menos frequncia, pois no tinha agora motivos para o fazer. J no podia apelar nem fazer 
nada por ela. Arranjara entretanto uma namorada, que lhe dizia constantemente que ele tinha de prosseguir a sua vida e deixar de estar obcecado com Grace.
        Grace sentiu a falta das visitas dele, mas compreendeu que ele nada mais podia fazer. E soube que o jovem tinha uma namorada que significava muito para ele. 
Falara disso a Grace da ltima vez que a vira e ela tivera a sensao de que ele se sentia culpado. Pensou que talvez a namorada de David tivesse cimes dela.
        Molly continuava a visit-la e a presena dela era sempre uma alegria para Grace. Mas fora disso, Grace sentia-se bem com as outras duas amigas, Luana e 
Sally. Passou o seu segundo Natal em Dwight com elas, comendo os bolos e os chocolates que Molly lhe enviara.
        -J estiveste em Frana? - perguntou Luana. Grace abanou a cabea e sorriu, s vezes faziam-lhe perguntas estranhas, como se ela viesse de outro planeta. 
E de certo modo viera. Luana sara dos guetos de Detroit e Sally era do Arkansas. Luana gostava de a arreliar, chamando-lhe a "Okie".
        - No, nunca estive em Frana - respondeu Grace, sorrindo-lhes. Formavam um estranho trio, mas eram boas amigas. De uma certa e estranha maneira, eram para 
ela os pais que nunca tivera. Protegiam-na, vigiavam-na, ralhavam com ela e ensinavam-lhe as coisas que ela precisava de saber para sobreviver ali. E de uma maneira 
esquisita gostavam dela. Para elas, Grace era apenas uma garota, mas para ela havia esperana. Podia ter uma vida decente, um dia. Ficavam orgulhosas dela quando 
tinha boas notas. E Luana dizia-lhe muitas vezes que ela viria a ser uma pessoa importante.
        - No creio - dizia ela, sorrindo-lhes.
        - Que vais fazer quando sares daqui? - costumava perguntar Luana. E Grace respondia sempre a mesma coisa:
        - Vou para Chicago arranjar emprego.
        - Para fazer o qu? - Luana gostava muito de ouvir falar daquilo. Estava ali por toda a vida e Sally tinha de cumprir mais trs anos. Grace poderia sair 
da a um ano e tinha uma vida inteira, um futuro, na sua frente. - Devias ser modelo, como os que aparecem na televiso. Ou talvez entrares num desses programas 
de jogos.
        Grace ria sempre das ideias delas, mas a verdade  que havia coisas que gostaria de fazer. Gostava de psicologia e s vezes pensava em poder ajudar raparigas 
que estivessem a passar pelo que ela passava, ou mulheres que fossem como a sua me. Era difcil de dizer. Tinha apenas dezenove anos e faltava-lhe ainda um ano 
de priso.
        Logo a seguir ao Ano Novo, David foi visitar Grace.
        No ia v-la h trs meses e mostrou-se embaraado desde o princpio. Comeou por lhe pedir desculpa por no lhe ter mandado nada no Natal. Ao princpio 
Grace pensou se alguma coisa estaria a correr mal, se algo mudara para pior quanto  data da sua sada da priso.
        - Isso j no vai mudar - respondeu ele afectuosamente. - A no ser que chefie um motim ou agrida uma guarda. Mas no  provvel que isso acontea. No, 
no  nada disso. - Hesitou em lhe dizer, comeando a fantasiar outra vez, mas de sbito, ao olhar para Grace, percebeu que a namorada tinha razo e que a sua obsesso 
por Grace era uma loucura. Ela era apenas uma criana, fora sua cliente e estava na priso. - Vou-me casar - disse, quase como se lhe estivesse a pedir desculpa.
        Grace ficou satisfeita por ele. Desconfiara, por pequenas coisas que ele dissera, que os sentimentos dele para com a sua nova namorada eram srios.
        - Quando? - perguntou.
        - No antes de Junho. - Mas havia mais. Grace olhou-o, porque se apercebeu disso. - O pai dela convidou-nos a ambos para fazermos parte da sua firma de advogados, 
na Califrnia. Partirei no prximo ms. Quero instalar-me em Los Angeles. Tenho de passar para o foro da Califrnia... queremos comprar uma casa... enfim... tenho 
muito que fazer antes de me casar.
        - Oh! - foi apenas uma breve exclamao que Grace deixou escapar, quando se apercebeu de que provavelmente jamais o veria, ou que pelo menos to cedo no 
o faria. Mesmo depois dos dois anos de liberdade condicional, em que no poderia sair daquele estado, Grace no podia imaginar-se a ir para a Califrnia. - Espero 
que tudo lhe corra bem. - Ficou subitamente entristecida com a ideia de perder um bom amigo. Tinha to poucos, e aquele fora muito importante para si.
        David olhou-a e segurou-lhe numa das mos.
        - Se precisar de mim, virei, Grace. Dar-lhe-ei o meu nmero antes de partir. Vai correr tudo bem. - Ela disse que sim com a cabea, mas ficaram longo tempo 
de mos dadas, calados, pensando no passado dela e no futuro dele e, subitamente, por breves instantes, a rapariga da Califrnia pareceu menos importante para David.
        - Vou sentir a sua falta - disse Grace, com tanta franqueza que lhe dilacerou o corao. Queria dizer-lhe que a recordaria sempre como ela estava agora, 
jovem e bela, com os seus olhos enormes e a pele to perfeita que parecia quase transparente.
        - Tambm vou sentir a sua falta. Nem sequer consigo imaginar como ser a vida na Califrnia. Tracy pensa que vou gostar... - Mas agora parecia no estar 
bem certo disso.
        - Ela deve ser fabulosa, para o fazer querer mudar-se. Grace olhou-o e ele teve de se controlar.
        David riu, pensando que deixar o Ilinis no era caso para lhe dilacerar o corao, mas deixar Grace sim. Por pouco que a visse agora, gostava de saber que 
se encontrava suficientemente perto para a ajudar se fosse preciso.
        - Se precisar da minha ajuda, telefone-me. E Molly continuar a vir v-la. - Ainda nessa manh falara com ela.
        - Bem sei. Ela tambm est a pensar em casar. - David tambm ouvira dizer isso. Era chegada a altura de assentarem. E dentro de oito meses seria altura de 
Grace comear uma nova vida. Eles estavam j encaminhados. Tinham as suas carreiras, tinham histrias para contar, tinham os seus cnjuges. Grace teria de comear 
do zero quando sasse da priso.
        Nessa tarde David Glass prolongou a sua visita mais do que o habitual e prometeu-lhe que voltaria ali antes de partir para a Califrnia. Teve notcias dele 
mais duas vezes e dois meses depois recebeu uma carta dele, de L. A., pedindo-lhe imensa desculpa por no ter tido tempo de a ir visitar antes de partir. Mas ambos 
sabiam que ele no tivera coragem para a voltar a ver. Teria sido demasiado doloroso e era altura de a deixar. Grace escreveu-lhe algumas cartas nessa Primavera 
e depois deixou de lhe escrever. Sentiu instintivamente que o seu relacionamento com David Glass terminara.
        Grace falou disso a Molly uma ou duas vezes, disse-lhe como se sentia triste quando pensava nele. Tinha to poucos amigos que lhe custava na verdade perder 
um deles. E David fora muito importante para ela. Mas agora tinha outra vida.
        - s vezes  preciso deixar as pessoas afastarem-se - disse calmamente Molly. - Sei como ele gostava de si, Grace, e sei como foi terrvel para ele no conseguir 
livr-la da priso nem ganhar a apelao.
        - Ele fez um bom trabalho - disse lealmente Grace. Ao contrrio de quase todas as reclusas em Dwight, Grace no culpava o seu advogado por ter ido parar 
 priso. - Sinto saudades dele, mais nada. Alguma vez viu a namorada dele?
        - Uma vez ou duas - respondeu Molly, sorrindo. Sabia que Grace no fazia ideia dos sentimentos de David por ela depois do julgamento. Umas vezes ela fora 
para ele como uma irm mais nova, outras fora um sonho que ele sabia que nunca se realizaria, mas que desejava. Mas a namorada dele fora esperta. Molly achava que 
no fora por acaso que ela lhe pedira para ir para a Califrnia. -  uma mulher muito esperta - disse diplomaticamente. No queria dizer abertamente a Grace que 
no gostava dela. Mas provavelmente seria boa para ele. Era esperta, enrgica e ambiciosa. E, segundo diziam as pessoas que a conheciam, uma excelente advogada.
        - E quanto a si? Quando  que casa com Richard? - quis saber Grace.
        - Em breve.
        Finalmente, em Abril, Molly e Richard marcaram a data. Casariam no dia 1 de Julho e iam passar a lua-de-mel ao Havai. Ela e Richard tinham passado seis meses 
a tentar coordenar as suas frias. Partiriam s 16 horas de Chicago para Honolulu, e chegariam l s 22, hora local. E dois meses e meio depois disso Grace estaria 
livre. Era difcil pensar que tinham passado quase dois anos. De certo modo, parecia-lhe que s tinham passado uns momentos, noutras alturas era uma vida inteira.
        Na vspera do casamento, Molly foi visitar Grace. Ela prometera passar o Dia de Aco de Graas com eles e talvez o Natal. E no dia do casamento, Grace sentou-se 
na sua cela quase todo o dia, pensando neles, desejando-lhes felicidades
e conhecendo todos os seus planos, todos os pormenores.
        Vira fotografias do vestido, sabia quais seriam os convidados. Sabia at o nmero do voo. Quando chegassem a Honolulu ficariam instalados no Outrigger Waikiki. 
Grace podia imaginar tudo isso. Era como se estivesse a assistir ao casamento at  hora em que se sentou a ver o noticirio com as suas companheiras, antes de serem 
fechadas as celas.
        Falava com Luana a respeito de trabalhar com ela no dia seguinte, quando ouviu qualquer coisa a respeito da queda de um avio da TWA que explodira no ar 
uma hora antes, sobre as montanhas Rochosas. Desconheciam-se os pormenores, mas a companhia area receava que se tratasse de uma bomba e no havia sobreviventes.
        -O que disseram? - perguntou Grace, voltando-se para a mulher que se encontrava ao seu lado. - Onde estavam eles?
        - Foi sobre Denver, parece. Pensam que foram terroristas. Era um voo de Chicago para Honolulu, via So Francisco. Grace ficou fria e sentiu uma dor no corao. 
Mas no eram eles. No podiam ser. No podia ser... depois de tantos anos... na lua-de-mel... a sua nica amiga... a nica pessoa em quem podia confiar e que a receberia... 
Fez-se terrivelmente plida e comeou a respirar com dificuldade. Sally viu isso e deu-lhe o inalador, pois compreendeu imediatamente o que Grace receava.
        - Provavelmente no era o avio deles, sabem. H uma dzia de voos para Honolulu todos os dias. - Sally sabia da lua-de-mel de Molly. Aborrecera-se mortalmente 
a ouvir Grace a falar do casamento durante dias e agora estava preocupada com eles e queria tranquilizar a jovem. Realmente era pouco provvel que fosse o avio 
deles. Mas uma semana depois, aps sete noites sem dormir, Grace soube. Escrevera para o hospital, a perguntar pela Dra. Molly, e recebera uma carta triste explicando 
que a Dra. York e o Dr. Haverson tinham morrido no desastre de avio de que ela tivera conhecimento, quando partiam para a sua lua-de-mel. A carta acrescentava que 
todo o hospital os chorava.
        Grace deitou-se nessa noite e trs dias depois ainda no se levantara. Sally encobrira-a o melhor que pudera e Luana igualmente. Diziam que ocorrera de novo 
uma crise de asma muito forte e que nem os comprimidos nem o inalador a aliviavam. O inalador era agora familiar a toda a gente e ela j no se preocupava. Sob a 
vigilncia de Lu, ningum se atrevia a tirar-lho. Mas Grace nem sequer falava com elas. A enfermeira foi  cela e disse-lhe que no estava a sofrer uma crise asmtica. 
Grace no lhe respondeu. Limitou-se a ficar deitada a olhar para o tecto, recusando-se a levantar-se ou at a responder.
        A enfermeira disse-lhe ento que ela teria de voltar para o trabalho no dia seguinte e que tinha sorte em no a terem ainda mandado para a solitria por 
no se apresentar ao trabalho durante dois dias. Mas ela estava a abusar da sua sorte. No dia seguinte no fez qualquer esforo para se levantar, apesar das splicas 
e das ameaas de Luana. S queria estar ali deitada, morta, como Molly.
        Levaram-na para a solitria nesse dia, sem roupa e s com uma refeio por dia. Quando voltou, vinha mais magra e plida, mas Sally pde ver pelos olhos 
dela que Grace estava viva outra vez, profundamente ferida,  certo, mas de novo com vontade de viver.
        Depois desse dia, Grace nunca mais voltou a falar em Molly. No falava nunca das pessoas do passado; nem de David, nem dos pais, nem de Molly. Vivia apenas 
no dia-a-dia, e de vez em quando falava em ir para Chicago.
        Chegou finalmente o dia e Grace no sabia se estava preparada para isso. No tinha planos nem roupas nem amigos. Apenas um pouco de dinheiro que lhe devia 
durar uma vida inteira. Tinha tambm o diploma do curso que tirara por correspondncia e na priso tornara-se forte e paciente. Era alta, magra e forte. Luana fizera-a 
levantar pequenos pesos e correr e isso realmente tonificara o seu corpo. Era muito bonita com o seu cabelo de um louro-escuro preso num rabo-de-cavalo na nuca. 
Quando a libertaram vestia umas calas de ganga e uma camisola branca e parecia uma estudante universitria como outra qualquer, fresca e jovem, com os seus vinte 
anos, mas havia nela uma vida inteira de experincia e uma mo-cheia de pessoas no seu corao que nunca iria esquecer, como Molly, Luana e Sally.
        - Tem cuidado contigo - disse esta ltima com voz rouca, quando ela se despedira. Grace abraara ambas, apertando-as contra o corao. E Luana beijara-a 
na face, como uma criancinha a quem mandassem brincar.
        - Tem cuidado, Grace. Abre bem os olhos, confia em ti, nos teus instintos... hs-de ser algum.. podes vir a ser algum.
        - Gosto muito de vocs - murmurou Grace. - Gosto muito das duas. Sem vocs nunca teria conseguido sobreviver aqui. - E era verdade. Elas tinham-na salvo.
        Grace beijou Sally na face e ela mostrou-se embaraada com isso.
        - No faas nada estpido.
        - Hei-de escrever-lhes - prometeu Grace, mas Sally abanou a cabea. Sabia que no seria assim. Vira muitas amigas chegarem e partirem. Quando se partia acabava-se... 
at  prxima vez.
        - No escrevas - disse Luana brutalmente. - No queremos ter notcias tuas. E tu no nos queres conhecer. Esquece-nos. Vai viver a tua vida, Grace. Esquece-nos, 
pe isto tudo para trs das costas. No precisas de levar nada disto contigo.
        - Vocs so minhas amigas - repetiu Grace com lgrimas nos olhos, mas Luana abanou novamente a cabea.
        - No, no somos, rapariga. No passamos de fantasmas. Somos apenas recordaes. Lembra-te de ns de vez em quando e fica satisfeita por no estares aqui. 
E no voltes mais, nunca mais, ouviste? - Agitou um dedo para Grace e ela riu por entre as lgrimas. O que Luana dissera eram bons conselhos, mas ela no podia deix-las 
ali e esquec-las. Ou teria de ser assim? Teria de as deixar todas para trs para seguir em frente? Desejava ter perguntado isso a Molly. - Agora, desaparece! - 
Luana dera-lhe um pequeno empurro para ela avanar e alguns minutos mais tarde passava pelos portes da cadeia a caminho da estao de autocarros na cidade. Elas 
ficaram junto do muro, acenando-lhe, e ela voltou-se e acenou-lhes tambm, da janela, at deixar de as ver.

CAPTULO 6

        A viagem de autocarro desde Dwight a Chicago demorou menos de duas horas. Tinham-lhe dado cem dlares em dinheiro ao sair da priso e David abrira-lhe uma 
pequena conta  ordem antes de ir para oeste. Tinha ali depositados cinco mil dlares e o restante encontrava-se numa conta-poupana na qual ela no queria mexer. 
Tinha de dizer s autoridades para onde ia e onde ficaria e devia apresentar-se a essa entidade dentro de dois dias. Em Dwight deram-lhe o nome da pessoa a quem 
se devia dirigir, assim como o endereo e o telefone: Louis Marquez. E uma das raparigas de Dwight indicara-lhe onde poderia encontrar um hotel barato.
A estao de autocarros em Chicago ficava na Randolphe e Dearborne. Os hotis de que lhe haviam falado ficavam apenas a alguns quarteires de distncia. Mas quando 
Grace viu o gnero de pessoas que se encontravam nas proximidades do hotel, repugnou-lhe l entrar. Havia prostitutas a entrar e a sair, pessoas que alugavam quartos 
por uma hora, e em cima da secretria da recepo daquele em que por fim
entrou viu duas baratas. Nem mesmo em Dwight vira tal coisa. Havia muito mais asseio.
        - Tm preos semanais?
        - Certamente. Sessenta e cinco dlares por semana - disse o homem sem pestanejar. Grace achou caro, mas no sabia onde procurar outro hotel. Alugou um quarto 
para pessoa s com casa de banho privativa no quarto andar, por sete dias e depois saiu para ir procurar um stio onde comer. Dois vagabundos pediram-lhe uns trocos 
e uma rapariga da rua olhou-a de lado como se estivesse intrigada com a presena de uma pessoa como Grace ali. Mal sabiam que uma rapariga "como ela" acabara de 
sair da priso de Dwight. E embora a vizinhana lhe parecesse desagradvel, Grace sentia-se bem por estar livre. Era formidvel poder andar outra vez nas ruas, olhar 
o cu, entrar num restaurante, numa loja, comprar um jornal, uma revista, andar de autocarro. Deu uma volta por Chicago nessa noite, admirada com a beleza da cidade. 
E, sentindo-se esbanjadora, meteu-se num txi para regressar ao hotel.
        As prostitutas ainda l estavam, e os chulos, mas ela no lhes prestou ateno. Limitou-se a pedir a chave do quarto e foi para cima. Fechou a porta  chave 
e leu os jornais que comprara. E no dia seguinte, com o jornal na mo, comeou a procurar emprego.
        Foi a trs agncias e em todas queriam saber que experincia ela tinha, onde trabalhara anteriormente, onde vivera. Ela respondeu que viera de Watseka, que 
fizera a o curso secundrio e que depois tirara um curso de secretariado. Sabia estenografia e dactilografia. Confessou que no tinha experincia e portanto no 
podia dar referncias. Disseram-lhe que no a podiam ajudar a arranjar um lugar de secretria sem ter referncias. Talvez como recepcionista, empregada de mesa ou 
vendedora. Com vinte anos, sem experincia e sem referncias, no tinha grandes oportunidades, e nas agncias no se coibiram de lho dizer.
        - J pensou em ser modelo? - perguntou-lhe uma funcionria na segunda agncia. E para se mostrar simptica, escreveu os nomes de duas agncias de modelos. 
- Pode ser que lhe dem trabalho. A sua aparncia deve agradar-lhes. -         Sorriu para Grace e prometeu telefonar-lhe para o hotel se aparecesse alguma oferta 
de emprego em que no exigissem experincia, mas no lhe deu grandes esperanas.
        Depois disso, Grace dirigiu-se para o endereo onde tinha de se apresentar por causa da liberdade condicional, e, ao v-lo, foi como se tivesse voltado de 
novo para Dwight, ou pior. Era incrivelmente deprimente e dessa vez Grace no tinha Sally e Luana para a protegerem.
        Louis Marquez era um homenzinho baixo, untuoso, com uns olhinhos pequenos que pareciam contas, uma calvcie avanada e bigode. Quando viu Grace entrar no 
seu escritrio, parou com o que estava a fazer e olhou-a com assombro. A maior parte do seu tempo era passada com drogados e prostitutas e com algum traficante ocasional. 
Era raro ver ali delinquentes juvenis e mais raro ainda ver pessoas com acusaes to srias como as dela, e ainda por cima com aquele aspecto e idade.
        Grace comprara duas saias, um vestido azul-escuro para ir procurar emprego e um fato de saia e casaco com uma gola de cetim cor-de-rosa. Nesse dia vestia 
o vestido azul-escuro, pois tinha andado  procura de trabalho todo o dia e estava cheia de dores nos ps por causa dos sapatos de salto alto.
        - Em que posso ajud-la? - perguntou, parecendo assombrado. Tinha a certeza de que ela entrara ali por engano, mas estava satisfeito com isso.
        - Senhor Marquez?
        - Sim? - Olhou-a avidamente, mal podendo crer na sua boa sorte. E os seus olhos abriram-se ainda mais ao v-la tirar da carteira o impresso, que lhe era 
to familiar, da liberdade condicional. Olhou-a de relance e depois fitou-a, sem poder crer naquilo que lera. - Esteve em Dwight? - Ela disse que sim com a cabea, 
mostrando-se calma. -  um stio bastante mau. Como conseguiu suportar aquilo durante dois anos?
        - Muito tranquilamente - respondeu Grace, com um sorriso. Marquez reparou ento que ela se mostrava muito senhora de si embora tivesse pouca idade. Olhando-a 
melhor, com o seu vestido azul-escuro, era difcil acreditar que ela tivesse apenas vinte anos. Aparentava uns vinte e cinco. O homem ficou ainda mais surpreendido 
quando leu o resto do impresso.
        - Homicdio voluntrio? Teve uma zanga com o seu namorado?
        Grace no gostou da maneira como ele disse aquilo e respondeu muito friamente:
        - No, com o meu pai.
        - Estou a ver que no  pessoa para graas. - O homem observava-a com os seus olhinhos escuros. Estava a ver exactamente at onde poderia chegar. - Tem namorado?
        Grace no sabia bem que dizer, nem por que motivo ele lhe fazia a pergunta.
        - Tenho amigos. - Pensava em Luana e Sally, que eram as suas nicas amigas. E tambm em David, claro, mas ele estava muito longe. Mas no queria que Marquez 
soubesse que ela no tinha ningum.
        - Tem aqui famlia?
        Dessa vez Grace abanou a cabea.
        - No, no tenho.
        - Onde  que vive? - Ele tinha o direito de lhe fazer aquelas perguntas e ela sabia isso. Disse-lhe o nome do hotel e ele tomou nota da morada. - No  grande 
vizinhana para uma rapariga como voc. Muitos proxenetas. Talvez j tenha reparado. - Depois, com um brilho maldoso nos olhos: - Se se meter em sarilhos, volta 
para Dwight por mais dois anos. Se fosse a si no pensava em ganhar qualquer dinheiro extra. - Grace teve vontade de o esbofetear, mas a priso ensinara-a a ser 
paciente. No lhe respondeu.
        - Anda  procura de trabalho?
        - Estive em trs agncias e estou  procura de anncios nos jornais. Tenciono l ir amanh, mas quis vir aqui primeiro. - No queria atrasar-se em apresentar-se 
ali, com medo que ele lhe causasse sarilhos. E no tinha inteno de voltar para Dwight. Nem por dois anos, nem sequer por dois minutos.
        - Posso dar-lhe algum trabalho aqui - disse pensativamente Marquez. Gostaria muito de ter ali algum como ela e estava na situao ideal. Ela teria um medo 
terrvel dele e faria tudo o que ele quisesse. Quanto mais pensava nisso, mais a ideia lhe agradava. Mas Grace aprendera muito e j no se deixaria apanhar pelos 
Louis Marquez deste mundo. Esses tempos tinham acabado.
        - Muito obrigada, senhor Marquez - disse calmamente. - Se as minhas oportunidades falharem, falarei consigo.
        - Se no arranjar trabalho posso mand-la de novo para Dwight - disse maldosamente. Grace forou-se a no lhe responder. - Posso reenvi-la sempre que queira 
- insistiu ele. - No se esquea disso. Se no conseguir encontrar emprego, se no conseguir manter-se a si prpria, se infringir as condies da liberdade condicional. 
H imensas situaes em que poderei mand-la de novo para l. - Havia sempre algum a amea-la, a tentar arruinar-lhe a vida, a tentar fazer chantagem com ela. 
E quando Grace o olhou com ar infeliz, pensando no porco que ele era, o homenzinho abriu uma gaveta, retirou de l uma espcie de chvena com tampa e entregou-lha. 
- Urine para a - disse. - H uma casa de banho de senhoras do outro lado do corredor.
        - Agora?
        - Com certeza. Porque no? Est drogada? - Marquez parecia ter esperanas de que estivesse.
        - No - respondeu Grace, irritada. - Mas porqu a anlise? Nunca tive nada a ver com drogas.
        - Esteve presa por homicdio. E agora est em liberdade condicional. Tenho o direito de lhe pedir tudo o que ache necessrio. Agora peo uma anlise de urina. 
Vai urinar para a ou recusa-se a faz-lo? Posso mand-la de novo para a priso por causa disso, sabe?
        - Est bem. Est bem. - Grace levantou-se e dirigiu-se para a porta, pensando que ele era um malandro. - Normalmente a minha secretria teria de a vigiar, 
mas hoje ela saiu mais cedo. Para a prxima ser vigiada, mas desta vez passa assim.
        - Obrigada - Grace olhou-o com mal disfarada ira. Mas ele tinha-a pela garganta, tal como toda a gente a tivera durante anos: os pais, Frank Wills, a Polcia 
de Watseka, as guardas de Dwight e at Brenda e as amigas dela, at que Luana e Sally a haviam salvo. Mas ali no tinha quem a salvasse. Tinha de se salvar a si 
prpria e enfrentar vermes como Louis Marquez.
        Grace voltou cinco minutos depois com a chvena cheia e colocou-a num equilbrio precrio em cima da secretria, com a tampa mal fechada. Tinha esperanas 
de que ele a entornasse por cima dos papis.
        - Volte daqui a uma semana - disse Marquez com ar casual, olhando-a de novo com um interesse bvio. - Informe-me quando se mudar, ou quando arranjar emprego. 
No saia do estado. E no v a parte nenhuma sem me dizer.
        - Muito bem. Obrigada. - Levantou-se para sair e ele ficou a ver as suas ancas esbeltas e as longas pernas desaparecerem. Um minuto depois levantou-se e 
despejou a urina no lavatrio. No estava interessado na anlise de urina. Quisera apenas humilh-la e faz-la compreender que a podia obrigar a fazer o que ele 
quisesse.
        Grace ia furibunda quando se meteu no autocarro para regressar ao hotel. Louis Marquez representava tudo contra o que ela sempre lutara, e agora no ia desistir 
de lutar contra ele. No permitiria que ele a enviasse fosse para onde fosse. Preferia morrer.
        Nessa noite percorreu as Pginas Amarelas  procura de agncias de modelos. Pensou que talvez pudesse trabalhar como recepcionista ou em qualquer outro trabalho 
de escritrio. Fez uma longa lista de locais onde poderia ir e gostava de saber qual seria o melhor. Mas no tinha maneira de o fazer. Apenas poderia ir experimentar.
        No dia seguinte levantou-se s sete e estava ainda de camisa de noite, a lavar os dentes, quando ouviu algum bater a porta. Devia ser um proxeneta ou um 
prostituto. Algum que se enganara no quarto. Ps uma toalha por cima da camisa de noite e ainda com a escova de dentes na mo, abriu a porta. Era Louis Marquez.
        - Que deseja? - Por um instante quase no o reconheceu, mas logo a seguir lembrou-se.
        - Vim ver onde vive. Na minha posio tenho o direito de o fazer.
        - Que simptico - disse Grace, zangada. - Vejo que comea a trabalhar cedo! -  Que julgaria ele que estava a fazer? Aquela situao fez-lhe recordar o pai 
e Grace sentiu-se estremecer.
        - No se importa que eu entre? - perguntou com voz suave. - Quis certificar-me se vivia aqui.
        - Vivo - disse ela friamente, abrindo mais a porta. No o convidaria a entrar, nem ia fechar-lhe a porta na cara. - Se me importo ou no, depende do que 
o senhor tem em mente vindo aqui. - Grace olhou-o sem pestanejar.
        - Que quer dizer com isso?
        - Sabe muito bem o que quero dizer. Porque veio aqui? Para ver onde eu vivo? ptimo. J viu. E agora que espera? No tenciono servir o pequeno-almoo.
        - No se arme em esperta comigo, sua cabra. Posso fazer tudo quanto quiser consigo. No se esquea.
        A maneira como ele falou fez com que qualquer coisa explodisse dentro dela e Grace deu um passo em frente, ps a cara junto da dele e fitou-o com uma expresso 
furiosa.
        - Matei o ltimo homem que me disse isso e quis agir de acordo com o que dizia. No se esquea, senhor Marquez. Estamos entendidos agora?
        Marquez estava furioso, mas fora apanhado em falso e sabia-o. Fora ali para ver onde poderia chegar, para saber se ela tinha muito medo dele. Mas Luana ensinara-a 
bem e ela no se deixara amedrontar.
        -  melhor ter cuidado com o que me diz - respondeu ele num tom malvolo, hesitando  entrada da porta. No vou admitir que uma cabra como voc, que matou 
o seu prprio pai, me fale desse modo. Pode pensar que agora est livre, mas lembre-se de que eu a posso mandar para Dwight mais dois anos e que no hesitarei em 
faz-lo.
        -  bom que tenha uma razo bem forte para isso, Marquez, ou eu no irei a parte alguma s por voc aparecer no meu hotel s sete da manh. - Grace sabia 
exactamente o que ele queria dali. Na verdade, ela surpreendera-o. Sempre pensara que se mostrasse mais amedrontada. Ficara desapontado, mas merecera a pena e, se 
ela alguma vez mostrasse sinais de fraqueza, esmag-la-ia como uma barata. - Que mais deseja? Quer que eu urine para dentro de um copo? Terei muito prazer em o fazer. 
- Olhou-o friamente e sem dizer mais uma palavra, Marquez voltou-se e comeou a descer as escadas do hotel. Ainda no terminara. Estava sujeita a ele durante mais 
dois anos e tinha muito tempo para a atormentar.
        Depois de ele sair, Grace vestiu o fato de saia e casaco preto com a gola cor-de-rosa e penteou-se com todo o cuidado. Queria ter um aspecto que pudesse 
agradar s agncias de modelos. Queria mostrar-se calma, segura de si e bem vestida, mas no to vistosa que pudesse competir com os modelos. Nas primeiras duas 
agncias disseram-lhe que no tinham vagas e mal pareceram reparar nela. A terceira foi a Swanson's, em Lake Shore Drive. Tinham uma sala de espera luxuosa com grandes 
fotografias dos seus modelos. A casa fora decorada por um decorador conhecido e Grace sentia-se um pouco nervosa quando a chamaram para um dos gabinetes, para ser 
entrevistada por Cheryl Swanson. Ela contratava pessoalmente todos os empregados da casa, e o mesmo fazia o marido, Bob. Os empregados da Swanson's tinham todos 
uma certa classe. Os seus modelos eram os melhores da cidade, disputados pelos fotgrafos profissionais e pelos publicitrios. Tudo na agncia sugeria estilo, xito 
e beleza. Enquanto observava o que a rodeava, na salinha onde esperava por Cheryl, Grace sentia-se especialmente satisfeita por ter vestido o fato de saia e casaco 
estilo Chanel.
        Momentos depois entrou na sala uma mulher alta, de cabelos escuros, elegantemente vestida com um sbrio vestido preto. Usava uns grandes culos e tinha o 
cabelo preso num carrapito, na nuca. No era bonita, mas muito atraente.
        - Miss Adams? - sorriu para Grace e avaliou-a com um olhar: era muito nova e algo assustada, mas parecia inteligente e tinha bom aspecto. - Sou Cheryl Swanson.
        - Como est? Obrigada por me receber. - Grace apertou-lhe a mo por cima da secretria e sentou-se outra vez, sentindo a asma comear a encher-lhe o peito, 
e rezou para no ter agora uma crise. Era terrvel ter de andar de um lado para o outro a responder a anncios e a tentar convencer as pessoas a contrat-la. H 
perto de uma semana que andava naquilo e ainda no tivera qualquer esperana de arranjar um emprego. Sabia que se no fim da semana seguinte nada tivesse conseguido, 
o Sr. Marquez lhe arranjaria sarilhos.
        - Informaram-me que est interessada em trabalhar como recepcionista - disse Cheryl, olhando de relance para o bilhete que a sua secretria lhe entregara. 
- Aqui  um lugar importante.  o primeiro rosto que quem c vem v, a primeira voz.  o primeiro contacto com a Swanson.  importante que tudo o que possa fazer 
represente quem somos e o que somos. Conhece a agncia? - perguntou Cheryl Swanson, tirando os culos e observando Grace mais de perto. Ela tinha boa pele, uns olhos 
grandes e um belo cabelo. Talvez ela estivesse interessada em ser modelo e quisesse tentar entrar pela porta das traseiras. Mas provavelmente isso no seria necessrio. 
- Estaria interessada em ser modelo, Miss Adams? - quis saber, pensando que adivinhara as intenes daquela jovem. Mas Grace apressou-se a abanar a cabea em resposta 
 pergunta dela. Era a ltima coisa que desejava, homens  volta dela, a apalparem-na, julgando que ela seria uma presa fcil por ser modelo, ou fotgrafos a fotograf-la 
em fato de banho ou menos. No, obrigada.
        - No, no gostava. Eu queria um trabalho de escritrio.
        - Talvez devesse ir alm disso. - Olhou de novo para a nota que tinha na sua frente. - Grace... talvez devesse pensar em trabalhar como modelo. Levante-se, 
por favor. - A jovem obedeceu, relutantemente, e Cheryl ficou satisfeita ao ver como ela era alta. Mas Grace parecia prestes a chorar ou a fugir dali aos gritos.
        - No quero ser modelo, senhora Swanson. Gostava apenas de atender o telefone, escrever  mquina, fazer recados... o que for preciso... tudo menos ser modelo.
        - Porqu? A maior parte das raparigas sonha com a carreira de modelo. - Mas no Grace. Ela queria uma vida diferente, uma verdadeira famlia, um emprego 
real. No desejava iniciar a sua nova vida a perseguir o arco-iris.
        - No  isso que eu quero. Ambiciono uma coisa... mais... mais slida.
        - Bem - lamentou Cheryl, - temos aqui uma vaga para um trabalho desse gnero. Mas acho que  uma pena, pois voc tem qualidades para ser modelo. A propsito, 
que idade tem?
        Grace pensou em lhe mentir, e decidiu no o fazer.
        - Tenho vinte anos. Tenho o curso secundrio, sei dactilografar, mas no muito depressa. E esforar-me-ei por trabalhar bem, juro. - Estava a pedir que lhe 
dessem o emprego e Cheryl sorriu-lhe. Era uma rapariga sensacional e mal empregada a atender telefones atrs de uma secretria. Mas por outro lado tinha o aspecto 
certo para aquilo que a Swanson se propunha oferecer aos seus clientes. Parecia uma das suas modelos.
        - Quando pode comear? - perguntou Cheryl com um sorriso maternal. Simpatizava com ela.
        - Hoje. Agora. Quando desejar que eu comece. Cheguei h pouco a Chicago.
        - De onde veio? - perguntou com interesse, mas Grace no lhe queria dizer que era de Watseka. Ela podia ter sabido do caso da morte do pai dela, dois anos 
antes. E tambm no queria dizer que viera de Dwight, para o caso de ela conhecer essa priso.
        - De Taylorville - mentiu. Era uma cidadezinha que ficava a cerca de trezentos quilmetros de Chicago.
        - Os seus pais vivem l?
        - Os meus pais morreram ambos quando eu estava na escola secundria. - Era muito perto da verdade e suficientemente vago para no lhe causar problemas.
        - No tem aqui famlia? - perguntou Cheryl Swanson, parecendo preocupada com ela. Mas Grace limitou-se a abanar a cabea.
        - Ningum.
        - Normalmente pedir-lhe-ia referncias, mas visto ser o seu primeiro emprego no faz muito sentido pedi-las, no ? Receberia apenas uma carta de um dos 
seus professores da escola secundria dizendo quais as suas qualidades. Isso poderei eu avaliar aqui. Bem-vinda  familia, Grace. - A sua nova patroa deu-lhe uma 
palmadinha amigvel num brao. - Espero que se sinta feliz aqui durante muito tempo, pelo menos at se decidir a iniciar uma carreira de modelo - acrescentou, rindo. 
Oferecera-lhe o lugar de recepcionista a ganhar cem dlares semanais e isso era tudo quanto Grace desejava.
        Cheryl levou-a at uma sala grande e apresentou-a a toda a gente. Havia seis agentes e trs secretrias, bem como contabilistas e umas pessoas que Grace 
no percebeu o que faziam. Depois conduziu-a por um corredor, ao fundo do qual havia uma porta. Cheryl introduziu Grace num sumptuoso escritrio todo decorado com 
cabedal cinzento e camura. A apresentou-a ao marido, Bob Swanson. Pareciam ambos ter uns quarenta e cinco anos e Cheryl j lhe dissera que eram casados h vinte, 
mas no tinham filhos. "Os modelos so os nossos filhos", explicara.
        Bob Swanson avaliou Grace com um olhar e fitou-a com um sorriso afectuoso que de facto a fez sentir-se parte da famlia. Depois levantou-se, contornou a 
secretria e apertou a mo a Grace. Era muito alto, tinha cabelo escuro e olhos azuis. Parecia um actor de cinema. Com efeito, fora-o em criana e a seguir modelo, 
tal como Cheryl, em Nova Iorque. Mais tarde mudaram-se para Chicago e estabeleceram-se.
        - Disseste "recepcionista" ou uma nova modelo? - Sorriu abertamente e Grace sentiu-se finalmente em casa. Eram de facto pessoas simpticas.
        - Foi isso que eu lhe disse - respondeu Cheryl, sorrindo. Tornava-se imediatamente bvio que gostavam um do outro e que trabalhavam bem em conjunto. - Mas 
Grace  uma rapariga obstinada. Diz que quer um lugar de secretria.
        - O que  que a tornou to esperta? - Swanson riu ao olhar Grace. Ela era realmente uma rapariga bonita e a mulher tinha razo: podia ser modelo. - Ns levmos 
anos a descobrir isso. Aprendemos  nossa custa.
        - Sei que nunca seria boa nesse trabalho. Sinto-me feliz nos bastidores, pondo as coisas a funcionar. - Sempre soubera governar a casa da me e em Dwight 
organizara na perfeio a sala de abastecimento. Tinha jeito para organizar as coisas e estava preparada para trabalhar longas horas para que o trabalho fosse feito.
        - Bem-vinda a bordo, Grace. Vamos ao trabalho! Recostou-se na sua cadeira outra vez e acenou-lhes quando elas saram, ficando a v-las afastarem-se pelo 
corredor. Havia qualquer coisa de interessante naquela rapariga, mas ainda no sabia bem o qu. Gabava-se de possuir um sexto sentido para conhecer as pessoas.
        Cheryl pediu a duas das secretrias para mostrarem a Grace como funcionava o sistema telefnico e as mquinas do escritrio. Ao meio-dia parecia que ela 
estivera ali toda a vida. A ltima recepcionista deixara-as na semana anterior e desde ento tinham-se remediado com temporrias. Mas era um alvio para toda a gente 
ter ali uma pessoa eficiente, para fazer telefonemas, marcar entrevistas e fazer os registos nas agendas. Era um trabalho complicado que por vezes requeria um certo 
malabarismo, mas no fim da primeira semana Grace sabia que gostava de ali estar. Era um emprego perfeito.
        Quando Grace se apresentou a Louis Marquez, no fim da semana, ele no teve nada que lhe censurar. Grace levava uma vida respeitvel e andava  procura de 
um pequeno apartamento para se mudar. Gostaria de viver prximo do local de trabalho, mas os apartamentos nas proximidades de Lake Shore Drive eram terrivelmente 
caros. Procurava nos jornais, na esperana de descobrir um, quando uma tarde quatro raparigas modelos conversavam na sala  espera da confirmao de uma passagem. 
Grace estava sempre pronta a admirar a beleza delas e gostava de apreciar o modo como se arranjavam. Todas tinham cabelos fabulosos, unhas impecveis, a maquilhagem 
parecia sempre feita por profissionais e as roupas delas faziam com que as olhassem com inveja. Mas continuava a no ter vontade de fazer o gnero de trabalho que 
elas faziam. No queria fazer comrcio com o seu aspecto, nem queria atrair sobre si todas as atenes. Emocionalmente, no se sentia preparada para isso. No poderia 
suportar tal coisa e sabia-o. Nada lhe agradava mais do que no ser o centro das atenes. Mas as modelos incluam-na sempre nas suas conversas. Dessa vez falavam 
em alugar uma casa que tinham visto. Grace achava que devia ser fabulosa, mas claro que estava fora do seu alcance, pois elas falavam em mil dlares. Tinha cinco 
quartos e elas s precisavam de quatro. Ou talvez de menos um, porque uma delas estava a pensar em casar.
        - Precisamos de outra pessoa para partilhar a casa conosco - disse uma rapariga chamada Divina, mostrando-se desapontada. Era uma brasileira espectacular. 
- Est interessada? - perguntou casualmente a Grace, mas esta no podia imaginar-se a viver com elas, nem a pagar uma renda que seria acessvel para as modelos.
        - Estou  procura de uma casa - disse com franqueza Grace -, mas no creio que possa pagar uma renda como a que querem pagar - respondeu.
        - Se dividirmos por cinco, so apenas duzentos dlares para cada uma - disse uma modelo alem, chamada Brigitte, que tinha apenas vinte e dois anos. - Poderia 
pagar isso, Grace? - Grace gostava do sotaque dela.
        - Sim, se deixar de comer. - Ficaria sem metade do seu salrio, o que no lhe deixaria muito para comida e outras despesas. E detestava gastar as suas economias, 
mas sabia que poderia faz-lo, se precisasse. E talvez merecesse a pena para viver num local agradvel, numa bela casa e com pessoas decentes. - Deixem-me pensar 
um pouco.
        Uma das raparigas americanas riu e olhou para o relgio.
        - ptimo. Tem at s quatro horas para se decidir. s quatro e meia vamos ver outra vez a casa e dizer se a queremos. Quer vir?
        - Gostava muito, se puder sair a essa hora. Terei de pedir a Cheryl.
        Mas quando Grace se lhe dirigiu, Cheryl ficou encantada. Horrorizara-a saber que Grace vivia num hotel manhoso enquanto procurava um apartamento. Chegara 
mesmo a convid-la para o seu apartamento enquanto procurava um, mas Grace no aceitou.
        - Graas a Deus! - exclamou Cheryl e praticamente empurrou Grace para fora da porta com as outras. Eram boas raparigas e talvez se vivesse como elas Grace 
se decidisse pela carreira de modelo. Cheryl ainda no desistira dessa ideia, mas por outro lado descobrira que a capacidade de organizao de Grace era uma bno.
        A casa revelou-se espectacular. Tinha cinco quartos bastante grandes, trs casas de banho, uma cozinha razovel e uma sala cheia de sol, com vista para o 
lago. Tinha tudo o que elas desejavam e nessa mesma tarde assinaram o contrato de arrendamento. A casa estava parcialmente mobilada com um sof e algumas cadeiras 
e um conjunto de casa de jantar. As outras raparigas disseram que tinham moblias suficientes para o resto e Grace teria apenas de comprar uma cama e alguns mveis 
para o seu prprio quarto. Era incrvel. Tinha um emprego, uma casa para viver e amigas. Voltou-se para ver o lago e os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. Depois 
fingiu ir ver o terrao para as outras no repararem que chorava.
        Marjorie, uma das modelos, seguiu-a. Vira a expresso comovida do rosto de Grace e ficara preocupada. Marjorie era a me-galinha do grupo e as outras gracejavam 
com ela por causa disso. Tinha apenas vinte e um anos, mas era a mais velha de sete irmos.
        - Sente-se bem? - perguntou. Grace voltou-se para a olhar e sorriu-lhe atravs das lgrimas. Era impossvel ocult-las.
        - Sinto.  que isto... parece-me um sonho... isto  tudo o que eu sempre desejei.  muito mais. - S desejava poder mostrar aquela casa a Molly. Ela nunca 
teria acreditado. A pobre rapariga, espancada, assustada, que ela fora, florescera, apesar do terreno estril do Dwight Correctional Center, nos ltimos dois anos. 
E agora ali estava ela, com uma nova vida, num mundo novo, era como um sonho. David e Molly tinham razo. Se ela se aguentasse o tempo suficiente, a fealdade do 
passado ficaria para trs para sempre. E agora, finalmente, o passado era o passado.
        Ainda na semana anterior enviara postais a Luana e a Sally, dizendo-lhes que estava bem e que Chicago era uma cidade fantstica. Mas conhecia-as suficientemente 
bem para saber que elas nunca lhe escreveriam. No entanto queria que soubessem que ela estava bem e que chegara a porto seguro. E que as no esquecera.
        - Parecia to comovida h momentos - murmurou Marjorie, mas Grace sorria.
        - Estou apenas feliz. Para mim  como se um sonho se tornasse realidade. - Marjorie nunca poderia saber de que maneira. A nica coisa que Grace no queria 
era que soubessem que ela matara o pai e que passara dois anos na priso por causa disso. Queria deixar isso para trs.
        - Para mim tambm  como um sonho - confessou Marjorie. - Os meus pais eram to pobres que eu tinha de partilhar um nico par de sapatos bons com duas das 
minhas irms. E elas tinham os ps mais pequenos e a minha me comprava-os sempre  medida delas. Nunca vivi numa casa assim, antes de vir para aqui. E agora posso 
viver, graas aos Swansons. - Era graas  sua beleza e ela sabia-o. Quando acabasse o seu contrato ali, tencionava ir para Nova Iorque, ou talvez mesmo para Paris, 
para trabalhar como modelo.
        -  divertido, no ?
        -  fantstico.
        As duas raparigas ficaram a conversar durante um bocado e mais tarde Grace foi para o seu hotel e fez as malas. No se importava de dormir no cho at chegar 
a sua moblia, mas no ia passar nem mais uma noite naquele hotel barato, a matar baratas e a ouvir velhotes tossirem e puxarem o autoclismo. Mudou-se no dia seguinte 
e foi deixar as suas coisas na casa nova antes de ir para o trabalho.  hora do almoo foi comprar uma cama e algumas peas de mobilirio  casa John M. Smythe, 
na Michigan Avenue. Comprou at dois pequenos quadros. Prometeram enviar-lhe tudo no sbado seguinte e at l Grace estava disposta a dormir na carpeta.
        Nunca se sentira to feliz na sua vida e o emprego ia esplendidamente. Mas na sexta-feira, quando se apresentou a Marquez, descobriu que tinha problemas 
e ele ficou satisfeito com isso.
        - Voc mudou-se - disse ele acusadoramente mal ela entrou no seu escritrio. H dias que a esperava. E tomara conhecimento por ter passado novamente pelo 
hotel, e lhe terem dito que ela deixara o quarto na tera-feira.
        - E ento? Qual  o problema?
        - No me avisou.
        - Os meus papis dizem que no preciso de o avisar durante cinco dias. Mudei-me h trs dias e estou a avis-lo agora. Que tem a dizer agora, senhor Marquez? 
- Ele queria fazer chantagem com ela a todo o custo. Mas Grace tinha razo e ele nada podia dizer. Tinha de facto cinco dias para o avisar e s haviam decorrido 
trs.
        - Ento qual  o endereo? - perguntou de mau modo, preparando-se para escrever. Ao olhar para ele, Grace percebeu o que iria suceder.
        - Isso significa que me ir visitar de tempos a tempos? - perguntou, parecendo preocupada, o que lhe agradou imenso. Gostava de a fazer sentir-se desconfortvel, 
de a assustar, se fosse possvel. Ela despertava os seus mais primitivos instintos sexuais.
        Pode ser que o faa. Tenho esse direito. Tem alguma coisa a esconder?
        - Sim. A si. - Grace olhou-o de frente e ele corou at  raiz dos cabelos ralos.
        - Que quer dizer com isso? - perguntou Marquez, pousando a caneta com irritao.
        - Quer dizer que tenho quatro companheiras que no precisam de saber onde eu estive nos ltimos dois anos.  isso.
        - No quer que saibam que esteve presa por homicdio, no ? - Marquez estava encantado. Agora tinha algo com que a ameaar. Poderia dizer que a denunciaria 
s suas companheiras de casa.
        - Sim,  isso.
        - Tenho a certeza de que elas ficariam encantadas com a sua histria. E a propsito, que quer dizer com quatro companheiras? Parece-me um bando de prostitutas.
        - So modelos. Esto inscritas na agncia onde eu trabalho.
        - Isso  o que todas dizem. Mas de qualquer modo preciso da morada... a no ser que queira que eu a viole, claro. Olhou-a com ar esperanoso.
        - Por amor de Deus, Marquez! - Grace deu-lhe a morada e ele olhou-a de novo com ar desconfiado.
        - Como  que vai pagar isso?
        - A renda dividida por cinco vai-me custar exactamente duzentos dlares. - No tinha inteno de lhe dizer que possua o dinheiro proveniente do seu acordo 
com Frank Wills. Louis Marquez no precisava de saber isso. E a verdade  que, com o que ela ganhava, se quisesse economizar um bocado podia muito bem pagar a sua 
parte da renda da casa.
        - De qualquer modo vou ter de ver essa casa - resmungou ele. Grace encolheu os ombros.
        - Calculava que fosse dizer isso. Quer marcar o dia? - perguntou, na esperana de que ele o fizesse. Mas Marquez no estava disposto a ser acomodatcio.
        - Hei-de passar por l.
        - ptimo. Mas faa-me um favor. No diga quem  - pediu, olhando-o com ar preocupado.
        - E que devo dizer ento?
        - Qualquer coisa. Diga-lhes que me quer vender um carro. Diga-lhes o que quiser, mas no lhes conte que estou em liberdade condicional.
        -  bom que se porte bem, Grace - disse Marquez, olhando-a atentamente, e a expresso dele no passou despercebida a Grace. - Caso contrrio, terei de o 
fazer. - E ao olh-lo, por razes que ela no conseguia discernir, aquele homenzinho feio fez-lhe recordar Brenda na priso. Tinha as pernas dela amarradas. E agora 
no tinha Luana para a salvar.

CAPTULO 7

        O grupo do apartamento entendia-se s mil maravilhas: nunca discutiam por causa das contas, pois cada uma pagava a sua parte, e todas se mostravam simpticas 
umas para as outras. Era de facto uma combinao perfeita. Compravam pequenos presentes umas s outras e eram generosas com as mercearias. Grace nunca se sentira 
to feliz na sua vida. Todos os dias pensava se seria realidade ou se estaria a sonhar.
        As raparigas tentaram at arranjar-lhe encontros com amigos, mas Grace no consentia nisso. As mercearias eram uma coisa, mas presentes oferecidos por homens 
no lhe interessavam. No desejava sair com ningum nem complicar a vida dela. Aos vinte anos sentia-se perfeitamente contente por ficar em casa a ler, ou a ver 
televiso. A liberdade de que gozava era um bem inestimvel e ela nada mais queria da vida. S de pensar em sair com um homem se sentia aterrorizada. No tinha desejo 
de conhecer ningum, e talvez nunca tivesse.
        As suas companheiras gracejavam com ela por causa disso, mas depois acabaram por achar que Grace tinha uma vida secreta. Duas delas estavam certas de que 
ela se encontrava em segredo com um homem casado, especialmente quando ela comeou a sair regularmente trs noites por semana, nas noites de segunda-feira e quinta-feira 
e aos domingos. Nos dias de semana ia directamente ao sair do trabalho e frequentemente chegava a casa depois da meia-noite.
        Grace pensara em contar-lhes a verdade, mas eventualmente a ideia delas de que ela se encontrava com algum resultava melhor para si. Assim deixavam-na em 
paz e no tentavam arranjar-lhe namorado. Com efeito, relativamente ao modo como ela desejava viver, era perfeito.
        E a verdade  que as suas sadas, trs vezes por semana, eram o corao e alma da sua existncia. Logo que se Instalara no apartamento que alugara com as 
amigas, comeara a procurar um stio onde trabalhar trs vezes por semana. No para lhe pagarem, mas para poder retribuir algo do que a vida lhe dera. Sentia-se 
demasiado afortunada para deixar de fazer alguma coisa para ajudar os outros. Era uma coisa que sempre prometera a si mesma, quando se encontrava deitada no seu 
beliche,  noite, conversando com Sally, ou no exterior, a trabalhar ao lado de Luana.
        Levara um ms a encontrar um stio onde trabalhar como voluntria. No tivera ningum a quem perguntar, mas lera uma poro de artigos e vira um programa 
na TV a respeito de St. Mary. Era um centro de ajuda a mulheres e crianas, instalado num velho prdio em muito mau estado. Quando l fora a primeira vez, Grace 
ficara chocada com a situao em que o centro se encontrava: as paredes estavam sem tinta, as lmpadas pendiam dos tectos lanando uma luz crua sobre toda aquela 
pobreza, havia crianas a correr e a gritar por todos os lados e dzias de mulheres. A maior parte delas tinha um ar miservel, muitas estavam grvidas e todas elas 
se mostravam desesperadas. O que todas tinham em comum era terem sido vtimas de abusos mais ou menos danificadores. Algumas mostravam cicatrizes, outras no funcionavam 
normalmente e outras ainda tinham estado em instituies.
        St. Mary era dirigido pelo Dr. Paul Weinberg, um jovem psiclogo que lhe fazia lembrar David Glass, e, depois de ter estado ali pela primeira vez, Grace 
desejou desesperadamente poder falar com Molly. Teria gostado de falar com ela e de lhe contar tudo aquilo. S estar ali fora uma experincia profundamente comovedora. 
O centro era praticamente gerido por voluntrios que ali trabalhavam. Havia poucos empregados pagos, muitos deles fazendo estgios depois da formatura em psicologia. 
Tambm tinham algumas enfermeiras diplomadas. As mulheres e as crianas que ali viviam necessitavam de cuidados mdicos, ajuda psicolgica e um stio para viver. 
Precisavam de roupas, de carinho e de uma mo que as ajudasse a sair do abismo em que se encontravam. At para Grace, o facto de ir todas as semanas a St. Mary era 
como uma luz a brilhar na escurido. Oferecera-se para trs turnos semanais de sete horas cada um, o que era um compromisso enorme, mas era um stio onde Grace se 
sentia em paz e onde podia dar paz aos outros. As mulheres que ali se encontravam tinham passado por experincias semelhantes s dela, e as crianas tambm. Estavam 
ali raparigas de catorze anos que os pais ou irmos, ou tios tinham engravidado, crianas de sete anos com os olhos vtreos e mulheres que no acreditavam que pudessem 
voltar a ser livres. Eram vtimas da violncia e na maior parte das vezes de maridos abusivos. Muitas delas tinham sido vtimas de abusos tambm em crianas e continuavam 
a perpetuar o ciclo com os seus prprios filhos, no fazendo ideia de como o poderiam quebrar. Era isso o que o pessoal de St. Mary tentava ensinar-lhes.
        Quando estava em St. Mary, Grace era incansvel. Trabalhava com as mulheres, mas gostava sobretudo das crianas. Reunia-as  sua volta, sentava-as no colo 
e contava-lhes histrias que inventava, ou lia-lhas de algum livro. Levava-as  clnica para o mdico lhes tratar ferimentos, ou para serem examinadas ou levarem 
injeces. Isso dava  vida dela muito mais significado. Mas ao mesmo tempo tudo aquilo a magoava. Magoava-a terrivelmente por lhe ser demasiado familiar.
        - Faz doer o corao, no faz? - disse-lhe certa vez uma enfermeira, perto do Natal. Grace estava a deitar uma menina de dois anos. Ficara com problemas 
cerebrais por causa do pai que estava agora na cadeia. Era estranho pensar que esse pai estava preso, enquanto que o dela morrera como um heri.
        - Sim, faz. Todos eles fazem. Mas tm sorte. - Grace sorriu para a enfermeira. Ela conhecia essa histria muito bem. Demasiado bem. - Esto aqui. Podiam 
estar ainda l fora a serem espancados. Por agora, pelo menos, esto livres disso. - O pior era que algumas voltavam. Havia mulheres que no eram capazes de estar 
longe dos maridos que as espancavam, e quando voltavam, levavam os filhos com elas. Algumas dessas crianas eram mortas, outras ficavam magoadas e irrecuperveis 
de uma maneira que no podia ver-se. Mas algumas libertavam-se, aprendiam, compreendiam e voltavam a viver. Grace passava horas a falar-lhes das opes que podiam 
fazer, da liberdade que lhes pertencia e que s tinham de agarrar. Todas estavam assustadas, desorientadas, cegas pela sua prpria dor, por tudo quanto tinham sofrido. 
Isso fazia-a pensar na sua prpria situao trs anos antes, quando estivera na priso e Molly tentara chegar at ela. Em parte, Grace fazia aquilo por Molly, para 
retribuir o amor que ela lhe dera.
        - Como vo as coisas? - perguntou Paul Weinberg, o psiclogo e director do programa, parando para dois dedos de conversa. Ele tinha estado a trabalhar toda 
a noite ao lado dos voluntrios e dos empregados, recebendo as pessoas que chegavam. A maior parte delas vinha  noite. Vinham assustadas, magoadas, feridas de corpo 
e alma e precisavam de tudo o que a equipa tinha para lhes oferecer.
        - Muito trabalho. - Grace no o conhecia bem, mas o que via agradava-lhe. E respeitava o facto de ele trabalhar arduamente. Tinham enviado duas mulheres 
para o hospital nessa noite e fora ele prprio quem as levara l, enquanto ela tratava das crianas. Cada uma delas tinha quatro filhos e estavam todos na cama agora. 
- Tem sido uma noite atarefada nesta poca do ano.  sempre assim antes do Natal. Ficam todos loucos. Se querem bater nos filhos e nas mulheres, esta  a poca apropriada 
para o fazerem.
        - Como ? Pem anncios? Bata na sua mulher agora, s faltam seis dias para o Natal. - Grace sentia-se cansada mas estava de bom humor. Gostava do seu trabalho.
        - Deve ser mais ou menos isso. - Sorriu e serviu-lhe uma chvena de caf. - J pensou em trabalhar sempre aqui? Isto , a tempo inteiro, sendo paga para 
isso?
        - Realmente no - respondeu honestamente Grace. Mas ficara lisonjeada com a pergunta e sorria enquanto bebia o caf fumegante. Paul tinha o cabelo encaracolado 
como David Glass, e os mesmos olhos bondosos, mas era mais alto e mais bem-parecido. - Cheguei a pensar em fazer psicologia, mas no tenho a certeza se seria boa 
nisso. Mas gosto daquilo que fao aqui. Gosto das pessoas e da ideia de que poderemos tornar as coisas diferentes para elas. Creio que fazer isto como voluntria 
 suficientemente bom para mim agora. No preciso de ser paga para isto. Gosto do meu trabalho aqui.
        - Voc  boa naquilo que faz, Grace. Por isso  que lhe fiz a pergunta. Acho que deve pensar nessa formatura em psicologia, quando tiver tempo. - Estava 
impressionado e gostava dela.
        Grace trabalhou at s duas nessa noite: tinham chegado meia dzia de mulheres com demasiados problemas para ela as poder deixar. Depois de estar tudo sossegado, 
Paul Weinberg ofereceu-se para a levar a casa e ela aceitou. Estava exausta.
        - Foi fantstica esta noite - disse ele e Grace agradeceu. Paul ficou surpreendido ao ver onde ela vivia. A maior parte dos habitantes de Lake Shore no 
se preocupavam com o que se passava em St. Mary. - O que  isto? - perguntou ele quando pararam perto da casa. - Mora num stio muito luxuoso, Grace.  alguma herdeira?
        Grace riu. Sabia que ele estava a brincar, mas a verdade  que Paul se sentia curioso. Grace era uma jovem muito interessante.
        - Partilho um apartamento com quatro outras raparigas. - T-lo-ia convidado a entrar se no fosse to tarde. - J passava das duas e meia. - Tem de vir aqui 
um dia se conseguir sair de Saint Mary. - Grace mostrava-se amigvel, mas ele sentia que no era mais do que isso. Ela tratava-o como a um irmo, mas o interesse 
dele por ela nada tinha de platnico.
        - Consigo fugir de vez em quando - respondeu, sorrindo. - E voc? Que faz quando no est a ajudar mulheres e crianas em crise? - Paul queria saber mais 
acerca dela, embora fosse tarde e estivessem ambos muito cansados.
        - Trabalho numa agncia de modelos - disse calmamente Grace. Gostava do seu trabalho e orgulhava-se dele, mas Paul ergueu as sobrancelhas.
        -  modelo? - No ficaria surpreendido se ela o fosse, mas no era habitual pessoas que gastavam tanto tempo consigo prprias disporem-se a ajudar os outros. 
Grace dava muito de si prpria s mulheres e s crianas de St. Mary. Paul reparara nisso.
        - Trabalho no escritrio - disse Grace com um sorriso. - Mas as minhas amigas so todas modelos. Pode vir aqui quando quiser para as conhecer. - Estava a 
tentar dizer-lhe que no se interessava por ele. No como homem, pelo menos. Isso f-lo pensar se ela teria namorado. Mas no quis fazer a pergunta.
        - Gostava de voltar aqui para a ver a si - disse Paul tranquilamente. Mas no precisava de o fazer: ela ia a St. Mary trs vezes por semana. E ele estava 
l sempre.
        Grace ofereceu-se para trabalhar na vspera de Natal e nem podia acreditar na quantidade de mulheres que chegaram nessa noite. Trabalhou incansavelmente 
e s chegou a casa s quatro da manh. Mas no dia seguinte conseguiu ir  festa de Natal que os Swansons ofereceram aos seus empregados, fotgrafos e modelos. Grace 
ficou surpreendida por se divertir. A nica coisa que a preocupou foi Bob Swanson ter danado vrias vezes com ela e ela julgar que ele a apertara demasiado. Uma 
vez at lhe parecera, embora no o pudesse jurar, que os dedos dele haviam roado pelos seios dela, quando estendera o brao para tirar um canap. Estava certa de 
que fora acidental e ele nem sequer dera por isso. Mas uma das suas companheiras fez um comentrio que a preocupou. Fora Marjorie, sempre a me-galinha das amigas, 
que reparara. Estava sempre a vigiar as outras e j conhecia os truques dele por experincia prpria.
        - O tio Bobby estava a aquecer muito esta noite? - perguntou ela a Grace, que pareceu espantada.
        - Que quer isso dizer? Ele apenas se mostrou amigvel. - Estamos no Natal.
        - Oh, santa inocncia - disse Marjorie com um suspiro. - Com certeza que no acreditas no que ests a dizer.
        - No sejas tola. - Grace defendeu-o. No podia crer que Bob enganasse Cheryl. Mas a verdade  que ele estava constantemente cercado de tentaes.
        - No sejas ingnua - interrompeu Divina. - No pensas que ele seja fiel  mulher, pois no? O ano passado perseguiu-me pelo escritrio todo durante uma 
hora. Quase parti um joelho quando bati na maldita mesa de caf do gabinete dele. Oh, sim, o tio Bobby  um rapaz muito ocupado e parece que tu s o prximo alvo.
        - Que maada - disse Grace, olhando-as com ar desanimado. - Tambm notei qualquer coisa mas receei ter interpretado mal, e talvez tenha.
        - Nesse caso passou-se o mesmo comigo - retorquiu Marjorie com uma gargalhada. -Julguei que ele te ia rasgar a roupa.
        - Cheryl sabe que ele faz isso? - perguntou Grace com pena. A ltima coisa que desejava era ser apanhada em confuses e no tencionava de modo algum permitir 
que ele avanasse. No queria um romance com Bob Swanson. Nem com ele nem com ningum. Pelo menos por agora e talvez nunca. Simplesmente no era isso que ela queria.
        Paul Weinberg telefonara-lhe vrias vezes para a convidar para jantar, mas ela recusara sempre. Mas na vspera de Ano Novo, quando Grace estava de novo a 
trabalhar em St. Mary, ele insistiu para que pelo menos se sentasse junto dele dez minutos, para comer uma sanduche de peru.
        - Porque me evita? - acusou ele, quando Grace tinha a boca cheia de peru. Levou um minuto at poder responder.
        - No o evito - disse com sinceridade. Apenas no retribuia os telefonemas dele. No entanto sentia-se perfeitamente satisfeita por estar ali a comer uma 
sanduche com ele.
        - Claro que evita - insistiu Paul. - Est envolvida com algum?
        - Sim - respondeu Grace com ar feliz, e a expresso dele anuviou-se. - Com Saint Mary, com o meu emprego e as minhas companheiras. Creio que  tudo, mas 
chega.  mais que suficiente. Mal tenho tempo para ler um jornal, ou um livro, ou ir a um cinema. Mas gosto disso.
        - Talvez precise de vir menos tempo aqui. - Paul sorriu, aliviado por ela no ter falado em namorados. Era uma rapariga fantstica e ele queria conhec-la 
melhor. Tinha trinta e dois anos e nunca conhecera ningum como ela. Era inteligente, divertida, carinhosa, e ao mesmo tempo tmida e distante. De certo modo, parecia 
antiquada e isso agradava-lhe. - Pelo menos devia ir uma vez a um cinema. - Mas ele tambm no ia a nenhum h meses. Sara com uma das enfermeiras durante uns tempos, 
mas isso acabara. E desde que Grace comeara a ir a St. Mary que se interessava por ela.
        - No quero ter tempo livre. Gosto de estar aqui - respondeu Grace, com um sorriso, enquanto acabava de mastigar o peru.
        - Que est a fazer aqui na vspera de Ano Novo? - perguntou Paul. Grace sorriu.
        - Podia fazer a mesma pergunta, no podia?
        - Eu trabalho aqui - respondeu ele.
        - E eu tambm. Apenas no me paga.
        - Continuo a pensar que devia tornar-se profissional. Mas antes de ele poder continuar a conversa, foram ambos chamados para direces opostas. Foi mais 
uma noite atarefada e Grace no voltou a ver Paul at  quinta-feira seguinte. Nessa noite ele ofereceu-se para a levar a casa de carro, mas ela meteu-se num txi. 
No queria encoraj-lo. Finalmente, a um domingo, ele apanhou-a em St. Mary.
        - Quer almoar comigo?
        - Agora? - perguntou ela, espantada. Tinham de falar com quatro famlias recm-chegadas.
        - Agora no. Para a semana. Quando quiser. Gostava de a ver. - Paul parecia um rapazinho embaraado ao dizer aquelas palavras.
        - Porqu? - A pergunta saltou-lhe da boca e ele soltou uma gargalhada.
        - Porqu? J se viu ao espelho? Alm disso  inteligente e divertida e eu gostaria de a conhecer melhor.
        - No h muito para conhecer. Na verdade eu sou bastante aborrecida - insistiu Grace e ele riu de novo.
        - Est a querer afastar-me?
        - Talvez - disse ela com sinceridade. - Na verdade eu no saio com ningum.
        - S trabalha? - Paul parecia divertido e Grace limitou-se a dizer que sim com a cabea. - Perfeito. Eu tambm no fao outra coisa seno trabalhar. Devamos 
dar-nos bem. Mas um de ns pode quebrar o ciclo.
        - Porqu? Estamos bem assim. - Subitamente, Grace mostrou-se distante e pareceu assustada. Isso deu que pensar a Paul.
        - Mas pode almoar uma vez comigo, no pode? Experimente. Tem de comer. Irei ter consigo onde quiser durante a semana. Como preferir. - Mas Grace no ficou 
satisfeita. Gostava dele mas no queria sair com ningum, no queria conhecer homem nenhum e no sabia como dizer-lho.
        Acabou por concordar em almoar com ele no sbado seguinte. Estava um dia gelado e foram ao La Scala comer massa.
        - Agora diga-me a verdade. O que a levou a Saint Mary?
        - O autocarro. - Sorriu-lhe e ele achou-a muito jovem e brincalhona.
        - Que engraada. Que idade tem, afinal? - perguntou subitamente Paul. Calculara que ela tivesse uns vinte e cinco ou vinte e seis, pela maneira como sabia 
lidar com as mulheres e as crianas espancadas.
        - Tenho vinte anos - disse Grace orgulhosamente, como se fosse um grande feito. Paul quase gemeu quando a ouviu. Isso explicava muita coisa, ou pelo menos 
ele assim julgou. - Fao vinte e um no prximo Vero.
        - Formidvel. Faz-me sentir como se estivesse a roubar um beb no bero. Eu farei trinta e trs em Agosto.
        - Voc faz-me lembrar algum que conheci, um amigo meu.  advogado na Califrnia.
        - E est apaixonada por ele? - perguntou Paul Weinberg com ar infeliz. Sabia que havia de existir alguma explicao para ela ser to distante. A sua extrema 
juventude talvez tivesse importncia, mas tinha de haver algo mais.
        Mas Grace riu e explicou quem era David.
        - No, ele  casado e esperam um filho.
        - Ento quem  o felizardo?
        - Que felizardo? J lhe disse que no h ningum.
        - Gosta de homens? - perguntou ele. Era uma pergunta estranha, ele sabia, mas nos tempos que corriam valia a pena perguntar.
        - No sei - respondeu Grace honestamente. - J lhe disse que nunca tive um namorado!
        - Nunca? - Paul no podia acreditar.
        - Nunca.
        - Isso  um recorde, aos vinte anos. - Era tambm um desafio. - Teve alguma razo particular para isso? - Tinham pedido o almoo e comiam com apetite enquanto 
ele lhe ia fazendo perguntas.
        - Sim, algumas, creio. Mas a principal  eu no querer.
        - Isso  loucura, Grace.
        -.  - murmurou cautelosamente. - Talvez no. Talvez seja assim que eu precise de viver a minha vida. Ningum pode avaliar o que  bom para mim.
        Ento, ao olh-la, Paul percebeu e compreendeu como fora idiota. Por isso  que ela fora para St. Mary. Para ajudar outras como ela.
        - Passou por uma m experincia? - perguntou gentilmente e ela confiou nele, mas s at certo ponto. No ia contar-lhe todos os seus segredos.
        - Pode diz-lo. Bastante m. Mas no pior do que aquilo que vemos todos os dias em Saint Mary. Isso deixa marcas, creio.
        - No tem de deixar. Pode superar isso. Tem consultado algum psicanalista?
        - Sim, j consultei. ramos boas amigas. Ela morreu num acidente o Vero passado. - Grace disse essas palavras com uma expresso to triste que Paul teve 
pena dela.
        - E a sua famlia? Tem-na ajudado?
        Grace sorriu. Sabia que ele a queria ajudar, mas s o tempo o poderia fazer. E sabia que tinha de se ajudar a si prpria.
        - No tenho qualquer famlia. Mas as coisas no so to ms como parecem. Tenho amigas e um bom emprego. E todas as pessoas simpticas de Saint Mary.
        - Gostaria de ajudar, se pensa que o posso fazer. - Mas o gnero de terapia em que ele pensava assustava-a terrivelmente. Sabia que ele tambm seria capaz 
de a tratar como terapeuta, mas o que ele realmente queria era andar com ela. E Grace no se sentia preparada para isso, nem sabia se alguma vez estaria.
        - Se precisar, procuro-o. - Sorriu e ambos pediram caf. Passaram uma tarde muito agradvel, passeando  volta do lago e falando a respeito de muitas coisas. 
Mas Paul sabia agora que no poderia persegui-la. Seria demasiado perigoso para ela. S por perceber o que ele sentia, fizera-a recuar e afastar-se dele.
        - Grace - disse ele quando a deixou  porta de casa - no a quero magoar. Nunca. Quero apenas estar disponvel se voc precisar de um amigo. - Depois sorriu 
de um modo agarotado que o tornou quase bonito. - E tambm no me importaria de mais alguma coisa, mas no quero pression-la. - Ela era to nova. Em parte era tambm 
isso. Mas no se atrevia a pression-la, sabendo que ela no estava preparada.
        - Obrigada. Passei uma tarde encantadora. - Era verdade e almoaram outras vezes juntos depois disso. Paul no queria desistir completamente de Grace e ela 
gostava da companhia dele, mas as relaes entre os dois nunca foram alm de uma afectuosa amizade. De certo modo, Paul tomara o lugar de David na vida dela, e talvez 
mesmo o de Molly.
        Entre o trabalho no escritrio, o tempo que passava em casa com as amigas e o trabalho em St. Mary, as coisas foram decorrendo com tranquilidade at  Primavera. 
Ento Louis Marquez comeou a causar novamente problemas a Grace. Ela no o sabia, mas ele rompera com a namorada e queria arranjar sarilhos a Grace. Comeou a aparecer 
no apartamento dela. Nunca explicou quem era e Grace tambm no, dizendo apenas vagamente que se tratava de um amigo do pai. Mas sempre que aparecia fazia muitas 
perguntas. Se consumiam drogas, se gostavam de ser modelos, se conheciam muitos homens por causa da profisso. Chegou a convidar Brigitte para sair com ele e Grace 
estava furiosa quando se apresentou no escritrio.
        - No tem o direito de me fazer isso. No tem o direito de ir a minha casa e incomodar as minhas amigas.
        - Posso incomodar quem eu quiser. E alm disso h meia hora que ela me estava a fazer olhinhos. No tenha iluses, querida. Ela no  virgem.
        - Pois no, mas tambm no  cega - retorquiu Grace. Isso enfureceu-o mais do que nunca. Grace mostrava-se cada vez menos assustada com ele.
        - S tem de ficar agradecida por eu no lhes contar que est em liberdade condicional e que tem de se apresentar a mim todas as semanas. E no lhes dizer 
tambm que esteve na priso.
        - Se fizer isso, queixo-me de si. Processo-o por me embaraar e envergonhar na minha prpria casa e com as minhas colegas de trabalho.
        - Tretas. No processa coisa alguma.
        Grace sabia que no o faria, mas precisava de lhe fazer frente. Como a maior parte dos atrevidos, ele recuaria se ela no mostrasse ter medo dele. A partir 
dessa altura, Marquez deixou de lhe aparecer tantas vezes e Grace continuou a apresentar-se semanalmente no escritrio dele.
        Quando, em Maio, Brigitte aceitou um contrato de trs meses para trabalhar em Tquio, arranjaram outra modelo para a substituir. Era francesa, do Sul de 
Frana, mais precisamente de Nice, e chamava-se Mireille. Tinha dezenove anos. Toda a gente gostava dela, e ela tinha uma paixo por tudo quanto fosse americano, 
especialmente pelas pipocas e cachorros-quentes. Tambm gostava dos rapazes americanos, mas no tanto como eles gostavam dela. Saa todas as noites. Isso fazia com 
que Divina, Marjorie, Allyson e Grace ficassem a conversar umas com as outras sempre que no estavam ocupadas.
        Os Swansons deram uma festa na sua casa de campo, para festejar o 4 de Julho e todas as modelos foram l passar o dia e o sero. Grace convidou Paul e ele 
teve um dia em cheio rodeado de todas aquelas lindas raparigas. Elas acharam-no muito simptico e quiseram saber se era com ele que Grace passava todo o seu tempo 
livre.
        - Mais ou menos - respondeu cautelosamente. E elas ficaram contentes.
        Depois disso, as amigas prepararam uma festa no dia do aniversrio de Grace. Foi uma grande surpresa. Elas convidaram toda a gente da agncia e Paul tambm, 
claro. Era o vigsimo primeiro aniversrio de Grace. Mais tarde estavam todos sentados no terrao e Grace pensava na volta que a sua vida dera no ltimo ano. Nem 
Paul nem ningum sabia que ela passara os ltimos dois aniversrios na priso. E agora estava ali, ao lado de Paul, a viver com aquelas raparigas encantadoras e 
a trabalhar numa agncia de modelos. s vezes, quando pensava nisso, ainda estremecia. Aquela festa f-la pensar em Luana e Sally, em David e Molly. E ficou triste 
ao aperceber-se que fazia exactamente aquilo que Luana dissera que ela faria. Estava a tir-las para fora, como recordaes, tocando-lhes com o seu corao de tempos 
a tempos, mas apenas por momentos fugidios. Depois voltava  sua vida actual, satisfeita por isso. Lembrava-se delas, mas tinham desaparecido para sempre. No voltara 
a ter notcias de David desde que o filho dele nascera, em Maro, e deixara finalmente de escrever a Sally e a Luana. Elas nunca tinham respondido s suas cartas.
        Ergueu os olhos e viu uma estrela-cadente. Sem esperar, fechou os olhos e pensou nelas, fazendo um voto para que um dia pudesse ficar tudo verdadeiramente 
para trs. De momento Louis Marquez continuava a ameaar revelar os segredos dela s amigas. Havia ainda algum com poder sobre ela. E s esperava vir um dia a ficar 
completamente livre, e pela primeira vez na vida no ter ningum a quem recear.
        - O que  que desejou? - perguntou Paul, observando-a.
        Nunca a forara a avanar para um relacionamento que ela no desejava. Mas ainda tinha esperanas de que um dia estivesse preparada para ele. Sabia o que 
teria desejado se visse uma estrela-cadente. Desejaria que ela o quisesse.
        - Estava a pensar em velhos amigos - respondeu Grace, sorrindo tristemente - a desejar que um dia todos os tempos difceis sejam uma recordao longnqua. 
- Todo o seu corao fugiu para ela ao ouvi-la dizer aquelas palavras.
        - Ainda o no so? - No sabia a que distncia no tempo se encontravam os tempos difceis de Grace, nem se ainda estavam prximos. Ela nunca lho dissera 
e ele no a pressionara. - Ainda no desapareceram? - perguntou afectuosamente.
        - Quase - sorriu-lhe, satisfeita por o ter como amigo - quase... Talvez para o prximo ano.

CAPTULO8

                Os Swansons continuavam a tentar aliciar Grace a trabalhar como modelo, mas ela recusou sempre e acabou por se tornar secretria de Cheryl, com um 
aumento substancial de salrio. Tanto Cheryl como o marido diziam que quem dirigia verdadeiramente a agncia era Grace. Era eficiente, rpida e organizada, alm 
de ser inteligente e discreta. Conhecia todas as raparigas que trabalhavam para a agncia, bem como os homens, e todos gostavam dela. No apartamento as coisas tambm 
corriam bem. Brigitte regressara de Tquio, mas vivia agora com um fotgrafo; Allyson fora para Los Angeles a fim de tomar parte num filme e Divina estava a trabalhar 
como modelo em Paris. Tinham ficado apenas Marjorie, Mireille e Grace. A francesa desejava ir viver com o seu ltimo namorado. Quando as duas primeiras saram, entraram 
logo outras duas para tomarem o lugar delas. E Marjorie anunciou que ia casar. Mas no representava qualquer problema para Grace arranjar novas companheiras para 
a casa. Chegavam constantemente a Chicago raparigas que queriam trabalhar como modelos, e todas elas precisavam de um apartamento.
                Louis Marquez continuava a vigi-la regularmente. Pelo menos uma vez por ms forava Grace a fazer um teste para ver se consumia drogas. Mas as anlises 
eram sempre negativas, o que constitua um desapontamento para ele. Apenas por pura maldade, ele gostaria de a apanhar em falta.
                -  mesmo um homenzinho nojento - observou Marjorie, quando o viu aparecer nesse Natal para ver quem eram as novas companheiras de Grace. - O teu 
pai tinha uns amigos muito pouco recomendveis - acrescentou, aborrecida por ele lhe ter tocado nas ndegas quando fingia estender a mo para um cinzeiro. Cheirava 
a cigarro e a suor e toda a roupa dele era de polister. - Porque  que no o mandas passear? - perguntou, com uma careta de repugnncia. - De cada vez que o vejo 
apetece-me tomar um banho.
        Grace gostaria mais do que ningum de lhe poder dizer que nunca mais aparecesse ali. Mas no o podia fazer. Faltavam-lhe ainda nove meses de liberdade condicional 
e depois o pesadelo acabaria.
        Em Maro, os Swansons convidaram-na a ir a Nova Iorque com eles, mas ela teve de dizer que no podia por j ter outro compromisso. Pedira autorizao a Louis 
Marquez para sair e ele recusara-lha peremptoriamente. Grace ficou desapontada por no ir, mas conseguiu manter-se ocupada. Continuava a passar duas noites por semana 
e parte do domingo em St. Mary. Quando l ia, encontrava Paul Weinberg. Gostava muito dele, mas sabia que ele desistira de esperar por ela e que estava seriamente 
envolvido com uma das enfermeiras.
        Cheryl Swanson tentava fazer com que ela sasse com rapazes, de tempos a tempos, mas Grace mantinha a sua indiferena nessa direco. Sentia-se com medo 
e ainda demasiado magoada por tudo quanto lhe acontecera. Sair com uma pessoa fazia-lhe lembrar os horrores que experimentara com o pai.
        At Junho, quando Marcus Anders entrou na agncia para falar com Cheryl. Era um dos homens mais bonitos que Grace alguma vez vira, com o cabelo louro, muito 
espesso e um sorriso agarotado e sardas. Parecia meio homem, meio rapaz, e Grace pensou que se tratasse de um modelo.
        Acabara de chegar de Detroit, e sua carteira era impressionante. Fizera grandes negcios e estava a pensar em ir para Los Angeles e Nova Iorque, mas queria 
chegar ao topo por fases, o que era inteligente da parte dele. Era muito calmo, muito seguro de si e tinha um grande sentido de humor. Gracejou um pouco com Grace, 
depois da entrevista, e falou com ela acerca de alugar um apartamento. Ela recomendou-lhe algumas agncias e apresentou-o a vrios modelos. Mas ele no se mostrou 
especialmente interessado por elas. Grace  que despertara as suas atenes e antes de sair pediu-lhe para a fotografar, s para ele, mas ela riu e abanou a cabea. 
Tivera vrias propostas semelhantes anteriormente e recusara-as sempre.
        - No, obrigada. Gosto de ficar longe das cmaras.
        - Porqu?  procurada pela Polcia? Est a esconder alguma coisa?
        - Sou procurada pelo FBI - respondeu imediatamente Grace. Era divertido falar com ele, mas no se queria deixar envolver. Muitos fotgrafos serviam-se das 
suas mquinas fotogrficas para atrair as mulheres. - No gosto que me tirem fotografias, nada mais.
        -  esperta - admirava-a. Era espantosamente bonita, jovem e saudvel. - Mas daria uma fotografia incrvel. Tem uma estatura fabulosa e uns olhos maravilhosos. 
- Quando a observou bem viu que havia mais do que isso. Nos olhos dela havia uma tristeza profunda, uma dor antiga que ela escondia do mundo, mas no dele. Marcus 
apercebeu-se disso. Ela voltou-lhe as costas, com uma gargalhada e um encolher de ombros, sentindo que ele se estava a aproximar demasiado e ela no queria isso. 
- Porque no havemos de experimentar para ver o que sai? Punha estas raparigas todas sem trabalho. - Era a nica coisa que ele conhecia bem, que ele amava. Tinha 
uma longa histria de amor com a sua mquina fotogrfica.
        - Eu no gostaria de lhes fazer isso. - Vestia na altura uma saia justa de cabedal preto e uma camisola da mesma cor. Aprendera a vestir-se com uma certa 
sofisticao citadina durante os quase dois anos que estava com os Swansons.
        - Pense nisso - disse Marcus, erguendo-se da cadeira de cabedal preto do escritrio. - Voltarei na segunda-feira.
        Mas no dia seguinte voltou a aparecer s para falar com ela e lhe dizer dos estdios que vira. Segundo dizia, eram todos horrorosos e ele sentia-se muito 
s. Depois convidou-a para jantar. Grace rira com ele e fingira mostrar simpatia, mas recusou.
        - Lamento, mas no posso - disse laconicamente. Estava habituada a livrar-se de convites desse gnero. Nunca fora problema para ela. - Tenho que fazer esta 
noite. Dava sempre a impresso de que se tratava de outro homem, mas  claro que ia para junto das mulheres e das crianas de St. Mary.
        - Ento amanh.
        - Tenho de trabalhar at tarde. Vamos fazer um filme comercial com nove raparigas e Cheryl quer que eu esteja presente.
        - No h problema. Eu virei tambm. Lembre-se de que acabei de chegar  cidade, no conheo ningum e sinto-me muito s.
        - Ento... Marcus... no seja um garoto mimado.
        - Mas sou mesmo - disse orgulhosamente e riram ambos. Por fim, embora contra a sua vontade, Grace deixou-o ir ver o filme comercial com ela e ele acabou 
por ajudar. Havia ali tanta gente que ningum estranhou mais uma pessoa no estdio. Todas as modelos pareciam gostar dele. Era inteligente, divertido e no tinha 
os ares arrogantes de muitos fotgrafos. Parecia uma pessoa fantstica e depois de ele ter aparecido na agncia todos os dias durante uma semana, Grace finalmente 
acedeu a ir jantar com ele uma noite. Era a primeira vez que saa com um homem desde que Paul Weinberg tentara conquist-la.
        Quando ela lhe disse, Marcus no queria acreditar que ela tivesse apenas vinte e um anos. Tinha uma grande maturidade para a idade e um ar sofisticado que 
a fazia parecer mais velha. Continuava a usar o seu belo cabelo de um louro-escuro puxado para trs, mas agora penteava-o muitas vezes num espesso carrapito na nuca. 
Alm disso usava o mesmo gnero de roupas que as modelos compravam, quando tinha dinheiro para isso. Mas Marcus estava habituado a raparigas novas que pareciam mais 
velhas. Uma ou duas vezes fora suficientemente louco para sair com modelos de quinze anos, julgando que eram mais velhas.
        - Ento que faz quando no est a trabalhar? - perguntou com interesse, enquanto jantavam no Gordon. Marcus acabara de encontrar um estdio sensacional num 
sto, com casa de habitao e tudo quanto ele precisava.
        - Mantenho-me bastante ocupada. - Tinha comeado a andar de bicicleta e uma das suas companheiras da casa andava a ensin-la a jogar tnis. Os nicos desportos 
que at ento praticara haviam sido o levantamento de pesos e um pouco de jogging na priso, mas Grace no pensava em contar-lhe que estivera dois anos em Dwight. 
No tencionava contar isso a ningum, durante o resto da vida. Levara o conselho de Luana a srio e deixara firmemente esses dois anos para trs.
        - Tem muitas amigas? - perguntou Marcus, intrigado com ela. Via que era muito introvertida, muito ciosa da sua privacidade, e no entanto havia nela uma grande 
riqueza interior.
        - Bastantes. - Grace sorriu, mas a verdade  que no tinha e ele j ouvira dizer isso. Fizera muitas perguntas a respeito dela s outras pessoas. Sabia que 
ela nunca saa com homens, que guardava tudo para si mesma e que era muito tmida. Sabia tambm que fazia qualquer trabalho voluntrio. Falou-lhe disso enquanto 
tomavam caf e ela contou-lhe um pouco a respeito de St. Mary.
        - Porque faz isso? Porque se interessa tanto por mulheres maltratadas?
        - Porque elas precisam desesperadamente de ajuda explicou com gravidade. - As mulheres nessa situao pensam que no h sada para elas, que no tm opes. 
Ficam  beira de um edifcio em chamas e temos de as fazer saltar, pois no so capazes de dar um salto para se libertarem. Grace sabia isso melhor que ningum. 
Nunca julgara que houvesse sada para a sua situao. Tivera de matar para se salvar, e pagara muito caro por isso. Queria que as outras no tivessem de recorrer 
a medidas extremas, como lhe sucedera a ela.
        - O que a faz preocupar-se tanto com essas mulheres, Grace? - Sentia-se curioso e ela revelava to pouco. Durante todo o jantar tivera conscincia de como 
ela era cautelosa, de como se mostrava exteriormente amigvel e interiormente recatada.
        - Trata-se de uma coisa que eu quero fazer. Significa muito para mim, especialmente o trabalho com as crianas. So to indefesas e to magoadas por aquilo 
que passam. Fora o que sucedera consigo mesma e Grace no o esquecia. Sabia bem como ficara marcada e no queria que lhes sucedesse isso a elas. Era uma ddiva que 
fazia a essas crianas e isso dava valor  sua vida. Queria que o seu sofrimento servisse para ajudar os outros, e impedi-los de percorrerem o mesmo caminho angustiante 
que ela percorrera. - Talvez tenha um certo jeito para lidar com elas. Tenho pensado em voltar a estudar e tirar um curso de psicologia, mas nunca tenho tempo, com 
o trabalho e tudo... mas um dia...
        - No precisa de se formar em psicologia - disse Marcus sorrindo. E Grace sentiu algo por ele que nunca sentira, o que de certo modo a assustou. Ele era 
muito atraente. - Precisa de um homem - concluiu.
        - O que o faz ter tanta certeza disso? - perguntou Grace, sorrindo tambm. Marcus era como um bonito garoto crescido quando estendeu a mo para a dela e 
a prendeu na sua.
        - Porque est terrivelmente s, apesar de tudo quanto diz e das bravatas a respeito da ptima vida que leva. Aposto que nunca teve um verdadeiro homem. - 
Olhou-a atentamente e riu. - Apostava todo o meu dinheiro em como voc  virgem. - Grace no fez qualquer comentrio e retirou gentilmente a mo. - Tenho razo, 
no tenho, Grace? - Ela encolheu os ombros, sem nada dizer. - Eu sou - disse Marcus com ar confiante, certo de saber exactamente aquilo de que ela precisava. Ensinada 
pelo homem certo, ela poderia ser uma mulher extraordinria.
        - As solues no podem ser as mesmas para toda a gente, Marcus - respondeu ela, parecendo novamente mais velha. - H pessoas um pouco mais complicadas do 
que isso.
        Mas Marcus julgava conhec-la bem e julgava que ela estava apenas assustada, era tmida e muito nova. E provavelmente viera de uma famlia muito severa.
        - Fale-me da sua famlia. Como so os seus pais?
        - Morreram - disse Grace friamente. - Morreram quando eu ainda frequentava a escola secundria. - Marcus julgou residir a a explicao para muita coisa. 
Ela sofrera a perda dos pais e ficara muitos anos s. Isso explicava a solido em que ela vivia, embora rodeada de muita gente.
        - Tem irmos ou irms?
        - No. Era s eu. De facto, no tenho quaisquer parentes. - No admirava que ela tivesse tanta maturidade. H anos que vivia entregue a si prpria e por 
isso se tornara to independente. Enfim, ele estava a desenhar um retrato de Grace inteiramente inventado por si.
        - Fico surpreendido por no ter ido a correr casar com o seu namorado dos tempos da escola - disse Marcus com voz respeitosa. - A maior parte das raparigas 
teria feito isso mesmo se ficassem sozinhas com a sua idade. - Grace era uma rapariga forte, ou, melhor, era uma mulher forte. E isso agradava-lhe.
        - No tinha um namorado para casar comigo - respondeu ela calmamente.
        - Que fez? Foi viver com pessoas amigas?
        - Mais ou menos. Vivi com muita gente. - Primeiro na priso de Watseka e depois em Dwight. Grace imaginou como  que ele ficaria se lhe contasse a verdade. 
Imaginou mesmo qual seria a reaco dele. Certamente ficaria horrorizado se ela lhe contasse que matara o pai. E a ironia dessa ideia f-la soltar uma gargalhada. 
Marcus no fazia realmente ideia nenhuma de quem ela fosse, ou o que fizera. Ningum fazia. As pessoas que a conheciam tinham desaparecido todas: Molly e David, 
Luana e Sally. Deixara de lhes escrever postais e nunca mais tivera notcias de David. No valia a pena escrever-lhe. Agora s tinha de pensar na sua prpria vida. 
Tudo quanto podia fazer pelas pessoas de quem gostara, e por todas as outras, era o que fazia em St. Mary. Sentia que s assim poderia retribuir a bondade que tinham 
tido para com ela no decorrer da sua vida. Eram muito poucas, e viviam apenas na sua memria, mas queria ajudar outras.
        - Deve custar-lhe mais nos perodos festivos, como no Natal.
        - Agora j no - disse Grace, com um sorriso. No depois de ter estado em Dwight. O Natal nunca mais poderia ser to mau como l, estivesse onde estivesse.
        -Voc  uma rapariga corajosa, Grace. - Mal sabia ele que ela era mais corajosa do que ele imaginava. Muito, muito mais corajosa.
        Depois do jantar foram tomar um copo a um stio que ele descobrira que tinha uma velha jukebox com msica dos anos 50. E no domingo seguinte andaram de bicicleta 
em volta do lago. Estava uma bela tarde de Junho e os arbustos cobertos de flores. Apesar dos avisos que fazia a si mesma, Grace gostava de estar com ele. Marcus 
mostrava-se muito paciente com ela e no tentava apressar coisa alguma. Parecia compreender que ela precisava de tempo e de muita ternura antes de poder avanar. 
Mas Marcus estava disposto a passar o tempo com ela sem fazer mais nada para alm de a beijar. Era o primeiro homem que a beijara, alm do pai. E mesmo isso lhe 
pareceu assustador, mas depois teve de confessar a si prpria que gostou.
        Como era seu costume, Marjorie comeou a dar-lhe conselhos quando ela chegou a casa, nesse sbado, depois de passar a tarde com Marcus. Ele encontrava-se 
ento h trs semanas na cidade. Tinham andado a comprar equipamento em segunda mo para o estdio dele. A agncia comeara j a dar trabalho a Marcus e os Swansons 
estavam muito satisfeitos. Ele tinha muito talento.
        - Aproveita-o enquanto podes - dissera-lhe Cheryl com um sorriso. - Ele no vai estar aqui muito tempo. Aposto que dentro de um ano estar em Nova Iorque, 
ou mesmo em Paris.  demasiado bom para ficar muito tempo por c.
        Marjorie tinha outras coisas para dizer a respeito dele. Ela contava com amigas praticamente em todo o mundo, todas elas modelos. E uma rapariga de Detroit 
contara-lhe coisas assustadoras acerca de Marcus.
        - Ela contou-me que ele violou uma rapariga, h anos. No confies nele.
        - Isso  um disparate. Ele contou-me. Ela tinha dezasseis anos e parecia ter vinte e cinco. E segundo me contou Marcus foi praticamente ela quem o violou. 
- Marcus dissera-lhe que a rapariga quase lhe rasgara a roupa. O caso passara-se quatro anos antes e nessa altura ele era ingnuo e tolo. E parecera-lhe genuinamente 
embaraado ao contar-lhe aquilo.
        - Ela tinha treze anos e o pai dela tentou met-lo na cadeia - replicou gravemente Marjorie. - E houve tambm outra histria do gnero, essa com uma rapariga 
de dezasseis anos. Mas Marcus conseguiu livrar-se das acusaes, pagando. Eloise disse tambm que ele faz trabalhos pornogrficos para ganhar dinheiro. No me parece 
um tipo muito decente.
        - Isso so mentiras - disse Grace, defendendo-o. Ele no era esse gnero de pessoa. Ela sabia isso. Se havia algo que ela aprendera com o seu trabalho ali 
na agncia, fora a conhecer as pessoas. - As mulheres dizem sempre coisas desse gnero quando ficam com cimes. Se calhar ela gostava dele e como ele no lhe ligou 
ficou despeitada - replicou Grace, aborrecida por Marjorie estar a ser to injusta para Marcus. Ele no merecia isso. Marjorie s vezes era muito dura com as pessoas. 
Parecia uma me-galinha. E Grace sabia que no precisava disso.
        - Eloise no  dessas - afirmou Marjorie, defendendo a sua amiga de Detroit. - E  bom que tenhas cuidado. No s to esperta como julgas. No tens sado 
com homens suficientes para saberes distinguir os bons dos maus.
        - No sabes o que ests a dizer. - Era a primeira vez que Grace se aborrecia com Marjorie. Os seus olhos brilhavam de clera. - Marcus  um homem muito decente 
e nunca fez mais do que beijar-me.
        - ptimo. Ainda bem para ti. Estou apenas a avisar-te. O homem tem m reputao. Presta ateno a isso, Grace. No sejas estpida.
        - Agradecida pelo aviso - disse Grace com irritao. E cinco minutos depois foi para o quarto e bateu com a porta. Que coisas horrveis tinham dito do pobre 
Marcus. Mas o trabalho delas era assim mesmo. As modelos que no arranjavam trabalho deitavam as culpas para os fotgrafos e estes, se no conseguiam boas fotos, 
diziam as piores coisas acerca dos modelos, acusando-as de consumir drogas ou de se atirarem a eles. As modelos afirmavam terem sido violadas. Contavam-se muitas 
histrias dessas naquela profisso e Grace sabia isso. Mas Marjorie tambm e no devia prestar ateno a conversas dessas. E dizer que Marcus fora fotgrafo de pornografia 
era de facto um disparate. Ele dissera-lhe que em Detroit at chegara a ser criado de mesa para poder pagar a renda do seu estdio, mas nunca lhe falara em pornografia, 
e Grace sabia que ele lhe teria dito, se fosse verdade. Era uma pessoa muito franca, muito aberta, e confessara-lhe os seus pecados passados sem ela lho pedir. Nos 
ltimos anos nunca confiara tanto em ningum como confiava em Marcus.
Foram juntos  festa do 4 de Julho oferecida pelos Swansons na sua casa de Barrington Hils e Cheryl pedira-lhe abertamente para fazer com que Grace o deixasse tirar-lhe 
algumas fotografias. Ela estava cada vez mais bonita e Cheryl pensou que Marcus era a pessoa indicada para quebrar o gelo e lev-la a deixar-se fotografar. Mas Grace 
riu e abanou a cabea. No tinha realmente interesse em ser modelo.
        Nessa tarde, durante a festa, Marcus falou com muitas modelos, parecendo dar-se bem com toda a gente, mas nessa noite Marjorie disse-lhe que ele tinha combinado 
encontros com duas das raparigas.
        - Ele no  casado comigo - respondeu Grace, defendendo-o outra vez. No dormiam um com o outro, afinal. Ele pedira-lhe que o fizesse, mas ela respondera-lhe 
que no estava pronta para tomar esse compromisso. Precisava de mais tempo com ele, embora j tivesse confiana nele. De certo modo, o facto de Marjorie lhe ter 
dito aquilo a respeito das outras raparigas empurrava-a um pouco mais nessa direco. Mas no ousou fazer-lhe qualquer pergunta quando se encontrou com ele, no dia 
seguinte, e ele lhe pediu para lhe tirar fotografias.
        - Ento, Grace... s to bonita...  uma coisa que no faz mal nenhum... s para ns... para mim... deixa-me tirar-te algumas fotos. Se no gostares, no 
as mostrarei a ningum... prometo. Cheryl tem razo. Serias um modelo fabuloso.
        - Mas eu no quero ser modelo - respondeu ela com sinceridade.
        - Mas porqu? Tens tudo o que  preciso: altura, aspecto, estilo. s suficientemente esbelta e jovem... a maior parte das raparigas daria tudo para ser como 
tu e ter uma to grande oportunidade. Grace, s sensata... pelo menos deixa-me tentar. Que poderia ser mais fcil do que trabalhares comigo? Alm disso, quero ter 
algumas fotografias tuas. H um ms que saio contigo e sinto a tua falta quando no estamos juntos. - Marcus insistiu, suplicou, falou-lhe ao ouvido, e ao fim da 
tarde, com grande assombro dela prpria, cedeu. Mas f-lo prometer que no mostraria as fotografias a ningum. Combinaram que a sesso de fotografias seria no sbado 
seguinte. E ele avisou-a de que no se atrevesse a desmarc-la.
        - No sei porque s to envergonhada! - exclamou Marcus rindo, enquanto faziam espaguete na pequena cozinha do estdio. E nessa noite estiveram mais perto 
de fazer amor do que nunca, mas por fim ela disse que ainda no estava preparada. No era a altura do ms propcia para isso e ela no queria iniciar o seu relacionamento 
dessa maneira. Alm disso, assim teria mais tempo e uma semana no faria qualquer diferena. Da maneira como ela gostava dele, s seria melhor.
        Grace andou toda a semana preocupada com a sesso de fotografias. Detestava ser o centro das atenes e um objecto de sexo. Detestava tudo o que aquilo representava. 
Gostava de trabalhar com os modelos, na agncia, mas nunca quisera ser por sua vez modelo. Era realmente apenas por Marcus que ela o fazia, e por graa. Ele tornava 
tudo divertido. E no sbado seguinte, ela estava no estdio s dez horas, como lhe havia prometido. Estivera em St. Mary na noite anterior, deitara-se tarde e agora 
sentia-se cansada.
        Marcus fez-lhe caf. J preparara o cenrio. No estdio encontrava-se uma grande cadeira de braos de cabedal branco, parcialmente coberta por uma manta 
de pele de raposa branca. Marcus disse-lhe que queria apenas que ela se sentasse ali, vestida tal qual se encontrava, com umas calas de ganga e uma T-shirt branca. 
F-la soltar o cabelo e ele caiu-lhe sobre os ombros como uma cascata dourada. Depois pediu-lhe que trocasse a camisola pela camisa branca que ele vestia e pouco 
a pouco fez com que ela a desabotoasse, mas as fotografias eram todas muito castas e modestas. Grace sentia-se surpreendida por se estar a divertir. Marcus fotografou-a 
nas mais variadas poses, enquanto a msica tocava e ele a espiava constantemente por detrs da mquina.
        Ao meio-dia estavam ainda a tirar fotografias e ele entregou-lhe um copo de vinho, prometendo-lhe um grande almoo de massa feita em casa, quando terminassem.
        - Pelo menos sabes encontrar o caminho para o corao de uma rapariga - disse Grace, rindo.
        Marcus olhou-a junto da mquina a pequena distncia dela.
        - Quem me dera que assim fosse... tenho estado a esforar-me por isso - confessou, enquanto lhe tirava uma foto que o encantou. Cheryl iria ficar encantada 
com elas. - Estou a aproximar-me, Grace?... Refiro-me ao teu corao - murmurou com uma voz sensual, e Grace sentiu uma onda de calor invadi-la. O vinho fizera-a 
ficar um pouco tonta e ela lembrou-se de que no se preocupara em tomar o pequeno-almoo. Fora estpido da sua parte beber vinho com o estmago vazio. Alm disso 
ele enchera-lhe de novo o copo e ela j bebera metade. Habitualmente no bebia vinho durante o dia e ficou surpreendida por aquele ser to forte, quando ele lhe 
pediu timidamente que tirasse as calas, fazendo notar que a camisa era suficientemente comprida para a cobrir inteiramente. Com efeito, chegava-lhe quase aos joelhos, 
mas ela hesitou em despir as calas. Por fim, quando ele prometeu que nem sequer mostraria as fotos a Cheryl, Grace tirou as calas e recostou-se na cadeira, com 
as pernas e os ps nus, coberta apenas com a camisa dele, desabotoada at  cintura, mas sem revelar coisa alguma. Os seios estavam cobertos. Grace sentiu-se resvalar 
lentamente para o sono e ficou estendida na cadeira. Quando acordou ele beijava-a, enquanto as mos lhe acariciavam todo o corpo. Grace sentia os lbios e as mos 
dele e ouvia diques e via clares, mas no sabia o que se estava a passar. Via tudo a girar  sua volta e to depressa mergulhava no sono como acordava. Sentia-se 
agoniada, mas no conseguia mexer-se, nem parar, nem levantar-se, nem abrir os olhos. Ele continuava a beij-la e de sbito sentiu que ele lhe tocava e teve uma 
antiga e familiar sensao de terror, mas quando abriu os olhos outra vez percebeu que estivera a sonhar. Marcus encontrava-se em p junto dela e sorria. Grace sentia 
a boca seca e umas nuseas estranhas.
        - Que se est a passar? - Grace sentia-se assustada e doente, via manchas em frente dos olhos e ele continuava parado, rindo.
        - Acho que o vinho te fez mal.
        - Lamento que isto tenha sucedido. - Sentia-se mortificada, mas ele ajoelhou-se ao lado dela e beijou-a com tal fora que ela ficou tonta outra vez. Mas 
gostou. Desejava-o, mas ao mesmo tempo queria que ele parasse.
        - Eu no lamento coisa alguma - murmurou ele com a cabea entre os seios dela. - Ficas deslumbrante quando ests embriagada. - Grace deixou-se cair para 
trs e fechou os olhos enquanto a lngua dele descia pelo estmago, entrava por baixo da roupa interior, lambendo, lambendo, cada vez mais abaixo, at que subitamente 
os olhos dela se abriram e ela saltou. No podia. - Ento, querida... por favor... preciso de ti... - Quanto tempo julgaria ela que ele ia esperar? - Por favor... 
Grace... preciso de ti...
        - No posso... - murmurou com voz rouca, desejando-o, mas receando que ele a possusse. S conseguia lembrar-se do que se passara na noite em que o pai morrera, 
como o quarto girara  sua volta, e ento sentiu-se outra vez agoniada. O vinho fizera-lhe realmente mal e de sbito teve vontade de vomitar, mas receou dizer-lho. 
Marcus tocava-lhe em stios onde ningum lhe tocara, a no ser o pai. 
        - No posso... - murmurou. Mas no conseguia arranjar foras para o deter.
        - Mas porqu? - Pela primeira vez desde que o conhecia, Marcus perdeu a pacincia, mas quando o fez Grace sentiu-se de novo agoniada e, sem qualquer aviso, 
perdeu os sentidos. Quando acordou, ele estava deitado ao lado dela completamente nu. Ela tinha ainda a camisa dele, a roupa interior e Marcus sorria-lhe. Grace 
teve ento uma sbita sensao de terror. No conseguia recordar coisa alguma, a no ser ter desmaiado. No sabia quanto tempo estivera sem sentidos, nem o que tinham 
feito, mas era bvio que algo se passara.
        - Marcus, que sucedeu? - perguntou aterrorizada, sentindo-se muito agoniada, e apertando a camisa em volta do corpo.
        - Gostavas de saber? - Marcus estava divertido, ria-se dela. Ela estivera completamente inconsciente. - Foste formidvel, Grace. Inesquecvel.
        - Como podes fazer isso? - Comeou a chorar. - Como pudeste fazer isso comigo desmaiada? - Sentiu vmitos e o peito ofegante da asma, mas sentia-se demasiado 
agoniada para procurar o inalador. Nem sequer se sentia capaz de se sentar e de olhar o que a rodeava.
        - Como  que sabes o que eu fiz? - disse Marcus maldosamente, andando de um lado para o outro, com o seu esplndido corpo nu. - Talvez eu goste de trabalhar 
assim.  muito mais fresco. - Voltou-se para ela a fim de que o pudesse ver todo e ela voltou a cara para no ver. No era assim que ela desejava que tivesse sido 
a primeira vez entre eles e no sabia se estava zangada com ele ou apenas magoada. Sucedera com ele o mesmo de sempre. Fora violada.
        - Na verdade, Grace - continuou ele dando uns passos vagarosos para ela - no se passou coisa alguma. No sou um necrfago. No gosto de foder cadveres. 
E  isso o que tu s, no  verdade? Ests morta. Andas por a a fingir que ests viva, a excitar os homens, mas quando chega a altura arranjas uma poro de desculpas 
e finges-te morta.
        - No so desculpas - retorquiu Grace, sentando-se com dificuldade e descobrindo as calas cadas no soalho. Puxou-as para si e comeou a vesti-las. Levantou-se 
cambaleando. Continuava com nuseas. Depois tirou a camisa dele e vestiu a camisola dela de costas voltadas para ele. Nem sequer perdeu tempo a vestir o soutien. 
Sentia-se demasiado doente para se preocupar com isso. Doa-lhe a cabea e ao mesmo tempo sentia tudo a andar  roda. 
        - No sou capaz de explicar o que se passou - disse, respondendo s acusaes dele. Estava demasiado maldisposta para discutir, mas tinha a sensao de que 
algo de terrvel se passara. Lembrava-se de o beijar e de ele lhe dizer coisas, e recordava-se tambm de estar deitada com ele, mas no conseguia lembrar-se de mais 
nada. Tinha esperana de que se tratasse de um pesadelo provocado por ter bebido vinho com o estmago vazio. Continuava a ter a noo de que ele a atormentara com 
o seu corpo, mas no lhe parecia que a tivesse violado. Tinha quase a certeza de que o no fizera.
        - At as virgens acabam eventualmente por fazer sexo.
        - O que  que te faz julgares-te to especial? - Marcus estava furioso. Ela no passava de uma maadora e s servira para o aborrecer. Havia muitas outras 
raparigas que podia ter tido e que tencionava ter. No queria mais nada com Grace
Adams.
        - Estou apenas assustada, nada mais.  difcil de explicar - Porque estaria ele to furioso com ela? E porque  que se recordava dele nu em cima de si?
        - No ests nada assustada - retorquiu Marcus pegando na sua mquina e no fazendo qualquer esforo para se vestir. - s doida. Parecia que me ias matar 
quando te toquei. Que se passa, afinal? s gay?
        - No, no sou. - Mas ele no andava longe da verdade ao dizer que ela parecia que o queria matar, Grace sabia-o. Talvez fosse sempre assim. Talvez ela nunca 
fosse capaz de fazer amor com ningum. Mas agora queria sobretudo saber se se passara alguma coisa enquanto ela estivera inconsciente. E no gostava da sensao 
que experimentava.
        - Diz-me a verdade. Que me fizeste? Fizeste amor comigo? - perguntou com lgrimas nos olhos.
        - Que diferena faz? J te disse que no fiz coisa alguma. No confias em mim?
        Depois do que sucedera, era realmente difcil. Ele abusara dela enquanto estava inconsciente. Fizera com que se despisse, embora no completamente, e despira-se 
ele. Ao acordar no gostara da situao em que se encontrara, mas tambm no sentia que tivesse sido violada. Sabia que seria uma sensao diferente. Era reconfortante 
pensar isso. Talvez ele no tivesse feito mais do que ela conseguia recordar. S beijos e carcias. E ela gostara, mas sentira-se tambm assustada. Tinha a sensao 
de que ele estivera prestes a fazer amor com ela mas que no conseguira. Era a frustrao que o fazia estar zangado.
        - Como hei-de confiar em ti depois do que se passou? -        disse Grace em voz baixa, lutando contra a nusea.
        - O que  que se passou? Tentei fazer amor contigo? No  contra a lei, sabias? As pessoas fazem isso todos os dias... algumas at gostam... e tu tens vinte 
e um anos, no tens? Que vais ento fazer? Chamar a Polcia por eu te ter beijado e tirado as calas? - Mas Grace sentia-se violada. Ele tirara-lhe fotografias que 
no o autorizara e tentara aproveitar-se sexualmente dela estando embriagada. Era estranho nunca ter ficado embriagada por beber um copo e meio de vinho. E continuava 
a sentir-se terrivelmente mal. - Estou farto dos teus jogos, Grace. Investi em ti muito tempo, pacincia, tardes de sbado e jantares em restaurantes italianos. 
J devamos ter ido para a cama h semanas. No tenho catorze anos. Estou farto disso. O que no falta so raparigas normais. - Era terrvel o que ele lhe estava 
a dizer, mas ao v-lo assim, to cheio da sua pessoa, no seu habitat natural, Grace compreendeu por fim que ele no era o homem que ela julgara que fosse. Era obviamente 
mau e no a amava. S se mostrara simptico para ela para conseguir o que queria.
        - Lamento ter-te feito perder tempo - disse friamente.
        - Tambm eu - respondeu Marcus com ar despreocupado. - Vou mandar as folhas para a agncia. Poders escolher as fotos que quiseres.
        - No as quero ver. Podes queim-las.
        - Acredita que o farei - replicou ele num tom glido. - E a propsito, tens razo: serias uma pssima modelo.
        - Obrigada - replicou Grace, vestindo a camisola. Num s instante ele tornara-se um estranho para ela. Pegou ento na mala e dirigiu-se para a porta. Antes 
de sair olhou para trs e viu que ele tirava um filme da mquina com um ar totalmente indiferente. Grace admirou-se de se poder ter enganado de tal maneira a respeito 
dele. Mas nessa altura o quarto comeou novamente a girar  sua volta e ela quase desmaiou. Pensou se estaria com gripe ou se se sentia apenas perturbada com tudo 
o que se passara. - Lamento, Marcus - murmurou tristemente. Ele limitou-se a encolher os ombros e a virar-lhe as costas, como se fosse ele o ofendido. Tinha-se divertido 
com ela durante uns tempos, mas chegara a altura de mudar. Raparigas bonitas eram s dzias na vida dele.
        Marcus no disse uma nica palavra a Grace ao v-la sair. Desceu as escadas quase de rastos, chamou um txi e deu-lhe a morada do apartamento. E quando chegaram, 
o motorista teve de a sacudir e de lhe dizer qual o preo a pagar.
        - Desculpe - murmurou Grace, sentindo-se agoniada outra vez, estava realmente mal.
        - Sente-se bem, miss? - O motorista parecia preocupado quando ela lhe pagou o que ele pedira mais uma boa gorjeta, e ficou a v-la cambalear at  entrada 
do prdio.
        Logo que Grace entrou e fechou a porta, Marjorie levantou a cabea para a observar. Estivera ali sentada a arranjar as unhas e ficou horrorizada ao ver Grace. 
Estava to plida que mais parecia verde e deu-lhe a impresso de que ela ia desmaiar antes de chegar ao quarto.
        - Ei!... ests bem? - perguntou Marjorie, erguendo-se de um salto. Chegou junto de Grace a tempo de ela lhe cair nos braos. Marjorie ajudou-a a estender-se 
na cama e Grace ficou deitada, sentindo-se como se estivesse a morrer.
        - Creio que estou com gripe - murmurou, arrastando as palavras. - Talvez tenha sido envenenada.
        - Pensei que estavas com Marcus. No ias tirar fotografias com ele hoje? - perguntou Marjorie.
        Grace disse que sim com a cabea. Sentia-se demasiado mal para falar e de resto no sabia se o queria fazer. Mas de repente comeou a sentir que ia desmaiar 
outra vez, como sucedera quando estava estendida no sof branco e ao acordar vira Marcus nu a seu lado. Talvez quando abrisse agora os olhos Marjorie tambm estivesse 
despida. Riu alto, com os olhos fechados, e Marjorie olhou-a pensativamente e em seguida foi buscar uma lanterna elctrica e um pano hmido. Voltou da a dois minutos 
e ps o pano molhado na testa de Grace. Esta abriu os olhos por breves instantes.
        - Que sucedeu? - perguntou com firmeza.
        - No sei - disse Grace com os olhos ainda fechados comeando a chorar em silncio. - Foi horrvel.
        - Aposto que sim - exclamou Marjorie, zangada. Era capaz de imaginar o que se passara, embora Grace no fosse. Acendeu a lanterna e disse-lhe que abrisse 
os olhos.
        - No posso. Parece-me que a cabea me vai rebentar. Estou a morrer.
        - Mesmo assim abre-os. Quero ver uma coisa.
        - No tenho nada nos olhos. Di-me a cabea... o estmago... os meus olhos...
        - Vamos, abre-os... s um segundo.
        Grace esforou-se por abrir os olhos e Marjorie fez incidir sobre eles o feixe luminoso que causou a Grace a sensao de lhe estarem a espetar punhais na 
cabea. Mas Marjorie vira o que queria.
        - Onde estiveste?
        -J te disse... com Marcus... - Grace fechou outra vez os olhos e o quarto comeou a girar.
        - Comeste ou bebeste alguma coisa? Grace, diz-me a verdade. Tomaste alguma droga?
        - Nunca tomei drogas na minha vida.
        - Fizeste-o agora - disse Marjorie, zangada. - Ests completamente drogada.
        - Com o qu? - perguntou Grace, assustada.
        - No sei... LSD... coca... herona...
        - Bebi apenas dois copos de vinho. Nem sequer acabei o segundo. - Encostou de novo a cabea na almofada. Sentia-se demasiado doente para se sentar. Estava 
ainda pior do que estivera no estdio de Marcus. Parecia que o efeito do que quer que ele lhe dera se fazia sentir ainda mais penoso.
        - Ele deve ter-te dado uma coisa forte. Sentiste-te esquisita quando l estavas?
        - Oh, sim... - gemeu Grace. - Foi to estranho... Olhou para amiga e comeou a chorar. - No sabia o que era sonho... e o que era real... ele estava a beijar-me 
e a fazer coisas... e depois adormeci e quando acordei ele estava nu... mas disse que nada sucedeu.
        - Filho-da-me... violou-te! - Marjorie tinha vontade de o matar por causa da amiga e de todas as mulheres. Nunca gostara dele. Detestava os malandros como 
ele, especialmente os que se aproveitavam de garotas inexperientes. Era um desporto fcil e maldoso. Grace continuou a falar de um modo confuso.
        - Nem sequer sei se ele... no o creio... no me lembro...
        - Ento para que foi que ele se despiu? - disse Marjorie, desconfiada. - Tiveste sexo com ele antes de perderes os sentidos?
        - No, apenas o beijei... no queria... estava com medo... mas queria... mas depois tentei det-lo. E ele ficou realmente furioso comigo. Disse que eu era 
louca... e maadora... disse que no fazia amor comigo porque seria o mesmo que... faz-lo com um cadver...
        - Mas deixou-te crer que tinha feito, no foi? Que simptico! - Marjorie estava realmente indignada com Marcus. Ele tirou-te fotografias sem roupa?
        -  Quando perdi os sentidos tinha as cuequinhas e a camisa dele... - Pelo menos era do que se lembrava. No se lembrava de se ter despido, nem mesmo quando 
ele a estivera a acariciar.
        -  melhor dizeres-lhe para te dar os negativos. Diz-lhe que chamas a Polcia, se ele recusar. Se quiseres, eu telefono-lhe e digo-lhe.
        - No, eu telefono. - Sentia-se demasiadamente mortificada para querer outra pessoa envolvida no assunto. J era bastante mau ter contado a Marjorie o que 
se passara. Mas tambm era reconfortante t-la ali. A amiga levou-lhe uma chvena de ch quente e outra toalha hmida para pr na testa. Meia hora depois Grace sentiu-se 
um pouco melhor e Marjorie sentou-se no cho ao lado da cama, a olh-la.
        - Houve um tipo que me fez isso uma vez, quando comecei a trabalhar. Deitou-me droga na bebida e quando dei por mim percebi que ele queria tirar-me fotografias 
pornogrficas com outra rapariga to drogada como eu.
        - E que fizeste?
        -        O meu pai chamou a Polcia e ameaou-o de lhe dar uma tareia. Ns no chegmos a tirar essas fotografias, mas muitas raparigas fazem-no. Algumas 
delas nem sequer precisam de estar drogadas. Esto demasiado assustadas para no o fazerem. Os tipos dizem-lhes que elas nunca mais arranjaro trabalho, ou outras 
coisas e elas fazem o que eles querem.
        Ao ouvir Marjorie, Grace sentiu o sangue gelar-lhe nas veias. E ela que estava a apaixonar-se por ele, que confiava nele. E se ele a fotografara nua enquanto 
ela estava desmaiada?
        - Achas que ele fez alguma coisa desse gnero? - perguntou aterrorizada, lembrando-se do que a amiga de Marjorie dissera a respeito de Marcus ter feito fotografias 
pornogrficas em Detroit.
        - Estava mais algum convosco, no estdio? - perguntou Marjorie preocupada.
        - No, estvamos s os dois. Disso tenho eu a certeza. E devem ter sido apenas alguns minutos.
        - De qualquer modo foi o tempo suficiente para ele tirar as calas - retorquiu Marjorie, novamente zangada. No, creio que o no fez. Quando muito deve ter-te 
tirado algumas fotografias nua. E no poder fazer grande coisa com elas sem tua autorizao, isto , se estiveres reconhecvel. No poder mostrar o teu rosto sem 
ter l a tua assinatura a autorizar a publicao. A nica vantagem que teriam para ele fotografias desse gnero seria fazer chantagem sobre ti e isso no lhe daria 
grande coisa. O que  que ele conseguiria que lhe desses? Uns duzentos dlares. Alm disso  preciso tempo e alguma colaborao para vender fotos desse gnero. Eles 
costumam utilizar duas raparigas, ou pelo menos um homem. Mas mesmo drogada, tinhas de ter vivacidade suficiente para fazer o que ele queria. Parece que no foste 
muito cooperante depois de ele te ter dado a poo mgica - disse Marjorie, rindo. E Grace sorriu pela primeira vez desde h muitas horas. - Parece que ele sobrestimou 
a sua vtima. Deves ter cado fulminada como uma rvore abatida na floresta.
        Riram ambas e sentiram que era um alvio poderem rir. Fora uma cena terrvel e um desapontamento brutal, mas Grace no podia deixar de pensar se teria sido 
capaz de fazer amor com ele se no a tivesse drogado. Talvez nunca conseguisse. Mas naquele momento no tinha qualquer desejo disso e com certeza nunca mais teria, 
pelo menos com Marcus.
        - No bebo muito e nunca consumi qualquer droga, por isso senti-me verdadeiramente doente.
        - Tambm reparei nisso. Quando entraste estavas verde. - Depois decidiu fazer uma sugesto. - Creio que a questo das fotografias est mais ou menos controlada 
desde que ele te d os negativos. Mas talvez queiras verificar outra coisa. Queres ir rapidamente  minha mdica? Acho que devias saber se ele te fez alguma coisa. 
A minha mdica  muito simptica e atendia-te. Claro que  um pouco embaraoso, mas ficavas a saber. Elas podem ver. Ele poderia ter-te feito muitas coisas enquanto 
estavas inconsciente.
        - Creio que havia de me lembrar... recordo-me de estar assustada e de lhe dizer que no.
        -  o que se passa com todas as vtimas de violao do mundo. Nenhum violador pra por a vtima lho pedir. No te sentirias melhor se soubesses? E se ele 
te violou, podes queixar-te.
        "Para qu?", perguntou Grace a si mesma. "Para continuar o pesadelo?" Grace temia isso, temia atrair as atenes, as histrias nos jornais. Secretria acusa 
fotgrafo de violao... ele diz que ela queria... posou nua para ele... s pensar nisso fazia Grace sentir-se arrepiada. Mas Marjorie tinha razo. Era melhor saber... 
e se ficasse grvida... no era impossvel e a ideia horrorizava-a. Inicialmente resistiu  ideia de falar  mdica, mas Marjorie insistiu e finalmente Grace permitiu 
que ela lhe telefonasse. s cinco dirigiram-se para o consultrio da mdica. Grace sentia a cabea mais desanuviada, mas a mdica confirmou que ela fora drogada 
com qualquer coisa...
        - Que tipo simptico - comentou a mdica, comeando a examinar Grace. Esta recordou imediatamente os exames mandados fazer pela Polcia no hospital. Mas 
a mdica ficou surpreendida com o que viu. No havia sinais de relaes recentes, mas encontrou imensas cicatrizes antigas. Desconfiava do que isso poderia significar 
e mostrou-se muito gentil quando fez algumas perguntas a Grace. Tranquilizou-a logo, dizendo-lhe que embora o homem a tivesse drogado, no havia sinais de penetrao 
nem de ejaculao.
        "Pelo menos isso j  alguma coisa", pensou Grace. Agora s tinha de se preocupar com as fotografias. E o que Marjorie lhe dissera era tranquilizador. Mesmo 
que ele lhe tivesse tirado fotografias comprometedoras, onde ela fosse reconhecvel, no poderia us-las sem autorizao dela. E se no estivesse reconhecvel, que 
lhe importava? E com um pouco de sorte ele devolver-lhe-ia as fotos. Continuava a achar repugnante que ele o tivesse feito, mas inclinava-se agora a pensar que Marcus 
apenas encenara tudo aquilo para a castigar por ter desmaiado para no dormir com ele. As drogas no tinham ajudado, apenas a tinham feito ficar mais assustada.
        - Grace, alguma vez foi violada? - perguntou a mdica, embora j conhecesse a resposta quando Grace disse que sim com a cabea. - Que idade tinha?
        - Treze..., catorze..., quinze..., dezasseis..., dezassete...
        Ao princpio a mdica no percebeu o que ela queria dizer.
        - Foi violada quatro vezes? - Era um facto pouco habitual. Talvez ela tivesse problemas psicolgicos e por essa razo corresse repetidamente riscos, mas 
Grace abanou a cabea com uma expresso dolorosa.
        - No, fui violada praticamente todos os dias durante quatro anos... pelo meu pai...
        Houve um longo momento de silncio, at que a mdica disse suavemente:
        - Lamento. - De vez em quando, tinha conhecimento de casos desses e isso dilacerava-lhe o corao, especialmente se se tratava de raparigas muito novinhas, 
como fora o caso de Grace. 
        - Ele tratou-se? Algum interveio? - "Sim", disse Grace para consigo. "Eu." Fora ela quem interviera e se salvara. Mais ningum a teria ajudado.
        - Ele morreu. Foi isso que o deteve. - A mdica fez sinal de compreender.
        - Alguma vez teve relaes... bem... normalmente, com um homem?
        Grace abanou a cabea em resposta.
        - Penso que foi o que sucedeu hoje. Creio que ele ficou ansioso e quis ter a certeza de que eu colaboraria, e por isso deitou qualquer coisa na minha bebida... 
saamos juntos h um ms e nada sucedera... eu... eu queria ter a certeza... ele disse que eu me mostrei verdadeiramente assustada quando... quando ele tentou...
        - Estou certa disso. Drog-la no foi a melhor coisa a fazer. Precisa de tempo, de tratamento e do homem certo. No me parece que esse o seja - acrescentou 
calmamente.
        - J percebi isso - murmurou Grace com um suspiro, mas contudo sentia-se aliviada por saber que ele no a violara. Isso seria juntar o insulto  injria.
        A mdica indicou-lhe o nome de uma terapeuta e Grace aceitou-o, mas no tencionando l ir. No queria voltar a falar do passado, do pai, dos quatro anos 
de inferno que ele a fizera passar nem dos dois anos em Dwight. Falara a Molly de tudo isso e Molly morrera. No queria relembrar essas coisas fosse com quem fosse. 
S desejava aquilo que j tinha. O seu trabalho na agncia, a casa partilhada com as amigas, e o trabalho voluntrio com as mulheres e as crianas em St. Mary. Era 
o suficiente para ela, embora os outros no o pudessem entender.
        Grace agradeceu  mdica e regressou a casa com Marjorie. Deitou-se e dormiu at lhe passar o efeito das drogas. Foi para a cama s oito e acordou s quatro 
da tarde seguinte, com grande espanto de Marjorie.
        - Que  que ele te deu? Um calmante para elefante?
        - Talvez. - Grace sorriu. Sentia-se melhor. Fora uma experincia horrvel, mas ela passara por outras piores. E felizmente era resistente. Nessa tarde foi 
trabalhar para a agncia e  noite telefonou a Marcus. Grace esperava ir falar para o gravador e ficou surpreendida quando o ouviu. Ele tambm denotou um certo espanto 
ao ouvir a voz dela.
        - Sentes-te melhor? - perguntou sarcasticamente.
        - Foi uma coisa indecente o que fizeste. Fiquei doente com o que me deste a beber.
        - Desculpa. Foram apenas alguns Vallums e um pouco de p mgico. Pensei que precisavas de algo para ficares mais relaxada.
        Grace tinha vontade de lhe perguntar at que ponto ficara relaxada, mas disse apenas:
        - No precisavas de fazer isso.
        - J percebi. Foi um esforo perdido. Obrigado por me teres feito andar atrs de ti durante as ltimas cinco semanas. Gostei muito.
        - Eu no te fiz andar atrs de mim - disse Grace, magoada. - Para mim  difcil. Custa-me explicar, mas...
        - No te incomodes, Grace. Seja qual for a tua histria, com certeza que no inclui homens, pelo menos homens como eu. Percebo.
        - No, no percebes - replicou Grace, zangada. Como  que ele podia perceber?
        - Bem, talvez eu no queira compreender. Ningum gosta destas coisas. Julguei que me querias matar quando te acariciei.
        Grace no se lembrava de nada disso, mas era possvel. Compreendia que entrara em pnico.
        - Precisas  de um psiquiatra. No de um namorado.
        - Obrigada pelo conselho. E a outra coisa de que preciso  dos negativos das fotografias que me tiraste. Quero-os nas minhas mos na segunda-feira.
        - Sim? E quem disse que tirei fotografias?
        - No joguemos esse jogo - retorquiu calmamente Grace. - Tiraste-me muitas fotos enquanto eu estive acordada e eu ouvi os estalidos da mquina e o flash 
quando estava meia tonta. Quero os negativos, Marcus.
        - Terei de ver se os encontro - disse Marcus com frieza. - Tenho para aqui uma enorme quantidade de coisas.
        - Ouve, posso dizer  Polcia que me violaste.
        - O diabo  que violei. Creio que h anos que ningum entra nessa tua caixa de cimento, se  que algum j entrou, por isso ias ter muita dificuldade em 
fazer crer nisso. Eu no fiz mais do que dar-te alguns beijos e despir-me. Grande coisa, "Miss Virginal No-Me-Toques". Ningum pode ser preso por se despir na sua 
prpria casa. - Sem saber bem porqu, Grace ficou aliviada de o ouvir dizer isso.
        - E quanto s fotografias?
        - Que tm as fotografias? So fotos de uma rapariga com uma camisa de homem vestida e os olhos fechados. Nem sequer abriste a camisa. E a maior parte do 
tempo estiveste a ressonar.
        - Tenho asma - replicou Grace, irritada. - E no quero saber se as fotos so recatadas ou no. Quero-as. No podes fazer nada com elas sem a minha assinatura, 
por isso de nada te servem. - A jovem sentia-se grata por Marjorie lhe ter dado essas informaes.
        - Que te faz pensar que no assinaste uma autorizao? Alm disso, posso querer ficar com elas para o meu lbum.
        - No tens esse direito. E ests a dizer-me que assinei uma autorizao enquanto estava drogada? - Grace sentiu-se tomada de pnico.
        - No te estou a dizer coisa alguma. E por causa de todas as maadas que me deste, creio ter direito quilo que eu quiser. s uma empertigada e uma convencida, 
minha cabra. Desaparece e no queiras deitar as mos s minhas fotografias. No te devo coisa alguma. Entendes bem?
        Na segunda-feira de manh soube que Marcus sara nessa noite com uma das modelos da agncia. Cheryl perguntou a Grace como tinha corrido a sesso de fotografias 
com Marcus, e ela respondeu que tivera gripe e que no pudera ir.
        Mas da a umas semanas, no dia dos seus vinte e dois anos, Bob Swanson convidou-a para almoar. Cheryl encontrava-se em Nova Iorque a tratar de negcios 
da agncia e Bob levou Grace ao Nick's Fishmarket. Acabou de lhe encher a taa de champanhe e voltou-se para ela, sorrindo de um modo apreciativo. Grace sempre lhe 
agradara e ele estava totalmente de acordo com a mulher quando ela dizia que fora uma sorte Grace ter-lhes aparecido.
        - A propsito, Outro dia encontrei Marcus Anders. Grace tentou no se mostrar preocupada e continuou a beber o champanhe enquanto ele falava. Era Dom Prignon 
e tratava-se da primeira bebida alcolica que ela ingeria desde que Marcus a drogara. E at mesmo aquele excelente champanhe francs a fazia sentir-se ligeiramente 
tonta.
        - Marcus mostrou-me umas fotografias suas, Grace... So fabulosas... Tem-se andado a esconder de ns. Vai ter um grande futuro. So as fotografias mais excitantes 
que eu vi desde h muitos anos. Poucas modelos conseguem tal coisa. Vai deixar os homens loucos de desejo... - Grace sentia-se agoniada ao ouvi-lo e tentou fingir 
que no o entendia. Mas era intil. Que patife era aquele Marcus! Nunca lhe enviara nem as fotografias nem os negativos e no atendia os telefonemas dela. Em vez 
disso fora mostrar as fotos a Bob. Tambm no lhe mostrara qualquer autorizao assinada por ela e de resto Grace tinha a certeza de no ter assinado nenhuma. Ele 
estava apenas a querer assust-la.
        - No sei o que quer dizer, Bob - disse Grace, tentando no se mostrar embaraada ou preocupada. - Tirmos apenas algumas fotos. Depois fiquei doente. Tive 
gripe.
        - Se  assim que fica com gripe, ento devia t-la mais vezes.
        Ento Grace no pde aguentar mais e olhou o patro de frente. Foi como enfrentar um leo esfomeado. Bob era um homem grande e tinha um grande apetite, segundo 
Grace soubera pelas suas amigas.
        - O que  que ele lhe mostrou exactamente?
        - Tenho a certeza de que se lembra das fotos. Tinha uma camisa de homem vestida, aberta at abaixo e a cabea inclinada para trs. Pareceu-me muito apaixonada, 
como se tivesse acabado de fazer amor com ele... ou fosse fazer.
        - Estava vestida, no estava?
        - Sim, tinha a camisa. No se v nada que no se deva, mas a expresso do seu rosto  inequvoca. - Pelo menos Marcus no lhe despira a camisa. Grace sentia-se 
grata por esse pequeno favor.
        - Provavelmente estava a dormir. Ele drogou-me.
        - No me pareceu drogada. Achei-a terrivelmente sensual. Falo a srio, Grace. Devia ser modelo ou mesmo entrar em filmes.
        - Talvez pornogrficos? - exclamou ela zangada.
        - Com certeza - disse ele, satisfeito. - Gosta de filmes porno? - perguntou com interesse. - Sabe uma coisa, Grace, tive uma ideia. - Com efeito, tivera 
essa ideia muito antes do almoo. Telefonara para marcar uma suite no hotel, antes de se dirigirem para ali, e estava tudo preparado  espera deles, com mais champanhe. 
Marcus dissera-lhe que ela parecia muito fria mas que era fcil. Bob baixou a voz ao falar com ela e apertou-lhe a mo outra vez. - Tenho uma suite  nossa espera 
l em cima, a maior do hotel. Pedi mesmo lenis de cetim... e tm um canal de vdeo que passa todos os filmes pornogrficos que se possam imaginar. Talvez queira 
ver alguns antes de irmos...
        Grace tinha vontade de vomitar ao ouvi-lo e teve de se conter para no o esbofetear.
        - No vou consigo l para cima, Bob. Nem agora nem nunca. E se isso significa que vou ser despedida, despeo-me eu. Mas no sou nenhuma prostituta, nem uma 
estrela porno, nem uma pea de carne para voc saciar o seu apetite.
        - Que quer isso dizer? Marcus disse-me que a Grace era a mulher mais ardente da cidade e eu pensei que talvez gostasse de se divertir um pouco... eu vi as 
fotografias... voc parecia que ia saltar sobre as lentes da mquina. Ento que era aquilo? Tem medo de Cheryl? Ela nunca saber. Nunca sabe. - No, mas toda a gente 
sabia, menos ela. Grace tinha vontade de gritar com ele, mas sabia que Marcus lhe contara coisas repugnantes.
        - Gosto de Cheryl. Gosto de si. No irei dormir consigo e nunca dormi com Marcus. E j lhe disse que ele me drogou. Eu estava a dormir quando ele me tirou 
essas fotografias.
        - Aparentemente na cama dele - disse Bob com ar aborrecido. No pensara ter qualquer dificuldade com ela, depois do que Marcus lhe dissera. Sempre a considerara 
muito distante e correcta e deixara-a em paz, mas Marcus dissera-lhe que ela consumia drogas e gostava de sexo e Bob acreditara.
        - Era um cadeiro no estdio dele.
        - E voc tinha as pernas abertas de uma maneira que... ficou excitado s por pensar nisso.
        - Sem roupa? - perguntou Grace horrorizada com o que ele acabara de dizer, e ele riu.
        - No lhe posso dizer. A fralda da camisa pendia-lhe entre as pernas, mas a mensagem era bem clara. Ento? Que diz a um presente de aniversrio entre ns 
dois, l em cima, na suite? No quer ir com o tio Bob? Ser o nosso segredinho.
        - Lamento. - Os olhos dela encheram-se de lgrimas que comearam a correr-lhe pelas faces. Aos vinte e dois anos ainda se sentia muitas vezes como uma criana 
e no sabia por que motivo aquilo lhe estava sempre a suceder. Por que motivo os homens a detestariam tanto que estavam sempre a querer abusar dela? - No posso 
fazer isso - disse Grace, continuando a chorar para cima da mesa, o que pareceu aborrec-lo ainda mais porque atraa as atenes.
        - Pare com isso - disse bruscamente Bob Swanson, franzindo o sobrolho e aproximando-se mais dela. - Deixe-me pr as coisas desta maneira: ou vamos l acima 
durante uma ou duas horas e festejamos o seu aniversrio, ou est imediatamente despedida. Ou  "Feliz Aniversrio", ou "Boa Viagem". Qual escolhe? - Se no fosse 
to terrvel o que Bob lhe estava a dizer, Grace teria rido na cara dele. Mas ela no ria, chorava cada vez mais enquanto o olhava de frente, dizendo-lhe:
        - Ento, estou despedida. Amanh irei buscar o cheque do meu salrio e as minhas coisas. - Saiu da mesa sem dizer mais uma palavra e voltou para casa, lavada 
em lgrimas. No dia seguinte dirigiu-se para a agncia para ir buscar as coisas que l tinha e o cheque do vencimento.
        Cheryl regressara na vspera de Nova Iorque e sorriu alegremente ao ver aparecer Grace. Esta no pde deixar de imaginar o que lhe teria dito Bob. Mas isso 
no interessava. Tomara j uma deciso. Faltavam-lhe pouco mais de dois meses para acabar a sua liberdade condicional e depois poderia fazer o que quisesse.
        - Sente-se melhor? - perguntou Cheryl. Tivera uma permanncia muito animada em Nova Iorque. Era sempre assim. s vezes tinha pena de no viver em Nova Iorque.
        - Sim, estou bem - respondeu calmamente Grace. Depois de ter trabalhado com eles durante vinte e um meses, tinha realmente pena de os deixar, mas sabia que 
no podia fazer outra coisa.
        - Bob contou-me que teve uma grave intoxicao alimentar com o almoo de ontem, e que precisou de ir para casa. Pobrezinha. - Cheryl deu-lhe uma palmadinha 
no brao e apressou-se a ir para o seu escritrio. Parecia no fazer ideia de Grace ter sido despedida. Nesse momento Bob saiu do escritrio dele e olhou-a, parecendo 
no compreender.
        - Sente-se melhor, Grace? - perguntou como se nada se tivesse passado entre os dois na vspera. E ela falou em voz baixa, para ningum ouvir.
        - Vim buscar o meu cheque e levar as minhas coisas.
        - No precisa de fazer isso - disse Bob com ar inexpressivo. - Creio que podemos esquecer o assunto, no? - acrescentou, olhando-a fixamente. Grace hesitou 
durante um bocado e depois baixou a cabea num gesto de assentimento. No merecia a pena fazer escndalo. Aquilo sucedera e ela sabia agora o que fazer. Era chegada 
a altura.
        Esperou mais seis semanas at ao Dia do Trabalho, e avisou-os de que os deixaria no prazo de um ms. Cheryl ficou muito triste e Bob fingiu sentir o mesmo. 
Marjorie chorou quando Grace lhe disse, mas dentro de trs semanas ficaria livre da liberdade condicional e era altura de deixar Chicago. Tinha quase a certeza de 
que as fotos que Marcus lhe tirara no eram obscenas. At Bob Swanson dissera que o corpo dela se encontrava tapado pela camisa de homem, mas de qualquer modo eram 
desagradveis e ele ficara com elas. Grace sabia que, se se queixasse de Marcus, ele diria que ela era uma mulher fcil e sabe Deus o que Bob diria para se proteger. 
Talvez dissesse mesmo que fora ela quem o provocara, se isso servisse os seus fins. Grace estava farta de pessoas como eles, de fotgrafos que se julgavam donos 
do mundo e de modelos sempre dispostas a serem exploradas. Alm disso tinha a sensao de ter feito tudo o que podia em St. Mary. Chegara a altura de sair dali.
        Na agncia fizeram-lhe uma festa de despedida e convidaram um grande nmero de fotgrafos e de modelos. Uma das modelos concordara j em tomar o lugar dela 
no apartamento. No dia seguinte ao do seu ltimo dia de trabalho, Grace apresentou-se no escritrio de Louis Marquez. Atrasara-se dois dias porque estivera muito 
ocupada a fazer as malas e a concluir o seu trabalho na agncia. Legalmente encontrava-se j fora da jurisdio dele quando se foi despedir.
        - Para onde vai agora? - perguntou de modo casual. Ia realmente sentir a falta das visitas dela, embora ocasionais.
        - Para Nova Iorque.
        Ele ergueu um sobrolho.
        - J arranjou emprego? - Grace riu da pergunta. J no era obrigada a dar-lhe qualquer explicao. No devia nada a ningum. Cumprira todas as suas obrigaes 
e Cheryl dera-lhe uma carta com referncias fantsticas, que Bob assinara igualmente.
        - Ainda no, senhor Marquez. Procurarei um depois de l chegar. No creio que seja muito difcil. - Agora tinha experincia e referncias. Tudo quanto precisava.
        - No era melhor ficar aqui e ser modelo?  to bonita como elas e muito mais esperta. - Marquez falou quase afectuosamente.
        - Obrigada. - Grace gostaria de se mostrar pelo menos delicada, mas no podia.         Ele atormentara-a durante os ltimos dois anos e no queria voltar 
a v-lo nunca mais.
        Assinou todos os papis necessrios e quando lhe ia entregar a caneta ele agarrou-lhe na mo e apertou-lha.
        - No querer... como recordao dos velhos tempos bem, sabe o que quero dizer, no, Grace? - O homem transpirava visivelmente e a sua mo estava hmida 
e escorregadia.
        - Sei e no quero - respondeu calmamente. Ele j no a assustava. Acabara de assinar os papis que a libertavam, tendo-os bem presos na mo. Agora era apenas 
uma cidad como qualquer outra. O passado ficara finalmente para trs e aquele homenzinho repugnante no lho ia fazer recordar.
        - V, Grace, seja boazinha. - Marquez deu a volta  secretria e, antes que ela pudesse afastar-se, agarrou-a e tentou beij-la, mas ela empurrou-o com tanta 
fora que ele bateu com uma perna na esquina da secretria e gritou-lhe: - Continua com medo dos homens, no , Grace? Que vai fazer? Matar todos os tipos que quiserem 
fazer amor consigo?
        Ao ouvir aquelas palavras, em vez de fugir, Grace avanou para ele e agarrou-o pelo colarinho. Ele era provavelmente mais forte do que ela, mas Grace era 
bastante mais alta e Marquez ficou surpreendido por ela o agarrar.
        - Oua, seu porco, se alguma vez me volta a tocar, chamo a Polcia e deixo que eles o matem. Isso no me incomodava nada. Se me toca, vai para a priso por 
violao. No pense que estou a brincar. No volte a aproximar-se de mim.
        Largou-o e foi calmamente buscar a mala, enquanto ele a olhava sem dizer uma palavra. Grace saiu e bateu com a  porta atrs de si. Estava acabado. Agora 
era tudo histria.
        O momento que h anos Molly lhe prometera, chegara.
        A vida agora pertencia-lhe.

CAPTULO 9

        Grace teve muita pena de deixar Marjorie, a sua maior amiga. E deixar as pessoas de St. Mary foi triste tambm. Paul Weinberg desejou-lhe sorte e disse-lhe 
que ia casar no Natal. Grace sentiu-se feliz por ele, mas por variadas razes sentia-se tambm feliz por sair de Chicago. Estava satisfeita por sair de Ilinis, 
e das horrveis recordaes que tinha dali. Estava sempre com receio de que aparecesse algum de Watseka que a reconhecesse.
        Sabia que em Nova Iorque isso no sucederia.
        Meteu-se num avio para a grande cidade. Era muito diferente de ter vindo de autocarro de Dwight para Chicago. A maior parte das suas economias estava intacta. 
Nunca gastara muito dinheiro e os Swansons pagavam bem. Conseguira poupar mais algum dinheiro e tinha agora na sua conta mais de cinquenta mil dlares, que j transferira 
para um banco de Nova Iorque. Uma das modelos falara-lhe do hotel, onde reservara alojamento, dizendo que era muito aborrecido porque no era permitido levar visitantes 
para os quartos, mas era exactamente isso que Grace queria.
        Meteu-se num txi no aeroporto e dirigiu-se directamente para um hotel residencial s para mulheres, o Barbizon, em Lexington Avenue, junto da Rua Sessenta 
e Trs. Gostou imediatamente do local: havia lojas e prdios de apartamentos. Era uma zona residencial, cheia de vida e atarefada. Ficava apenas a trs quarteires 
dos Bloomingdale, de que ela ouvira falar durante anos. Algumas das raparigas tinham trabalhado para eles como modelos. Ficava tambm apenas a trs quarteires de 
Park Avenue e a trs de Central Park. Grace estava encantada.
        Passou o domingo a passear preguiosamente por Madison Avenue, vendo as montras das lojas. Depois foi ao zoo e comprou um balo. Estava um lindo dia de Outubro 
e ela tinha a estranha sensao de ter chegado finalmente a casa. Nunca se sentira to feliz. Na segunda-feira de manh foi a trs agncias de emprego para arranjar 
trabalho. No dia seguinte telefonaram-lhe para lhe proporem meia dzia de entrevistas. Duas eram de agncias de modelos, que ela recusou. Ficara farta dessa vida 
e das pessoas ligadas a ela. As agncias ficaram desapontadas, visto ela ter uma excelente carta de recomendao e estar dentro do assunto. A terceira entrevista 
era com uma firma de plsticos. O trabalho pareceu-lhe maador e tambm no o aceitou, e a ltima entrevista marcada era numa firma de advogados muito importante, 
a Mackenzie, Broad Steinway. Grace nunca ouvira falar dela, mas aparentemente toda a gente ligada ao mundo dos negcios de Nova Iorque a conhecia.
        Nessa manh, a jovem vestira um vestido preto, muito simples, que comprara no ano anterior, em Chicago, na Carson Pirie Scott, e um casaco vermelho que comprara 
nesse mesmo dia, na Lord & Taylor. Estava muito bonita. Foi entrevistada pelo chefe do pessoal e em seguida conduziram-na para o gabinete do chefe da secretaria 
para conhecer dois dos scios da firma. Os seus talentos como secretria tinham-se desenvolvido no decorrer dos anos, mas ela ainda no estava habituada a escrever 
cartas ditadas em estenografia. No entanto, eles pareceram dispostos a dispensar isso, visto ela ser capaz de tomar rapidamente notas e de dactilografar. Simpatizou 
com toda a gente, incluindo os dois advogados mais novos com os quais iria trabalhar directamente, Tom Short e Bul Martin. Eram ambos muito srios e secos. Um deles 
estudara em Princeton e depois acabara o curso de direito em Harvard. O outro estivera sempre em Harvard. Parecia tudo previsvel e respeitvel e at o local lhe 
agradava. A firma estava situada na Rua Cinquenta e Seis, a oito quarteires apenas do seu hotel. Mas Grace sabia que teria de arranjar um apartamento.
        A firma ocupava dez andares e tinha mais de seiscentos empregados. Grace desejava apenas ser um rosto na multido, e ali era isso mesmo. Tratava-se do stio 
mais impessoal que ela alguma vez conhecera e agradava-lhe completamente. Grace usava o cabelo preso na nuca, pouca maquilhagem e as mesmas roupas que usara em Chicago. 
Tinha um pouco mais de estilo do que seria necessrio ali, mas o chefe da secretaria achava que isso no era importante, pois Grace era uma rapariga calada e eficiente 
e o trabalho dela agradava-lhe.
        Grace fora contratada como secretria adjunta de outra que j l trabalhava. A outra era uma mulher com trs vezes a idade dela e duas vezes o seu peso, 
mas pareceu ficar satisfeita por ter algum com quem dividir o trabalho. Logo no primeiro dia disse a Grace que Tom e BilI eram pessoas simpticas com as quais se 
tornava agradvel trabalhar. Ambos eram casados e tinham esposas louras. Um deles vivia em Stamford, o outro em Darien, e cada um deles tinha trs filhos. De certo 
modo pareciam gmeos, mas o mesmo se podia dizer de quase todos os outros ali. Com efeito, praticamente todos os empregados tinham uma aparncia semelhante. E todos 
eles falavam apenas dos casos com que se encontravam ocupados. Quase todos jogavam squash, alguns pertenciam a clubes, e todas as secretrias tinham um aspecto igualmente 
annimo. E era precisamente esse anonimato que agradava a Grace. Ningum pareceu reparar nela e adaptou-se imediatamente ao trabalho sem qualquer problema. Ningum 
lhe perguntou quem era, nem de onde vinha, ou onde trabalhara. Nova iorque era assim e isso agradava a Grace.
        No fim-de-semana arranjou um apartamento. Ficava na Rua Oitenta e Quatro, perto da Primeira Avenida. Grace poderia ir para o trabalho de metro ou de autocarro 
e no teria dificuldade em pagar a renda com o seu ordenado. Vendera a moblia do quarto que tinha em Chicago  rapariga que fora ocupar o seu lugar, por isso foi 
ao Macy e comprou algumas coisas para mobilar o apartamento, mas achou-as muito caras. Uma das suas colegas de trabalho indicou-lhe ento uma loja de mobilirio 
em Brooklyn, onde poderia arranjar coisas mais baratas. Nessa tarde, ao sair do emprego, Grace meteu-se no metro para l ir. Durante o trajecto, sentada na carruagem 
do comboio, sorria. Nunca se sentira to adulta nem to livre, to senhora do seu destino. Pela primeira vez na sua vida, ningum a controlava, nem ameaava, ou 
tentava fazer-lhe mal. Ningum queria nada dela. Podia fazer tudo o que quisesse.
        Nas tardes de sbado fazia as suas compras, comprava os artigos alimentares perto de casa, e ia a galerias de arte em Madison Avenue e em West Side, chegando 
a fazer algumas incurses ao SoHo. Gostava de Nova iorque e de tudo o que l havia. Comeu dim sum em Mott Street, passeou pelos bairros italianos e ficou fascinada 
quando assistiu a dois leiles. Um ms aps ter chegado a Nova iorque, tinha emprego e apartamento. Comprara quase todo o mobilirio, e a casa, embora no fosse 
elegante nem requintada, era contudo confortvel. O apartamento fora alugado com cortinados e alcatifa bege-clara que ficava bem com tudo o que ela comprara. Tinha 
um quarto, casa de banho, sala e uma pequena cozinha com uma rea para as refeies. Grace no precisava de mais coisa alguma e aquilo tudo lhe pertencia. Ningum 
lho poderia tirar ou estragar.
        - Como se tem dado em Nova iorque? - perguntou-lhe uma vez o chefe do pessoal quando a encontrou na cafetaria da firma,  hora do almoo. Grace s ali comia 
quando estava mau tempo, ou tinha pouco dinheiro, perto do fim do ms. Noutras alturas gostava mais de ir comer a qualquer stio e passear um pouco.
        - Muito bem - respondeu Grace com um sorriso. O chefe do pessoal era um homem de certa idade, baixo e calvo, que lhe dissera ter cinco filhos.
        - Ainda bem. Tenho tido boas informaes acerca do seu trabalho, Grace.
        - Obrigada - respondeu, sorrindo.
        A coisa mais agradvel nele era amar a mulher e no mostrar qualquer interesse por Grace. Ali ningum mostrava qualquer interesse por ela e nunca se sentira 
to bem em toda a sua vida. As pessoas ocupavam-se com o seu trabalho e o sexo parecia estar longe dos pensamentos de todos. A verdade  que ningum parecia dar 
por ela, especialmente Tom e Bill, os dois advogados para os quais Grace trabalhava. Se ela tivesse cinco vezes a idade que tinha, eles no teriam reparado. Mostravam-se 
simpticos, mas obviamente s pensavam no trabalho. s vezes trabalhavam at s oito ou mesmo nove da noite e Grace pensava se eles chegariam a ver os filhos. Chegavam 
a ir trabalhar aos fins-de-semana quando tinham dossiers a apresentar aos scios proprietrios da firma.
         - Tem alguns planos para o dia de Aco de Graas? - perguntou-lhe a meio de Novembro a secretria que trabalhava com ela. Era uma mulher simptica, com 
mais de cinquenta anos, com uma cintura larga e pernas pesadas, mas tinha um rosto agradvel, emoldurado por cabelo grisalho. Nunca casara. Chamava-se Winifred Apgard, 
mas todos lhe chamavam Winnie.
        - No, mas fico bem - disse Grace, tranquilamente. Os feriados nunca tinham sido o seu forte.
        - No vai a casa? - Grace abanou a cabea e no explicou que no tinha casa. O apartamento onde vivia era a sua casa e ela era muito auto-suficiente.
        - Vou a Filadlfia visitar a minha me. Se no fosse convidava-a - disse Winnie, como a desculpar-se. Parecia uma tia solteirona e gostava do trabalho que 
fazia e das pessoas para quem trabalhava. Tomava conta dos dois jovens advogados como uma me-galinha, dizendo-lhes que calassem as galochas se estava a nevar, 
ou avisando-os de que ia haver temporal quando iam tarde para casa.
        Tom e BilI tinham um relacionamento muito diferente com Grace. Pareciam quase fingir no a ver. Grace chegava a pensar se a sua juventude seria considerada 
uma ameaa para eles, ou se as mulheres no gostariam que eles tivessem uma secretria to nova, ou se se sentiriam mais descansadas com Winnie. Mas isso no importava. 
Eles nunca lhe diziam nada de carcter pessoal e enquanto com Winnie costumavam gracejar, com ela mantinham-se sempre sisudos, como se tivessem todo o cuidado em 
no a conhecer. Eram muito diferentes de Bob Swanson, mas essa era uma das coisas que mais agradava a Grace.
        Na semana anterior ao Dia de Aco de Graas, Grace passou parte da sua hora do almoo a fazer alguns telefonemas pessoais. H muito que pensava faz-los 
mas estivera muito ocupada com a sua instalao, mas agora era chegada a altura de o fazer. Tratava-se de uma coisa que tencionava fazer durante todo o resto da 
sua vida, algo que ela achava que devia s pessoas que a tinham ajudado. E queria comear.
        Encontrou finalmente aquilo que procurava.
        O local chama-se St. Andrew's Shelter e ficava em Lower East Side, em Delancey. Grace falou para l e foi atendida por um jovem sacerdote que dirigia o abrigo, 
que a convidou a ir visit-lo no domingo seguinte, pela manh.
        Grace meteu-se no metro em Lexington, mudou de comboio e saiu em Delancey, continuando a p o resto do caminho. Este no era nada fcil, como Grace viu, 
ao chegar. Havia vagabundos passeando pelas ruas, sem destino aparente, bbedos encostados s portas, ou estendidos nos passeios, dormitando. A jovem viu carros 
abandonados aqui e ali, prdios velhos, armazns e alguns rapazes de aspecto agressivo, que pareciam procurar sarilhos. Todos olharam para Grace ao v-la passar, 
mas ningum a incomodou. Finalmente chegou a St. Andrew's. Era um velho edifcio de pedra que parecia em muito mau estado. As portas quase no tinham tinta e havia 
um letreiro que parecia preso por um fio. Viam-se pessoas a sair e a entrar, sobretudo mulheres e crianas e tambm algumas raparigas. Uma delas parecia ter uns 
catorze anos e Grace reparou que estava grvida.
        Quando entrou, Grace deparou com trs raparigas sentadas atrs do balco da recepo. Conversavam animadamente e uma delas arranjava as unhas. Havia mais 
barulho ali do que em qualquer outro stio onde Grace tivesse estado. Todo o edifcio ressoava com vozes de crianas, ouvia-se discutir algures, passavam por ela 
negros e brancos, chineses e porto-riquenhos. Parecia um microcosmo de Nova Iorque, ou ento que algum tivesse desviado um comboio do metropolitano.
        Grace mencionou o nome do padre que falara com ela e enquanto esperou que ele aparecesse foi observando o que se passava  sua volta. Quando finalmente ele 
surgiu trazia umas calas de ganga velhas e um camisolo de malha cor de aveia.
        - Padre Finnegan? - perguntou Grace cheia de curiosidade. Ele tinha cabelo ruivo, um ar agarotado e no parecia nada um padre. Mas as rugas em redor dos 
olhos e as sardas nas faces um pouco marcadas mostravam que ele devia ser bastante mais velho do que parecia.
        - Padre Tim - corrigiu ele com um sorriso. - Miss Adams?
        - Grace. - Sorriu tambm. No se podia deixar de sorrir para ele. Havia naquele padre uma alegria contagiante.
        - Vamos conversar para outro stio - disse o padre calmamente, caminhando por entre meia dzia de garotos que corriam atrs uns dos outros pelo vestbulo. 
O edifcio devia ter sido um prdio de apartamentos, aberto depois para dar abrigo aos que dele necessitavam. Ele dissera-lhe ao telefone que tinham comeado apenas 
h cinco anos e que precisavam muito de ajuda, sobretudo de voluntrios. Ficara contentssimo por Grace ter telefonado. Disse-lhe que ela era um dos muitos milagres 
de que precisavam.
        O padre Tim levou Grace para uma cozinha onde havia trs velhas mquinas de lavar loua que lhes haviam sido oferecidas e um enorme lava-loua. Grace reparou 
nos posters nas paredes. Havia tambm ali uma grande mesa redonda e vrias cadeiras. Sobre a mesa estavam duas grandes cafeteiras com caf. Ele encheu uma chvena 
para cada um deles e conduziu-a em seguida para uma salinha que devia ter sido antes uma despensa e era agora o seu gabinete. A sala estava a precisar urgentemente 
de ser pintada e de ter algum mobilirio decente, mas depois de estar sentada e de comear a conversar com ele, Grace compreendeu que era fcil esquecer tudo isso. 
O padre Tim tinha uma personalidade to forte que ofuscava tudo, mas no fazia a mais pequena ideia disso, e por esse motivo  que toda a gente gostava dele.
        - Ento que a traz por c, Grace? Isto , alm de um corao bondoso e de uma natureza louca? - Sorriu novamente, enquanto bebia um gole de caf escaldante 
e os seus olhos brilhavam alegremente.
        - J fiz este gnero de trabalho voluntrio anteriormente, em Chicago. Num stio chamado Saint Mary. - Deu o nome de Paul Weinberg como referncia.
        - Conheo-o bem. Eu prprio sou de Chicago. Estou aqui h vinte anos. E tambm conheo Saint Mary. De certo modo tommo-lo como modelo. Eles fazem um excelente 
trabalho.
        Grace contou-lhe o nmero de pessoas que ali iam por ano, e que chegavam a residir ali uma dzia de familias em certas ocasies. Para no falar nas pessoas 
que entravam e saam constantemente durante o dia e ali voltavam muitas vezes para receberem o conforto que ali lhes era proporcionado.
        - Ns oferecemos mais ou menos o mesmo aqui - disse ele pensativamente, olhando-a. Pensava que motivo levaria uma rapariga como ela a fazer aquele gnero 
de trabalho. Mas h muito que aprendera a no questionar as ddivas de Deus, mas sim a utiliz-las bem. Tencionava dar trabalho a Grace em St. Andrew's. - Aqui temos 
mais gente. Umas oitenta, ou mesmo perto de cem, mais ou menos. Mais mais, do que menos - acrescentou sorrindo outra vez. Temos tido aqui mais de cem mulheres e 
por vezes o dobro das crianas. Procuramos que a confuso seja a menor possivel, mas de um modo geral temos aqui aproximadamente sessenta mulheres e umas cento e 
cinquenta crianas na maior parte do tempo. No mandamos ningum embora.  a nica regra que temos. Chegam  nossa porta, ficam ou vo-se embora, conforme querem. 
Geralmente no permanecem aqui durante muito tempo. Ou voltam para os Stios de onde vieram ou partem para iniciar nova vida. Eu diria que a mdia da permanncia 
aqui  de uma semana a dois meses, no mximo. A maior parte delas sai duas semanas depois de chegar.
        Em St. Mary era mais ou menos o mesmo.
        - Podem alojar tanta gente aqui? - perguntou Grace, surpreendida. O edifcio no parecia to grande como isso, e no era.
        - O prdio tinha vinte apartamentos. Ns amontoamos o maior nmero de pessoas, Grace. As nossas portas esto abertas para toda a gente. No  s para os 
catlicos - explicou. - Nem sequer fazemos essa pergunta.
        - Na realidade... - Grace sorriu-lhe. Irradiava dele uma tal afectividade que lhe ia direita ao corao. Havia no padre Tim uma inocncia e pureza que o 
tornava verdadeiramente sagrado, no sentido real. Ele era de facto um homem de Deus e Grace sentiu-se logo  vontade junto dele. - Na realidade, o mdico que dirige 
Saint Mary  judeu - disse ela com naturalidade.
        - Para mim isso no tem qualquer importncia.
        - Tambm tm aqui mdico? - perguntou Grace.
        - Bem... de certo modo sou eu. Sou jesuta e doutorei-me em psicologia. Mas "doutor Tim" parecia estranho, no acha? Gosto mais de "padre Tim" - Desta vez 
riram ambos e ele foi novamente encher as chvenas com caf.
        - Temos aqui meia dzia de freiras sem hbito e cerca de quarenta voluntrias e voluntrios que trabalham por turnos. Precisamos de todos para manter a casa 
em funcionamento. Temos tambm algumas enfermeiras especializadas em psiquiatria, que nos ajudam, e uma poro de rapazes internos de psiquiatria, quase todos da 
Universidade de Colmbia.  um excelente grupo e todos trabalham como demnios... desculpe, como anjos. - Grace simpatizava realmente com ele, com as suas sardas 
e os seus olhos risonhos.
        - E voc, Grace? Que a traz aqui?
        - Gosto deste gnero de trabalho. Significa muito para mim.
        - Suponho que o conhea bem, depois de passar dois anos em Saint Mary.
        - Creio que sei o suficiente para poder ser til. - Tudo aquilo lhe era muito familiar, mas ela no sabia se o devia dizer, ou no. Quase lhe apetecia faz-lo. 
Confiava mais nele do que alguma vez confiara em algum desde h muito tempo.
        - Quantas vezes por semana ou por ms ia a Saint Mary?
        - Duas noites por semana e todos os domingos. E quase todos os feriados.
        - Oh! - Ele mostrou-se encantado e surpreendido. Padre ou no, via bem que Grace era uma rapariga nova e bonita, nova de mais para dar tanto tempo da sua 
vida a um trabalho daqueles. Olhou-a atentamente. - Trata-se de uma misso especial para si, Grace? - Era como se ele soubesse. Sentia-o. E ela disse que sim com 
a cabea.
        - Creio que sim. Eu... eu compreendo essas coisas. - No sabia que mais lhe dizer, mas ele baixou a cabea e tocou-lhe numa mo.
        - Est bem. A cura tem muitas facetas; ajudar os outros  a melhor. - Ela fez um gesto de concordncia e sentiu os olhos enevoados. Ele sabia. Ele compreendia. 
Grace sentia que tinha chegado a casa, s por estar ali e se encontrar perto dele. - Ns precisamos de si, Grace. H um lugar para si aqui. Pode trazer cura e alegria 
a muita gente, assim como a si mesma.
        - Obrigada, padre - murmurou Grace, limpando as lgrimas enquanto ele lhe sorria. O padre Tim no fez mais perguntas. Sabia o que precisava de saber. Ningum 
sabia melhor o que aquelas mulheres e crianas maltratadas por pais, mes, irmos ou maridos passavam que uma pessoa que j tivesse passado por isso.
        - Bem, falemos agora do nosso assunto. - Os olhos dele riram outra vez. - Quando  que pode comear? No a vamos deixar sair daqui com facilidade. Pode recuperar 
o seu perfeito juzo.
        - Agora? - Grace fora preparada para trabalhar, se ele quisesse, e ele queria.         Passaram outra vez pela cozinha, onde ele deixou as duas chvenas 
sujas numa das mquinas e em seguida levou-a at ao vestbulo, apresentando-a s pessoas. As trs raparigas da recepo tinham sido substituidas por um rapaz com 
vinte e poucos anos, estudante de medicina na Universidade de Colmbia, e duas mulheres que falavam com um grupo de meninas e que o padre Tim apresentou como irm 
Theresa e irm Eugene, mas nenhuma delas parecia freira. Eram mulheres que deviam ter pouco mais de trinta anos, de aparncia amistosa. Uma delas vestia um fato 
de treino e a outra trazia calas de ganga e um camisolo bastante usado. A irm Eugene ofereceu-se para mostrar a Grace os quartos onde se encontravam as mulheres 
e a sala onde s vezes tinham as crianas, se as mulheres no se encontravam em estado de poder tomar conta delas.
        Havia uma enfermaria onde trabalhava uma enfermeira que era freira e que envergava uma bata branca por cima das calas de ganga. As luzes eram fracas e a 
irm Eugene comeou a avanar silenciosamente, depois de fazer sinal  enfermeira de servio. E, enquanto olhava para as mulheres que se encontravam nas camas, Grace 
sentia o corao oprimido, pois por toda a parte via os sinais que observara durante toda a sua vida. Espancamentos brutais e ferimentos terrveis. Duas mulheres 
tinham os braos engessados, outra mostrava queimaduras de cigarro por toda a cara e outra ainda gemia, enquanto a irm lhe ligava as costelas partidas e lhe punha 
bolsas com gelo nos olhos inchados. O marido fora preso.
        - Enviamos os casos piores para o hospital - explicou calmamente a irm Eugene, ao sairem da sala. Sem pensar, Grace parara para tocar numa mo e a mulher 
olhara-a com desconfiana. Era outra coisa com a qual Grace estava tambm familiarizada. As mulheres maltratadas chegavam ao ponto de no acreditar que houvesse 
algum que no quisesse fazer-lhes mal. - Mas ficamos aqui com as que podemos tratar. Custa-lhes menos e s vezes so coisas ligeiras. Mas os casos realmente graves 
vo para as urgncias dos hospitais. - Duas noites antes tinham-lhes levado uma mulher a quem o marido queimara a cara com um ferro em brasa, depois de lhe ter atirado 
a jante de um pneu  cabea. Ia-a matando, mas ela tinha tanto medo dele que no quisera apresentar queixa. As autoridades haviam-lhes tirado os filhos, que se encontravam 
agora em lares de apoio. Mas era preciso que as mulheres tivessem vontade de se salvar e muitas delas no tinham coragem para isso. Ser espancada era a coisa que 
mais isolamento causava a qualquer pessoa. Uma mulher espancada escondia-se de toda a gente, mesmo daqueles que a poderiam ajudar. Grace sabia isso demasiado bem.
        A irm Eugene levou-a ento a ver as crianas, e da a minutos Grace estava rodeada de meninas e rapazinhos, contando-lhes histrias, fazendo-lhes tranas, 
atando os sapatos, enquanto as crianas lhe iam dizendo quem eram, o que lhes sucedera e por que motivo ali estavam. Algumas no sabiam. Outras tinham irmos que 
haviam sido mortos pelos pais. Havia crianas cujas mes estavam l em cima, demasiado maltratadas para se poderem mexer e demasiado envergonhadas para verem sequer 
os filhos. Era uma doena que destruia as famlias e as pessoas que passavam por isso. Grace sabia bem que poucas daquelas crianas cresceriam segundo um padro 
normal ou seriam capazes de voltar a confiar em algum.
        Nessa noite, j passava das oito quando as deixou. O padre Tim encontrava-se  porta, a falar com um polcia. Este acabara de lhe levar uma menina de dois 
anos que fora violada pelo pai. Grace detestava casos desses. Ela, pelo menos, tinha treze... mas vira em St. Mary bebs como aquela, violadas e sodomizadas pelos 
pais.
        - Um dia difcil? - perguntou com simpatia o padre Tim, quando o polcia se afastou.
        - Foi um dia bom - respondeu Grace, sorrindo. Passara-o quase todo com as crianas e nas ltimas horas falara com algumas mulheres, ouvindo-as, tentando 
dar-lhes coragem para concretizar o que tinham a fazer. Ningum poderia faz-lo por elas. A Polcia podia ajudar, mas cabia-lhes a elas salvarem-se. Talvez se falasse 
com aquelas mulheres, elas no fossem obrigadas a chegar ao extremo a que ela chegara. No teriam de ir parar  priso para se libertarem. Era a sua maneira de pagar 
a sua dvida, de pagar um pecado que sabia que a me nunca lhe perdoaria. Mas no tivera alternativa e no lamentava o que fizera. S no queria que elas tivessem 
de pagar o preo que ela pagara.
        - Dirige uma grande casa - disse Grace, como um cumprimento de despedida. Era ainda melhor do que em St. Mary. Havia mais animao e talvez ainda mais carinho.
        - aquilo que as pessoas que aqui trabalham fazem dela - respondeu o padre. - Est interessada em voltar? A irm Eugene disse-me que a achava fantstica.
        -  como ela me parece. - A irm trabalhara incansavelmente durante todo o dia. Grace reparara nisso. E gostara de toda a gente. - No creio que consiga 
manter-me afastada. - Inscrevera-se j para duas noites nessa semana e para o domingo seguinte. - Tambm posso vir no Dia de Aco de Graas - acrescentou, despreocupadamente.
        - No vai a casa? - perguntou, admirado. Ela era muito nova para no ter famlia.
        - No tenho casa para ir - respondeu Grace, encolhendo os ombros. - No tem importncia. Estou habituada.
        - Gostvamos muito que viesse. - Os feriados eram sempre dias difceis para as pessoas que tinham problemas em casa e o nmero de pessoas que ali iam duplicava. 
- Aqui  sempre um corropio.
        -  isso mesmo que eu quero. At para a semana, padre - disse Grace, assinando o livro de presenas. Devia apresentar-se  irm Eugene e sentia-se satisfeita 
por ter ido ali. Era exactamente o que ela queria.
        - Que Deus a abenoe, Grace.
        - E a si tambm, padre - respondeu ela, fechando suavemente a porta.
        O caminho at ao metro foi longo e assustador, pois Grace voltou a encontrar os bbedos, os vagabundos e os rapazes que a olhavam com ar agressivo. Mas mais 
uma vez ningum a incomodou e meia hora depois encontrava-se outra vez em casa, a caminhar ao longo da Primeira Avenida em direco ao seu apartamento. Grace sentia-se 
cansada do longo dia, mas ao mesmo tempo revivida e julgava que os horrores por que passara tinham sido teis, pelo menos para algumas pessoas. Grace sentia que 
a dor que trazia em si poderia ter valido a pena. Pelo menos no fora desperdiada.

CAPTULO 10

        Grace passou o Dia de Aco de Graas em St. Andrew's Shelter, como prometera. Ajudou mesmo a cozinhar o peru. Depois disso comeou a rotina familiar de 
l ir todas as teras e sextas-feiras e aos domingos todo o dia. As sextas-feiras eram sempre noites muito agitadas para eles, porque comeava o fim-de-semana e 
os homens recebiam geralmente nesses dias. Os maridos com tendncias violentas embebedavam-se e batiam nas mulheres. Grace nunca saa do abrigo antes das duas e 
meia da manh e s vezes mais tarde. E aos domingos tentavam tratar dos casos de todas as mulheres e crianas que os tinham ido procurar. S nas noites de tera-feira 
 que ela e a irm Eugene tinham oportunidade de conversar um pouco. No Natal, as duas mulheres tinham-se tornado boas amigas. A irm Eugene chegou mesmo a perguntar-lhe 
se ela no teria vocao religiosa.
        - Oh, meu Deus, no! Nem sequer sou capaz de imaginar isso! - exclamou Grace, admirada com a ideia.
        - No  muito diferente do que faz agora, sabe - replicou a irm Eugene, sorrindo. - D muito de si mesma aos outros... e a Deus... seja qual for a maneira 
de ver as coisas.
        - No creio que o faa por santidade - Grace sorriu, embaraada com o que a freira estava a dizer. - Estou apenas a pagar algumas dvidas antigas. Houve 
pessoas que foram boas para mim. Agrada-me pensar que estou agora a transmitir isso a outros. - No tinham sido muitas as pessoas boas para Grace, mas houvera algumas. 
Agora Grace queria ser uma dessas pessoas boas para aquela gente angustiada. E era-o. Mas no chegava ao ponto de dar a sua vida a Deus, mas apenas s mulheres e 
crianas maltratadas.
        - Tem namorado? - perguntou uma noite a irm Eugene com uma pequena gargalhada juvenil. Grace riu da pergunta. A irm Eugene sentia curiosidade acerca da 
vida dela e Grace raramente lhe dava qualquer informao. Era muito fechada acerca de si prpria. Sentia-se mais segura assim.
        - No tenho muito jeito para falar com homens - disse Grace com sinceridade. - Prefiro vir para aqui e sentir-me til.
        E era til. Passou o Natal e o Ano Novo com eles e por vezes o seu rosto tinha uma expresso de calma alegria depois de ter vindo de l. Winnie reparara 
nisso e pensava que devia haver um homem na vida dela. Parecia-lhe to calma e to contente com a sua vida. Mas essa paz interior vinha de ter estado toda a noite 
com uma criana maltratada nos braos, embalando-a e acarinhando-a como nunca ningum lhe fizera a ela. Desejava mais do que nunca ser algo de diferente na vida 
daquelas crianas e conseguia-o.
        Finalmente, depois de trabalharem juntas durante cinco meses, Winnie convidou-a para almoar a um domingo. Grace ficou-lhe muito grata, mas explicou-lhe 
que aos domingos tinha um compromisso inadivel que no poderia cancelar. Combinaram ento o almoo para um sbado. Encontraram-se no Schrafft's em Madison Avenue 
e seguiram a p at ao Rockefeller Center para verem os patinadores.
        - Que faz aos domingos? - perguntou Winnie com curiosidade, ainda convencida de que Grace tinha um namorado. Era uma rapariga muito nova e bonita. Tinha 
de haver algum.
        - Trabalho em Delancey Street, um lar para crianas e mulheres maltratadas - respondeu, enquanto via raparigas de saias curtas evoluirem graciosamente sobre 
o gelo, e crianas carem, rindo, enquanto perseguiam os pais e os irmos. Pareciam crianas muito felizes.
        - Sim? - perguntou Winnie, surpreendida pelas palavras de Grace. - Porqu? - No podia compreender que uma rapariga to nova e to bonita fizesse algo to 
difcil e to triste.
        - Fao-o porque acho que  importante. Trabalho l trs vezes por semana.  um stio fantstico. Gosto de l ir - explicou Grace, com um sorriso.
        - Sempre fez isso? - quis saber Winnie.
        - H muito tempo que o fao. Tambm o fiz em Chicago, mas gosto mais desta casa. Chama-se Saint Andrew's Shelter. - Depois riu e contou-lhe o que a irm 
lhe dissera a respeito dela vir a ser freira.
        - Oh, meu Deus! - Winnie pareceu ficar horrorizada. - Mas no vai fazer isso, pois no?
        - No, mas elas parecem bastante felizes. Mas no  para mim. Prefiro fazer o que posso desta maneira.
        - Trs dias por semana  muito. No deve ter tempo para fazer outras coisas.
        - No tenho. E no quero ter. Gosto do meu trabalho na empresa e gosto de trabalhar em Saint Andrew's. Tenho os sbados livres e duas noites por semana. 
No preciso mais do que isso.
        - Isso no  saudvel - ralhou Winnie. - Uma rapariga da sua idade devia distrair-se, sair com rapazes... - Falava com Grace de um modo maternal e ela sorriu. 
Gostava de Winnie. Era eficiente e responsvel. Grace sabia que ela gostava "realmente" dos dois advogados para os quais trabalhavam. E tambm gostava dela. Tratava-a 
quase como se fosse sua me.
        - Estou bem assim. Verdade. Terei muito tempo para sair com rapazes quando crescer - gracejou Grace, mas Winnie abanou a cabea e agitou um dedo na direco 
dela, em ar de censura.
        - O tempo passa mais depressa do que julgamos. Cuidei dos meus pais toda a minha vida e agora a minha me est num lar em Filadlfia, para poder estar junto 
da minha tia, e eu estou aqui sozinha. O meu pai morreu e eu nunca casei. Quando ele faleceu e a minha me foi para Filadlfia para estar com a tia Tina, j eu era 
demasiado velha. - Parecia to triste com isso que Grace teve pena dela. Grace desconfiava que ela se sentia muito s e que por isso  que tinha querido convid-la 
para almoar. - Um dia h-de lamentar, se no se casar e no tiver antes disso uma vida prpria.
        - No sei se me casarei. - Ultimamente pensava que no queria de facto casar. Sofrera muito e at mesmo os seus breves encontros com homens como Marcus, 
Bob Swanson e mesmo Marquez, s a tinham decepcionado. E os bons, como David e Paul, tambm no a faziam pensar de modo diferente. Eram realmente bons, mas ela no 
queria nenhum deles. Sentia-se satisfeita por estar s. No fazia qualquer esforo por conhecer homens, nem para ter uma vida diferente da que levava com o trabalho 
no escritrio e em St. Andrew's
        Por isso ficara completamente surpreendida quando um dos outros advogados jovens que trabalhavam na firma, que ocupava um gabinete perto do dela, a convidara 
para jantar um dia. Sabia que ele era amigo dos advogados para quem ela trabalhava, e que se divorciara recentemente, e alm disso era um homem muito atraente. Mas 
no tinha interesse em sair com ele, ou com qualquer outra pessoa do escritrio.
        Parara junto da secretria dela,  hora do almoo e em voz baixa e um tanto embaraada dissera-lhe se ela quereria jantar com ele na sexta-feira seguinte. 
Ela explicou-lhe que fazia trabalho voluntrio todas as noites de sexta-feira e no podia, mas no se mostrou especialmente satisfeita por ele a ter convidado, mostrando-se 
at embaraada.
        Grace ficou mais surpreendida ainda quando um dos advogados para quem ela trabalhava lhe perguntou, no dia seguinte, por que motivo recusara o convite de 
Halam Bal.
        - Bal  realmente uma boa pessoa e gosta de si. - Disse isso como se isso fosse a nica qualidade necessria para ela sair com ele. Ningum podia compreender 
a recusa dela.
        - Eu... foi muito simptico da parte dele, e estou certa de que  uma excelente pessoa... - murmurou Grace, embaraada por ter de estar a explicar os motivos 
da sua recusa. - No saio com pessoas da empresa. Nunca  boa ideia - disse com firmeza. E o seu interlocutor concordou.
        - Foi o que eu lhe disse. S podia ser isso. Tem razo, mas  pena, porque creio que iria gostar dele e ele ficou muito abatido desde o divrcio, no Vero 
passado.
        - Lamento - respondeu friamente Grace. Depois Winnie ralhou com ela e disse que Halam Bal era um dos melhores partidos dentro da empresa e que ela era 
uma tola. Avisou-a de que se no tivesse cuidado, acabaria por ficar solteira.
        - ptimo! - Grace sorriu. - Estou ansiosa por isso. Nessa altura ningum me convidar para sair e eu no terei de arranjar desculpas.
        -  tola! Completamente louca! - ralhou Winnie, resmungando, e quando um assistente a convidou tambm, um ms depois, e ela voltou a recusar, dando as mesmas 
razes, Winnie ficou completamente doida. -  a rapariga mais tola que eu conheo. No posso permitir que faa isto.  um rapaz adorvel e at  da sua altura! - 
Mas Grace limitou-se a rir e recusou-se a reconsiderar e da a pouco tempo toda a gente sabia que Grace Adams no saa com homens que trabalhassem na firma. A maior 
parte deles achou que ela devia ter namorado e j estava comprometida, mas alguns decidiram tentar a sua sorte. Mas Grace nunca mudou de ideias, nem deu a nenhum 
uma resposta diferente. Por mais atraentes que eles fossem, ou por mais interessados que parecessem, Grace nunca aceitou os convites deles. Com efeito, parecia totalmente 
indiferente aos homens. E vrias pessoas comearam a falar dela.
        - E como  que tenciona casar? - quase gritou Winnie uma tarde em que se preparavam para sair depois do trabalho.
        - No tenciono casar, Win. To simples quanto isso. Grace mostrava-se agradecida pela preocupao de Winnie, mas no mudava de ideias.
        - Ento devia fazer-se freira. Praticamente j o ! - gritou Winnie.
        - Sim, minha senhora - disse Grace de bom humor.
        E Bill, um dos "patres" delas, que vinha nesse momento a sair do seu gabinete e as ouviu, concordou com Winnie e achou que Grace estava a perder oportunidades. 
A beleza e a juventude no duravam sempre.
        - Esto a discutir, minhas senhoras - disse, vestindo a gabardina e pegando no chapu-de-chuva. Estava-se em Maro e h semanas que no parava de chover. 
Mas felizmente no nevava.
        - Ela  completamente doida! - exclamou Winnie pegando no casaco e tentando vesti-lo, enquanto Grace a ajudava e Bill ria.
        - Meu Deus! Que fez a Winnie, Grace?
        - Ela no quer sair com ningum,  o que ! - Arrancou o casaco das mos de Grace, abotoou-o incorrectamente, enquanto os dois que a observavam tentavam 
no rir. - Ela ainda vai acabar por ser uma solteirona como eu, e  demasiado nova e bonita para isso. - Grace viu ento que Winnie estava quase a chorar; inclinou-se 
e beijou-a na face com sincera afeio. Por vezes era quase uma me para ela, e mostrava-se sempre uma boa amiga.
        - Provavelmente ela tem um namorado - disse o jovem advogado para a mais velha das suas duas secretrias. Com efeito, ultimamente comeara a convencer-se 
de que Grace andava metida com um homem casado. As suas constantes recusas aos rapazes mais novos da firma, tinham feito com que se pensasse isso. Muitos outros 
concordavam com ele.
        Winnie olhou para Grace e esta sorriu e ficou calada, o que imediatamente convenceu Winnie de que ele tinha razo, e que talvez houvesse um homem casado 
na vida de Grace.
        As duas mulheres despediram-se  sada e cada uma foi para seu lado. Grace dirigiu-se para Delancey Street e passou a noite a tratar dos necessitados.
        Na manh seguinte, Grace parecia cansada quando chegou ao trabalho, o que convenceu Winnie de que o seu "patro" tinha razo e olhou-a com um ar malicioso. 
Grace, por seu lado, pensou que estava a ficar com gripe, por ter caminhado ao longo de Delancey Street debaixo de uma chuva torrencial. Por isso no estava nada 
preparada nem bem-disposta para o favor que o director do pessoal lhe pediu  hora do almoo. Recebeu um telefonema s onze horas pedindo-lhe para ir ao gabinete 
dele. Ficou preocupada e Winnie ainda mais. No podia imaginar que queixas ele teria dela, a no ser que um dos advogados com quem ela recusara sair tivesse resolvido 
arranjar-lhe sarilhos. J lhe sucedera isso e no ficaria surpreendida se fosse esse o caso.
        - No lhe diga nada que no seja preciso - avisou Winnie, antes de ela se dirigir para o gabinete do director do pessoal. Mas ele no a chamara para se queixar, 
mas sim para a elogiar.
        Disse-lhe que estava a fazer um excelente trabalho e que todos a apreciavam, assim como os dois advogados para os quais trabalhava.
        - Com efeito - disse hesitantemente -, tenho um pequeno favor a pedir-lhe, Grace. Sei que  aborrecido ter de deixar um trabalho a que j se habituou e sei 
que Tom e BilI tambm no ficaro satisfeitos. Mas Miss Waterman teve um acidente a noite passada, no metro. Escorregou nas escadas e fracturou uma anca. Vai estar 
inactiva dois, talvez trs meses. Encontra-se em Lenox Hili e a irm dela telefonou-nos. Conhece-a, no conhece? - Grace bem procurava na memria, mas no conseguia 
saber de quem se tratava. Era obviamente uma das secretrias da firma. Pensou se seria um passo para cima, ou para baixo, e tentou imaginar para quem ela trabalharia. 
S esperava que no fosse para um dos homens que a tinham convidado para sair. Isso seria muito embaraoso.
        - No creio que a conhea - disse Grace, olhando-o inexpressivamente.
        - Ela trabalhava para o senhor Mackenzie - disse o director do pessoal, como se no fosse preciso dizer mais nada.
        - Qual senhor Mackenzie? - perguntou Grace confusa.
        - O senhor Charles Mackenzie - respondeu ele, como se a achasse estpida. Charles Mackenzie era um dos trs advogados principais da firma.
        - Est a brincar? - quase gritou. - Porqu eu? Nem sequer apanho ditado em estenografia. - A voz dela tornou-se subitamente aguda. Sentia-se bem onde estava 
e no queria estar sujeita quele gnero de presso.
        - Voc  rpida a tomar notas e os seus actuais "patres" dizem que o seu trabalho  excelente. E o senhor Mackenzie  bem claro a respeito daquilo que quer. 
- Parecia sentir-se desconfortvel ao dizer aquelas palavras, porque no podia dizer a ningum que Charles Mackenzie no gostava de secretrias velhas e resmungonas 
que se queixavam de sair mais tarde. Queria algum rpido e eficiente que no o atrapalhasse. De um modo geral, o Sr. Mackenzie preferia que as suas secretrias 
tivessem menos de trinta anos. At mesmo Grace ouvira dizer isso. - Ele quer uma pessoa eficiente e rpida que trabalhe com ele enquanto Miss Waterman estiver incapacitada. 
Logo que ela regresse, poder voltar para o seu actual lugar, claro. So apenas uns dois meses. - "Provavelmente ele queria mais alguma coisa", pensou Grace, e ela 
no estava disposta a alinhar nesse jogo. Gostava de trabalhar com Winnie e os seus "patres" mal davam por ela, o que lhe agradava inteiramente.
        - Tenho alternativa? - perguntou com ar infeliz.
        - Infelizmente, no - respondeu o director do pessoal com sinceridade. - Apresentmos-lhe trs propostas esta manh e ele escolheu-a a si. Ser muito difcil 
explicar-lhe que no quer ir trabalhar com ele. - Olhou-a com ar desanimado. No esperara que ela no quisesse. Seria mau para ele se tivesse de lhe dizer que ela 
no queria, pois Charles Mackenzie no estava habituado a que lhe dissessem que no podia ter o que desejava.
        - Bonito! - exclamou Grace, inclinando-se para trs na cadeira, desconsolada.
        - Poder ter um aumento, claro, de acordo com o lugar que vai agora ocupar. - Mas no era isso que Grace queria. O que ela desejava era no ir trabalhar 
para algum velho que perseguisse a sua secretria de vinte e dois anos em volta da mesa. No queria nada disso. E se ele fizesse tal coisa despedir-se-ia imediatamente. 
Teria de comear a procurar outro emprego. Experimentaria durante uns dias e, se o velho fosse desse gnero, sairia imediatamente. Mas no disse isso ao director 
do pessoal. Tomou a sua deciso em silncio.
        - Bom - disse friamente. - Quando comeo?
        - Depois de almoo. O senhor Mackenzie teve uma manh terrvel, sem ningum para o ajudar.
        - Que idade tem Miss Waterman? - perguntou Grace. Tinha compreendido a mensagem.
        - Vinte e cinco anos, creio. Talvez vinte e seis. Trabalha para ele h trs anos. - "Talvez tivessem um caso", pensou Grace, "e se tivessem zangado e ela 
fosse procurar novo emprego." Tudo era possvel. Iria ver por si prpria dentro de uma hora.         O director do pessoal disse-lhe para se apresentar no escritrio 
do Sr. Mackenzie s treze horas. Quando foi buscar as suas coisas, Grace contou a Winnie.
        - Isso  maravilhoso! - exclamou generosamente Winnie. - Vou sentir a sua falta, mas  uma grande oportunidade! - Grace no via as coisas dessa maneira e 
quase chorou quando uma das dactilgrafas veio ocupar o seu lugar junto de Winnie. Despediu-se dos dois advogados e reuniu as suas coisas num saco para as levar 
para o escritrio do Sr. Mackenzie, que ficava no vigsimo nono andar. Winnie prometera telefonar-lhe nessa tarde para saber como corriam as coisas.
        - Deve ser horroroso - disse Grace em voz baixa, mas Winnie apressou-se a tranquiliz-la.
        - No, no . Toda a gente que trabalha com ele o aprecia.
        - Vamos ver - respondeu friamente Grace. Deu um beijo a Winnie e dirigiu-se para o elevador. Estava maldisposta com tudo aquilo. No tivera tempo para almoar 
e tinha uma dor de cabea terrvel. Alm disso, sentia a impresso de que estava de facto a ficar com gripe, devido  sua longa caminhada  chuva. E mesmo depois 
de ser conduzida ao seu novo escritrio, com uma vista espectacular sobre Park Avenue, no se sentiu mais animada. Ficava realmente bem instalada. Trs secretrias 
que trabalhavam ali perto foram ter com ela para lhe darem as boas-vindas. Aquilo era como um pequeno clube e, se estivesse mais bem-disposta, Grace teria de confessar 
que todos se mostravam muito simpticos.
        Grace comeou ento a examinar os papis que o director do pessoal deixara para ela, e uma lista de instrues do seu novo patro, sobre coisas que precisava 
que fossem feitas nessa tarde. Eram sobretudo telefonemas de pesquisas e tambm alguns particulares, uma marcao para o alfaiate, outra para ir cortar o cabelo 
e uma reserva  para o "21" para duas pessoas, na noite seguinte. "Que sexy...", disse Grace para consigo, comeando a fazer os telefonemas.
        Quando Mackenzie voltou, s duas e meia, j Grace fizera todos os telefonemas, acabara metade das pesquisas e tomara nota de todas as chamadas feitas para 
ele, de modo que ele no precisava de voltar a telefonar, mas apenas de resolver os assuntos. Charles Mackenzie ficou surpreendido ao ver o que ela fizera, mas no 
tanto como ela ficou quando o viu. O "velho" que ela esperava encontrar era um homem de quarenta e dois anos, alto, de ombros largos, grandes olhos verdes e um cabelo 
muito escuro salpicado com uns fios prateados. Tinha um queixo voluntarioso que o fazia parecer um actor de cinema e o aspecto totalmente despretensioso. Era como 
se nem sequer fizesse a menor ideia de ser bem-parecido. Entrara no escritrio silenciosamente, e cumprimentara Grace sem qualquer formalidade e com modos amigveis.
        - Vejo que  to eficiente como me disseram, Grace. - disse, sorrindo-lhe afectuosamente. E ela decidiu logo resistir-lhe. No ia deixar-se apaixonar por 
ele, embora tal pudesse ter sucedido a Miss Waterman. Tanto quanto Grace sabia, isso no fazia parte do servio. Mostrou-se portanto extremamente reservada com ele 
e nada amigvel.
        Durante as duas semanas seguintes, Grace tratou-lhe de todos os telefonemas pessoais e de negcios, assistiu a reunies como secretria dele, tomou notas 
e provou ser uma secretria quase perfeita.
        - Ela  boa, no ? - perguntou Tom Short com ar possessivo quando encontrou Mackenzie sozinho antes de uma reunio.
        - Sim... - disse Mackenzie hesitantemente e sem grande entusiasmo, e Tom reparou nisso.
        - No gosta dela? - Tom apercebera-se de imediato da hesitao.
        - Com franqueza? No.  terrivelmente desagradvel e anda de um lado para o outro todo o dia como se tivesse engolido um pau de vassoura.  o ser humano 
mais frio que eu j conheci. s vezes apetece-me atirar-lhe um balde de gua para cima.
        - Grace? - Short ficou assombrado. - Ela  a pessoa mais simptica e mais agradvel que se possa imaginar.
        - Ento talvez seja por no gostar de mim. Estou desejoso de que a Waterman volte. - Mas quatro semanas mais tarde, Elizabeth Waterman deu novamente notcias 
que perturbaram profundamente tanto Mackenzie como Grace. Dizia ela que tinha pensado muito no assunto e que ficara muito perturbada com o acidente. Dado o modo 
como as pessoas a tinham tratado quando ficara cada nas escadas do metro com a anca partida, decidira deixar Nova iorque para sempre, quando recuperasse, e regressar 
 Florida, de onde viera.
        - Desconfio que no sejam boas notcias para nenhum de ns - disse Charles Mackenzie a Grace depois de ter sabido. Durante seis semanas, Grace fizera um 
trabalho impecvel, mas podia dizer-se que nunca lhe dissera uma palavra delicada. Ele mostrara-se sempre amigvel e acomodatcio com ela, mas de cada vez que Grace 
o via e constatava como ele era bem-parecido e como se mostrava to  vontade com ela e com toda a gente, detestava-o ainda mais. Convencera-se de que conhecia aquele 
tipo e que ele estava apenas  espera de uma oportunidade para a atacar sexualmente, como Bob Swanson fizera, e no estava disposta a permitir isso. Nunca mais. 
E certamente no da parte dele. Semana aps semana, ela via as mulheres chegarem a St. Andrew's e isso fazia-lhe lembrar como os homens eram perversos e perigosos 
e como podiam fazer mal quando se confiava neles.
        - No se sente feliz aqui, pois no, Grace? - perguntara por fim Charles Mackenzie num tom afectuoso. Grace reparou mais uma vez como os olhos dele eram 
verdes e pensou quantas mulheres teriam existido na vida dele, incluindo Elizabeth Waterman e muitas mais.
        - Provavelmente no sou a secretria adequada para si - respondeu tranquilamente Grace. - No tenho a experincia necessria. Nunca tinha trabalhado numa 
firma como esta, nem para uma pessoa to importante.
        Charles Mackenzie sorriu quando Grace disse isso, mas ela continuou tensa.
        - O que  que fez antes de vir para aqui? - Tinha-se esquecido.
        - Trabalhei dois anos numa agncia de modelos.
        - Como modelo? - perguntou ele, nada surpreendido, mas Grace abanou a cabea imediatamente.
        - No, como secretria.
        - Devia ser bem mais interessante que o trabalho aqui. O meu trabalho no  exactamente excitante. - Charles Mackenzie sorriu, parecendo surpreendentemente 
mais novo. Grace sabia que ele fora casado com uma actriz bem conhecida e que no haviam tido filhos. Divorciara-se h dois anos e, segundo toda a gente dizia, saa 
com muitas mulheres. Grace costumava fazer reservas em restaurantes em nome dele. Mas nem sempre saa com mulheres. Muitas vezes jantava com scios, ou com clientes.
        - A maior parte dos empregos no  interessante - disse Grace sensatamente, surpreendida por ele estar disposto a passar tanto tempo com ela. - O meu, na 
agncia, tambm nada tinha de especial. Gosto mais de estar aqui. As pessoas so mais simpticas.
        - Ento  s por minha causa - disse ele quase tristemente, como se ela tivesse ferido os seus sentimentos.
        - Que quer dizer? - Grace no compreendeu.
        - Bem,  bvio que no gosta do seu trabalho, e, se lhe agrada estar aqui, ento  porque no gosta de trabalhar comigo. Tenho a sensao de que voc se 
sente infeliz de cada vez que eu aqui entro.
        Grace corou, embaraada, ao ouvir as palavras dele.
        -  Tenho imensa pena... no quis dar-lhe essa impresso...
        - Ento o que ? - Queria esclarecer as coisas com ela. Grace era a melhor secretria que alguma vez tivera. - Posso fazer alguma coisa para melhorar o nosso 
relacionamento? Visto que Elizabeth no volta, ou temos de fazer com que merea a pena trabalharmos juntos ou temos de desistir, no ? - Grace disse que sim com 
a cabea, embaraada por ele ter notado que no gostava dele. No se tratava de algo que ele tivesse feito. Era apenas aquilo que ela pensava que ele representava. 
A verdade  que ele era muito menos mulherengo do que ela julgara. Apenas a publicidade feita  volta do seu divrcio com a actriz lhe dera essa reputao.
        - Lamento profundamente, senhor Mackenzie - disse Grace. - Daqui em diante procurarei tornar as coisas mais fceis para si.
        - Tambm eu - respondeu ele afectuosamente, e fazendo com que Grace se sentisse de certo modo culpada para com ele. E ficou ainda pior, quando nessa tarde 
Miss Waterman apareceu de muletas para se despedir dele. Disse que lhe custava muito ir-se embora, que era como se sasse de casa outra vez e que ele era o homem 
mais bondoso que conhecera. Chorou quando se despediu dele e de toda a gente. Grace no teve a sensao de que aquilo era o fim de um caso amoroso, mas que a antiga 
secretria tinha realmente pena de deixar um patro de quem muito gostava.
        - Como vo as coisas por a? - perguntou uma tarde Winnie.
        - Vo bem - Grace no quis confessar como fora desagradvel, mas a verdade  que no tinha feito amizades no vigsimo nono andar e vrias pessoas haviam 
dito aos seus antigos patres que ela era antiptica. Grace sabia que tinha essa fama e que a merecia. E ficou ainda mais embaraada quando Winnie lhe disse que 
vrias pessoas achavam que ela era muito dura para o Sr. Mackenzie.
        Depois de ele ter falado com ela, Grace esforou-se por ser um pouco mais agradvel e pouco a pouco comeou a gostar do seu trabalho. J se resignara a pensar 
que provavelmente no voltaria a trabalhar com Winnie e os seus patres". Deixou de pensar nisso e acabou por reconhecer que o seu trabalho era agora mais interessante, 
quando subitamente, em Maio, Charles Mackenzie lhe disse que tinha de ir a Los Angeles e precisava que ela tambm fosse. Quase teve uma apoplexia por causa disso 
e ainda tremia ao dizer a Winnie que ia recusar-se a acompanh-lo.
        - Mas porqu, Grace? No v que  uma oportunidade? - "Oportunidade de qu?", pensou Grace. "De dormir com o patro?" No, no ia fazer isso. Sabia que se 
tratava de uma armadilha que ele lhe preparara. Mas quando no dia seguinte se preparava para lhe dizer que no podia ir, ele agradeceu-lhe de uma maneira to simptica 
ela estar disposta a acompanh-lo que Grace no teve coragem para lhe dizer nada. Pensou at em se despedir por causa disso, mas surpreendeu-se a si prpria ao falar 
do assunto ao padre Tim em St. Andrew's.
        - Que receia, Grace? - perguntou com afecto. Mas Grace estava completamente aterrorizada e ele compreendeu.
        - Tenho receio... oh, no sei... - Grace sentia-se embaraada e no sabia como dizer o que receava, mas tinha de o fazer, para seu prprio bem. - Receio 
que ele seja como toda a gente que me tem aparecido, que queira aproveitar-se de mim, ou pior. Consegui finalmente afastar-me de tudo isso ao vir para aqui, mas 
agora, com esta estpida viagem, receio que v recomear.
        - Ele alguma vez mostrou querer aproveitar-se de si?
- perguntou calmamente o padre Tim -, ou revelou interesse sexual por si? - Sabia exactamente de que estavam a falar e aquilo que ela receava.
        - Na verdade, no - respondeu Grace, ainda com ar infeliz.
        - Nem um pouco? Seja sincera para consigo mesma. Voc sabe-o.
        - Est bem. Nem um pouco.
        - Ento o que  que a leva a pensar que ele v mudar agora?
        - No sei. As pessoas no levam as suas secretrias a viajar a no ser que... sabe. - O padre sorriu da maneira discreta como ela falava. Ouvira coisas muito 
piores e histrias verdadeiramente chocantes. Nem mesmo a histria da vida dela o teria chocado.
        - H muitas pessoas que levam as suas secretrias quando viajam, sem... bem, voc sabe. Talvez ele precise realmente de ajuda. E se ele proceder mal, voc 
 uma rapariga crescida, mete-se num avio e volta para casa. Fim da histria.
        - Sim, posso fazer isso - murmurou pensativamente Grace.
        - Voc tem o controlo da sua vida.  isso que ns aqui ensinamos s pessoas e voc sabe-o melhor do que ningum. Pode voltar quando quiser.
        - Bem, talvez eu v com ele. - Suspirou e olhou-o com gratido, embora no totalmente convencida.
        - Faa o que achar bem, Grace, mas no tome decises por medo. O medo no  bom conselheiro. Deve fazer o que considera correcto.
        - Obrigada, padre.
        Na manh seguinte, Grace disse a Charles Mackenzie que j tinha a certeza de poder acompanh-lo. Continuava a ter dvidas e receios a respeito da viagem, 
mas dizia a si prpria que se visse alguma coisa que no lhe agradasse, poderia comprar um bilhete de avio e regressar a Nova iorque. Tinha um carto de crdito 
que lhe permitia isso. Era simples.
        Charles Mackenzie foi busc-la de carro a caminho do aeroporto. Grace trazia uma pequena mala e mostrava-se muito nervosa. Ele levava uma pasta consigo, 
fez alguns telefonemas do carro e tomou notas numa agenda que lhe entregou. Depois conversou um pouco com ela e disps-se a ler o jornal. No parecia particularmente 
interessado nela e Grace percebera que um dos telefonemas fora para uma mulher. Sabia que havia uma mulher que lhe ligava frequentemente para o escritrio e ele 
parecia gostar dela. Mas Grace tinha a impresso de que ele no estava loucamente apaixonado por ningum.
        Os bilhetes de avio eram da primeira classe e Grace passou quase todo o tempo a ver cinema, enquanto ele trabalhava. Mackenzie ia ajudar a tratar das questes 
financeiras de um grande projecto cinematogrfico para um dos seus clientes. Esse cliente tinha um advogado na costa ocidental, mas Mackenzie ia ali representar 
a grande finana e Grace achava interessante ver como ele tratava o assunto.
        Quando chegaram a Los Angeles, foi ainda mais interessante. Chegaram ao meio-dia, hora local, e dirigiram-se imediatamente para o escritrio do advogado 
local e Grace ficou fascinada pela reunio, que durou todo o dia. Estiveram ali at s dezoito horas, que para Charles e Grace eram vinte e uma. Depois disso ele 
tinha um jantar. Deixou Grace no hotel e disse-lhe que pedisse para lhe levarem ao quarto tudo o que quisesse. Estavam hospedados no Beverly Hils Hotel e ela teve 
de admitir que ficara excitada ao ver quatro estrelas de cinema que passaram no vestbulo.
        Nessa noite tentou descobrir o nmero de telefone de David Glass, mas o nome dele no vinha na lista nem de Beverly Hilis, nem de Los Angeles. Grace ficou 
desapontada. H anos que no recebia notcias dele e gostaria de o ver. No entanto, tinha a impresso de que a mulher dele quisera cortar qualquer ligao com ela. 
No voltara a ter notcias desde o nascimento do primeiro filho deles. Seria agradvel dizer-lhe que estava bem, com um bom emprego, e se sentia feliz na sua nova 
vida. Esperava que tudo estivesse bem com ele e lamentava no conseguir encontr-lo. s vezes ainda pensava nele e tinha saudades.
        Ligou para o servio de quartos e encomendou o jantar. Pediu tambm um filme que h muito desejava ver sem nunca ter tempo para o fazer. Era uma comdia 
e ela rira com gosto sozinha no quarto. Depois fechara todas as portas e janelas e colocara a corrente na porta. Quase esperava que ele lhe fosse bater  porta, 
quando regressasse ao hotel, para tentar entrar ali, mas a verdade  que dormiu profundamente at s sete da manh seguinte.
        Mackenzie telefonou-lhe e pediu-lhe que se encontrasse com ele na sala de jantar e durante o pequeno-almoo falou-lhe das reunies que iriam ter nesse dia, 
e daquilo que esperava que ela fizesse. Tal como Grace, Mackenzie era uma pessoa extremamente organizada e gostava do seu trabalho. Alm disso, facilitava o trabalho 
de Grace, explicando-lhe exactamente o que esperava que ela fizesse.
        - Ontem fez um excelente trabalho - elogiou ele, muito sbrio com o seu fato cinzento e camisa branca. Parecia mais estar em Nova iorque do que em Los Angeles. 
Grace trazia um vestido de seda cor-de-rosa e um casaquinho de malha a condizer. Era uma roupa um pouco menos formal do que a que ela costumava usar para ir para 
o trabalho, em Nova iorque.
        - Est hoje muito bonita - disse ele de modo casual e ela ficou imperceptivelmente tensa. - Viu algumas estrelas de cinema ontem  noite? - Ento, esquecendo 
a observao dele, Grace contou-lhe quem vira no vestbulo do hotel, na vspera, e falou-lhe do filme que tanto a fizera rir. Por breves instantes ficaram quase 
amigos e ele deu por isso. Grace relaxara um pouco, o que tornava mais fcil falar com ela. A jovem estava quase sempre extremamente tensa. Ele no percebia porqu 
e gostaria de saber, mas no se atrevia a, perguntar-lho.
        - Tambm gosto desse filme - disse Mackenzie, rindo. - Vi-o trs vezes quando foi lanado. Detesto filmes deprimentes.
        - Tambm eu - confessou ela, quando chegou o pequeno-almoo para eles. Ele pedira ovos com presunto e ela cereais.
        - No come o suficiente - disse ele com ar paternal, observando-a.
        - Devia vigiar o seu colesterol - gracejou Grace, embora ele fosse magro. Mas ovos com presunto eram um prato demasiado substancial.
        - Oh, Deus me livre! A minha mulher era vegetariana e budista. Em Hollywood todos o so. Mereceu a pena divorciar-me s para poder comer um cheeseburger 
descansado. - Sorriu para Grace e ela teve de rir, mesmo sem querer.
        - Foi casado durante muito tempo?
        - Bastante. Sete anos. - Estava divorciado h dois e desde ento parecia que ningum prendera seriamente o seu corao. A nica coisa que ele lamentava era 
nunca ter tido filhos. - Quando casei com ela tinha trinta e trs anos e nessa altura estava certo de que estar casado com Michelle Andrews era a resposta a todas 
as minhas preces. Mas descobri que estar casado com a estrela mais escaldante da Amrica no era to fcil como eu julgava. Essas pessoas pagam caro pela celebridade. 
Mais caro do que todos os outros. A imprensa no larga as celebridades e nunca  simptica para com elas. O pblico quer possuir a alma dessas pessoas... No h 
maneira de sobreviver a isso a no ser procurando refgio na religio ou nas drogas e nem uma coisa nem outra representa a soluo ideal, na minha opinio. Sempre 
que uma celebridade d um passo, aparece logo nos jornais e nas revistas para causar escndalo.  difcil viver com isso e eventualmente causa desgaste. Ns agora 
somos bons amigos, mas h trs anos no ramos. - Grace sabia pela revista People que ela voltara a casar duas vezes desde ento, uma delas com um jovem cantor de 
rock, seu agente. - Alm disso, eu era demasiado chato para ela, demasiado rgido, maador. - Grace desconfiava de que Mackenzie oferecera  sua ex-mulher a nica 
estabilidade que ela j tivera, ou teria. - E voc?  casada? Est noiva? Sete vezes divorciada? Que idade tem, afinal? Eu esqueo-o. Vinte e trs.
        - Quase. Em Julho. E no, no sou casada, nem estou noiva, nem divorciada. Sou demasiado esperta para qualquer dessas coisas, obrigada.
        - Est bem, av. Pregue-me um sermo. - Ele riu e Grace tentou no pensar em como ele era atraente quando ria. - Com vinte e dois anos, acho que  demasiado 
nova at mesmo para sair. Espero que o no faa. - Estava a gracejar, mas de certo modo sentia que o que dizia era verdade.
        - E no saio.
        - No sai? No est a falar a srio?
        - Talvez esteja.
        - Tenciona vir a ser freira quando crescer, depois da sua carreira na nossa firma? - Agora que ela se mostrava um pouco mais descontrada, achava-a divertida. 
Era uma rapariga intrigante. Esperta, inteligente e at engraada, quando resolvia mostr-lo, o que era raro.
        - Tenho uma amiga que est a tentar convencer-me a s-lo.
        - Quem  ela? Preciso de ter uma conversa com essa amiga. As freiras esto completamente fora de moda hoje em dia. Sabia isso?
        - Creio que no. Ela  freira. A irm Eugene.
        - Oh!  uma religiosa fantica. Eu sabia. Ser uma perseguio? A minha mulher queria que fssemos ao Tibete buscar o Dalai Lama para viver connosco... So 
todos loucos! - Fingiu afast-la, enquanto o criado lhes servia o caf, e Grace riu.
        - No sou uma fantica religiosa, juro. No entanto, a vida religiosa atrai-me.  to simples.
        - E to irreal. Podemos ajudar o mundo sem desistir dele - disse solenemente. Era uma coisa sobre a qual ele tinha ideias bem claras. Gostava de ajudar as 
pessoas sem tomar posies extremas. - De onde conhece essa freira? - Sentia-se curioso e ainda tinham dez minutos antes de sarem do hotel.
        - Trabalhamos em conjunto num stio onde vou ajudar como voluntria.
        - Onde fica isso? - Enquanto falava com ele, Grace reparava que ele se encontrava perfeitamente bem barbeado e tudo nele era impecvel. Tentou no notar 
isso. Estava ali para trabalhar.
        -  um stio que se chama Saint Andrew's Shelter e fica em Lower East Side.  um lar para mulheres e crianas maltratadas.
        - Trabalha a? - Charles Mackenzie pareceu ficar surpreendido. Havia nela mais coisas do que ele julgava, apesar de ser muito nova e s vezes muito aborrecida. 
Comeava a gostar mais dela.
        - Sim. Vou para l trs vezes por semana.  um stio espantoso. Recebem centenas de pessoas.
        - Nunca pensei que voc fizesse um trabalho desses - disse Charles com sinceridade.
        - Porqu?
        - Porque isso implica um grande empenhamento, muito trabalho. A maior parte das raparigas da sua idade preferem ir a discotecas.
        - Nunca entrei em nenhuma em toda a minha vida.
        - Eu levo-a. Mas sou demasiado velho para si e a sua me provavelmente no gostaria que voc sasse comigo. Disse-o com tal naturalidade que Grace nem reagiu. 
Mas tambm no lhe disse que no tinha me.
        A limusina foi busc-los poucos minutos depois das dez.        E no dia seguinte concluram o acordo a tempo de apanhar o voo das nove para Nova iorque, 
onde chegaram s seis da manh. Prestes a aterrar, ele disse-lhe que ficasse com o dia livre. Tinham sido dois longos dias de trabalho e no haviam dormido no avio. 
Ele trabalhara e ela ajudara-o.
        - Tambm no vai trabalhar? - perguntou ela.
        - No posso. Tenho uma reunio s dez com a Arco e h muita coisa a fazer. Alm disso est marcado um almoo com os scios e quero apresentar algumas queixas.
        - Ento tambm vou trabalhar.
        - No seja tola. Posso pedir que me enviem a senhora Macpherson ou qualquer outra pessoa para me ajudar.
        - Se vai trabalhar, eu tambm vou. No preciso do dia livre. Posso dormir logo  noite - acrescentou decididamente.
        - As alegrias da juventude. Tem a certeza que  assim que quer? - Olhou-a pensativamente. Ela estava a mostrar-se tal como os outros tinham dito que era: 
leal, trabalhadora e simptica. Levara muito tempo a revelar-se.
        Charles Mackenzie deixou Grace no apartamento antes de seguir para casa e disse-lhe que fosse para o escritrio  hora que quisesse e, se mudasse de ideias, 
ele compreenderia. Mas Grace chegou l antes dele. Todas as notas que ele escrevera no avio se encontravam dactilografadas, o memorando para a reunio das dez sobre 
a secretria dele e uma srie de dossiers que Grace sabia que ele iria precisar, preparados. E o caf esperava-o, exactamente como ele gostava.
        - Oh! - exclamou ele, encantado. - Que fiz eu para merecer tudo isto?
        -  para compensar o que fui nos ltimos trs meses. Fui horrvel e peo desculpa. - Ele mostrara-se um perfeito cavalheiro na Califrnia e Grace estava 
preparada para ser agora amiga dele.
        - No, no foi. Tambm creio que a quis pr  prova. Ambos o fizemos. - Charles Mackenzie compreendia perfeitamente e estava-lhe grato pela eficincia do 
trabalho dela e a ateno minuciosa que ela dava aos mais infimos pormenores.
        As trs e meia da tarde, Mackenzie obrigou-a a ir para casa, e disse que a despediria se ela no o fizesse. Mas algo mudara entre eles e ambos o sabiam. 
Agora eram aliados e no inimigos, e ela estava ali para o ajudar.

CAPTULO 11

        O ms de Junho foi fantstico nesse ano, em Nova iorque. Os dias estavam quentes, com uma brisa agradvel, e as noites amenas. O gnero de noites em que 
as pessoas gostam de se sentar ao ar livre, de passear, ou de estar  janela. O gnero de noites que fazem com que as pessoas se apaixonem ou desejem ter algum 
por quem se apaixonar.
        Nesse ms houve duas novas mulheres na vida de Charles Mackenzie e Grace soube disso, embora no tivesse a certeza de gostar de qualquer delas.
        Uma delas era algum que ele dizia conhecer desde a infncia, divorciada, e tinha dois filhos na universidade. A outra era produtora de um espectculo de 
xito na Broadway. Ele parecia ter uma decidida atraco pelo teatro. Dera mesmo dois bilhetes a Grace e esta fora com Winnie ver a pea e tinham gostado muito.
        - Como  ele realmente? - perguntou Winnie mais tarde, quando foram ao Sardi comer bolo de queijo.
        - Simptico... muito simptico... - confessou Grace. - Levei muito tempo para reconhecer isso. Estava sempre a pensar que ele me ia rasgar a roupa e detestava-o 
antes de ele fazer coisa alguma.
        - E ele alguma vez o fez? - perguntou ela esperanadamente. Estava ansiosa para que Grace se apaixonasse por algum.
        - Claro que no.  um perfeito cavalheiro. - Em seguida contou-lhe o que se passara na Califrnia.
        - Que pena! - exclamou Winnie, desconsolada. Grace dava emoo  sua vida montona, era o seu nico contacto com a juventude, e tornara-se para ela como 
a filha que nunca tivera. Desejava grandes coisas para ela. E especialmente um marido simptico.
        - As mulheres andam sempre atrs dele. Mas no creio que ele esteja verdadeiramente entusiasmado com nenhuma. Creio que a ex-mulher o privou de uma parte 
de si mesmo. No apenas financeira mas tambm emocionalmente. Ele  bastante decente para com ela.
        - Uma das dactilgrafas disse-me que o divrcio lhe custou quase um milho - disse Winnie num murmrio.
        - Eu referia-me ao aspecto emocional - disse Grace secamente. - De qualquer modo  uma pessoa agradvel. E trabalha como um co. Fica a trabalhar at muito 
tarde. - Quando Grace ficava a trabalhar at tarde com ele, Mackenzie chamava sempre um txi ou um carro para ela ir para casa e tinha o cuidado de nunca lhe pedir 
para ficar nas noites. -  tem considerao pelos outros. - E desde que lhe contara que ia a St. Andrew's  noite, ele mostrava-se preocupado com ela. Dizia que o 
local era demasiado perigoso para ela ir at l de metropolitano,  noite. Nem mesmo aos domingos ele achava isso bem.
        - Pelo menos meta-se num txi - costumava ele dizer. Mas isso custaria uma fortuna a Grace. E ela h meses que l ia sem nunca ter havido problemas.
        Depois de sarem do restaurante, chamaram um txi e Grace deixou Winnie em casa e seguiu para o seu apartamento, pensando como o seu emprego agora lhe agradava.
        Em Junho, Charles deslocou-se de novo  Califrnia, mas dessa vez no a levou. Ficou l apenas um dia e disse que no valia a pena. Na semana em que regressou, 
Grace trabalhou com ele no escritrio durante a tarde de sbado. Trabalharam at s seis da tarde e ele pediu desculpa por no a convidar para jantar a seguir. Tinha 
um encontro, mas sentia-se mal por ela estar a trabalhar at to tarde e impotente para a compensar.
        - Para a semana deve convidar algum para ir jantar consigo ao "Vinte e Um" e manda pr na minha conta - sugeriu, parecendo satisfeito com a ideia. - Ou 
esta noite, se quiser. - Grace pensou imediatamente em convidar Winnie, pois sabia que ela ficaria encantada com isso.
        - No precisa de fazer isso - ops-se timidamente Grace.
        - Mas quero faz-lo. Tem de receber alguma compensao por este trabalho.  suposto haver certas compensaes por se trabalhar horas extraordinrias para 
os patres. No sei bem quais devam ser, mas suponho que um jantar no Vinte e Um poder ser uma delas, por isso faa a sua reserva.
        Charles nunca tentava lev-la a sair e ela gostava disso. Agora sentia-se completamente descontrada com ele. Antes de sarem, agradeceu-lhe de novo. Grace 
achava que ele devia ter um encontro com outra mulher nova e tinha a impresso de que se tratava de uma advogada de uma firma rival. Ultimamente recebera uma quantidade 
de mensagens de Spielberg & Stein.
        Nessa noite ficou em casa a ver televiso, mas telefonou a Winnie e falou-lhe do jantar no 21. Winnie ficou to excitada que disse que no iria dormir at 
esse dia.
        E no dia seguinte, Grace dirigiu-se mais uma vez para St. Andrew's. O tempo continuava bom e havia agora muita gente nas ruas, o que de certo modo era mais 
seguro para Grace.
        Foi um longo dia de trabalho com as mulheres e crianas que ali apareciam constantemente. O bom tempo parecia causar ainda maiores distrbios. Havia sempre 
alguma desculpa para novos espancamentos.
        Grace jantou na cozinha com a irm Eugene e o padre Tim e falou-lhes das estrelas de cinema que vira no vestbulo do hotel, na Califrnia.
        - Correu tudo bem? - perguntou o padre. Ainda no tinham tido tempo de falar do assunto desde que ela regressara, h um ms, mas ele calculara que a resposta 
seria afirmativa, caso contrrio ela ter-lhe-ia dito.
        - Foi ptimo - disse Grace, sorrindo.
        Eram onze horas quando ela saiu, mais tarde do que era habitual aos domingos. Grace pensou em chamar um txi, mas a noite estava to boa que acabou por decidir 
ir de metro. Ainda no percorrera um quarteiro, quando foi agarrada por um brao e puxada para o vo de uma porta. Viu imediatamente que se tratava de um homem 
negro, magro e alto, e desconfiou que fosse um ladro ou um drogado. Ficou assustada, mas procurou no o mostrar quando ele a atirou com fora contra uma porta.
        - Pensas que s muito esperta, no pensas, minha cabra? Julgas que sabes tudo... - Ps-lhe as mos em volta do pescoo, mas os olhos de Grace nunca o desfitaram. 
Ele no parecia querer o dinheiro dela. S queria fazer-lhe mal.
        - No sei coisa alguma - disse calmamente Grace, sem querer assust-lo para que ele no a estrangulasse com um ataque de raiva. - Deixe-me, homem. Com certeza 
no quer fazer isto.
        - Sim, quero. - Ento, com um gesto sbito, puxou de uma comprida navalha e apoiou a extremidade no pescoo de Grace, como quem tinha prtica de o fazer. 
Sem se mexer, Grace lembrou-se imediatamente do tempo em que estivera na priso. Mas ali no havia ningum que a salvasse... nem Sally... nem Luana...
        - No faa isso... leve a minha carteira. Tenho l cinquenta dlares.  tudo quanto tenho... e o meu relgio. Estendeu o brao. Fora o ltimo presente de 
Cheryl, em Chicago. Um pequeno preo para pagar a sua vida.
        - No quero o teu maldito relgio, cabra... quero Isella.
        - Isella? - Grace no fazia ideia do que ele estaria a falar. O homem cheirava a usque barato e a suor e continuava encostado ao peito dela, com a ponta 
da navalha comprimida contra o seu pescoo.
        - A minha mulher... quero a minha mulher... tiraste-me a minha mulher e agora ela no volta... ela diz que vai voltar para Cleveland...
        Era ento por causa de St. Andrew's e alguma das mulheres a quem ela ajudara ali.
        - Eu no a levei... no fiz coisa alguma... talvez seja melhor falar com ela... talvez se se tratar, ela volte...
        - Tirou-me os meus filhos... - o homem comeou a chorar e todo o seu corpo era agitado pelos soluos, enquanto Grace procurava desesperadamente lembrar-se 
de uma mulher chamada Isella. Mas no conseguia lembrar-se. Via tantas mulheres ali. Se calhar nunca a vira. Habitualmente lembrava-se. Mas do nome de Isella no.
        - Ningum lhe pode tirar os seus filhos... nem a sua mulher... tem de falar com eles... precisa de ajuda... como se chama? - Se ela o tratasse pelo nome, 
talvez ele no a matasse.
        - Que lhe importa?
        - Importo-me, sim. - Depois lembrou-se do que poderia ser a sua nica salvao.         - Sou freira... dei a minha vida a Deus por causa de pessoas como 
voc, Sam... estive na priso... estive em muitos stios... no ser bom para ningum fazer-me mal.
        -  freira? - quase gritou ele. - Merda! Ningum me disse isso... merda... - Deu um pontap com toda a fora na porta, por detrs dela, mas ningum apareceu. 
Em Delancey ningum queria saber. Ningum se importava com o que se passava. - Porque est a meter-se na minha vida? Porque lhe disse para ir para casa?
        - Para voc no lhe poder fazer mal. No quer fazer-lhe mal, Sam... No quer fazer mal a ningum...
        - Merda!... - O homem chorava cada vez mais.
        - Maldita freira - gritou -, julga que pode fazer tudo o que quer, por Deus? Ele que se lixe... e lixe-se voc tambm... lixem-se todas... suas cabras... 
Agarrou-a ento pela garganta e bateu-lhe com a cabea na porta. Grace teve a sensao de ter a cabea cheia de areia e de repente viu tudo cinzento e enevoado. 
Depois, quando ia a cair, sentiu que ele lhe dava um pontap no estmago, batendo-lhe repetidamente na cara, sem que ela o pudesse deter. No podia gritar. No conseguia 
dizer o nome dele. Era uma saraivada de socos que se abatia sobre ela, no rosto, na cabea, no estmago, nas costas. Depois parou. Grace ouviu-o correr e gritar-lhe 
novamente. Depois ele desapareceu e Grace ficou estendida no cho,  entrada da porta, sentindo na boca o gosto do seu prprio sangue.
        A polcia encontrou-a nessa noite, numa das ltimas rondas, ainda cada no mesmo stio. Tocaram-lhe com os seus bastes, como faziam com os bbedos, e ento 
um deles viu sangue  luz do candeeiro da rua.
        - Merda! - disse, gritando logo a seguir para o seu companheiro: - Chama uma ambulncia. Depressa! 
        O polcia ajoelhou-se ento junto de Grace e apalpou-lhe o pulso. Mal se sentia. Quando a voltou, viu como ela havia sido brutalmente espancada. Tinha a 
cara coberta de sangue e o cabelo empapado. No sabia se ela teria ossos partidos ou ferimentos internos, mas mesmo naquele estado de inconscincia, via-se que tinha 
dificuldade em respirar. O colega dele apareceu da a um minuto.
                - Que se passa?
                -  um caso grave... ela no pertence a esta zona. Repara na maneira como est vestida... Sabe Deus de onde ter vindo. - Enquanto esperavam que 
a ambulncia de Beilevue chegasse, um dos polcias abriu-lhe a carteira e procurou uma identificao. - Vive na Rua Oitenta e Quatro, muito longe daqui. Devia saber 
que no podia andar a passear por esta zona.
                - H aqui perto um centro de apoio aos habitantes da rea - disse o polcia que fora chamar a ambulncia. - Pode ser que ela trabalhe l. Posso l 
ir depois da ambulncia a levar. - Um deles tinha de ir na ambulncia para depois fazer o seu relatrio, se ela no morresse entretanto. O pulso         dela estava 
cada vez mais fraco e a respirao mais difcil.
          A ambulncia chegou menos de cinco minutos depois,         com as sirenas a uivar, e os enfermeiros colocaram rapidamente Grace na maca e logo lhe aplicaram 
oxignio quando a meteram na ambulncia.
        - Tem ideia da gravidade do caso? - perguntou um dos polcias ao paramdico-chefe. Grace estava completamente inconsciente e sempre estivera desde que eles 
a tinham encontrado. Apenas abria a boca ofegantemente e eles  tinham-lhe posto a mscara de oxignio.
        -  O aspecto no  nada bom - respondeu com sinceridade o paramdico. - Tem um ferimento na cabea. Isso pode significar muita coisa. Pode entrar em coma 
permanente. - Mas ali nada mais podiam saber. O aspecto dela, debaixo da luz forte do interior da ambulncia, era terrvel.
        A cara fora maltratada de tal maneira que ela estava quase irreconhecvel, os olhos fechados e inchados, tinha uma navalhada no pescoo e quando lhe abriram 
a blusa e desabotoaram as calas viram o estado em que o corpo dela ficara. O atacante por pouco no a matara.
        - Isto est mau - disse o paramdico ao polcia em voz baixa. - No resta muito dela. No fao ideia se o atacante a conhecia. Como se chama ela?
        O polcia abriu novamente a carteira e leu em voz alta, enquanto ele se debruava sobre Grace. Tinham de fazer algo para a manter viva enquanto a ambulncia 
seguia velozmente em direco a Beilevue.
        - Vamos, Grace... abra os olhos... j passou... ningum lhe vai fazer mal... vamos lev-la para o hospital, Grace... Grace... merda... - Meteram-lhe soro 
na veia e o aparelho para medir a tenso arterial apertava-lhe o brao. A tenso baixava pouco a pouco... e depois desapareceu. - Estamos a perd-la... - disse um 
dos paramdicos, agindo rapidamente. Um deles pegou no desfibrilador, arrancou-lhe literalmente o soutien e colocou-lho sobre o peito.
        - Afaste-se - disse o enfermeiro para o polcia. - Est a voltar... - O corpo de Grace foi sacudido pelo choque e o corao recomeou a trabalhar, no momento 
em que pararam  porta das urgncias e a porta da ambulncia se abria.
        - Ela teve uma paragem cardaca h um segundo - disse um dos paramdicos aos maqueiros que acorreram para levar Grace para dentro, cobrindo o peito nu de 
Grace com o seu casaco. - Creio que houve hemorragia interna... e h tambm um ferimento na cabea... - Disse-lhes tudo quanto sabia e viu cinco pessoas correrem 
ao lado da maca e entraram na sala das urgncias. Apareceu logo a seguir um mdico e trs enfermeiras que comearam a distribuir ordens, enquanto o polcia se dirigia 
 recepo para preencher a ficha de Grace.
        - Cus!, ela est num estado horroroso - disse um dos paramdicos, dirigindo-se ao polcia. - Sabe o que lhe sucedeu?
        - O habitual em Nova iorque - respondeu o polcia com ar desanimado. Podia ver pela carta de conduo que ela tinha vinte e dois anos. Era nova de mais para 
ficar sem a vida s mos de um assaltante. Claro que isso era vlido para qualquer idade, mas principalmente para uma rapariga nova como ela. No havia maneira de 
se saber se ela tinha sido bonita, ou se viria a ficar, se vivesse, o que era duvidoso.
        - Parece ter sido mais do que um assalto para roubar - considerou o paramdico. - Ningum pode espancar uma pessoa dessa maneira s para a roubar, a no 
ser que tenha qualquer coisa contra ela. Talvez tenha sido o namorado.
        - No limiar de uma porta, em Delancey? No  provvel. Ela vestia calas de marca e o endereo dela  de Upper East Side. Ela foi assaltada.
        Mas quando o seu companheiro se dirigiu a St. Andrew's, o padre Tim suspeitou de que fora mais que pouca sorte o que sucedera a Grace Adams. Ele recebera 
a visita de um polcia, no dia anterior, que lhe dissera que uma mulher chamada Isella Jones fora assassinada pelo marido nesse dia. O homem matara tambm os dois 
filhos e desaparecera. E o polcia sugerira-lhe que avisasse as enfermeiras e as assistentes sociais de que o homem era violento e andava fugido. Era possvel que 
nunca se aproximasse de St. Andrew's, mas podia faz-lo, pois atribua s pessoas que ali trabalhavam a culpa de a mulher o querer deixar. Mas no lhe ocorrera avisar 
Grace. Ela estava na Califrnia quando Isella ali aparecera, espancada e aterrorizada, acompanhada pelos filhos. O padre Tim avisara toda a gente para ter cuidado 
com um homem chamado Sam Jones, mas tinham tido tanto que fazer nos ltimos dias que nunca mais se lembraram.
        Quando soube o que sucedera a Grace, o sacerdote teve a certeza de que o incidente estava relacionado com Sam Jones e a Polcia espalhou cartazes com a fotografia 
e a descrio dele. Ele j estivera preso vrias vezes e tinha uma longa histria de violncia. Se o encontrassem, ficaria preso por toda a vida por ter morto a 
mulher e os filhos, mesmo sem se contar com o que fizera a Grace Adams em Delancey.
        O padre Tim parecia doente ao perguntar ao polcia:
        - O estado dela  grave?
        - Quando a meteram na ambulncia pareceu-me bastante mal. Tenho muita pena.
        - Tambm eu. - Tinha lgrimas nos olhos ao tirar a camisola preta que trazia vestida, substituindo-a por uma camisa preta com colarinho branco de sacerdote 
catlico. - Pode levar-me ao hospital?
        - Com certeza. - O padre Tim contou rapidamente  irm Eugene o ocorrido e dirigiu-se imediatamente para o carro-patrulha com o polcia. Quatro minutos depois, 
estavam em Bellevue. Grace encontrava-se ainda na sala de urgncias com toda uma equipa de mdicos e enfermeiras em volta dela. Mas at agora ningum estava encorajado 
com os resultados. Grace tinha a vida por um fio.
        - Como est ela? - perguntou o padre Tim na recepo.
        - O estado dela  crtico.  tudo quanto sei. - Depois olhou, e pensou que como era padre lhe poderia dizer, e acrescentou: - Provavelmente no se salva. 
- Fora o que lhe dissera um dos internos. Tinha tantas leses internas que era quase impossvel. - Quer v-la? - Ele disse que sim com a cabea. Sentia-se responsvel 
pelo que lhe sucedera. Sam Jones quase matara Grace.
        O padre Tim seguiu a enfermeira at  sala de urgncias e ficou chocado com o que ali viu. Trs enfermeiras, dois internos e um mdico residente rodeavam 
Grace. Ela estava nua, envolta em lenis. Todo o seu corpo estava negro e inchado. O rosto dela parecia um melo de um tom purpreo-escuro. Por todo o lado havia 
sacos de gelo, ligaduras, e aparelhos de todos os gneros. Era a pior coisa que ele alguma vez vira e, a um sinal afirmativo por parte do mdico interno, deu-lhe 
a extrema-uno. Nem sequer sabia qual era a religio de Grace, mas isso no tinha importncia. Ela era uma filha de Deus, e Ele sabia quanto ela lhe oferecera. 
O padre Tim ficou a um canto a rezar por ela e a chorar. Passadas horas, quando acabaram de a operar,  que ele ergueu os olhos. Tinha a cabea toda ligada e tinham-lhe 
suturado a cara e o pescoo. O homem s recorrera  navalha no pescoo dela, o rosto fora lacerado com os punhos. Partira-lhe um brao e cinco costelas. Iriam oper-la 
aos ossos logo que o estado dela o permitisse. Pelos exames feitos, sabiam que ficara com o bao rebentado e com leses nos rins. A pelve tambm estava quebrada.
        - Houve algum rgo que ele no tivesse atingido? - perguntou o padre Tim, angustiado.
        - Pouca coisa. - O mdico estava habituado a casos daqueles, mas desta vez at ele achava um caso muito grave. Ela quase morrera. - Parece que no tem nada 
nos ps - disse o mdico, sorrindo.
        Grace foi levada para o bloco operatrio s seis da manh e s saiu de l ao meio-dia. A irm Eugene fora ter com o padre Tim ao hospital e estavam ambos 
sentados, rezando em silncio por Grace, quando o mdico interno foi ter com ele.
        -  parente dela? - perguntou, confuso por ver que se tratava de um padre. De incio julgara que fosse o capelo do hospital, mas depois reparara que ele 
se encontrava ali especificamente por causa de Grace, assim como a mulher que o acompanhava.
        - Sou, sim - respondeu sem hesitar o padre Tim. - Como est ela?
        - Creio que vai sobreviver. Tirmos-lhe o bao, remendmos-lhe os rins, pusemos um gancho na pelve. Ela  uma rapariga com sorte. Conseguimos remendar tudo 
o que era importante. O nosso cirurgio plstico coseu-lhe a cara e jura que no se dar por nada. O que  agora preocupante  a cabea. Tudo parece estar bem no 
electroencefalograma, mas s vezes no se pode ver. Pode parecer tudo bem e ela ficar em coma e no mais deixar de estar. Ainda no sabemos. Daqui a poucos dias 
poderemos dizer-lhe mais. Lamento muito. - Deu-lhe uma leve palmada num brao e baixou a cabea para a jovem freira. Tratava-se de um caso muito grave, mas pelo 
menos estava viva e tinha algumas possibilidades de se salvar.
        Antes de o mdico se afastar, o padre Tim agradecera-lhe e perguntara se a poderiam ver. O mdico disse que, logo que ela sasse da sala de observao, da 
a algumas horas, poderiam v-la. Em seguida foi com a irm Eugene  cafetaria para comerem qualquer coisa e ela disse-lhe para ele ir para casa descansar um pouco. 
Mas o padre Tim no queria sair dali por enquanto.
        - Estava a pensar que talvez devssemos falar para o escritrio dela. Ningum sabe o que lhe sucedeu, alm de ns. Devem estar admirados por ela no aparecer. 
- E era exactamente esse o caso. Charles Mackenzie pedira a uma das secretrias que telefonasse para casa de Grace e ela j o fizera uma dzia de vezes, sem obter 
resposta. Ela poderia ter prolongado um fim-de-semana com algum, mas Charles achava que Grace no era pessoa para fazer isso. No sabia para onde telefonar, mas 
pensava que ela poderia ter escorregado na banheira e batido com a cabea. Decidira at falar com o porteiro do prdio, mas decidira esperar at depois do almoo. 
Logo que voltou do seu almoo, receberam um telefonema de um padre Finnigan e a secretria que o atendeu disse que era a respeito de Grace.
        - Eu atendo - disse Charles, pegando no telefone com uma sensao estranha. - Est?
        - Senhor Mackenzie?
        - Sim, sou eu. Em que lhe posso ser til?
        - Em muito pouco, receio.  acerca de Grace. - Charles sentiu o sangue gelar-lhe nas veias. Sem ouvir mais nada, percebeu que lhe sucedera algo de terrvel.
        - Ela est bem?
        O silncio pareceu-lhe infindvel.
        - Receio que no. Teve um acidente terrvel a noite passada. Foi assaltada e brutalmente espancada depois de sair de Saint Andrew's, o centro onde ela presta 
trabalho voluntrio. Era tarde e... ainda no conhecemos os pormenores, mas receio que possa ter sido o marido de uma das mulheres que nos foi pedir ajuda. Matou 
a mulher e os filhos no sbado. No sabemos ainda se foi ele quem atacou Grace, mas, fosse quem fosse, quase a matou.
        - Onde est ela? - A mo de Charles Mackenzie tremia ao pegar na caneta para tomar nota.
        - Encontra-se em Bellevue. Acabou de sair da sala de operaes.
        -  grave? - Era uma coisa to injusta. Grace era uma rapariga to bonita, to nova e cheia de vida...
        - Bastante grave. Ficou sem o bao, embora o doutor diga que pode viver sem ele. Os rins ficaram com leses, tem uma leso na pelve e meia dzia de costelas 
partidas. O rosto ficou cortado e o pescoo tambm, mas foi um corte superficial. O pior de tudo  a cabea.  essa a maior preocupao agora. Dizem que teremos 
de esperar. Lamento telefonar para dar to ms notcias, mas achei que lhe devia dizer. - Depois, sem saber porque dissera aquilo, mas sentindo que o devia fazer, 
o padre acrescentou: - Ela pensa muito bem de si, senhor Mackenzie. Considera-o uma pessoa fantstica.
        - Eu tambm penso o melhor possvel dela. H alguma coisa que eu possa fazer agora?
        - Reze.
        - Rezarei, padre, rezarei. E obrigado. Diga-me quando houver alguma mudana, sim?
        - Com certeza.
        Logo que desligou, Charles Mackenzie ligou para o director de Beilevue e para um neurocirurgio que conhecia bem, e pediu-lhe para ir ver Grace imediatamente. 
O director do hospital prometeu-lhe pr Grace num quarto particular e dar ordens para que tivesse enfermeiras constantemente junto dela. Mas primeiro teria de ficar 
nos cuidados intensivos, onde eram peritos em casos de traumatismos.
        Charles nem podia acreditar no que lhe estavam a dizer quando ligou para o hospital. Recordava-se de ter dito a Grace que aquele bairro era perigoso e que 
devia ir de txi. E agora sucedera-lhe aquilo. Ficou abalado durante o resto da tarde e telefonou s cinco para saber se teria havido melhoras. Soube apenas que 
Grace continuava nos cuidados intensivos e que o seu estado era crtico. Uma hora mais tarde Charles encontrava-se ainda no escritrio quando o neurocirurgio seu 
amigo lhe telefonou.
        - No podes acreditar naquilo que ele lhe fez, Charles.  desumano.
        - Vai ficar boa? - perguntou Charles tristemente. Detestava que uma coisa daquelas tivesse sucedido a Grace. Ou a qualquer outra pessoa. Ele prprio se sentia 
surpreendido ao perceber como gostava dela. Era muito nova e poderia ser sua filha, pensou, perplexo.
        - Poder ficar bem - respondeu o mdico. -  difcil saber, por enquanto. Os outros ferimentos no devem causar problemas. A cabea  outra histria. Pode 
ficar boa, ou no. Tudo depende do que se passar nos prximos dias. Felizmente, no precisou de ser operada ao crebro, mas vai ficar bastante inchada por um certo 
tempo. Teremos de ser pacientes.  uma amiga tua?
        -  minha secretria.
        - Tenho muita pena.  apenas uma rapariga, pelo que vi no boletim. E no tem famlia, pois no?
        - No sei. Ela no fala muito nisso. Ela nunca me disse. Charles pensou ento que no sabia nada sobre a sua situao. Ela nunca lhe falara sobre a famlia 
nem sobre a sua vida pessoal. No sabia praticamente nada a respeito dela.
        - Falei com uma freira que estava sentada junto dela. O padre que aqui esteve anteriormente parece que foi para casa descansar. Mas a freira disse-me que 
ela no tem ningum no mundo.  muito duro para uma rapariga to nova. A freira diz que ela  bonita, mas agora  difcil perceber isso. O cirurgio plstico coseu-a 
e diz que vai ficar tudo bem. S temos de nos preocupar com a cabea. -
        Quando desligou, Charles sentia-se doente. Era demasiado. E como  que ela no tinha ningum? Aos vinte e dois anos era demasiado nova para no ter famlia. 
Tinha apenas um padre e uma freira com ela. Era difcil acreditar que ela no tivesse ningum, mas provavelmente no tinha.
        Ficou sentado  secretria durante mais uma hora, tentando trabalhar mas sem o conseguir, e finalmente no pde aguentar mais.
        As sete meteu-se num carro para Bellevue e subiu  sala dos cuidados intensivos. A irm Eugene j partira nessa altura, e agora telefonavam regularmente 
de St. Andrew's. O padre Tim dissera que voltaria mais tarde, depois de estar tudo calmo no abrigo. Naquele momento estavam ali apenas as enfermeiras e nada mudara 
desde essa manh.
        Charles sentou-se junto dela, incapaz de acreditar no que via. Ela estava completamente irreconhecvel, exceptuando os compridos dedos finos. Segurou-lhe 
numa mo e comeou a acarici-la meigamente.
        - Ol, Grace, vim v-la. - Falou em voz baixa, para no incomodar ningum, mas queria dizer-lhe qualquer coisa na esperana de que ela o ouvisse, embora 
isso parecesse de facto pouco provvel no estado em que ela se encontrava. - Vai ficar boa, ver... e no se esquea do jantar no Vinte e Um. Eu prprio a levarei 
se se puser boa depressa... seria bom que abrisse os olhos para ns... assim no  to bom, Grace... abra os olhos... abra os olhos. - Continuou a falar em voz baixa 
e meiga e, quando estava a pensar em se ir embora, reparou que as palpebras dela estremeciam e fez sinal a uma enfermeira para se aproximar. Sentia o corao bater 
desordenadamente com o que acabava de ver. A sobrevivncia de Grace era vital para ele. Queria que ela vivesse. Mal a conhecia, mas no queria perd-la. - Creio 
que mexeu as plpebras - explicou.
        - Provavelmente  apenas um reflexo - disse a enfermeira, com um olhar de simpatia. Mas depois ela voltou a fazer o mesmo e a enfermeira ficou parada a olh-la.
        - Mexa os olhos outra vez, Grace - disse Charles, calmamente. - Vamos, sei que o pode fazer. Sim, pode. - E ela f-lo. Abriu os olhos por breves momentos, 
gemeu e fechou-os de novo. Charles teve vontade de gritar de excitao. - Que quer isto dizer? - perguntou  enfermeira.
        - Que est a recuperar a conscincia - respondeu a enfermeira. - Vou chamar o doutor.
        - Foi formidvel, Grace - murmurou Charles, acariciando-lhe os dedos outra vez, querendo transmitir-lhe o desejo de viver, para provar que o podia fazer, 
para que mais um atacante no conseguisse roubar uma vida que no merecia tirar. - Vamos, Grace... no pode ficar aqui... a dormir... temos trabalho a fazer... - 
Charles ia dizendo coisas ao acaso, e quase chorou quando a viu franzir a testa, abrir lentamente os olhos e fit-lo sem compreender.
        -... Que... carta?... - murmurou atravs dos lbios inchados e feridos. Os olhos fecharam-se outra vez e ele comeou a chorar. As lgrimas caam-lhe pelas 
faces enquanto a olhava. Ela ouvira-o. O mdico chegou e Charles explicou-lhe o que se passara. Fizeram-lhe outro electroencefalograma e as ondas do crebro estavam 
ainda normais. As reaces voltavam lentamente. Grace voltou a cara quando lhe apontaram uma luz para os olhos, gemeu e depois chorou quando lhe tocaram. Tinha dores, 
o que foi considerado muito bom. Agora teria de passar por vrias fases de dor para melhorar.
        E  meia-noite Charles ainda ali se encontrava. No conseguia afastar-se dela. Parecia agora que o crebro no fora danificado. Teriam de fazer mais testes 
e de se certificar de que no tinha mais traumatismos ainda ocultos, mas parecia que ela iria de facto recuperar e ficar bem.
        O padre Tim voltara nessa altura e encontrava-se na sala de observao quando o mdico dizia a Charles que o diagnstico era bastante bom. Ento os dois 
homens saram para o corredor para falar, enquanto uma enfermeira dava uma injeco a Grace por causa das dores.
        - Meu Deus, ela vai conseguir! - exclamou o padre Tim com uma expresso de alegria e excitao. Rezara por ela durante todo o dia, e dissera duas missas 
por ela. E todas as freiras continuavam a rezar. - Que grande rapariga ela ! Sam Jones fora apanhado no comeo da noite e acusado de ter morto a mulher e os filhos 
e de ter tentado assassinar Grace Adams. Confessara t-la atacado porque fora a primeira pessoa que vira sair de St. Andrew's e achara que fora ela a causadora dos 
seus problemas. - No faz ideia do que ela tem feito por ns, senhor Mackenzie. Aquela rapariga  uma santa! - disse o padre Tim para Charles.
        - Porque far ela isso? - Charles pareceu perplexo. Estavam os dois a beber caf e subitamente sentiram-se como dois irmos, e ambos se sentiam felizes por 
Grace ir recuperar.
        - Penso que h muita coisa na vida de Grace que nenhum de ns conhece - disse tranquilamente o padre Tim. - No creio que a vida das mulheres e das crianas 
maltratadas seja nova para ela. Penso que Grace sofreu muito e sobreviveu a tudo isso, e agora quer ajudar outras pessoas que se encontrem em situaes semelhantes. 
Daria uma grande freira - concluiu, sorrindo. Mas Charles apontou um dedo para ele.
        - No se atreva! Ela deve casar e ter filhos.
        - No sei se isso vir a suceder - disse o padre Tim com sinceridade. - No creio que seja isso que ela queira. Muitas curam-se como ela se curou, mas a 
maior parte das crianas que sofrem como as que ns conhecemos, nunca conseguem ultrapassar a barreira que as separa de uma vida em que possam confiar nos outros 
e serem pessoas completas. Penso que  um verdadeiro milagre chegarem ao ponto onde Grace chegou. Talvez que pedir mais do que isso, seja demasiado.
        - Se ela  capaz de se dar a tanta gente, porque no dedicar-se a um marido?
        - Isso  muito mais difcil! - O padre Tim sorriu-lhe filosoficamente e depois decidiu dizer-lhe uma coisa. Isso poderia dar-lhe uma ideia. - Ela tinha um 
medo terrvel de ir  Califrnia consigo. E ficou-lhe eternamente grata por o senhor no a ter magoado, nem a ter usado.
        - Usado? Que quer dizer com isso?
        - Creio que ela passou por muitos sofrimentos. H muitos homens que fazem coisas inauditas. Vemos isso todos os dias. Penso que ela estava  espera que o 
senhor procedesse com ela de um modo imprprio. - Charles Mackenzie ficou embaraado s com a ideia e horrorizado por ela poder pensar isso dele, e diz-lo a outra 
pessoa.
        - Por isso  que ela estava to perturbada quando foi trabalhar comigo.
        - Possivelmente. Ela no confia muito seja em quem for. E creio que o que agora lhe sucedeu no ir melhorar as coisas. Mas pelo menos no foi uma coisa 
pessoal.  muito diferente. Quando uma pessoa a quem amamos nos magoa e que nos pode destruir a alma... como uma me para com um filho, ou um marido para com a mulher. 
- O padre era um homem sensato e Charles ouviu-o atentamente, pensando at que ponto aquilo se aplicaria a Grace. Mas ele parecia conhecer Grace bastante melhor 
que Charles, e no entanto no se mostrava muito seguro da histria dela. As coisas que o padre Tim dissera a respeito de Grace dilaceravam o corao de Charles. 
Pensava que coisas terrveis lhe teriam acontecido para ela ficar to profundamente ferida como mulher. Nem podia sequer imaginar o que estaria por detrs da sua 
calma aparncia e modos delicados.
        - Sabe alguma coisa acerca dos pais dela? - perguntou Charles, agora cheio de curiosidade.
        - Ela nunca fala deles. Apenas me disse que tinham morrido. No tem famlia absolutamente nenhuma, mas no creio que isso a incomode. Veio de Chicago para 
aqui. Nunca fala de parentes ou amigos.  uma rapariga muito solitria, mas aceita isso. A nica coisa que lhe interessa  trabalhar consigo e ir a Saint Andrew's. 
Trabalha l entre vinte e cinco e trinta horas por semana.
        - Ento tem apenas tempo para dormir. Para mim trabalha quarenta e cinco ou cinquenta horas.
        -  inteiramente assim, senhor Mackenzie.
        Charles sentia-se ansioso por falar com Grace, por lhe fazer perguntas sobre a vida dela e saber qual o motivo que a levava a ir trabalhar em St. Andrew's.
        A enfermeira disse-lhes que podiam entrar novamente e o padre Tim manteve-se um pouco afastado para Charles poder falar com Grace. Sentia que havia ali mais 
interesse do que o homem pensava, ou do que Grace suspeitava.
        Grace estava um pouco tonta quando Charles se aproximou. A injeco provocara-lhe esse efeito, mas pelo menos tirara-lhe as dores.
        - Lamento que isto lhe tenha sucedido, Grace. - Ia ter uma conversa com ela a respeito de trabalhar em St. Andrew's, mas isso teria de ficar para mais tarde. 
- Apanharam o homem que a atacou.
        - Ele estava zangado, por causa... da mulher... Isella. Iria recordar o nome da mulher durante toda a vida.
        - Espero que o enforquem - disse Charles, furioso, e Grace olhou-o outra vez. E conseguiu esboar um sorriso, parecendo sonolenta. - Porque no dorme? Voltarei 
amanh.
        Grace disse que sim com a cabea e o padre Tim passou tambm alguns minutos junto dela, antes de os dois sarem para a deixarem dormir. Charles chamou um 
txi, foi deixar o padre no abrigo e seguiu para sua casa, depois de prometer manter-se em contacto com o jovem padre. Gostava dele. Prometera-lhe tambm ir visitar 
o centro. E tencionava ir. Queria conhecer Grace e essa era uma maneira de o fazer.
        Charles voltou a ir visitar Grace nos trs dias seguintes, cancelando vrios almoos, at mesmo um com um produtor seu amigo, mas no a queria deixar s. 
Quando a mudaram para um quarto particular, levou Winnie para a visitar. Ela chorou quando viu Grace, ficou a torcer as mos uma na outra e beijou-a na face, no 
nico bocadinho que no estava ligado. Nessa altura j Grace estava um pouco melhor. O inchao comeava a desaparecer, mas doa-lhe tudo, desde a pelve  cabea. 
Os rins estavam a cicatrizar bem, o mdico disse-lhe que o bao no lhe faria falta, mas Grace tinha dores no corpo todo e parecia-lhe ter sido dilacerada.
        No sbado, quase uma semana depois do acidente, a enfermeira que Charles insistira em contratar para Grace f-la sair da cama e andar at  casa de banho. 
Doeu-lhe tanto que ela quase desmaiou, mas conseguiu e quando voltou para a cama celebrou a sua vitria, bebendo um grande copo de sumo de fruta. Estava to branca 
como o lenol mas sorridente quando Charles entrou com um grande ramo de flores. Todos os dias lhe levava flores, e doces, revistas e livros. Queria anim-la, mas 
no sabia bem como faz-lo.
        - Que faz aqui? - Grace ficou embaraada quando o viu e a cor subiu-lhe ao rosto. - Hoje  sbado, no tem nada melhor para fazer? - ralhou ela, parecendo 
muito melhor. A cara parecia um arco-ris de azuis, verdes e purpreos, mas o inchao j quase desaparecera por completo e os pontos estavam a cicatrizar to bem 
que quase no se viam.
        O que mais preocupava agora Charles era o esprito dela. Depois da conversa que tivera com o padre Tim, no podia deixar de pensar no que a teria levado 
a St. Andrew's para trabalhar. Mas era demasiado cedo para lhe fazer perguntas a esse respeito.
        - No devia ir passar o fim-de-semana fora? - Lembrava-se de ter tratado de tudo para ele ir assistir a uma regata em Long Island. Alugara-lhe uma pequena 
casa em Quogue e era uma pena que ficasse em Nova iorque.
        - Cancelei tudo isso - declarou decididamente Charles, olhando-a com ateno. - Est com bom aspecto. - Sorriu e entregou-lhe as revistas que lhe trouxera. 
Levara-lhe pequenos presentes durante toda a semana, um casaco para vestir na cama, uns chinelos, uma almofada para o pescoo, gua-de-colnia.
        Era embaraoso, mas Grace tinha de admitir que gostava. Falara disso a Winnie, ao telefone, e a boa senhora ficara encantada como uma velha me-galinha. 
Grace rira e dissera-lhe que ela era impossvel, que no pensava noutra coisa seno em romance.
        - Claro que no - confessou orgulhosamente Winnie. Prometera ir visitar Grace no domingo.
        - Quero ir para casa - disse Grace para Charles, olhando-o com ar triste.
        - No creio que isso possa suceder to cedo - contraps Charles com um sorriso. Na vspera tinham-lhe falado em trs semanas, o que no agradava a Grace, 
e que significava que ela ainda estaria no hospital no dia do seu aniversrio.
        - Quero voltar ao trabalho. - Tinham-lhe dito que teria de andar com muletas durante um ou dois meses. Nada mais tinha para fazer. E queria voltar a St. 
Andrew's logo que a deixassem.
        - No se esforce, Grace. Porque no vai descansar para qualquer stio quando sair daqui?
        Mas Grace apenas riu da ideia.
        - Para onde? Para a Riviera? - No podia ir para parte alguma durante muito tempo. Talvez pudesse ir passar um fim-de-semana a Atlantic City. No ia ter 
frias em breve. Ainda no trabalhava na firma h tempo suficiente para ter uma semana de frias. Sabia que teria de trabalhar l um ano, para ter duas semanas de 
frias. J era de mais Charles ter-lhe dito que a firma pagaria tudo quanto o seguro no pagasse. As trs semanas em Bellevue e tudo o que tinham feito devia custar 
perto de cinquenta mil dlares.
        - Sim. Porque no a Riviera? Alugue um iate - gracejou Charles. - Divirta-se um pouco, para variar. - Grace riu e ficaram a conversar um bocado. Grace sentia-se 
surpreendida por ser to fcil conversar com ele e Charles parecia no querer ir para parte alguma. Ainda ali estava quando a enfermeira foi almoar e ajudou-a a 
andar at  cadeira, apoiada no seu brao. Em seguida colocou-lhe uma almofada atrs das costas quando Grace se sentou, plida e exausta mas vitoriosa.
        - Como  que no teve filhos? - perguntou Grace de repente, enquanto ele lhe servia um copo de ginger ale. Ele teria sido um ptimo pai, pensava Grace, mas 
sem nada lhe dizer.
        - A minha mulher detestava crianas - disse ele. - Ela prpria queria ser uma criana. As actrizes so assim. E eu deixava-a fazer o que queria - disse ele, 
parecendo um pouco embaraado.
        - Teve pena de no ter filhos? - Grace falava como se ele fosse muito velho e j tivesse deixado passar essa oportunidade. Charles teve vontade de rir ao 
pensar nisso.
        - s vezes. Costumava pensar que voltaria a casar e que teria muitos filhos, depois de Michelie me deixar. Mas talvez j no pense nisso. Tenho uma vida 
demasiado confortvel para tentar qualquer coisa to importante agora. - Nos ltimos anos tornara-se preguioso para arranjar um envolvimento srio. Gostava das 
aventuras temporrias, da liberdade e da independncia. Era tentador permanecer assim para sempre. Mas a pergunta que ela lhe fez abriu-lhe uma porta. - E voc? 
Porque no quer tambm um marido e filhos? - Charles sabia agora muito mais a respeito dela, mas Grace ficou surpreendida. A pergunta fora feita sem mais nem menos.
        - Que o faz dizer isso? - Olhou para outro lado, receosa das perguntas dele. Mas quando voltou a olh-lo, viu que estava ali algum em quem podia confiar. 
-Como  que sabe que  isso que eu sinto?
        - Uma rapariga da sua idade no passa todo o seu tempo a fazer trabalho voluntrio, nem a passear com uma solteirona de sessenta anos, como Winnie, a no 
ser que tenha muito pouco interesse em arranjar marido. Tenho razo? - perguntou, olhando-a atentamente com um sorriso.
        - Tem.
        - Porqu?
        Grace esperou um longo momento antes de lhe responder. No lhe queria mentir, mas tambm no estava preparada para lhe contar a verdade.
        -  uma histria comprida - disse.
        - Tem alguma coisa a ver com os seus pais? - Os olhos dele observavam-na, mas no sem um certo afecto. Ele provara j que se preocupava com o bem-estar dela 
e que podia confiar nele.
        - Sim.
        - Foi muito mau? - Grace disse que sim com um gesto e Charles sentiu uma pena profunda dela. No podia pensar que algum a pudesse magoar. - Algum a ajudou?
        - Durante muito tempo, no. E depois j era demasiado tarde. J tinha acabado tudo.
        - Nunca  demasiado tarde. No tem de viver com esse desgosto durante o resto da sua vida. Tem o direito de se livrar disso e de ter um bom futuro com um 
homem decente 
                - Tenho um presente, o que significa mais para mim do que um futuro. Durante muito tempo nem isso tive. No peo muito do futuro - disse calmamente 
Grace, com uma expresso de tristeza.
        - Mas devia esperar - disse ele, tentando anim-la. - Voc  to nova. Tem metade da minha idade. A sua vida est agora a comear.
        Mas ela abanou a cabea, com um sorriso cheio de tristeza e de sabedoria.
        - Acredite, Charles - ele insistira para que ela o tratasse assim desde que estava no hospital. - Acredite que a minha vida no est no comeo... Est meio 
acabada.
        - Isso  o que voc sente agora. No estar acabada por muito tempo ainda, e por isso  que precisa de algo mais do que trabalhar para mim e em Saint Andrew's.
        - Est a tentar arranjar-me algum? - Grace riu, estendendo as compridas pernas para a frente. Ele era um homem bondoso e Grace sabia que ele procedia com 
bons intuitos, mas no sabia o que estava a fazer. Ela no era uma qualquer rapariga de vinte e dois anos, com recordaes amenas e um futuro risonho. Sentia-se 
mais como sobrevivente de um campo de morte e de certo modo era-o. Charles Mackenzie nunca encontrara ningum assim e no sabia o que havia de fazer por ela.
        - Quem me dera conhecer algum digno de si - respondeu com um sorriso. Todos os homens que conhecia ou eram demasiado velhos ou demasiado estpidos. No 
a mereciam.
        Falaram ento de outras coisas, de velejar, do que ele gostava, dos Veres que ele passava em Martha's Vineyard quando era rapaz, e em vrios locais onde 
ele estivera. Charles ainda tinha uma casa em Martha's Vineyard, embora raramente l fosse agora. No voltaram a falar de coisas dolorosas e Charles s a deixou 
ao fim da tarde, dizendo-lhe que descansasse. Disse-lhe que no dia seguinte iria visitar uns amigos em Connecticut. Grace sentia-se comovida por ele passar tanto 
tempo junto dela.
        Winnie foi visitar Grace no domingo  tarde e o padre Tim apareceu tambm. Grace estava deitada a ver televiso, antes de adormecer, quando Charles entrou 
no quarto. Trazia calas de ganga e uma camisa azul, fazendo lembrar um anncio de GQ e cheirando a campo.
        - Lembrei-me de passar por aqui antes de ir para casa - explicou ele. - Queria saber como estava - acrescentou, parecendo feliz por a ver. Na verdade Grace 
sentira a sua falta nessa tarde e isso preocupara-a um pouco. Afinal ele era apenas seu patro, e no um amigo de longa data. No tinha o direito de esperar que 
ele a fosse ver constantemente. No tinha esse direito, mas gostava da presena dele; com efeito, gostava muito mais do que alguma vez pudesse pensar.
        - Gostou de estar com os seus amigos? - perguntou Grace, sentindo-se aliviada por ele ali estar.
        - No - respondeu ele com franqueza. - Pensei em si toda a tarde.  muito mais divertido estar consigo do que com eles.
        - Agora  que estou a ver que enlouqueceu - disse Grace, rindo.
        Charles sentou-se aos ps da cama e comeou a contar-lhe histrias engraadas passadas nesse dia. Quando saiu j passava das dez horas e Grace sentiu-se 
desapontada por ele se ter ido embora. Charles resolvera deix-la, embora no lhe apetecesse faz-lo, porque achava que ela devia dormir.
        Mas nessa noite, estendida na cama a pensar nele, Grace comeou a ficar assustada. Que estava ela a fazer com ele? Que quereria ele? Se continuasse a abrir-se 
com ele como at agora, poderia ficar magoada. Forou-se a recordar a angstia que sentira com Marcus, que ao princpio se mostrara to meigo e to afectuoso para 
ela e que por fim a atraioara. Sentia-se aterrorizada ao pensar que Charles Mackenzie pudesse fazer-lhe o mesmo. Provavelmente ela no representava para Charles 
Mackenzie mais do que uma conquista. Grace sentia o peito apertado ao pensar nisso e, como se Charles estivesse a ler-lhe os pensamentos, o telefone tocou a seu 
lado. Era Charles e parecia preocupado.
        - Quero dizer-lhe uma coisa... pode pensar que sou doido, mas de qualquer modo vou dizer-lhe. Quero ser seu amigo, Grace... No a magoarei, mas fiquei preocupado 
ao tentar imaginar o que voc pensaria. No sei o que est a suceder. Sei apenas que penso constantemente em si e me preocupo com o que lhe aconteceu no passado, 
embora nem sequer o possa imaginar... mas no a quero perder... no a quero assustar, nem faz-la preocupar-se com o seu emprego. Sejamos por enquanto apenas duas 
pessoas que gostam uma da outra. Se formos... e avanarmos muito lentamente a partir da...
        Grace nem podia acreditar no que estava a ouvir, mas de certo modo era um alvio ouvi-lo.
        - Que estamos a fazer, Charles? - disse nervosamente. - E o meu emprego? No podemos fingir que no trabalho para si. Que ir suceder quando eu voltar?
        - No vai voltar durante uns tempos, Grace. Nessa altura saberemos muito mais. Talvez o que eu digo no possa acontecer nunca. Talvez sejamos apenas amigos 
e o seu acidente nos tenha assustado a ambos. Talvez seja mais do que isso. Mas a Grace precisa de saber quem eu sou, e eu quero saber quem a Grace ... quero conhecer 
o seu sofrimento... e aquilo que a faz rir. Quero estar a seu lado... ajud-la...
        - E depois? Afasta-se de mim? Arranja outra secretria que o divirta durante semanas e que lhe conte todos os seus segredos? - Grace sentia-se aliviada por 
ele ter telefonado, mas receava confiar nele.
        Charles lembrou-se de o padre Tim ter dito que muitos dos sobreviventes como ela no conseguiam superar os traumas sofridos. Mas ele queria que Grace conseguisse, 
custasse o que custasse.
        - Isso no  justo - disse Charles com ar de censura. - Nunca me encontrei numa situao destas. Nunca sa com quem quer que fosse que trabalhasse na firma, 
nem com algum que trabalhasse para mim. - Depois sorriu, apesar da seriedade do assunto. - E voc no pode dizer que o que eu quero  sair consigo. A Grace mal 
pode dar uns passos da cama para a cadeira e nem mesmo eu teria o mau gosto de a atacar.
        Grace riu do que ele disse, ainda nervosa. Queria confiar nele, mas sabia que no podia... ou poderia? Quando lhe respondeu, a voz dela era sexy e profunda.
        - No sei... no sei...
        - No precisa de saber coisa alguma agora... a no ser se acha bem que eu continue a visit-la.  apenas o que precisa de decidir. S tive receio que comeasse 
a pensar, a sozinha, e entrasse em pnico.
        - E estava... comecei a entrar em pnico ao pensar no que andvamos a fazer... - murmurou Grace timidamente.
        - No andamos a fazer coisa alguma, por isso cale-se e ponha-se melhor. E um dia... - a voz dele era to meiga que quase parecia uma carcia - quando se 
sentir mais forte, quero que me diga o que lhe sucedeu no passado. No pode querer que eu a compreenda inteiramente sem o saber. Alguma vez contou a algum? - Charles 
preocupava-se com isso. Como podia ela viver com todos aqueles segredos tenebrosos?
        -  A duas pessoas - respondeu Grace. - Uma mulher maravilhosa que conheci, uma psiquiatra... que morreu num desastre de avio na viagem de lua-de-mel, h 
quase trs anos. E a um homem que foi meu advogado, e ao qual nunca mais falei.
        - No tem tido muita sorte, pois no, Grace?
        Ela abanou tristemente a cabea e depois encolheu os ombros.
        - No sei... ultimamente tenho. No me posso queixar. - Decidiu ento dar um grande salto. - Tive sorte em o ter encontrado. - Dizer-lhe aquelas palavras 
a ele quase a sufocou e Charles percebeu isso.
        - No tanta como eu. Agora durma, querida... - murmurou meigamente ao telefone. - Irei a  hora do almoo. E talvez volte  hora do jantar. Talvez lhe possa 
levar qualquer coisa do Vinte e Um.
        - Ia levar l a Winnie na prxima semana - disse ela, com pena.
        - Vai ter muito tempo para isso, quando estiver boa. Agora durma - sussurrou, desejando poder rode-la com os seus braos e proteg-la. Ela fazia-o sentir-se 
diferente do que alguma vez se sentira com alguma mulher. S queria cuidar dela e proteg-la de todo o mal. Tinham-lhe sucedido muitas coisas terrveis. A ltima 
fora na semana anterior Mas ele queria alterar tudo isso. Grace sentia-se assustada com as atenes persistentes dele, mas, estranhamente, por mais aterrorizada 
que se sentisse, gostava disso. Sentia uma estranha sensao nas entranhas que nunca sentira por nenhum homem at conhecer Charles Mackenzie.

CAPTULO 12

        Charles foi v-la duas vezes, no dia seguinte, e duas ou trs vezes nas trs semanas seguintes, at ela poder finalmente sair de Bellevue. Grace j podia 
movimentar-se com uma certa facilidade apoiada nas muletas, mas ainda no sentia a energia que gostaria de sentir. O mdico disse-lhe para esperar mais duas semanas 
antes de voltar ao trabalho.
        Charles passava agora muito menos tempo no escritrio e Grace sentia-se terrivelmente culpada disso, mas ele era o primeiro a no querer que ela fosse trabalhar, 
dizia-lhe mesmo para no voltar a trabalhar. Grace sabia que ele tinha cancelado todos os seus planos para estar com ela, mas ele fingia nem sequer dar por isso. 
Charles fazia-lhe companhia, jogavam s cartas, riam. Ele ajudava-a em tudo e dizia-lhe que no se via nem uma nica cicatriz. Quando, no hospital, ela se queixara 
de serem horrveis as camisas de noite do hospital, ele levara-lhe lindas camisas de noite do Pratesi. De certo modo, todas essas atenes eram embaraosas para 
Grace e ela ainda se sentia assustada por no saber onde tudo isso a iria levar, mas era incapaz de o deter. Se ele no ia almoar com ela, no comia, e se ele precisava 
de passar um sero fora, Grace sentia-se to s que mal o podia suportar. De cada vez que via a cara dele aparecer  porta, parecia uma criana que via aparecer 
o seu nico amigo, ou at mesmo a me. Charles tratava de tudo o que era preciso: dos papis, do seguro, falava com os mdicos, tudo. No escritrio ningum sabia 
como Charles se encontrava to profundamente envolvido com ela, e nem sequer Winnie fazia ideia do tempo que ele passava com Grace. Esta tinha prtica de uma vida 
inteira para guardar segredos.
        Mas quando foi para casa, Grace teve medo que tudo mudasse. Durante cerca de duas horas, at ele aparecer no apartamento dela com champanhe, bales e um 
verdadeiro cesto de piquenique, ela sentiu-se como uma criana abandonada. Foram s duas horas depois de ela ter sado do hospital e de ele a ter ido pr em casa 
para fazer umas coisas que precisavam de ser terminadas.
        - O que  que as pessoas vo pensar? - disse Grace, quando ele a levou para casa numa limusina alugada. Imaginava que toda a gente sabia que o patro passava 
os dias e as noites com ela, e que iriam proclamar isso por toda a parte
        - No creio que algum esteja interessado no que ns fazemos - disse Charles. - Esto todos ocupados em dar cabo das suas prprias vidas. E eu acho que ns 
no estamos a estragar a nossa, Grace. Acho que a Grace foi a melhor coisa que j me sucedeu.
        Charles tirou do bolso uma pequena caixa azul que entregou a Grace, pedindo-lhe para a abrir.
        - O que  isto? - perguntou Grace, assombrada com tanta generosidade. Era uma fina pulseira de ouro da Tiffany e servia-lhe perfeitamente, mas Grace no 
sabia se a devia aceitar.
        Mas Charles ria.
        - Sabe que dia  hoje? - Ela abanou a cabea. Perdera a noo do tempo no hospital. Passara l o 4 de Julho e depois disso no prestara muita ateno s 
datas. -  o seu aniversrio, tolinha. Por isso  que eu fiz com que sasse hoje em vez de segunda-feira. No podia passar o dia dos seus anos no hospital! - Os 
olhos de Grace encheram-se de lgrimas ao perceber o que ele fizera. Charles comprara mesmo um pequeno bolo de aniversrio da Greenberg. Era todo de chocolate, incrivelmente 
macio e delicioso.
        - Como pode fazer isto tudo por mim? - Grace sentiu-se subitamente tmida, mas satisfeita. Desde que ela fora para o hospital, ele no fizera outra coisa 
seno estrag-la com mimos, anim-la e passar o seu tempo com ela. Nunca ningum fora to bom para ela.
        -  fcil, parece-me. No tenho filhos, talvez a possa adoptar. Isso tornaria as coisas mais fceis, no? - Grace riu da sugesto. Certamente que seria mais 
fcil do que lidar com os seus prprios sentimentos e receios de se ver envolvida com ele.
        O relacionamento entre eles mudou subtilmente depois de ela ir para o apartamento. Tornou-se imediatamente mais ntimo, mais difcil fingirem que eram apenas 
amigos. Ficaram de sbito sozinhos, sem enfermeiras, sem mdicos para os interromper. Isso fez com que Grace se mostrasse tmida e ele fingiu no dar por isso. No 
dia em que ela voltara para casa, Charles levara com ele, alm do bolo, da pulseira e das outras coisas, um engraado chapu de enfermeira. Colocou-o depois na cabea 
e disse-lhe para ela ir para a cama descansar. Ficou a ver televiso junto dela e preparou o jantar na minscula cozinha. Grace quis ajud-lo, apoiada nas muletas, 
mas ele obrigou-a a sentar-se e a ficar a olh-lo, enquanto ela protestava.
        - J posso mexer-me - objectou ela.
        - No, no pode. No se esquea de que o patro sou eu - disse ele, e Grace riu. Era fcil e tranquilizador estar com ele. Ficavam estendidos na cama dela, 
depois do jantar, a conversar. Charles deu-lhe a mo, receando dar um passo em frente e do que poderia acontecer se isso sucedesse. Finalmente, incapaz de se conter 
por mais tempo, ele voltou-se para ela e fez-lhe a pergunta que h muito desejava fazer-lhe.
        - Tem medo de mim, Grace? Isto , fisicamente... no quero fazer coisa alguma que a assuste ou magoe. - Grace sentiu-se comovida por ele ter perguntado. 
Estava estendido na cama, de mo dada com ela, h duas horas. Eram como dois velhos amigos, mas havia tambm uma inegvel electricidade entre eles. E agora era Charles 
quem se sentia assustado. No queria fazer coisa alguma que pusesse em perigo o relacionamento deles, nem que fizesse com que ele a perdesse.
        - s vezes tenho receio dos homens - disse ela com sinceridade.
        - Houve algum que lhe fez mal, no foi? - Grace disse que sim com a cabea, em silncio.
        - Um estranho? - Ela abanou a cabea e da a um bocado respondeu:
        - O meu pai. - Mas havia outras coisas e ela sabia que tambm precisava de as explicar. Suspirou, pegou na mo dele e beijou-lhe os dedos. - Durante toda 
a minha vida as pessoas tm tentado magoar-me, abusar de mim. Mais tarde... o meu patro tentou seduzir-me... era casado... creio que achava ter o direito de me 
usar. E outro homem com quem tratei fez a mesma coisa. - Referia-se a Louis Marquez, mas ainda no queria contar-lhe tudo, embora soubesse que eventualmente viria 
a ter de lhe contar. - Esse outro homem ameaou-me. Ameaava-me constantemente... costumava aparecer no meu apartamento... era repugnante... depois houve algum 
com quem sa umas vezes e que fez o mesmo... enganou-me, mentiu-me... usou-me... sem se importar comigo. Esse drogou-me, deitou qualquer coisa na minha bebida e 
eu fiquei terrivelmente doente. Mas pelo menos no me violou. Ao princpio receei que ele o tivesse feito, mas no. Apenas me drogou e me fez fazer figura de parva. 
Era um verdadeiro patife.
        Charles mostrou-se horrorizado. No podia imaginar pessoas a fazerem coisas daquelas. Especialmente a uma pessoa que ele conhecia. Era espantoso.
        - Como soube que ele no a violou? - perguntou, horrorizado, pensando no que ela devia ter passado.
        - Uma amiga minha levou-me a uma mdica conhecida dela. Nada sucedera. Mas ele fingiu que sim e disse a toda a gente. Disse-o ao meu patro e por isso  
que ele esperava dormir comigo. Foi por essa razo que deixei o meu emprego e abandonei Chicago.
        - Uma sorte para mim - disse Charles, sorrindo e pondo-lhe um brao por cima dos ombros.
        - Foram esses os nicos homens com os quais tive alguma coisa a ver. S sa alguma s vezes com esse homem em Chicago. Na escola nunca sa com ningum, por 
causa do meu pai.
        - Qual foi a universidade que frequentou?
        - Foi em Dwight, Ilinis - respondeu Grace com sinceridade.
        - E com quem saa, l? - Dessa vez Grace riu, lembrando-se de qual poderia ter sido a sua companhia.
        - Absolutamente ningum. S l havia raparigas. Mas sabia que teria de lhe explicar tambm isso em breve. Apenas no lhe queria dizer tudo no dia do seu 
aniversrio. Era um assunto difcil e tinham passado um dia to bom. Era o melhor dia de anos que ela alguma vez tivera, apesar dos ossos partidos, das muletas e 
dos pontos. Charles compensara-a de muita coisa, durante muitos anos, com a sua bondade, os seus presentes e a sua companhia.
        Charles no queria for-la a ir mais alm, mas queria compreender mais claramente.
        - Penso correctamente quando pressuponho que no  virgem?
        - Pensa - respondeu ela, olhando-o com os seus olhos azuis, espantosamente bonita com o roupo de cetim azul que ele lhe comprara uns dias antes.
        - Pensei... mas no houve ningum desde h muito tempo, pois no?
        Grace disse que sim com a cabea.
        - Prometo que falaremos disso em breve... mas no hoje... - Ele tambm no queria falar mais disso nessa noite. Era difcil para ela e no queria estragar-lhe 
o dia dos anos.
        - Quando estiver preparada para isso... s queria saber... No queria fazer nada que a assustasse. - Mas, ao dizer a frase, ela tinha o rosto voltado para 
ele, ouvindo-o. Charles no conseguiu conter-se mais. Prendeu-lhe meigamente a cara entre as mos e beijou-a cuidadosamente. Ela pareceu cautelosa ao princpio e 
depois correspondeu. Ele estendeu-se ao lado dela, apertou-a contra si e beijou-a outra vez, desejando-a desesperadamente, mas no deixou que as suas mos se estendessem 
para o corpo dela.
        - Obrigada - murmurou ela, beijando-o de novo. - Obrigada por ser to bom para mim, to paciente.
        - No force a sua sorte - quase gemeu depois de voltar a beij-la. No ia ser fcil. Mas estava decidido a faz-la ultrapassar os seus terrores. Sabia que 
faria o que fosse preciso, O tempo necessrio para a salvar.
        Nessa noite Charles saiu tarde do apartamento dela, depois de a deixar j na cama, preparada para dormir. Charles beijou-a e saiu. Pedira-lhe uma chave, 
para que ela no precisasse de se levantar para ir fechar a porta. E na manh seguinte, pouco depois de ela se ter levantado para ir  casa de banho, quando estava 
a escovar o cabelo, ouviu-o meter a chave  porta e entrar no apartamento. Trouxera sumo de laranja e bageJs com creme, alm do New York Times, e estava agora a 
preparar ovos mexidos com bacon.
        - O colesterol faz-lhe bem, acredite. - E ela riu. - Coma.
        Grace obedeceu e ele levou-a depois a dar um passeio pela Primeira Avenida e voltaram para casa quando ela comeou a ficar cansada. Nessa tarde, Charles 
viu o jogo de basebol enquanto Grace dormia pacificamente nos seus braos e ele pensava na sorte que tivera. E quando acordou, Grace olhou-o e admirou-se da sorte 
que tivera.
        - Que est a fazer aqui, senhor Mackenzie? - Sorriu sonolentamente e ele inclinou-se para a beijar.
        - Vim para a fazer praticar no ditado.
        - No brinque.
        Nessa noite encomendaram pizza. Charles levara algum trabalho para fazer, mas recusava-se terminantemente a deixar que ela o ajudasse. E depois de ele ter 
terminado, olhou-o, sentindo-se culpada. Parecia-lhe que era chegada a altura de deixar de ter segredos para ele, embora soubesse que Charles nunca a pressionaria.
        - Creio que lhe devo dizer algumas coisas, Charles - disse calmamente alguns minutos depois. - Tem o direito de as saber e pode ficar a sentir de modo diferente 
em relao a mim, depois de as saber. - Chegara a altura, antes de o relacionamento deles se poder tornar mais profundo. Nem toda a gente queria uma mulher que tivesse 
cometido um crime. Com efeito, suspeitava de que a maioria no quereria. E talvez Charles fosse um deles...
        Ele prendeu as mos dela nas suas e fitou-a nos olhos antes de ela comear.
        - Quero que saibas que seja o que for que tenha acontecido, que tenhas feito, ou que te tenham feito a ti, eu te amo. Quero que saibas isso agora. E mais 
tarde... - Era a primeira vez que ele lhe falava assim e lhe dizia que a amava, e isso f-la chorar ainda antes de comear. Mas agora queria que ele a ouvisse e 
ver como ele se sentiria depois de lhe ter contado tudo. Talvez tudo mudasse.
        - Eu tambm te amo, Charles - murmurou, abraando-o e fechando os olhos, de onde corriam lgrimas em fio. - Mas h muita coisa que no sabes a meu respeito. 
- Respirou fundo, procurou o inalador no bolso e comeou desde o incio. - Quando eu era criana o meu pai batia constantemente na minha me... digo constantemente... 
todas as noites... com toda a fora... eu ouvia os gritos dela e as pancadas... e de manh via as marcas... Ela mentia sempre e fingia que no era nada. Mas todas 
as noites se passava o mesmo. Ele chegava a casa, gritava, ela chorava e ele batia-lhe. Quando essas coisas sucedem, passado algum tempo as pessoas deixam de ter 
uma vida normal. No se pode ter amigos, porque eles podem descobrir. Tambm no podia dizer a ningum, porque podiam fazer alguma coisa ao meu pai - acrescentou 
com tristeza: - A minha me pedia-me sempre que nada dissesse, para mentir, para fingir que nada se passava.  isso que eu recordo da minha infncia. - Grace suspirou 
de novo. Era custoso dizer-lhe, mas era preciso. Charles apertou-lhe as mos com mais fora.
        - Depois a minha me adoeceu com um cancro - continuou Grace. - Eu tinha ento treze anos. Ela tinha cancro no tero e teve de fazer radiaes, e... - Hesitou, 
procurando as palavras certas, mas continuando sem saber o que dizer. - Calculo que isso a tenha mudado... - Os olhos dela encheram-se de lgrimas e sentiu a garganta 
apertada pela asma, mas no podia deixar que isso lhe sucedesse. Tinha de lhe dizer. A sobrevivncia dela dependia tanto disso agora como de ter aberto os olhos 
em Bellevue. - A minha me foi ento ter comigo e disse-me que eu devia "cuidar" do meu pai, ser "boa para ele", ser a sua "menina especial", para ele gostar mais 
de mim do que nunca. - Charles tinha um ar seriamente preocupado ao ouvir a histria. - Ao princpio, no percebi o que ela me queria dizer mas ela foi com o meu 
pai ao meu quarto, uma noite e segurou-me para ele.
        Charles tinha os olhos cheios de lgrimas ao ouvi-la, e murmurou:
        - Oh, meu Deus!
        - Ela segurava-me todas as noites at eu compreender que no tinha outra alternativa. Era obrigada a faz-lo. Se no o fazia, por mais doente que ela estivesse, 
ele batia-lhe. Eu no tinha amigas, no falava com ningum, detestava o meu corpo, usava roupas velhas e largas, porque no queria que ningum me visse. Sentia-me 
suja e envergonhada, sabia que o que estava a fazer era errado, mas se o no fizesse ele batia-lhe a ela e a mim. s vezes batia-me do mesmo modo. E depois violava-me. 
Violava-me sempre. Gostava da violncia. Gostava de fazer mal  minha me e a mim. Uma vez em que eu no o fiz porque... - corou, sentindo-se outra vez com catorze 
anos... - o perodo... ele bateu-lhe tanto que ela chorou durante uma semana. Nessa altura j o cancro se espalhara aos ossos e ela quase morreu com as dores. Depois 
disso eu fiz aquilo sempre que ele quis, por mais que ele me magoasse. - Grace respirou fundo. Estava quase a acabar agora. O pior j ele ouvira, ou quase, e no 
conseguia parar de chorar. Grace limpou meigamente as lgrimas do rosto de Charles e beijou-o.
                - Oh, Grace, tenho tanta pena. - Queria tirar-lhe o desgosto, apagar o passado e mudar o futuro.
                - Est tudo bem... agora est tudo bem... - E continuou: - a minha me morreu quatro anos depois. Fomos ao funeral, assim como uma imensidade de 
pessoas. Centenas delas. Toda a gente gostava do meu pai. Era advogado e amigo de toda a gente. Jogava golfe com eles, ia aos jantares do Rotary Club e do Kiwanis. 
Era a pessoa mais simptica da cidade, todos gostavam dele e confiavam nele. E ningum sabia o que ele realmente era. Era um homem muito doente e um verdadeiro patife.
        No dia do funeral toda a gente passou a tarde a comer e a beber, a conversar e a tentar que ele se sentisse melhor. Mas ele no se importava. Continuava 
a ter-me a mim. No sei porqu, mas tinha formado a ideia de que, depois de a minha me morrer, eu j no precisaria de o fazer. Eu fazia aquilo por ela, e depois 
dela morta o meu pai j no a podia magoar, no lhe podia bater. Pensei que arranjasse outra pessoa qualquer. Mas para que havia ele de querer isso? Pelo menos de 
imediato. Tinha-me a mim. Para que precisaria de outra pessoa? Por isso, quando todos se foram embora, arrumei tudo, lavei a loua e fui fechar-me no meu quarto. 
Ele foi atrs de mim, comeou a bater na porta e a dizer-me para eu sair. Como no o fiz, foi buscar uma faca e fez saltar a fechadura. Depois arrastou-me para o 
quarto deles. Ele nunca tinha feito isso antes. Ia sempre ao meu quarto. Mas ir para o quarto dela era como transformar-me nela, como saber que aquilo seria para 
sempre, que nunca acabaria, nunca, at ele morrer, ou eu. E subitamente no pude mais. - Grace estava sufocada outra vez e Charles deixara de chorar, horrorizado 
com tudo o que ela lhe contava. - Depois disso no sei o que se passou. Ele magoou-me muito nessa noite. Bateu-me, violou-me. Ele vencia e eu sabia que ficaria sempre 
ali para ele me espancar e torturar. Ento lembrei-me da arma que a minha me tinha na gaveta da mesa-de-cabeceira. No sabia o que ia fazer com ela, se ia bater-lhe, 
assust-lo ou disparar sobre ele. No sei realmente nada, a no ser que ele me magoava tanto e eu estava to assustada que quase enlouquecia de medo e de dor. Ele 
viu a arma e tentou tirar-ma, mas logo a seguir ela disparou-se e ele comeou a sangrar para cima de mim. O projctil entrou-lhe na garganta, atravessou a medula 
e perfurou-lhe um pulmo. Ele ficou cado sobre mim a sangrar horrivelmente e depois disso no me recordo de mais nada at a polcia chegar. No sei o que fiz, mas 
chamei a polcia, pois ela chegou e eu lembro-me de estar embrulhada numa manta a falar com eles.
        - Disseste-lhe o que ele te fez? - perguntou Charles ansiosamente, querendo mudar o curso da histria, angustiado por no o poder fazer.
        - Claro que no. No podia fazer isso  minha me. Nem a ele. Achei que devia ficar calada. Creio que  minha maneira era to louca como eles.  o que sucede 
s mulheres e s crianas nessas situaes. No contam nada. Preferem morrer do que faz-lo. Falaram a uma psiquiatra para me consultar, quando me prenderam nessa 
noite. Ela mandou-me para o hospital e l viram que eu tinha sido violada ou que "algum tivera relaes comigo", conforme disse o advogado de acusao no tribunal.
        - Alguma vez lhes contaste a verdade?
        - Durante um certo tempo, no. Molly, a psiquiatra, fez tudo o que lhe foi possvel para me convencer a contar. Ela sabia. Mas eu menti-lhe. Ele era meu 
pai. Mas finalmente o meu advogado convenceu-me e eu contei-lhes.
        - E depois? Calculo que depois disso te tenham deixado em paz.
        - No. A acusao fantasiou a teoria de que eu queria era herdar o dinheiro do meu pai, que pensava que se o matasse ficaria com tudo. E esse tudo era uma 
pequena casa grandemente hipotecada, e metade da sua firma de advogados, muito mais pequena do que a tua. De qualquer modo, no podia herdar coisa alguma porque 
o matei. No tinha amigos. Ningum. Nunca contei a pessoa alguma. Os meus professores disseram que eu era distante e estranha, os colegas declararam que mal me conheciam. 
Era fcil acreditar que eu enlouquecera e matara o meu pai. O scio do meu pai mentiu no tribunal e declarou que eu lhe fizera perguntas acerca do dinheiro do meu 
pai, mas que ele lhe devia uma grande quantia. Por fim, acabou por ficar ele com tudo e deu-me cinquenta mil dlares para eu me manter afastada e o deixar receber 
tudo. Fiz isso mesmo e ainda tenho esse dinheiro. No sei porqu, mas no sou capaz de o gastar.
        No entanto, o tribunal achou que eu matara o meu pai por causa do dinheiro dele, e que provavelmente andara metida com algum e, ao chegar a casa, o meu 
pai me ralhara e que por isso eu o matara. - Grace sorriu amargamente, recordando cada pormenor. - Chegaram a dizer que eu provavelmente tentara seduzir o meu pai. 
Encontraram a minha camisa de noite cada no cho, no stio para onde ele a atirou depois de a ter rasgado, e acharam que talvez me tivesse posto nua  frente dele 
e que, quando vi que ele no me queria, lhe dera um tiro. Acusaram-me de homicdio voluntrio, o que me poderia ter levado  pena de morte. Eu tinha dezassete anos, 
mas fui julgada como adulta. E, alm de Molly e de David, o meu advogado, nunca ningum acreditou em mim. O meu pai era considerado demasiado perfeito, era querido 
de mais pela comunidade, e toda a gente ficou a odiar-me por o ter morto. Mesmo depois de contar a verdade, ningum me acreditou. Era demasiado tarde. Todos gostavam 
dele.
        Fui condenada a dois anos de priso e dois anos de liberdade condicional. Passei dois anos no Dwight Correctinal Center, onde - sorriu tristemente para Charles 
- tirei o curso por correspondncia de uma universidade local. Foi a minha educao. E, se no fossem duas mulheres que l se encontravam presas, Sally e Luana, 
que eram amantes, provavelmente teria morrido ali. Uma noite fui raptada por um bando e iam violar-me e fazer-me escrava delas quando Sally, a minha companheira 
de cela, e Luana, as impediram. Depois disso nunca mais ningum me tocou, nem elas. Luana provavelmente ainda l est, mas Sally j deve ter sado, a no ser que 
tenha feito algum disparate para ficar junto de Luana. Quando sa elas disseram-me para as esquecer e para deixar tudo aquilo para trs.
        Nunca mais voltei  minha terra. Fui para Chicago, e o oficial encarregado de vigiar a minha liberdade condicional passou a vida a ameaar-me de me fazer 
voltar para a priso se eu no dormisse com ele. Ali nunca ningum soube quem eu era, nem de onde viera. No souberam que tinha estado presa, ou que matara o meu 
pai. No sabiam coisa alguma. s a primeira pessoa a quem conto tudo, desde que contei a David e a Molly. - Grace sentia-se esgotada mas muito mais leve. Fora um 
alvio contar-lhe.
        - E o padre Tim? Sabe?
        - Ele talvez tenha adivinhado, mas eu nunca lhe disse nada. No me pareceu que devesse faz-lo. Mas trabalhei em Saint Mary em Chicago, e aqui em Saint Andrew's, 
porque  a minha maneira de pagar por aquilo que fiz. E talvez possa impedir que alguma pobre criana passe pelo que eu passei.
        - Meu Deus... meu Deus... Grace... como sobreviveste a tudo isso? - Apertou-a mais contra si, incapaz de imaginar sequer as dores e os tormentos que ela 
sofrera.         Queria apenas apert-la nos seus braos para sempre.
        - Sobrevivi...  tudo... Mas de certas maneiras no o fiz. S uma vez sa com um homem. Nunca tive sexo com mais ningum a no ser o meu pai. E no tinha 
a certeza de poder ter. O homem que me drogou disse que eu quase o matei quando tentou tocar-me, e talvez o tivesse feito. No creio que isso possa alguma vez fazer 
parte da minha vida. Contudo... - beijara Charles e ele no a assustara nada. Pensava se poderia vir a aprender a confiar nele. Procurou nos olhos de Charles algum 
sinal de condenao, mas viu apenas pena e compaixo.
        - Gostava de o ter morto por ti. Como puderam mandar-te para a priso por causa disso? Como puderam ser to cegos e to maus?
        - As coisas por vezes acontecem assim. - Grace no mostrava amargura. H muito que aceitara o que lhe sucedera. Mas sabia que se Charles a traisse, se fosse 
contar s pessoas o passado dela, a sua vida em Nova iorque estaria arruinada. Teria de sair dali e no queria faz-lo. Para lhe contar, ela precisara de muita confiana 
nele, mas merecera a pena.
        - O que te faz pensar que nunca poders voltar a ter uma vida ntima? Alguma vez tentaste?
        - No. Mas no me posso imaginar a faz-lo sem ressuscitar o pesadelo.
        - Deixaste o resto para trs e avanaste. Porque no fazes o mesmo com isso? Deve-lo a ti mesma, Grace, e  pessoa que te amar, no caso eu - acrescentou 
com um sorriso. Depois fez-lhe outra pergunta. - Serias capaz de ir a um terapeuta, se precisasses?
        Grace no tinha a certeza, mas de um modo estranho sentia que isso seria uma traio a Molly.
        - Talvez... - disse hesitantemente. Talvez que at a terapia fosse demasiado para ela.
        - Tenho a impresso de que s mais saudvel do que pareces. No sei, mas tenho a impresso de que no serias capaz de aguentar tudo isso se o no fosses. 
Creio que ests apenas assustada, mas quem no estaria? E no tens exactamente cem anos.
        - Tenho vinte e trs - disse Grace como se fosse uma grande coisa. Ele riu e beijou-a.
        - No estou impressionado, garota. Sou quase vinte anos mais velho do que tu. - Faria quarenta e trs anos no Outono e ela sabia-o.
        Mas Grace olhou-o com um ar muito srio.
        - Diz-me sinceramente: esta histria no  mais do que tu possas suportar?
        - No sei porqu. No tiveste mais culpa de tudo o que te sucedeu do que de seres assaltada em Delancey Street. Foste uma vtima, Grace, uma vtima de duas 
pessoas muito doentes que se serviram de ti. Tu no podias fazer outra coisa, Grace. Mesmo quando tinhas sexo com o teu pai no tinhas alternativa. Qualquer outra 
criana julgaria estar a ajudar a me moribunda. Como poderias resistir-lhes? Foste sempre uma vtima. Parece teres sido sempre uma vtima at vires para Nova iorque 
em Outubro passado. No achas que  altura de mudar isso? Passaram-se dez anos desde que comeou o teu pesadelo. Quase metade da tua vida. No achas que tens agora 
direito a uma vida melhor? No achas que a mereces? - Beijou-a apaixonadamente, deixando transparecer todo o amor que sentia por ela. No tinha dvidas. Estava profundamente 
apaixonado por ela, disposto a aceitar o passado, em troca pelo futuro. - Amo-te. Estou apaixonado por ti. No me importo com o que fizeste, nem com o que te aconteceu. 
S sinto pena que tenhas sofrido tanto e sido to infeliz. Gostava de poder apagar tudo isso, mudar as tuas recordaes, mas no posso. Aceito-te exactamente como 
s. Amo-te tal qual s e tudo quanto desejo  aquilo que podemos dar um ao outro. Quero agradecer  minha boa estrela o dia em que entraste no meu escritrio. Nem 
posso crer na sorte que tive em te encontrar.
        - Eu  que tive sorte - disse ela, admirada com a reaco de Charles. Mal podia acreditar no que ele dizia. - Porque me dizes essas coisas? - perguntou quase 
a chorar. Era impossvel, no podia ser.
        - Digo-as porque as penso e sinto. Porque no te descontrais e deixas de te preocupar durante uns tempos? Agora  a minha vez. Permite que eu me preocupe 
pelos dois. Est bem? - Aproximou-se dela, sorrindo, e limpou-lhe as lgrimas com os dedos. - Est bem?
        - Est bem, Charles... amo-te.
        - No tanto como eu te amo a ti - disse ele, tomando-a nos seus braos e beijando-a. Depois soltou uma pequena gargalhada.
        - O que  que tem graa? - perguntou Grace,
tocando-lhe nos lbios com as pontas dos dedos, o que o excitou ainda mais. Morria de desejos por ela, mas sabia que durante algum tempo ainda nada se passaria entre 
eles.
        - Estava a pensar que, apesar da tua delicada psicologia, a nica coisa que te tem salvo de seres violada por mim  o gancho que te puseram na pelve. Francamente, 
acho que  a nica coisa que me detm.
        - Que vergonha - disse Grace, pensando de sbito se queria ser salva dele. Era uma questo interessante.
        Charles tratou dela durante as duas semanas seguintes, indo constantemente ao apartamento, dormindo ao lado dela na cama, aos fins-de-semana. Grace tinha 
uma sensao de conforto junto dele e gostava de acordar de manh nos seus braos. Charles contou-lhe histrias da sua infncia, falou-lhe dos pais, que j no eram 
vivos, mas que tinham sido muito bons para ele e aos quais amara muito.
        Charles era filho nico, tivera uma boa vida e sabia isso. E Grace contou-lhe histrias a respeito de Luana e de Sally. Foi uma estranha troca de recordaes 
das mais variadas. Passada a primeira semana, Charles alugou uma limusina e levou-a a dar um passeio por Connecticut. Pararam para almoar em Weston, na Cobb's Mill 
Inn, o que foi maravilhoso, e regressaram a Nova iorque exaustos e relaxados.
        Os mdicos disseram ento a Grace que ela tinha recuperado muito bem e que dentro de uma semana poderia voltar a trabalhar, mas Charles convenceu-a a esperar 
outra semana mais. Grace fez uma pergunta muito importante e ficou satisfeita com a resposta. Foi visitar os seus amigos de St. Andrew's durante o dia, de txi, 
e ficaram todos encantados quando a viram. Grace prometeu-lhes que em breve voltaria a trabalhar ali, mas provavelmente s em Setembro, quando deixasse as muletas.
        E no fim-de-semana seguinte, Charles levou-a aos Hamptons para passar o fim-de-semana. Ficaram numa pequena estalagem muito confortvel e o cheiro do mar 
que chegava at eles era delicioso. Chegaram ao fim da tarde de sexta-feira e ele f-la ir dar um passeio pela praia, mesmo com as muletas. Depois Grace estendeu-se 
na areia, ouvindo o rudo do oceano, e Charles sentou-se ao lado dela.
        - Isto  maravilhoso - disse Grace. - Antes de vir para Nova iorque nunca tinha visto o mar.
        - Espera at conheceres Martha's Vineyard. - Charles prometeu lev-la l no Dia do Trabalho, mas Grace continuava preocupada com o futuro deles. Que iriam 
fazer dentro de uma semana, quando ela voltasse para o escritrio? Teriam de manter a sua relao em segredo. Era estranho pensar nisso. No se tratava ainda de 
uma ligao amorosa, mas era mais, muito mais que amizade.
        - Em que  que estavas a pensar? - perguntou ele. Escurecera e eles continuavam sentados na areia.
        - Em ti... - murmurou ela em voz baixa, o que o encantou.
        - E o que  que pensavas de mim?
        - Estava a pensar quando iramos dormir juntos - respondeu ela com ar casual, o que fez com que Charles a olhasse, confuso.
        - Que quer isso dizer? - perguntou ele. - De resto j temos dormido. Tu at ressonas, s vezes.
        - Sabes o que quero dizer - empurrou-o meigamente e ele riu. Grace era encantadora...
        - Queres dizer?... - Charles ergueu uma sobrancelha, fingindo-se surpreendido. - Ests a sugerir que...
        - Acho que sim. - Corou. - Falei com o cirurgio ortopdico ontem e ele diz que estou bem. Agora s preciso de me preocupar com a cabea e no com a pelve. 
- Charles riu ao ouvi-la dizer essas palavras. Sentia-se satisfeito por terem tido aquelas semanas para se conhecerem antes de ela lhe contar a histria dela e pensarem 
em sexo. Decorrera mais de um ms desde ento e eles sentiam-se completamente  vontade um com o outro.
        -  um convite? - perguntou ele com um sorriso que teria derretido o corao de qualquer mulher, mas o dela j se derretera h muito, embora isso sucedesse 
cada vez que o olhava. - Ou ests a brincar comigo?
        - Possivelmente as duas coisas. - Grace andava a pensar nisso h dias e agora queria experimentar. Queria saber o que sucederia e se havia alguma possibilidade 
de terem um futuro.
        -  a minha deixa para me levantar da areia morna e te arrastar pelos cabelos at ao quarto, deixando as muletas para trs?
        - Isso parece-me bastante bom. - Ela fazia-o sentir-se mais novo e, apesar da sua triste histria, os dois riam bastante. Era tudo to diferente do que vivera 
com a sua primeira mulher. Michelle era demasiado intensa, egocntrica e nervosa. Grace era inteligente, bem-disposta, preocupada com os outros. Apesar de ter sofrido 
muito, mostrava-se bondosa e meiga. E, alm disso, tinha um forte sentido de humor.
        - V, vamos regressar ao hotel. - Ajudou-a a levantar-se da areia e caminharam lentamente em direco ao hotel, no sem fazerem uma paragem para comer um 
gelado.
        - Gostas de banana split? - perguntou Grace, enquanto lambia o cone com o gelado. Charles sorriu. s vezes ela parecia uma criana, embora tivesse vivido 
e sofrido muito na sua curta vida. Charles gostava desse misto de mulher e de criana. Era a vantagem de ser to nova. Isso dava-lhe possibilidades infindveis e 
a perspectiva de um futuro risonho.
        - Sim, gosto. Porqu?
        - Eu tambm. Amanh podemos comer um.
        - Est bem. Podemos ir para o hotel, agora? - Tinham levado quatro horas de Nova iorque at ali, por causa do trfego, e era quase meia-noite.
        - Sim, agora podemos voltar para o hotel. - Grace sorriu misteriosa e adulta de novo. Era como estar a ver duas criaturas diferentes aparecerem por detrs 
das nuvens. Charles amava o seu ar brincalho e o facto de ainda se mostrar infantil.
        O quarto deles, na estalagem, estava decorado com chintz estampado com rosas a completar uma mobilia vitoriana. Havia um lavatrio de mrmore rosado e a 
cama tinha dossel e era muito bonita. Charles mandara colocar no quarto um balde com gelo e champanhe e sobre a cmoda via-se um grande ramo de lilases e rosas, 
as suas flores preferidas.
        - Pensas em tudo - disse Grace, beijando-o, enquanto fechavam a porta do quarto.
        - Sim - respondeu Charles, orgulhoso. - E nem sequer posso pedir  minha secretria que me ajude.
        -  bom que no o faas - declarou Grace com ar feliz, enquanto ele enchia as taas. Grace bebeu apenas um golinho e pousou a taa. Sentia-se demasiado excitada 
para beber Aquilo era como uma lua-de-mel e as expectativas eram terrveis para os dois, visto no saberem que fantasmas se juntariam a eles.
        - Assustada? - perguntou Charles quando se deitaram ele com as cuecas e ela com a camisa de noite. Ela disse que sim com a cabea. - Eu tambm - confessou 
Charles, enquanto ela escondia o rosto no pescoo dele e o abraava. Ele tinha apagado as luzes. Havia apenas uma vela acesa na extremidade do quarto. O ambiente 
era inesquecivelmente romntico.
        - Que fazemos agora? - sussurrou ela ao ouvido dele.
        - Vamos dormir - disse Charles num murmrio.
        - A srio? - exclamou ela, surpreendida, e ele riu.
        - No... acho que no... - Beijou-a ento, desejando quase que j tivesse acabado, mas no ousando ainda, sem saber bem como proceder, no querendo mago-la 
de maneira nenhuma. Era tudo muito mais difcil do que ele esperara. Mas quando a beijou, Charles esqueceu-se dos ossos partidos e da fealdade do passado dela. No 
havia recordaes, nem tempo, nem outra pessoa, mas apenas Charles e a sua incrvel meiguice, a sua infindvel paixo e amor por ela, enquanto ele avanava pouco 
a pouco para mais perto dela e ela fazia o mesmo. E subitamente eles tornaram-se apenas um e ela pde sentir a fundir-se nele at no poder aguentar mais. Era maravilhoso 
e subitamente ambos explodiram em unssono. Grace ficou presa nos braos dele com uma sensao de assombro total. Nunca conhecera nada que se parecesse com aquilo, 
mesmo remotamente. No havia qualquer semelhana com o que lhe sucedera anteriormente, nem recordaes, nem dor, nada, a no ser Charles e o amor que eles partilhavam. 
Pouco depois foi Grace quem o quis de novo, que o arreliou e que brincou com ele, at Charles no poder aguentar mais.
        - Oh, Deus... - murmurou ele mais tarde - s demasiado nova para mim, vais-me matar... mas que maneira de morrer. - E ento, de repente, pensou se no se 
teria precipitado e olhou-a, receoso. Mas Grace riu. Estava tudo bem agora, para grande assombro e alegria de ambos.
        No dia seguinte, Grace no se esqueceu do gelado prometido. Comeram banana split e passaram um fim-de-semana delicioso. Passaram muito tempo no quarto, descobrindo-se 
um ao outro, e o resto na praia, ao sol. Quando voltaram para Nova iorque, domingo  noite, fizeram amor outra vez, na cama dela, s para terem a certeza de que 
tinha a mesma magia, ali no apartamento. E Charles achou que era ainda melhor.
        - A propsito - disse Charles depois, com ar sonolento, voltando-se para ela - ests despedida, Grace. - Ele estava meio a dormir, mas Grace sentou-se na 
cama, muito direita. Que lhe estava ele a dizer? O que era aquilo? Parecia assustada.
        - O qu? - quase gritou no escuro e ele abriu os olhos, surpreendido. - Que queres dizer? - repetiu.
        - Ouviste o que eu disse. Ests despedida - repetiu, sorrindo com ar satisfeito.
        - Porqu? - Ela estava agora quase a chorar. Gostava de trabalhar com ele, sobretudo agora, e devia voltar ao trabalho nessa semana. No era justo. Que estava 
ele a fazer?
        - No durmo com as minhas secretrias - explicou ele, sempre com um sorriso. - No fiques to preocupada. Estou a pensar noutro trabalho para ti.  um aumento, 
ou poder ser, conforme o teu ponto de vista. Gostarias de ser minha mulher? - Ele estava agora bem acordado e Grace parecia atordoada. Tremia ao perguntar:
        - Falas a srio?
        - No. Estou s a brincar. O que  que pensas? Claro que falo a srio.
        - De verdade? - Ela ainda no podia acreditar no que ouvia e continuava sentada  a olh-lo com incredulidade, o que o fez rir. - Claro que  verdade!
        - Oh!
        - Ento?
        - Gostava muito. - Grace inclinou-se para o beijar e ele prendeu-a nos braos.
 
CAPTULO 13

        Grace no voltou ao escritrio e seis semanas depois casaram pelo registo, em Setembro. Foram a Saint Bart's passar quinze dias de lua-de-mel e ela mudou 
as suas poucas coisas para o pequeno, mas elegante, apartamento de Charles, situado na Rua Sessenta e Nove Este. Tinham regressado exactamente h uma semana quando 
tiveram a sua primeira zanga. Grace queria voltar a trabalhar em St. Andrew's e ficou horrorizada quando verificou que ele a queria impedir.
        - s doida? Lembras-te do que te aconteceu a ltima vez que l foste? No concordo de maneira nenhuma! - arles era peremptrio. Grace podia fazer tudo o 
que quisesse, mas isso no. E no ia ceder.
        - Aquilo foi um mero acidente - insistia ela, mas Charles era ainda mais obstinado.
        - No foi nada disso. Todas essas mulheres tm maridos violentos. E tu vais l dizer-lhes que os deixem. Pode haver outro, ou outros homens que se queiram 
vingar em ti, por causa desses conselhos, tal como fez Sam Jones. - Este conseguira no ser condenado  morte pelo assassnio da mulher e dos filhos, e pelo ataque 
a Grace e sabiam que j se encontrava em Sing-Sing a cumprir pena. - No vais! Nem que eu tenha de falar com o padre Tim. Proibo-te terminantemente.
        - Ento que devo fazer? - disse Grace, quase a chorar. Tinha vinte e trs anos e absolutamente nada para fazer at ele chegar a casa, s seis. Tambm no 
queria que ela fosse trabalhar para a firma. Podia ir almoar com Winnie, de tempos a tempos , mas isso era muito pouco para a manter ocupada... E Winnie falava 
em mudar-se para Filadlfia para estar mais perto da me.
        -  Vai s compras. Estuda. Vai ao cinema. Faz parte de uma comisso para obras de caridade. Come bananas split - disse firmemente Charles. Tentava ir almoar 
a casa todos os dias, mas por vezes no conseguia. Grace voltou-se para o padre Tim para ele a apoiar, mas ele tambm no o fez. Apesar de Grace ser uma pessoa extraordinria 
no trabalho que faziam e dele gostar de a ter ali, o padre Tim concordava com Charles. Grace j pagara um preo demasiado alto por trabalhar ali e era altura de 
deixar de pagar pelos pecados dos outros. Agora tinha a sua prpria vida para viver.
        - Viva bem com o seu marido, viva a sua vida, Grace. Merece bem ser feliz - disse-lhe com toda a sensatez o padre, mas Grace continuava irritada e  procura 
de um projecto. Estava a pensar em inscrever-se numa universidade, mas em Novembro, seis semanas depois de terem casado, alterou a sua deciso.
        - Que ar  esse? - perguntou Charles, ao chegar a casa para almoar. - Pareces o gato que engoliu o canrio.
        Charles estava a ficar famoso no escritrio devido aos seus demorados almoos e os seus scios gracejavam com ele a respeito do trabalho que dava ter uma 
esposa jovem. Mas ele sabia que todos o invejavam e que gostariam de estar no seu lugar.
        - Que andaste a fazer? - quis saber, pensando que ela teria descoberto algo em que se ocupar. Sentia-se infeliz por no ir a St. Andrew's. - Onde foste hoje?
        - Ao mdico.
        - Como est a pelve?
        - ptima. Cicatrizou lindamente. - Nessa altura ela sorria de orelha a orelha e Charles riu. Grace ficava to engraada quando tinha um segredo. - Mas h 
outra coisa. Charles ficou imediatamente srio.
        - Est alguma coisa mal?
        - No. - Grace sorriu outra vez e beijou-o nos lbios, ao mesmo tempo que lhe abria o fecho das calas. Tendo em conta os cuidados com que tinham comeado, 
tinham verdadeiramente recuperado o tempo perdido desde que ele a pedira em casamento. - Vamos ter um beb - murmurou ela, quando Charles se preparava para a levar 
para a cama e a beijava apaixonadamente.
        - Vamos? - olhou-a com um assombro total. - Agora?
        -  No, tolinho. Em Junho. Julgo que engravidei em Saint Bart's.
        - Oh! - Charles ficou sem fala. Ia ser pai pela primeira vez aos quarenta e trs anos e sentiu-se completamente entontecido. Nunca se sentira to feliz na 
sua vida e mal podia esperar para diz-lo a toda a gente. - No faz mal fazermos amor?
        - Ests a brincar? - Grace riu da expresso dele. - Podemos fazer amor at Junho.
        - Tens a certeza de que no faz mal a coisa alguma?
        - Tenho. - Fizeram amor, como sempre faziam, em vez de almoarem, e ele comia depois um cachorro-quente na rua, enquanto corria a caminho do escritrio. 
Nunca tivera uma vida to boa. Era muito melhor do que fora com a sua ex-mulher, actriz, ou com qualquer outra pessoa com quem tivesse vivido na sua juventude. Grace 
era perfeita e ele adorava-a.
        Passaram o Natal em St. Moritz e na Pscoa quis lev-la ao Havai, mas, em vez disso, foram a Pam Beach, porque ela estava grvida de sete meses.
        Grace tivera uma gravidez sem problemas e tudo correra bem. O mdico estava um pouco preocupado apenas com o que iria suceder  sua pelve na altura do nascimento. 
Se houvesse algum problema, faria uma cesariana. Se no fosse assim, Charles prometera estar junto dela e em Maio comearam a ir s aulas Lamaze em Lenox Hill. Nessa 
altura j Grace decorara o quarto do beb e  noite davam longos passeios subindo a Madison Avenue ou descendo a Park Avenue. Falavam da vida deles, da sorte que 
tinham tido e do seu beb. Ainda se sentiam surpreendidos e maravilhados por o passado nunca se ter interposto entre eles.
        Certa vez, Charles perguntara-lhe como se sentiria ela se a histria de ter morto o pai e ter estado na priso fosse conhecida, e ela respondera-lhe que 
detestaria.
        - Porqu? - Grace admirava-se de ele lhe ter feito a pergunta.
        - Porque por vezes essas coisas podem vir  superfcie - respondeu Charles filosoficamente. Aprendera isso com a sua ltima mulher e com o divrcio. A vida 
deles aparecia constantemente exposta nos jornais. A histria de Grace provocaria sem dvida um grande escndalo, mas graas a Deus no eram personalidades pblicas 
e no havia motivo para se preocuparem. Ele agora era um vulgar cidado, desde que deixara de ser casado com uma estrela. E Grace era apenas sua mulher. Era perfeito.
        Uma noite, quando se dirigiam para casa, Grace entrou em trabalho de parto. Tinham andado a ver montras em Madison Avenue e ela mal deu pelas primeiras dores. 
S passado um bocado  que percebeu o que se estava a passar. Telefonaram ao mdico e ele disse-lhes para terem calma, pois os primeiros filhos no eram geralmente 
apressados.
        - Sentes-te bem? - perguntou Charles um milhar de vezes, enquanto ela continuava estendida na cama a ver televiso e a comer gelado. - Tens a certeza de 
que  isto que devemos fazer? - perguntou nervosamente. Sentia-se como se tivesse mil anos, ao v-la, receoso de que ela tivesse de passar um mau bocado, ou que 
o beb nascesse ali em casa. Ultimamente ela tinha uma barriga enorme. Mas Grace parecia despreocupada, vendo o seu programa favorito, ao mesmo tempo que bebia ginger 
ale e comia gelado. Era quase meia-noite quando ela deu sinais de se sentir verdadeiramente incomodada e deixou de poder falar enquanto sentia as dores. Charles 
sabia que era altura de a levar para o hospital e chamar o mdico.
        Telefonou-lhe outra vez e o mdico disse-lhes para irem. Enquanto a ajudava a descer as escadas, Grace refilou vrias vezes com Charles, mas ele sorriu. 
Agora era mesmo a srio. Em breve teriam um filho e era a coisa mais excitante que j lhes sucedera. Depois de a instalarem na sala de partos, ela acalmou, mas sentia-se 
surpreendida pelas fortes dores que as contraces provocavam. Finalmente, por volta das duas da manh, Grace estava ofegante e dizia que no podia aguentar mais.
        Charles fazia tudo o que lhe fora ensinado, mas no servia de nada, e ele comeava a recear que tivessem de lhe fazer uma cesariana. Mas quando as dores 
se tornaram mais fortes, Grace comeou a gritar e a agarrar-se a ele e Charles seria capaz de tudo para ela no sofrer mais. Pedia s enfermeiras que lhe dessem 
qualquer coisa para as dores.
        - Est tudo bem, senhor Mackenzie. A sua mulher est ptima! - Mas Grace parecia prestes a morrer e comeara a gritar. Levaram-na ento para outra sala, 
onde o beb iria nascer, e ela comeou a fazer fora. Charles achou que nunca vira nada to doloroso, e lamentava terem feito aquilo. S queria tom-la nos braos 
e fazer a dor desaparecer. Mas nada a podia ajudar agora. O mdico no lhe queria dar medicao para a dor. Dizia que o parto natural era melhor para a me e para 
a criana. Charles, ao presenciar o sofrimento da mulher, tinha vontade de o matar.
        Grace fez fora durante uma hora e s cinco da manh estava louca com dores e incoerente com a agonia de cada contraco. E ao v-la, Charles jurava a si 
prprio que no voltaria a fazer tal coisa, que nunca mais tal se passaria. E quando ia prometer que nunca mais lhe tocava, Grace soltou um grito terrvel e uma 
espcie de uivo prolongado e, subitamente, ele viu-se a olhar para o rosto do filho, ao qual tinham decidido dar o nome de Andrew Charles Mackenzie. Tinha grandes 
olhos azuis como Grace, cabelo de um ruivoescuro, mas em tudo o resto era parecido com Charles, at  ponta dos dedinhos minsculos. Era como se se estivesse a ver 
ao espelho. Charles ria e chorava ao mesmo tempo ao olh-lo.
        - Oh, meu Deus...  to bonito! - murmurou Charles, maravilhado perante o beb, inclinando-se para beijar a mulher. Ela estava deitada, exausta de to prolongado 
esforo, mas, extasiada, olhava para o marido.
        - O beb est bem? - perguntou vrias vezes, enquanto o limpavam e examinavam os pulmes. Depois puseram-no sobre os seios da me e ele ficou aconchegado 
entre eles, enquanto Charles os olhava.
        - Grace... como poderei alguma vez agradecer-te? - murmurou Charles, pensando como pudera viver tanto tempo sem aquele beb. E como ela fora corajosa ao 
passar por tudo aquilo por causa dele. Nunca se sentira to comovido, e nunca amara tanto ningum como amava Grace nesse momento.
        Depois foram para o quarto dela e o beb ficou deitado junto de Grace. Com grande assombro de Charles, foram todos para casa na manh seguinte. A me era 
nova e saudvel e o beb estava ptimo. Pesava perto de trs quilos e meio. O parto fora natural e no havia razo para no irem para casa, segundo explicou o obstetra. 
Charles compreendeu ento que tinha todo um novo mundo a descobrir. Sentia-se aterrorizado por levar o beb para casa to cedo, mas Grace agia como se aquilo fosse 
completamente natural e mostrava-se muito  vontade com o filho desde o momento em que ele nascera. Charles teve mais dificuldades, mas da a uma semana era um auxiliar 
competente e falava constantemente do beb. A nica coisa que os amigos no lhe invejavam era as noites sem dormir. Charles ia todos os dias para o trabalho a sentir-se 
como se tivesse passado a noite ao volante de uma gaiola de hamster. Andrew acordava de duas em duas horas para mamar e em seguida levava mais ou menos uma hora 
para voltar a adormecer. Charles gastava apenas um pouco mais. Parecia-lhe que dormia uns quinze minutos de cada vez e ao todo devia ter umas duas horas e meia de 
sono, o que era menos umas cinco horas e meia do que precisava. Mas de qualquer modo era divertido e adorava a mulher e o filho.
        Alugaram uma casa em East Hampton no ms de Julho e passaram a o aniversrio de Grace. Charles ia l duas ou trs vezes por semana e Grace andava para trs 
e para diante com o beb para estar com ele. Em Agosto, ele tirou duas semanas de frias e foram para Martha's Vineyard, para a antiga casa dos pais dele. Grace 
nunca se sentira to feliz na sua vida. Em Outubro descobriu que estava outra vez grvida e ficou to encantada como ele.
        - Porque no havemos de ter gmeos desta vez para ficarmos despachados? - dissera Charles, bem-humorado. Estava realmente encantado com o filho e dormia 
agora quatro ou cinco horas por noite, o que lhe parecia muito. Achava graa  maneira como a sua vida se alterara to radicalmente.
        O segundo beb foi mais lento e mais uma vez Charles se viu pronto a jurar que nunca mais voltaria a tocar na mulher, mas dessa vez o mdico acabou por ceder 
e deu-lhe qualquer coisa para as dores. No ajudou muito, mas sempre foi melhor. Dezanove horas depois de ter iniciado o trabalho de parto, Abigail Mackenzie fez 
a sua entrada no mundo e olhou para o pai com uma expresso de espanto. Charles ficou derretido ao v-la. A filha era uma verso miniatural da me, apenas com o 
cabelo escuro do pai. Era uma verdadeira beldade. E conseguiu tornar-se bem notada por aparecer no dia do vigsimo quinto aniversrio da me. Charles tinha quase 
quarenta e cinco. Foram anos de grande felicidade.
        Grace estava constantemente ocupada com os filhos. Passeava com eles, levava-os ao jardim-de-infncia, mais tarde s aulas de ginstica, s aulas de msica. 
A sua vida era totalmente ocupada por eles. Preocupava-se muito por isso ser aborrecido para Charles, mas ele parecia gostar da vida que tinham. Era tudo muito novo 
para ele, e fazia inveja a todos quantos o conheciam, com a sua jovem mulher e os filhos pequenos.
        Grace nunca mais voltara ao seu trabalho de caridade, embora ainda falasse nele. Mas depois do nascimento de Andrew, ela ofereceu um presente, em nome dele, 
ao St. Andrew's Shelter. Deu-lhe todo o dinheiro que lhe fora entregue por Frank Wills. Parecia-lhe a melhor maneira de o empregar. De certo modo, aquele dinheiro 
queimar-lhe-ia as mos, era uma recordao de outros tempos que ela no queria recordar, e o padre Tim havia de arranjar maneira de o gastar para fazer bem aos outros. 
Quando Abigail nasceu, ofereceram outro donativo, embora mais pequeno. Mas h muito tempo que no os visitava. Estava demasiado ocupada com o marido e os filhos.
        Durante trs anos, depois de Abigail nascer, Grace passou todos os momentos dos seus dias com eles, e todas as noites com Charles, acompanhando-o a jantares, 
a festas. Iam ao teatro e ele levou-a pela primeira vez  pera. Grace descobriu que gostava. Toda a sua vida desabrochava e s vezes sentia-se culpada, por saber 
que noutros stios outras pessoas eram menos afortunadas, e sofriam como ela em tempos sofrera. Ela, que agora era to livre e tinha tanta sorte.
        Pensava no que teria sucedido a Luana e a Sally e s mulheres que ela tentara ajudar em St. Andrew's. Mas agora parecia j no ser altura para essas coisas. 
Por vezes tambm pensava em como seria a vida de David na Califrnia e onde estaria ele agora. Mas a sua vida actual parecia to distante desses tempos conturbados 
que ela at tinha dificuldade em recordar como vivera antes de casar com Charles. Era como se tivesse nascido outra vez no dia em que o conhecera.
        Quando Abigail entrou para o jardim-escola, Grace quis ter outro beb, mas dessa vez no conseguiu engravidar. Ela tinha ento vinte e oito anos e o mdico 
apenas lhe disse que umas vezes era mais fcil engravidar do que outras. Mas ela tambm sabia que com tudo o que lhe sucedera antes, tivera muita sorte em engravidar 
aquelas duas vezes e sentia-se grata pelos dois filhos que tinha. s vezes ficava parada a olh-los e a sorrir. Depois ela e Andrew iam para a cozinha e faziam doces 
de que ele gostava, ou sentava-se junto de Abigail e recortava bonecos de papel com ela, ou fazia pulseiras com contas ou retratos com espaguete. Gostava de estar 
com eles e nunca se aborrecia nem se cansava de estar na sua presena.
        Ento, uma manh em que esperava que fossem horas de os ir buscar  escola, para almoarem, sentou-se na cozinha a beber uma chvena de caf e a ler o jornal. 
E, ao ler o ttulo do New York Times, sentiu o estmago revoltado. Um psiquiatra de Nova iorque matara a sua filha adoptiva, uma criana de seis anos, e a mulher, 
espancada tambm por ele, assistira a tudo, impotente para o fazer parar. Grace leu a notcia com lgrimas nos olhos. Era inconcebvel. Era um homem educado, com 
um consultrio e um lugar de docente numa universidade. A criana estava com eles desde o seu nascimento e o casal tivera depois uma filha que morrera dois anos 
antes, num acidente, que agora se tornava suspeito. Grace comeou a chorar ao ler o artigo, desejando poder consolar a criana, imaginando os seus gritos enquanto 
o pai lhe batia. O choque que aquilo lhe causou foi to forte que quando saiu para ir buscar os filhos ainda chorava. E ia muito calada enquanto caminhava com os 
filhos em direco a casa. Andrew perguntou-lhe o que tinha.
        "Nada", pensou dizer, mas no lhes quis mentir e explicou:
        - Estou triste.
        - Porqu, mam? - Ele tinha quatro anos e era o rapazinho mais esperto que alguma vez vira. Parecia-se extremamente com Charles, com excepo dos olhos azuis 
e do cabelo de um ruivo-escuro, mas as feies e expresses eram do pai. Grace sorria sempre, s de olhar para ele, mas nesse dia, ao ver os seus filhos, sentia-se 
triste pela pequenita que morrera. - Porque est triste? - insistia Andrew, e os olhos dela encheram-se de lgrimas ao tentar responder-lhe.
        - Algum fez mal a uma menina e eu fiquei triste quando soube disso.
        - Ela foi para o hospital? - perguntou solenemente. Gostava de ambulncias, de carros da Polcia e de sirenas a apitar. Fascinavam-no, embora o assustassem 
um pouco. Era uma criana cheia de vida.
        Grace no sabia o que havia de dizer ao filho, se havia de lhe contar que ela morrera. Achou que era demasiado dizer isso a uma criana de quatro anos.
        - Acho que sim, Andrew. Creio que ela est muito doente.
        - Vamos fazer-lhe um quadro. - Grace disse que sim com a cabea e olhou para o lado para ele no a ver chorar. No haveria mais quadros para essa menina... 
nem mos carinhosas... ningum para a salvar.
        Nos dias seguintes houve grandes protestos de indignao em Nova iorque. As pessoas estavam chocadas e ultrajadas. Os professores da escola primria onde 
ela frequentava a primeira classe defenderam-se, dizendo que no tinham desconfiado de coisa alguma. Ela fora uma criana frgil e que se magoava facilmente, mas 
nunca dissera coisa alguma sobre o que se passava em casa. Ouvir isso enfureceu Grace. As crianas nunca contavam o que lhes faziam em casa, defendiam sempre quem 
abusava delas. E os professores sabiam disso e deviam manter-se especialmente vigilantes.
        Durante dias, as pessoas deixaram flores e ramos junto do edifcio de Park Avenue onde ela vivera, e quando Grace e Charles passaram por ali, de carro, no 
dia seguinte, para irem jantar com pessoas amigas, ela sentiu um soluo apertar-lhe a garganta ao ver um grande corao cor-de-rosa feito de pequenas rosas com o 
nome da menina escrito numa fita cor-de-rosa.
        - No posso suportar isto - disse Grace, limpando as lgrimas ao leno que o marido lhe dera. - Eu sei como ... - sussurrou... - porque  que as pessoas 
no compreendem? Porque no vem? E no fazem com que estas coisas no aconteam? Por que motivo  que ningum suspeita do que se passa atrs das portas fechadas, 
quando l so cometidas atrocidades? - E a verdadeira tragdia era as pessoas por vezes saberem e nada fazer para o impedir. Era com essa indiferena que Grace queria 
acabar. Queria abanar as pessoas. Despert-las.
        Charles passou-lhe um brao sobre os ombros. Doa-lhe pensar no que ela devia ter passado, isso fazia-o desejar ser sempre bom para ela, para a compensar 
de tudo o que lhe sucedera e conseguira faz-lo.
        - Quero voltar a trabalhar - disse subitamente Grace, e Charles olhou-a, surpreendido.
        - Num escritrio? - No podia imaginar por que motivo ela quereria voltar a trabalhar. Sentia-se to feliz em casa, com os filhos.
        Mas Grace sorriu, abanando a cabea e assoando-se outra vez.
        - Claro que no... a no ser que precises de uma nova secretria - gracejou.
        - Que eu saiba, no. Ento que  que tens em mente?
        - Estive a pensar nessa menina... gostava de voltar a trabalhar com mulheres e crianas maltratadas. - A morte daquela criana viera lembrar outra vez a 
sua dvida e o desejo de ajudar aqueles que viviam o mesmo inferno que ela vivera. Ela conseguira fugir-lhe e chegara a um bom lugar na vida, mas no podia esquec-los. 
Sabia que, de certa maneira, sentiria sempre necessidade de estender as mos para eles e de os ajudar...
        - Em Saint Andrew's, no - disse com firmeza Charles. Nunca mais a deixara voltar a trabalhar ali. Apenas l ia de visita e de carro. E o padre Tim fora 
transferido para Boston no ano anterior, para instalar ali um abrigo semelhante. Tinham recebido um carto de boas-festas dele, enviado dali. Mas no era essa a 
ideia de Grace. Ela queria algo de maior alcance, de mais complicado.
        - Que dizes a criarmos uma organizao... - H dois dias que pensava nisso, tentando imaginar como poderia ajudar de um modo que de facto tivesse relevncia. 
- Uma organizao que chegasse s pessoas, no s s pessoas que vivem nos bairros pobres, mas tambm s da classe mdia, onde os abusos so mais surpreendentes 
e mais ocultos. Que dizes a chegarmos at aos educadores, a ensinar aos pais, profissionais dos jardins-de-infncia e professores, enfim, a todos os que trabalham 
com crianas, o modo de tratar com casos desses, quando suspeitam que existam? Uma organizao que chegasse ao pblico em geral, s pessoas como ns, como os nossos 
vizinhos, s pessoas que vem crianas vtimas de abusos e nada fazem.
        - Isso parece-me complicado - disse Charles meigamente -, mas  uma grande ideia. No existe nenhum programa a que te possas ligar?
        - Pode ser que exista. - Mas cinco anos antes no existia. Havia apenas alguns centros de acolhimento ocasionais, como St. Andrew's. E as vrias comisses 
criadas para ajudar as vtimas de abusos eram mal dirigidas e ineficazes, segundo ela soubera.
        - Talvez seja melhor no te preocupares tanto, minha querida - disse Charles com um sorriso, inclinando-se para ela e beijando-a. - A ltima vez que deixaste 
o teu grande corao pensar por ti, ficaste muito maltratada. Talvez seja altura de deixares que outros se preocupem. No quero que te faam mal outra vez.
        - Se no fosse isso, nunca terias casado comigo - disse Grace astutamente, e ele riu.
        - No estejas to certa disso. H muito tempo que andava de olho em ti. S no conseguia perceber porque me odiavas tanto.
        - No te odiava. Tinha medo de ti.  muito diferente. Ambos sorriram, recordando os tempos em que se tinham conhecido e apaixonado. As coisas no se haviam 
alterado desde ento. Estavam mais apaixonados do que nunca.
        Nessa noite, quando voltaram do jantar, Grace comeou a falar outra vez da sua ideia. Falou dela durante semanas at Charles j no poder aguentar mais.
        - Pronto... pronto... J percebi. Queres ajudar. Onde  que podemos comear? Vamos fazer alguma coisa para isso
        Por fim Charles acabou por falar com alguns dos scios da firma, alguns amigos cujas mulheres se mostraram interessadas no projecto e que deram informaes 
teis e sugestes. Ao fim de dois meses, Grace acumulara material e pesquisas e sabia exactamente aquilo que desejava fazer. Falara com um psiclogo e com a directora 
da escola dos filhos e achou que j tinha aquilo que precisava. Contactou com a irm Eugene, em St. Andrew's, e ela deu-lhe nomes de pessoas que estariam dispostas 
a trabalhar no projecto dela sem esperarem ganhar muito dinheiro. Precisava de voluntrios, psiclogos, professores, alguns homens de negcios, mulheres e at mesmo 
de vtimas. Ia pr em aco uma equipa disposta a dizer s pessoas aquilo que precisavam de saber a respeito de abusos de todos os gneros perpetrados contra crianas.
        Criou uma organizao e deu-lhe um nome simples:
        Ajudem as Crianas. Ao princpio, Grace dirigiu essa organizao a partir de sua casa, e passados seis meses alugou um escritrio em Lexington Avenue, a 
dois quarteires de distncia da casa dela. Nessa altura tinha uma equipa de vinte e uma pessoas que iam falar s escolas, s associaes de pais, de professores, 
s pessoas que dirigiam actividades extracurriculares, como ballet e basebol. Ficou admirada com os pedidos que recebiam para fazer palestras sobre o assunto. E 
tremia como uma folha verde a primeira vez que ela prpria foi falar. Disse a um grupo de pessoas desconhecidas que fora vtima de abuso quando criana, explicou 
como ningum vira isso, nem quisera ver, como todos continuavam a pensar que o pai dela era a melhor pessoa da cidade.
        - Talvez fosse - disse Grace, lutando contra as lgrimas que teimavam em inundar-lhe os olhos -, mas no para mim, nem para a minha me. - No lhes disse 
que tivera de o matar para se salvar. Mas o que ela contou  assistncia comoveu-a profundamente. Todos os conferencistas tinham histrias como essas, algumas vividas, 
ou outras por terem tido conhecimento delas. Mas as pessoas que faziam as conferncias falavam com grande convico, porque falavam com o corao. Pediam: "Ajudem 
as Crianas" e o seu apelo era sincero.
        O passo seguinte foi arranjar uma linha directa para as pessoas que conheciam pais abusivos ou vizinhos, ou para pais que precisassem de ajuda, ou para crianas 
em situaes dificeis. Fez tudo quanto pde a fim de obter fundos para pr anncios e cartazes com o nmero do telefone do escritrio, onde estaria sempre algum 
durante as vinte e quatro horas do dia. Quando Abigail entrou para o jardim-escola, um ano e meio mais tarde, Grace sentiu um certo alvio por poder dedicar mais 
tempo ao seu projecto, embora sentisse a falta de ter a filha em casa s onze e meia da manh. Conseguiu manter um ritmo de trabalho disciplinado, de modo a poder 
passar as tardes com os filhos, depois de eles voltarem da escola. Mas Ajudem as Crianas estava a tornar-se cada vez maior e os seus fundos provinham de cinco fundaes. 
Alm disso, estavam constantemente a fazer campanhas para obteno de fundos e recebiam ajuda gratuita de criativos para publicidade. Grace queria organizar uma 
campanha na televiso para conseguir uma melhor difuso do seu projecto. Queria chegar at s crianas vtimas de abusos e s pessoas que tinham conhecimento disso. 
Tinha menos interesse em denunciar os pais abusivos. A maior parte deles era demasiado doente para pedir auxlio e era raro que algum desse um passo para isso. Tornava-se 
mais fcil chegar a essas crianas atravs das pessoas que tinham conhecimento exterior dos factos.
        Era difcil apreciar que espcie de resultados estavam a conseguir, mas a verdade  que a linha telefnica S.O.S. estava constantemente sobrecarregada, dia 
e noite. De uma maneira geral, tratavam-se de vizinhos, amigos ou professores que hesitavam em fazer a denncia de casos suspeitos, mas ultimamente telefonavam tambm 
muitas crianas que contavam histrias horripilantes. Grace e Charles atendiam tambm os telefonemas durante dois longos turnos semanais e muitas vezes Charles chegava 
a casa comovido com o que ouvira. Era impossvel no ter pena dessas crianas. As nicas pessoas que no as lamentavam eram os pais.
        Grace estava sempre to atarefada que mal dava pela passagem dos dias, e sentia-se mais feliz do que nunca. Ficou particularmente surpreendida quando recebeu 
uma carta da primeira dama do pas, que elogiava o seu trabalho. Dizia que as pessoas como Grace faziam modificar o mundo, como a madre Teresa.
        - Estar ela a gracejar? - disse Grace, rindo, ao mostrar a carta a Charles, quando ele chegou a casa. Era embaraoso mas excitante. O que tinha importncia 
para ela, acima de tudo, era poder ajudar as crianas, mas sentia-se satisfeita por ver reconhecido o seu esforo. E Charles era generoso nos elogios que lhe fazia. 
Ficou satisfeito por ela e genuinamente entusiasmado quando receberam um convite para jantar na Casa Branca. Aquele ano fora declarado o Ano da Criana e queriam 
dar um prmio a Grace pelo seu contributo para com Ajudem as Crianas.
        - No posso aceitar esse prmio - disse Grace, sentindo-se desconfortvel. - Pensa em todas as pessoas que foram necessrias para pr de p este projecto, 
nas pessoas que trabalham connosco, a maior parte delas sem nada receber e outras pagando generosamente dos seus prprios bolsos. Por que motivo h-de o reconhecimento 
ser para mim? - No lhe parecia certo. Queria que o prmio fosse dado a Ajudem as Crianas como organizao colectiva e no a ela, como pessoa individual.
        - Mas quem teve a ideia? - disse Charles, sorrindo. Grace no fazia ideia da importncia daquilo que estava a fazer e ele amava-a ainda mais por isso. Transformara 
a sua vida de sofrimento, numa bno para tantos. E cada momento de felicidade que lhe podia proporcionar era uma alegria para ele. Charles nunca se sentira mais 
feliz e amava-a profundamente. Era uma boa esposa, uma boa mulher e ele respeitava-a por isso. - Acho que devemos ir a Washington - disse ele. - Pessoalmente, agrada-me 
muito ir. Digo-te uma coisa: vou eu, recebo o prmio, e digo que quem teve a ideia de Ajudem as Crianas fui eu. - Gracejava com ela e isso fazia-a rir. Discutiram 
o assunto durante duas semanas, mas Charles aceitara j o convite em nome dela e finalmente, com muitas reticncias, contrataram uma irm que conheciam para ajudar 
a empregada domstica, voaram para Washington numa tarde de Dezembro sob uma tempestade de neve. Grace jurou que era mau sinal, mas logo que chegaram a Pennsylvania 
Avenue, soube que fora tola. A rvore de Natal da Casa Branca cintilava alegremente em frente deles e todo o cenrio fazia lembrar um quadro de Norman Rockwell.
        Foram conduzidos para dentro por marines e Grace sentiu os joelhos a tremer quando cumprimentaram o presidente e a primeira dama. Encontravam-se vrias pessoas 
na recepo e Charles conservou a mo de Grace presa na sua para lhe dar coragem enquanto lhe apresentava alguns advogados e congressistas que eram seus velhos amigos. 
Um deles, antigo scio da firma de Charles, gracejou com ele, perguntando-lhe quando  que ele se enchia de coragem e se abalanava a entrar no mundo da poltica.
        - No creio que isso seja para mim - disse Charles com um sorriso. - Ando muito atarefado a levar os meus filhos  escola e a atender o telefone da organizao 
de Grace.
        Charles gostou da recepo e chegou a conversar alguns momentos com o presidente, que lhe disse conhecer a sua firma e o cumprimentou pelo modo como tinham 
tratado de um assunto difcil no ano anterior, relativo a uns contratos com o Governo.
        Depois do jantar danaram e um encantador coro infantil cantou canes de Natal. Eram os midos mais engraados que Grace j vira e fizeram-lhe lembrar imediatamente 
os filhos.
        Antes de sarem, o congressista procurou de novo Charles e disse-lhe que pensasse outra vez naquilo que ele lhe dissera.
        - A arena poltica precisa de homens como voc, Charles. Terei muito prazer em falar do assunto consigo numa altura qualquer. - Mas Charles insistiu que 
se sentia feliz com o seu trabalho na firma. - O mundo  vasto e os problemas so muitos. Muitas vezes esquecemos isso quando estamos na nossa torre de marfim. Voc 
poderia ser muito til em inmeras questes importantes. Hei-de telefonar-lhe.
        Charles e Grace voltaram para o Willard  meia-noite. Fora um sero maravilhoso e ela recebera uma bonita placa louvando os seus esforos em prol das crianas 
maltratadas
        - Terei de mostrar isto aos nossos filhos quando eles disserem que sou m - disse Grace, sorrindo. Afinal estava satisfeita por ter ido  recepo. Quando 
j estavam deitados e falavam das pessoas que ali se encontravam e de como tinha sido impressionante conversar com o presidente e a primeira dama, Grace falou-lhe 
do congressista seu amigo.
        - Roger? - perguntou com ar casual. - Foi meu scio na firma.  boa pessoa. Sempre gostei dele.
        - E que te disse ele? - Tinha curiosidade acerca da reaco de Charles.
        - A respeito de eu entrar para a poltica? No me entusiasma...
        - Porqu? Serias fantstico...
        - Talvez um dia eu entre na corrida para presidente. Tu serias uma linda primeira dama - gracejou ele, beijando-a amorosamente. E Grace retribuiu com o mesmo 
ardor, como sempre sucedia.
        Chegaram a Nova iorque s duas da tarde. Charles estava bem-disposto e resolveu no ir ao escritrio. Foram directamente para casa e os filhos ficaram encantados 
quando os viram. Saltaram em volta deles, querendo saber o que lhes tinham trazido da viagem.
        - Absolutamente nada - disse Charles, mentindo desajeitadamente. Mas os filhos conheciam-nos bem. Tinham comprado brinquedos e souvenirs para eles, no aeroporto. 
Sempre que Charles saa de Nova iorque em negcios, o que era raro, nunca voltava de mos vazias. E Grace contou-lhes como era a Casa Branca e falou-lhes das crianas 
que l tinham cantado, e da rvore de Natal toda iluminada no relvado da Casa Branca.
        - Que cantaram eles? - perguntou Andrew, mas Abigail, como uma mulherzinha que era, quis saber como  que as crianas estavam vestidas. Andrew tinha seis 
anos e Abigail cinco.
        O Natal era j na semana seguinte e nesse fim-de-semana montaram a rvore de Natal, que ficou linda quando acabaram de a enfeitar. Charles ps os enfeites 
na parte de cima e os filhos na parte de baixo, at onde chegavam, espalhando pipocas e bagas de arando por todos os lados, uma tradio de que muito gostavam.
        Grace levou-os a patinar na Rockefeller Plaza e foram ver o Pai Natal ao Saks. Viram tambm as montras lindamente decoradas da Quinta Avenida, depois de 
estarem em frias, e foram um dia ao escritrio de Charles convid-lo para almoar. Grace levou-os ao Serendipity, na Rua Sessenta, entre a Segunda e a Terceira 
Avenidas, onde comeram cachorros-quentes gigantes e enormes gelados cheios de natas. Grace pediu banana split e Charles riu, recordando-se do que haviam comido a 
primeira vez que tinham passado um fim-de-semana juntos. Grace comeu o gelado at ao fim, sem deixar um nico bocadinho, e Charles cumprimentou-a por ser membro 
do "clube do prato limpo".
        - Ests a fazer troa de mim? - Grace sorriu, ainda com um resto de natas na ponta do nariz. Abigail soltou uma gargalhada e at Andrew achou graa.
        - Certamente que no. Acho maravilhoso que tenhas comido tudo - disse Charles, sorrindo.
        - Mostra-te simptico, ou peo outro - disse Grace.
        Passado o Ano Novo, porm, Grace comeou a dizer que se sentia "gorda" e que no cabia nas roupas, embora continuasse elegante como sempre fora. Durante 
as frias passara muitas horas seguidas a atender telefonemas, fazendo vrios turnos, pois sabia como as pocas festivas eram difceis para as familias com problemas 
e enquanto estava sentada, junto do telefone, ia comendo bolinhos e docinhos, sobretudo pipocas, como todos faziam.
        - Estou "larga"! - exclamou ao esforar-se por abotoar o fecho das calas, quando se preparava para ir dar um passeio com Charles pelo parque.
        - Muitas mulheres gostariam de estar "largas" como tu - disse Charles, pois Grace, apesar dos seus trinta anos, feitos h pouco, e de ter dois filhos, continuava 
a parecer um modelo. E ele, embora nos cinquenta anos, era atraente como dantes. Formavam um belo casal. Grace vestira um casaco de pele de raposa com chapu igual, 
apropriado para aquele dia glido, que Charles lhe oferecera no Natal.
        Havia neve no solo do parque e eles tinham deixado os filhos em casa com uma baby-sitter at  chegada da empregada domstica que se encontrava fora. s 
vezes, gostavam de passear sozinhos, ou meterem-se num txi at ao SoHo para irem a uma cafetaria, ou iam visitar galerias de pintura e de escultura.
        Nessa tarde sentiam-se contentes a passear e casualmente foram ter ao Plaza Hotel. Decidiram entrar e tomar um chocolate quente em Pam Court. Entraram no 
antigo e elegante hotel, de mos dadas e conversando em voz baixa.
        - Os midos nunca nos perdoariam se soubessem onde estamos - disse Grace, sentindo-se culpada. Eles adoravam ir ao Pam Court. Mas era romntico estar sozinha 
com Charles. Grace comeou a falar de uns planos que tinha para o Ajudem as Crianas, para tentar expandir o projecto. Estava sempre a querer chegar mais alm. E 
enquanto falava com o marido, bebeu duas chvenas de chocolate quente com natas e devorou um prato com bolinhos. Mas logo que acabou de comer sentiu-se enjoada e 
lamentou ter comido tanto.
        - Ainda s pior que o Andrew - disse Charles, rindo. Gostava de estar com ela. Grace era como uma rapariga para ele e ao mesmo tempo muito mulher.
        Quando saram do Plaza, Charles chamou uma carruagem puxada por um cavalo para os levar a casa e sentaram-se atrs do cocheiro, cobertos por mantas, rindo 
e beijando-se como dois adolescentes ou um casal em lua-de-mel. Quando chegaram em frente do edifcio onde moravam, Charles foi buscar os filhos para fazerem festas 
ao cavalo e depois combinou pagar mais um tanto ao cocheiro para ele os levar a dar uma volta pelo quarteiro. O cocheiro concordou e foram os quatro dar aquele 
pequeno passeio. Em seguida voltaram para casa, a baby-sitter saiu e Grace preparou o jantar.
        Nas semanas seguintes Grace andou muito atarefada com o seu novo projecto e com os filhos, como sempre fazia. Mas ficou surpreendida ao ver que se sentia 
sempre cansada, de tal modo que faltou a dois turnos de trabalho, o que era raro nela Quando Charles reparou no aspecto dela, mostrou-se preocupado.
        - Sentes-te bem? - perguntou. Receava que a vida dura que ela tivera e o espancamento de que fora vtima pudessem um dia trazer consequncias graves. Sempre 
que ela adoecia, ficava apavorado.
        - Claro que me sinto bem - respondeu ela, mas as olheiras e a palidez eram bem patentes e Charles no se convenceu.
        - Quero que vs ao mdico - ordenou ele.
        - Estou ptima - disse Grace obstinadamente.
        - Mas quero que vs - insistiu Charles com ar srio.
        - Est bem, est bem. - Mas Grace continuou sem nada fazer e Charles acabou por ser ele a marcar a consulta, dizendo que ele prprio a levaria ao mdico 
se ela no fosse l na manh seguinte. Passara um ms depois do Natal e ela estava a meio de uma grande campanha para angariar fundos para a sua obra. Tinha inmeras 
visitas e centenas de telefonemas a fazer. - Por amor de Deus - disse irritada, quando o marido lhe lembrou a consulta na manh seguinte. - Estou apenas cansada, 
nada mais. No  grande coisa. Porque  que isso te preocupa? - Mas Charles agarrou-a pelos ombros e f-la voltar-se para ele.
        - Fazes ideia de como s importante para mim, para esta famlia? Amo-te, Grace. No brinques com a tua sade. Preciso de ti.
        - Est bem - disse ela calmamente. - Eu vou. - Mas sempre detestara ir ao mdico. Os mdicos recordavam-lhe sempre maus momentos. A me a morrer, o pai a 
viol-la, a noite em que o matara, o assalto de que fora vtima perto de St. Andrew's... Com excepo do nascimento dos filhos, todas as recordaes ligadas aos 
mdicos eram ms.
        - Faz alguma ideia do que possa estar mal consigo? - perguntou o mdico de famlia com ar prazenteiro. Era um homem de meia-idade, com um rosto inteligente 
e um ar agradvel. Nada sabia do passado de Grace nem da sua antipatia pelos mdicos.
        - Sinto-me bem. Estou apenas cansada e Charles ficou preocupado.
        - Ele tem razo em se preocupar. Sente mais alguma coisa alm de fadiga? - Grace pensou um bocado e encolheu os ombros.
        - Nada de especial. Umas tonturas, dores de cabea... Falava com ligeireza, mas a verdade  que andava bastante tonta e tinha estado vrias vezes agoniada. 
Pensava ser da tenso nervosa por causa da campanha de angariao de fundos. - Tenho tido muito trabalho.
        - Talvez precise de descansar um pouco - disse o mdico, sorrindo. Deu-lhe umas vitaminas, mediu-lhe a tenso arterial, fez uma anlise ao sangue e disse 
que estava tudo bem. Achou que no precisava de fazer mais testes. Grace Mackenzie era obviamente saudvel. Tinha a tenso arterial um bocado baixa, o que explicava 
as tonturas e as dores de cabea. - Coma muita carne vermelha e espinafres. - Enviou cumprimentos a Charles e Grace telefonou logo a seguir ao marido, dizendo-lhe 
que estava tudo em ordem. Depois, sentindo-se melhor do que se sentira desde h dias, resolveu ir a p para casa. O dia estava frio e ensolarado, o ar puro e ela 
comeou a caminhar depressa. Sorriu ao pensar como Charles era cuidadoso com ela e como tinha sorte por ser mulher dele. Sentia-se um pouco tonta, como lhe sucedia 
ultimamente, mas nada de especial. Estava j em frente da porta de casa quando se sentiu to tonta que mal conseguia manter-se de p. Estendeu as mos para se apoiar 
e agarrou-se ao casaco de um homem idoso que a olhou com estranheza. Olhou-o como se no o visse e depois deu dois passos em direco  porta de casa, disse qualquer 
coisa ininteligvel e caiu, inconsciente, no passeio.


CAPTULO 14

        Quando Grace voltou a si, estavam trs pessoas e dois polcias a olhar para ela. O velhote a quem ela se agarrara antes de perder os sentidos, fazendo-o 
quase cair com ela, fora a uma cabina telefnica e ligara para o nmero de emergncia mas ela j estava consciente na altura em que a Polcia chegou, e sentara-se 
no passeio. Sentia-se mais embaraada que magoada, e ainda demasiado tonta para se levantar.
        - Que se passa? - perguntou amigavelmente um dos polcias. Era um homem corpulento, de aspecto amvel e observava-a atentamente. Ela no estava embriagada 
nem drogada, pelo que podia ver, era bonita e estava bem vestida.
        - Quer que chame uma ambulncia? Ou o seu mdico?
        - No, realmente no - ops-se Grace, levantando-se. - No sei o que me sucedeu. Senti-me tonta, nada mais. - No tinha tomado o pequeno-almoo nesse dia, 
mas sentira-se bem.
        - Devia realmente ir a um mdico, minha senhora. Podemos lev-la ao hospital. Fica logo ali abaixo - explicou.
        - Obrigada. Eu estou bem. De verdade que estou - apontou para o edifcio onde morava. - Vivo aqui. - Agradeceu ao senhor idoso, pedindo desculpa por quase 
o ter derrubado. Ele deu-lhe uma palmadinha na mo e disse-lhe para descansar um pouco e comer um bom almoo. O agente acompanhou-a at a casa e olhou para o ambiente 
requintado que o rodeava.
        -  Quer chamar algum? O seu marido? Uma amiga? Uma vizinha?
        - No... eu... - O telefone interrompeu-os e ela atendeu. Era Charles.
        - Que disse ele?
        - Estou ptima - comeou a dizer, no querendo mencionar o facto de ter desmaiado no passeio.
        - Quer que esperemos uns minutos? - perguntou o polcia. Grace abanou a cabea.
        - O que  isso? Est a algum? - Grace no queria contar-lhe o que se passara.
        - No  nada. O mdico disse que eu estava ptima.
        - uem  que estava a a falar contigo? - Charles tinha um sexto sentido a respeito dela e sabia que se passava algo de estranho.
        -  um polcia, Charles. - Grace suspirou, sentindo-se tola mas ao mesmo tempo voltou a sentir o mal-estar. O polcia viu-a ficar muito plida e cambalear. 
S teve tempo de a segurar por um brao. Grace no sabia o que tinha, mas era terrvel. Estava to tonta e agoniada que no teve coragem para continuar a falar. 
Sentou-se no cho e apoiou a cabea nos joelhos.
        - Est? Est? Que se passa a? - A voz de Charles era angustiada.
        - Daqui fala o agente Mason. Quem fala? - perguntou calmamente, enquanto Grace o fitava com ar mortificado.
        - O meu nome  Charles Mackenzie e  a minha mulher que est a consigo. Que se passa?
        - Ela est bem. Houve um pequeno problema... desmaiou mesmo junto da vossa casa. Trouxemo-la para dentro e creio que se est a sentir um pouco tonta outra 
vez. Provavelmente  alguma coisa do estmago. Andam agora muitas viroses dessas.
        - Ela est bem? - voltou a repetir Charles, angustiado. Enquanto falava, pusera-se de p e pegara no casaco.
        - Acho que sim. No quis que a levssemos ao hospital. Ns perguntmos.
        - No importa. Podem lev-la a Lenox Hili?
        - Certamente.
        - Estarei l dentro de dez minutos.
        Depois de desligar, o polcia olhou-a com um sorriso.
        - O seu marido quer que a levemos a Lenox Hill, senhora Mackenzie.
        - No quero ir. - Parecia uma criana e o polcia sorriu.
        - Mas ele falou num tom peremptrio. Vai l ter consigo.
        - Mas eu estou bem.
        - Acho que sim. Mas no far mal nenhum ver o que se passa. H muitos vrus por a. Ainda ontem uma mulher perdeu os sentidos em Bloomingdale com essa gripe 
de Hong Kong. A senhora est doente h muito tempo? - Grace dirigiu-se para a porta acompanhada pelo polcia que conversava amigavelmente com ela.
        - Estou realmente bem - disse Grace, ao entrar no carro da Polcia. E ento, subitamente, pensou que aquilo podia dar a ideia de que ela ia presa. Poderia 
at achar a situao engraada se de repente no se tivesse lembrado da noite em que matara o pai, e na altura em que chegaram a Lenox HilI, estava a sentir uma 
crise de asma, a primeira que tinha desde h dois anos. E nem sequer levava o inalador consigo. Tornara-se to confiante que a maior parte das vezes o deixava em 
casa.
        Ao chegar ao hospital, Grace explicou  enfermeira que precisava de um inalador por causa da asma e levaram-lhe imediatamente um. Quando Charles chegou, 
ela estava ainda terrivelmente plida por causa da asma e da medicamentao e as mos tremiam-lhe.
        - Que sucedeu? - perguntou Charles, horrorizado.
        - O carro da Polcia enervou-me.
        -  Foi por isso que perdeste os sentidos? - Charles estava confuso.
        - No. Foi por isso que fiquei com asma.
        - Mas porque  que desmaiaste?
        - Isso no sei.
        Os polcias foram-se ento embora e passou-se mais uma hora at que Grace pudesse ser atendida por um dos mdicos das urgncias. Nessa altura j estava muito 
melhor, a respirao normalizara e j no se sentia tonta. Ele levara-lhe canja que tirara de uma mquina, uma sanduche e um doce. Grace disse ao mdico que tinha 
bom apetite.
        - Excelente - confirmou Charles.
        O mdico examinou-a cuidadosamente e fez ento uma pergunta premente. Pensava que podia ser gripe, mas tinha outra ideia.
        - Poder estar grvida?
        - No creio. - No voltara a usar qualquer contraceptivo desde o nascimento de Abigail e ela ia fazer seis anos em Julho. Porque havia de estar grvida agora?
        - Est a tomar a plula? - Grace abanou a cabea. - Ento porque no h-de estar grvida? H alguma razo? - Grace olhou de relance para Charles.
        - No creio que esteja - disse com firmeza Grace. Gostava de ter outro filho, mas achava que no tinha engravidado. - Seis anos depois, porque havia de estar?
        - Creio que ests - Charles sorriu. Nem sequer pensara nisso, mas ela tinha todos os sintomas. - Pode saber-se?
        - Pode comprar um teste de gravidez na farmcia da esquina - disse o mdico. - Acho que o seu marido tem razo e a senhora no. Tem todos os sintomas: nuseas, 
tonturas, fadiga, sonolncia, enjoos, e alm disso no teve o ltimo perodo, o que atribuiu aos nervos. Estou convencido de que espera um beb. Podemos chamar o 
nosso ginecologista para a observar, se quiser, mas ser o mesmo se fizer o teste em casa e depois for ao seu mdico.
        - Obrigada - disse Grace, perplexa. Nem sequer pensara nisso. H muito que desejava ter outro filho, mas como nunca mais engravidara convencera-se de que 
isso no voltaria a suceder.
        Foram  farmcia, compraram o teste e foram para casa de txi. Charles apertou-a contra si, satisfeito por ela no ter nada de grave. Quando o polcia atendera 
o telefone, entrara em pnico, receando o pior.
        Grace seguiu todas as indicaes do teste e esperaram precisamente cinco minutos, utilizando o cronmetro de Charles. Grace sorria enquanto esperava pelo 
resultado. Agora estavam ambos convencidos de que ela estava grvida. E estava.
        - Quando  que achas que foi? - perguntou Grace, encantada.
        - Aposto que foi na noite em que jantmos na Casa Branca - disse ele, rindo e beijando-a.
        Charles tinha razo. No dia seguinte Grace foi ao mdico dela e soube que o beb devia nascer em fins de Setembro.
        Charles queixou-se de que seria um velho quando ele nascesse Teria cinquenta e um anos, mas Grace nem queria ouvi-lo dizer que era "velho".
        - No passas de um garoto - disse Grace, sorrindo. Estavam ambos excitados e felizes. O beb que nasceu era um lindo rapazinho com cabelo muito louro. Era 
parecido com ambos, excepto no cabelo, quase branco, que diziam no se parecer com ningum da famlia. Era uma criana maravilhosa e fazia lembrar um sueco. Deram-lhe 
o nome de Matthew e os irmos ficaram encantados com ele, logo que o viram. Abby estava sempre a querer pegar-lhe ao colo e chamava-lhe "o meu beb".
        Todavia, com trs filhos a casa deles estava a rebentar pelas costuras. E no Inverno venderam-na e compraram uma casa em Greenwich. Era uma bonita moradia, 
com um grande quintal rodeado de um muro. E Charles comprou um grande labrador cor de chocolate para brincar com as crianas. Era uma vida perfeita.
        Ajudem as Crianas continuava a expandir-se e Grace ia  cidade duas vezes por semana para ver como corriam as coisas, mas contratara uma pessoa para lhe 
dirigir o escritrio, e alugara um, mais pequeno, em Connecticut, onde passava as manhs. A maior parte das vezes levava o beb consigo, na alcofa.
        A vida em Connecticut era confortvel para eles. Os midos gostavam da sua nova escola. Andrew e Abigail andavam respectivamente na segunda e na primeira 
classe. E s no Vero seguinte  que Charles voltou a ter notcias de Roger Marshall, o seu antigo scio na firma de advogados, que se encontrava agora no Congresso.
Roger queria que Charles pensasse em entrar na poltica. Havia uma vaga muito interessante em Connecticut no prximo ano, quando um velho congressista se reformasse, 
mas Charles no se mostrou entusiasmado. Gostava do seu trabalho na firma e andava muito atarefado, como sempre. Concorrer ao Congresso, se ganhasse, significaria 
mudar-se para Washington, pelo menos durante algum tempo, e isso seria difcil para Grace e para os filhos. E as campanhas polticas eram dispendiosas e cansativas. 
Ao almoo falaram sobre o assunto e Charles recusou. Mas quando um candidato da lista do seu crculo morreu subitamente com um ataque de corao, dessa vez Grace 
surpreendeu-o, insistindo em que ele pensasse nisso.
        - No falas a srio, pois no? - indagou Charles, olhando-a atentamente. - Com certeza no desejas essa vida? Estivera em tempos sob os olhares do pblico, 
quando estava casado com a sua primeira mulher, e na verdade no gostara disso. Mas tinha de admitir que o Governo sempre o atrara, especialmente Washington.
        Por fim acabou por dizer a Roger que ia pensar no assunto. Mas Grace achava que ele devia gostar de entrar para a poltica e que o trabalho na firma j no 
o atraa tanto como dantes. Estava a sentir-se velho com os seus cinquenta e trs anos. As nicas coisas que lhe interessavam verdadeiramente eram a mulher e os 
filhos.
        - Precisas de algo de novo na tua vida, Charles, algo que te excite.
        - Tenho-te a ti - respondeu ele, sorrindo. - s suficientemente excitante. Uma mulher jovem e trs filhos devem chegar para me manter ocupado nos prximos 
cinquenta anos. Alm disso, tu no havias de gostar de tanta confuso na tua vida.  como viver num aqurio.
        - Se tu quiseres, havemos de nos arranjar, Washington no  a Lua. No  assim to longe. Podemos manter esta casa e passar aqui parte do tempo. Ou poders 
andar para trs e para diante, durante as sesses do Congresso.
        Charles riu de todos os planos que ela estava a fazer.
        - No creio que precisemos de nos preocupar com isso. H boas possibilidades de eu no ganhar. Sou um cavalo escuro e ningum me conhece.
        - s um homem respeitado nesta comunidade, com boas ideias, integridade e um verdadeiro interesse pelo nosso pas.
        - Terei o teu voto? - perguntou Charles, beijando-a.
        - Sempre.
        Charles disse ento a Roger que aceitava concorrer, e comeou a reunir pessoas para a sua campanha. Comearam a srio em Junho e Grace fez tudo quanto pde, 
desde colar selos at apertar mos desconhecidas e andar de porta em porta a distribuir folhetos. Fizeram uma campanha de "homem da rua", e embora nunca fizessem 
segredo de que ele era de boas famlias e bem-educado, tambm era bvio que se tratava de uma pessoa preocupada com os outros e sincera. Era um homem honesto, empenhado 
no bem-estar dos seus compatriotas. O pblico confiava nele e com grande surpresa de Charles os media tambm o tratavam bem. Faziam a cobertura de tudo onde ele 
aparecia e apresentavam-se de uma maneira leal.
        - Porque no o fariam? - Grace sentia-se surpreendida por Charles se admirar por o tratarem bem na imprensa, mas ele conhecia-os melhor do que ela.
        - Porque nem sempre so assim - respondeu Charles. - Mais cedo ou mais tarde vers isso.
        - No sejas cnico.
        Grace no tomava parte activa na campanha, limitando-se a estar ao lado dele quando era necessrio. Tambm se encarregava de vrias diligncias nos bastidores, 
chegando a levar os filhos com ela. Mas no desejava tornar-se notada. Charles era o candidato e o que ele representava era importante. Grace nunca esquecia isso.
        Agora quase no tinha tempo para o seu prprio projecto e Ajudem as Crianas ia sobrevivendo praticamente sem a ajuda dela. Ainda fazia turnos para atender 
o telefone, sempre que possvel, mas trabalhava sobretudo para Charles, e via que ele gostava do que ela fazia. Iam a piqueniques, churrascos e feiras e Charles 
apreciava isso. Falava a grupos polticos, a homens de negcios e a agricultores. E era bvio que de facto os queria ajudar. Acreditavam nele e em tudo o que ele 
representava. Tambm gostavam de Grace. O trabalho dela pela organizao Ajudem as Crianas tornara-se muito conhecido e viam bem que se tratava de uma mulher cujas 
prioridades eram o marido e os filhos. E isso agradava s pessoas.
        Em Novembro Charles venceu as eleies. Deixou o seu lugar na firma, continuando no entanto como scio, e fizeram-lhe uma grande festa de despedida no Pierre. 
Depois, Charles, Grace e os filhos foram a Washington procurar uma casa. Mudar-se-iam para l depois do Natal. As crianas iam mudar de escola e isso assustava-as, 
mas ao mesmo tempo excitava-as. Ia ser uma grande mudana para elas. Encontraram uma casa adorvel em Georgetown, na Rua R.
        Grace inscreveu os filhos na Sitwell Friends. E em Janeiro Abigail e Andrew entraram respectivamente para a terceira e quarta classes. Grace arranjou um 
jardim-infantil para Matthew. Tinha ento dois anos.
        Iam a Connecticut passar os feriados e as frias e sempre que o Congresso no estava em sesso e as crianas no tinham escola. Assim, Charles mantinha-se 
em contacto com os seus eleitores e velhos amigos e apreciava cada momento passado no Congresso. Ajudou a aprovar nova legislao e descobriu que os infindveis 
comits de que fazia parte eram frutuosos e fascinantes. Durante o segundo ano que passaram em Washington, Grace criou outra seco do Ajudem as Crianas, tomando 
como modelo as que j instalara em Nova Iorque e Connecticut. Atendia os telefones durante vrias horas e chegou a aparecer na televiso e na rdio. Como mulher 
de um congressista, tinha mais influncia do que anteriormente, e gostava de a usar para causas vlidas.
        Grace e Charles recebiam muito e assistiam tambm a eventos polticos. Para eles tinham acabado os anos de tranquilidade, mas mesmo assim conseguiam manter 
a mesma vida sossegada em Connecticut. Em Washington eram convidados com regularidade para a Casa Branca. Mas no davam nas vistas. Charles era um congressista que 
trabalhava muito e gostava de manter o contacto com os seus eleitores e Grace apreciava sobretudo ajudar o marido e ocupar-se com os filhos.
        Encontravam-se em Washington aproximadamente h cinco anos, trs mandatos, e Charles foi novamente contactado, dessa vez com uma proposta mais interessante. 
Ser congressista significara muito para ele e dera-lhe uma valiosa experincia, mas compreendia que noutros locais havia mais poder e mais influncia nos destinos 
do pas. O Senado constitua uma grande atraco para ele e tinha muitos amigos ali. E dessa vez foi abordado por fontes prximas do presidente, que se dizia ansioso 
por saber se ele estava disposto a concorrer para o Senado.
        Charles disse imediatamente a Grace e falaram imenso sobre o assunto. Ele sentia-se atrado pela ideia, mas ao mesmo tempo receava aceitar a proposta. Como 
senador estaria sujeito a mais presses, teria maiores responsabilidades, ser-lhe-iam feitas mais exigncias e estaria muito mais exposto aos olhos do mundo. Como 
congressista fora apreciado e de certa maneira continuara a ser o homem da rua. Como senador seria invejado e considerado uma ameaa para muitos.
                - Pode ser um cargo muito problemtico - explicou a Grace. Mas tambm se preocupava com ela. At ento tinham-na deixado em paz. Era conhecida pelas 
suas boas obras, por ter um casamento slido e o seu sentido de famlia. Alm disso, pouco atraa as atenes do pblico. Como mulher de um senador, estaria muito 
mais sob as luzes da ribalta e ningum sabia o que isso poderia acarretar. - No quero fazer coisa alguma que te possa magoar - disse Charles, preocupado. Ela e 
a famlia eram a sua principal preocupao, e ela amava-o ainda mais por isso.
                - No sejas ridculo. No tenho receio. No tenho coisa alguma a esconder - disse ela, sem pensar. Ento ele sorriu e ela compreendeu. - Est bem, 
tenho. Mas ningum disse nada ainda. Nunca ningum disse coisa alguma. Ningum falou do meu passado. E j paguei a minha dvida. Que poderiam dizer agora?
                Tinha sido tudo h tanto tempo... Ela tinha agora trinta e oito anos. Os seus problemas tinham ficado todos para trs... vinte e um anos... estava 
tudo acabado e de muitas maneiras, para Grace, era como um sonho distante.
                - Ningum deve saber quem tu s. Tens um nome diferente, s uma adulta. Mas como mulher de um senador, podem comear a vasculhar o teu passado.  
isso que queres, Grace?
                - No. Mas vais permitir que isso te detenha? - perguntou Grace, enquanto se encontravam sentados na cama a conversar. - Ento no deixes que isto 
te detenha. Tu s bom no que fazes. No deixes que o medo tome conta da nossa vida - insistiu. - Somos senhores da nossa vida.
                Duas semanas mais tarde, Charles anunciava que em Novembro iria concorrer para o Senado.
        Era uma corrida dura e o seu oponente era de peso. Mas o homem era senador h muito tempo e as pessoas pensavam que era altura de mudar. E Charles Mackenzie 
era uma figura atraente. Tinha um excelente corrculo, uma reputao irrepreensvel e inmeros amigos. Alm disso era bem-parecido e tinha uma famlia encantadora, 
o que se tornava tambm um trunfo.
        A campanha comeou com uma conferncia de imprensa e Grace percebeu logo que havia uma grande diferena. Fizeram-lhe perguntas a respeito da vida dele, da 
firma, do seu trabalho, dos seus rendimentos, impostos, sobre os seus empregados e at sobre os seus filhos. Depois interrogaram-no sobre Grace e o seu envolvimento 
em Ajudem as Crianas e antes disso em St. Andrew. Mas, apesar de quererem saber tudo, pareciam gostar dela. Telefonavam-lhe das redaces das revistas para lhe 
pedirem entrevistas e fotografias e ao princpio ela recusou-se. No queria estar em destaque na campanha. Desejava fazer o que j fizera antes: trabalhar arduamente 
e apoi-lo em tudo. Mas no era isso que eles queriam. Tinham um candidato com cinquenta e oito anos, com o aspecto atraente de um actor de cinema, e com uma mulher 
vinte anos mais nova do que ele e muito bonita. E na Primavera comearam a querer saber tudo a respeito de Grace e dos filhos.
        - Mas eu no quero dar entrevistas - queixou-se uma manh, quando tomavam o pequeno-almoo. - O candidato s tu. No sou eu. Que querem de mim, no me dirs? 
- perguntou ela, enquanto lhe servia uma segunda chvena de caf. Tinham uma empregada domstica que chegava a meio da manh. Grace gostava de preparar o pequeno-almoo 
para a famlia e de estar sozinha com Charles todas as manhs.
        - Eu disse-te que seria assim - respondeu calmamente Charles. Nada parecia perturb-lo, mesmo quando as histrias a seu respeito no eram lisonjeiras. Era 
assim a natureza do animal poltico e ele sabia-o. Logo que entravam na arena, ficavam a pertencer aos media e eles podiam fazer tudo o que queriam. Iam longe os 
dias tranquilos do Congresso, quando ele apenas tinha de se preocupar com os eleitores que representava e com a imprensa local. Agora tinha de enfrentar a imprensa 
nacional, com todas as suas exigncias e pesquisas, romances e dios. - Alm disso - sorriu e acabou de beber o seu caf -, se fosses feia no terias interesse para 
eles. Talvez seja melhor deixares de ter esse aspecto - concluiu, inclinando-se e beijando-a.
        Charles levou os filhos para a escola como fazia sempre. Matthew, o beb, estava agora na segunda classe. E Andrew comeara o curso secundrio. Continuavam 
a ir todos para a mesma escola e tinham chegado ao ponto de a maioria dos seus amigos estar em Washington e no em Connecticut. Mas sentiam-se em casa nos dois stios.
        As coisas prosseguiram suavemente at Junho. A campanha estava a correr bem e Charles mostrava-se satisfeito. Preparavam-se para voltar para Greenwich para 
passar o Vero, quando Charles apareceu inesperadamente em casa  tarde, muito plido. Durante um momento de pavor, Grace pensou que tivesse sucedido alguma coisa 
a um dos filhos. Ouviu-o chegar e desceu apressadamente as escadas para o vestbulo. Acabara de pousar a mala quando ela chegou junto dele.
        - Que se passa? - perguntou, sem parar para respirar. Talvez lhe tivessem telefonado a ele primeiro... - Qual deles foi... Andy, Abigail ou Matt?
        - Tenho ms notcias - disse Charles, olhando-a com ar aflito e apertando-lhe a mo.
        - Oh, Deus, o que foi? - Grace apertou-lhe a mo com fora, sem pensar, e viu depois que l tinha deixado a marca dos dedos.
        - Acabei de receber um telefonema de uma fonte que temos na Associated Press... - Ento no era por causa dos filhos. - Grace, eles souberam que mataste 
o teu pai e que estiveste presa em Dwight. - Charles mostrava-se devastado por ter de lhe dizer, mas queria prepar-la. Estava cheio de pena de a ter posto naquela 
situao. Percebia agora que nunca o devia ter feito. Fora tolo, ingnuo e egosta por pensar que ela poderia sobreviver inclume  campanha. E agora a imprensa 
ia devor-la.
        - Oh! - foi tudo quanto Grace disse, olhando-o fixamente. -E.... est bem. - E depois, mostrando-se preocupada, quis saber: - At que ponto ir isso prejudicar 
a tua campanha?
        - No sei. A questo no  essa. No queria que tivesses de passar por isto. - Levou-a lentamente at  sala, com um brao por cima dos ombros. - Vo dar 
a notcia no noticirio das seis e querem uma conferncia de imprensa antes, se ns estivermos dispostos a isso.
        - Tem de ser? - perguntou Grace, com uma palidez acinzentada.
        - No, no tem. Podemos esperar que eles dem a notcia primeiro para sabermos qual ser a reaco.
        - E os midos? Que lhes havemos de dizer? - Grace mostrava-se calma, mas estava muito plida e tinha as mos a tremer.
        -  melhor dizer-lhes.
        Nessa tarde foram os dois buscar os filhos  escola e quando chegaram a casa sentaram-se todos em volta da mesa da casa de jantar.
        - A mam e eu temos uma coisa para vos dizer - disse Charles, calmamente.
        - Vo-se divorciar? - perguntou Matt, parecendo aterrorizado. Os pais dos amigos dele estavam todos a divorciar-se ultimamente.
        - No, claro que no. - Charles esboou um sorriso na direco do filho mais novo. - Mas isto tambm no  bom.  uma coisa muito difcil para a vossa me. 
Mas achmos que devamos contar-lhes. - Charles tinha um ar muito srio e apertava a mo direita de Grace, firmemente.
        - Est doente? - perguntou Andrew, nervoso. A me do seu melhor amigo morrera de cancro pouco tempo antes.
        - No, estou bem. - Grace sentiu a garganta comprimir-se e instintivamente levou a mo ao bolso para tirar o inalador. J nem sabia h quanto tempo no o 
via. - Trata-se de uma coisa que sucedeu h muito tempo e  muito difcil de explicar e de compreender.  difcil de perceber para quem no estava l, nem viu o 
que se passou. - Esforava-se por conter as lgrimas e Charles apertou-lhe a mo a verem a sua vida exposta por causa da carreira poltica de Charles e isso tinha 
um preo a pagar.
        - No posso crer - disse Abigail, fitando-a. - Esteve na priso? Porque no nos contou?
        - No julguei dever faz-lo, Abby. No  uma histria de que me orgulhe. Foi muito doloroso para mim.
        - Disse que os seus pais tinham morrido, mas no disse que os matou.
        - No matei os dois, Abby. S a ele - explicou Grace.
        - Conta as coisas como se se estivesse a defender - argumentou a pequena.
        - E estava.
        - Ento como  que foi para a priso?
        Grace baixou a cabea, infeliz.
        - No acreditaram em mim.
        - No posso acreditar que tenha estado na priso. Abigail s se lembrava do que diriam as suas amigas ao conhecerem a histria. Era pior do que qualquer 
coisa que pudesse imaginar.
        - Tambm matou os pais do pap? - perguntou Matt, intrigado.
        - Claro que no. - Grace no pde deixar de sorrir. Ele era realmente demasiado novo para compreender.
        - Porque nos est a contar isso agora? - perguntou Andrew, com ar infeliz. Abigail tinha razo. No era uma histria bonita e no ficaria bem entre os seus 
amigos.
        - Porque a imprensa descobriu - respondeu Charles. At ento nada dissera. Quisera deixar Grace dizer-lhes  sua maneira e ela fizera-o muito bem. Mas no 
era uma coisa fcil de entender, muito menos para crianas. - Vo dar essa notcia no noticirio da noite e ns quisemos dizer-lhes primeiro.
        - Muito obrigada. Dizem-nos dez minutos antes de toda a gente ouvir essa notcia. E esperam que eu v  escola amanh? Nunca - declarou Abigail.
        - Nem eu - disse Matt, aproveitando a oportunidade. Depois voltou-se para a me com uma expresso de curiosidade. - Ele deitou muito sangue? O seu pai? - 
Grace riu mesmo sem querer e o mesmo sucedeu com Charles. Para Matt era como um filme da TV.
        - Pronto, Matt - disse o pai, para ele se calar.
        - Fez muitos rudos?
        - Matthew!
        - Nem posso acreditar nisto - disse Abigail, comeando a chorar. - No posso crer que nunca nos tenha contado coisa alguma e agora a notcia vai aparecer 
em todos os noticirios.  uma assassina, uma reclusa...
        - Abigail, no compreendes as circunstncias - interveio Charles. - No fazes ideia de como a tua me sofreu. Porque  que pensas que sempre esteve interessada 
em crianas maltratadas?
        - Para se exibir - disse Abigail, zangada. - Alm disso, O que  que sabe? Tambm no estava l, pois no?
        E afinal isto  tudo por sua culpa, por causa da sua estpida campanha. Nada disto se teria passado se no estivssemos em Washington.
        Havia uma certa verdade nas palavras da filha e Charles sentiu-se culpado do que se estava a passar. No era preciso que a filha lho lembrasse. Mas antes 
de lhe poder responder, Abigail subiu as escadas e foi fechar-se no quarto, batendo com a porta. Grace ia levantar-se para a seguir, mas Charles impediu-a.
        - Deixa-a acalmar - disse sensatamente. Andrew olhou-os e ergueu os olhos para o tecto.
        -  uma linda menina. No sei porque se preocupam com ela!
        - Porque gostamos dela e de vocs todos - disse Charles. - Isto no  fcil para nenhum de ns. Temos de aceitar a situao  nossa prpria maneira e apoiarmo-nos 
uns nos outros. Vai ser muito duro quando a imprensa comear a despedaar a vossa me.
        - Ns apoiamo-la, mam - disse Andrew, levantando-se e abraando-a. Mas Matthew parecia ter gostado da histria.
        - Talvez a Abby lhe d um tiro a si, pap - disse com ar esperanoso e Charles no pde deixar de rir outra vez.
        - Espero que no, Matt. Ningum vai matar ningum.
        - Pode ser que a mam mate...
        Grace sorriu tristemente para o seu filho mais novo.
        - Lembra-te disso quando eu te disser para arrumares o teu quarto ou para acabares de comer.
        - Sim - respondeu ele, com um largo sorriso, que mostrava a falta dos dois dentes da frente. Surpreendentemente, ao contrrio dos irmos, ele no ficara 
nada perturbado. Era demasiado novo para compreender as implicaes do que sucedera.
        Mais tarde Grace foi bater  porta do quarto da filha, mas ela continuou sem a querer abrir. s dezoito horas reuniram-se todos na sala para ver o noticirio. 
Abby desceu as escadas e foi sentar-se ao fundo da sala, sem falar aos pais.
        O telefone estava a tocar h duas horas, mas Grace ligara o gravador. No havia ningum com quem quisessem falar. Tinham um telefone cujo nmero no se encontrava 
na lista, para onde falavam os assistentes de Charles. Falaram vrias vezes e avisaram de que a histria no era bonita.
        A notcia foi apresentada como noticirio especial, com uma foto de Grace, tirada ao entrar na priso. O que mais surpreendeu Grace foi parecer to nova: 
pouco mais do que uma criana. S tinha na altura mais trs anos do que Andrew e na foto parecia mais nova do que Abigail.
        - Oh! Era a mam? - exclamou Matthew.
        - disseram todos ao mesmo tempo, olhando, horrorizados, para o desenrolar da histria.
        A notcia abria com a informao de que Grace Mackenzie, esposa do congressista Charles Mackenzie, candidato a um lugar no Senado nas prximas eleies, 
matara o pai a tiro num escndalo sexual, aos dezassete anos, e fora condenada a dois anos de priso. Havia fotografias dela a entrar no tribunal, algemada, e fotos 
do pai dela, um homem muito atraente. Disseram que ele fora um pilar da comunidade e que a filha o acusara de violao e o matara com um tiro. Afirmara tratar-se 
de legtima defesa e o jri no acreditara. Uma sentena de dois anos de priso e dois anos de liberdade condicional - tal fora o resultado do julgamento.
        Voltaram a mostrar fotografias dela a sair do tribunal, algemada, ao partir para Dwight com correntes nas pernas, alm de outra foto tirada em Dwight. Quando 
o noticirio "especial" terminou, Grace estava de rastos. Mas ainda no acabara. O locutor prosseguiu, dizendo, para quem no tinha visto desde o incio, que ela 
estivera no Dwight Correctional Center, em Dwight, Ilinis, durante dois anos, e passara em Chicago mais dois anos de liberdade condicional. No houvera mais problemas 
desde ento, tanto quanto sabiam, mas o caso estava a ser investigado.
        - Investigado? - exclamou Grace, indignada. - Que querem eles dizer? - Mas Charles calou-a com um gesto. Queria ouvir o que eles diziam.
        Explicaram a seguir que as pessoas da comunidade no tinham acreditado na histria do escndalo sexual. Seguidamente apresentaram uma entrevista com o chefe 
da Polcia local que a prendera na noite do crime. Vinte anos depois, dizia recordar bem o que ento se passara.
        - A acusao achou que ela devia ter querido... bem... sorriu maldosamente e Grace teve vontade de vomitar ao ouvi-lo... - bem, que talvez quisesse... seduzir 
o pai e se tivesse zangado quando ele no quis. Era uma rapariga bastante doente, na altura. Agora no sei nada dela,  claro, mas o leopardo no muda muito as suas 
manchas, pois no? Grace nem podia acreditar no que ouvia, ou no que os entrevistadores o encorajavam a dizer.
        Voltaram a dizer que ela fora condenada por assassnio e que estivera presa, mostrando de novo a fotografia dela tirada na priso. A seguir mostraram uma 
fotografia horrorosa em que ela se encontrava ao lado de Charles quando ele prestara juramento para o Congresso. E explicaram que Charles estava agora a concorrer 
para o Senado. Depois o programa acabou e passaram a outro assunto, enquanto Grace se deixava cair para trs na cadeira, exausta e assombrada. Tinham mostrado tudo, 
as fotos, as algemas, os ferros nas pernas, o chefe da Polcia.
        - Ouviste o que aquele patife disse? Praticamente afirmaram que eu o tinha violado. - Grace estava indignada por aquilo que o chefe da Polcia dissera a 
respeito dela, dissera que ela era "muito doente" e que seduzira o pai. - No podemos process-los?
        - Talvez - disse Charles, tentando parecer calmo, por causa dela e dos filhos. - Primeiro temos de ver o que sucede. Vai haver muito rudo por causa disto. 
Temos de estar preparados para isso.
        - Achas que ainda podem fazer pior?
        - Muito pior - disse com conhecimento de causa. Os assistentes tinham-no avisado e ele sabia o que se passara quando era casado com a actriz.
        Por volta das sete tinham instalado cmaras de televiso junto da casa. Charles chamou a Polcia e esta apenas pde tir-los da propriedade. Mas instalaram-se 
do outro lado da rua e at colocaram cmaras nas rvores, apontadas para a janela do quarto deles. Charles subiu as escadas e foi correr as persianas. Estavam completamente 
cercados.
        - Quanto tempo  que isto ir durar? - disse Grace, angustiada, depois de os filhos se terem ido deitar.
        - Provavelmente um bocado. Talvez muito.
        Estavam sentados na cozinha, a olharem um para o outro e Charles perguntou-lhe se ela queria falar  imprensa e contar-lhes a sua verso da histria.
        - Achas que sim? No podemos process-los pelo que disseram?
        - No conheo nenhuma das respostas. - Ligara j para dois dos maiores advogados habituados a casos como o deles, mas lembrou-se que a imprensa poderia t-los 
sob escuta e que tambm no lhes queria falar dali de casa, nem sequer do escritrio. De momento, pelo menos, era um desastre completo.
        Na manh seguinte a imprensa ainda l estava e Charles e Grace foram informados de que iam aparecer nos noticirios de todo o pas. Ela era a notcia mais 
escaldante que tinham para apresentar.
        Foram entrevistados dois guardas em Dwight, que afirmaram ter conhecido bem Grace. Mas eram novos e ela tinha a certeza de nunca os ter visto.
        - Nunca os vi - disse para Charles, sentindo-se agoniada outra vez. Ele ficara em casa com ela, para a apoiar, e Abby recusara-se a sair da cama. Mas uma 
amiga oferecera-se para levar Matt e Andrew para a escola e Grace sentiu-se aliviada por eles terem sado. J era difcil ter ali Abby e estar ela tambm.
        Os dois guardas prisionais disseram que Grace pertencera a um gang dentro da priso e sugeriram, embora no o dissessem, que Grace consumia drogas.
        - Charles, porque me esto a fazer isto? - Comeou a chorar e escondeu a cara nas mos. No compreendia. Por que motivo estavam aquelas pessoas a mentir 
a respeito dela.
        - Eles querem aco, querem ser estrelas, Grace. Como tu s.
        - No sou nenhuma estrela. Sou uma dona de casa - disse ingenuamente.
        - Para eles s uma estrela. - Charles sabia muito mais do que ela.
        Noutro canal estavam novamente a entrevistar o chefe da Polcia. E em Watseka, uma rapariga que afirmava ter sido a melhor amiga de Grace na escola e a quem 
Grace nunca vira, disse que Grace sempre lhe falara muito do pai, dizendo que o amava e tinha cimes da me. Pareciam querer dar a impresso de que Grace matara 
o pai num acesso de cimes.
        - Essas pessoas so todas doidas, ou sou eu que sou? Essa mulher parece ter o dobro da minha idade e nem sequer sei quem . - At mesmo o nome lhe era desconhecido.
        Entrevistaram tambm um dos polcias que a tinham prendido e que agora parecia um velho, e ele confessou que Grace lhe parecera realmente assustada e que 
tremia muito quando a encontraram.
        - Parecia ter sido violada? - perguntou o entrevistador, sem hesitao.
        -  difcil de dizer, sabe. No sou mdico - disse timidamente -, mas no tinha roupas.
        - Estava nua? - O entrevistador olhou directamente para a cmara, chocado e o polcia confirmou com a cabea.
        - Sim, mas no creio que o mdico tivesse dito que ela foi violada. Disseram apenas que ela tivera sexo com o namorado ou qualquer coisa. Talvez o pai os 
tivesse encontrado.
        - Obrigado, sargento Johnson.
        Depois veio o prato forte, noutro canal. Entrevistaram Frank Wills, que tinha ainda pior aspecto do que quando era novo. Tudo era possvel e ele declarou 
que Grace sempre fora uma rapariga estranha e sempre quisera o dinheiro do pai.
        - O qu? Ele ficou com tudo, e Deus sabe que no era muito - gritou ela para Charles, deixando cair outra vez a cabea para trs, desesperada.
        - Grace, tens de deixar de enlouquecer com tudo o que eles dizem. Sabes que eles no vo dizer a verdade. Porque o fariam? - Onde estavam David Glass e Molly? 
Porque  que ningum dizia nada decente a respeito dela? Por que motivo ningum gostaria dela? Porque teria Molly morrido e David desaparecido? Onde estavam agora?
        - No posso suportar isto! - disse histericamente. No podia fugir e era insuportvel. No havia qualquer alvio e, nesse caso, nenhuma recompensa para aquela 
dor e tortura.
        - Tens de aguentar - disse Charles prosaicamente. No vai desaparecer de um dia para o outro. - Ele sabia melhor que ningum que poderia passar muito tempo 
a desaparecer, visto o assunto ter tomado to grandes propores.
        - Porque terei de suportar isto? - perguntou, chorando outra vez.
        - Porque as pessoas gostam desta porcaria. Vivem disto. Quando eu era casado com Michelle, os reprteres no a largavam, inventavam histrias, punham grandes 
ttulos nos jornais, faziam tudo quanto podiam para a torturar. Somos obrigados a aceitar isso.  assim mesmo.
        - Eu no posso. Ela era uma estrela de cinema, desejava atrair as atenes. Devia tirar dividendos disso. - Grace recusava-se a ver a semelhana entre a 
vida dela.
        - E pressupe-se que isso suceda tambm comigo, porque estou na poltica.
        Grace ficou sentada junto de Charles durante uma hora, a chorar. Depois levantou-se e foi para cima, para tentar falar com Abby, mas a filha no queria falar 
com ela.
        - Como pde fazer essas coisas? - perguntou, soluando, enquanto Grace a olhava angustiadamente.
        - No fiz - disse Grace, por entre lgrimas. - Eu era terrivelmente infeliz... estava sozinha... assustada, aterrorizada com ele... espancava-me... violou-me 
durante quatro anos... e eu no conseguia fugir-lhe. Nem sequer sei se queria matar-me. Matei-o, apenas. Era como um animal ferido e encurralado. Defendi-me como 
pude para me libertar. No podia fazer outra coisa, Abby. - Grace soluava e Abby olhava-a, chorando tambm. - Mas a maior parte das outras coisas que eles dizem 
na televiso no  verdadeira. Grace odiava-os por aquilo que eles estavam a fazer  filha. - Nenhuma das coisas que eles disseram se passou. Nem sequer conheo 
aquelas pessoas, a no ser o antigo scio do meu pai, e o que ele disse  uma grande mentira. Ele  que ficou com todo o dinheiro do meu pai. O que ficou para mim 
dei-o para obras de caridade. Tenho passado a vida a tentar auxiliar as pessoas como eu, para as ajudar a sobreviver tambm. Nunca esquecerei o que passei. E, oh 
meu Deus, amo tanto os meus filhos que sofro por os ver sofrer por minha causa - disse, tentando abraar Abby. - Sinto o corao dilacerado por te ver to infeliz. 
Tive uma vida miservel quando era criana. Nunca ningum foi bom para mim at conhecer o teu pai. Ele deu-me vida, deu-me amor e deu-me todos vocs.  um dos poucos 
seres humanos que foi bom para mim... Abby. - Grace soluava, o seu corpo era agitado por grandes soluos. Abby abraou-a ento, murmurando:
        - Tenho tanta pena... e gosto muito de si... por favor, perdoe-me... desculpe ter sido m para si, mam.
        - Sim, minha querida... gosto muito de ti... de todos... - Charles observava-as da porta, com as lgrimas a correrem-lhe pelas faces. Depois afastou-se em 
bicos dos ps para ir falar ao seu advogado. Mas quando ele os foi visitar nessa tarde, no lhes deu boas notcias. As figuras pblicas, como estrelas de cinema 
e polticos, no tinham direito a qualquer privacidade. As pessoas podiam dizer o que quisessem sobre elas, sem terem de provar que aquilo que diziam era verdade. 
E se as celebridades quisessem processar os seus caluniadores, eram obrigadas a provar que o que se dizia delas era mentira, o que por vezes era impossvel de fazer, 
e tinham de provar tambm terem sofrido perdas de rendimentos como resultado disso e que o que fora dito sobre elas era tendencioso. O advogado informou-os tambm 
que as mulheres ou maridos das estrelas de cinema ou dos polticos, especialmente se tinham feito campanha, ou aparecido em pblico ao lado dos cnjuges, o que Grace 
obviamente fizera, tinham a mesma falta de direitos. Nesse momento, Grace no tinha de facto quaisquer direitos.
        - O que significa - continuou a explicar o advogado que nada podem fazer contra as pessoas que neste momento falam sobre si. Se disserem que matou o seu 
pai e isso no sucedeu, ento j  outra histria, embora tenham o direito de dizer que foi condenada por isso, mas se afirmarem que fez parte de um gang na priso, 
voc ter de provar que  mentira. E como  que quer fazer isso, senhora Mackenzie? Conseguir declaraes das suas companheiras de crcere? E teria de provar que 
essas coisas eram ditas com o intuito de a magoar, e que com isso tinham afectado negativamente a sua capacidade de ganhar a vida.
        - Por outras palavras, podem fazer-me o que quiserem, e, a no ser que eu possa provar que esto a mentir, e tudo o resto que mencionou, nada posso fazer 
a esse respeito.
        -  isso?
        - Exactamente. No  uma situao agradvel, mas todas as figuras pblicas esto sujeitas ao mesmo. Infelizmente, vivemos na poca do sensacionalismo. A 
crena comum dos media  que o pblico quer no s porcarias, mas tambm sangue. Querem fazer e destruir pessoas, querem esquartej-las e d-las ao pblico a comer, 
pedao a pedao. No se trata de nada de pessoal.  uma questo econmica. Fazem dinheiro com os cadveres. So verdadeiros abutres. Pagam cento e cinquenta mil 
dlares por uma histria e depois tratam-na como se fosse uma notcia. E as fontes suspeitas que so pagas para arranjar esse gnero de histrias so capazes de 
dizer seja o que for para concentrar as atenes sobre elas e o dinheiro continuar a chegar-lhes aos bolsos. So capazes de dizer que a viram danar nua sobre a 
cama do seu pai, se isso as fizer aparecer na televiso e ganhar algum dinheiro. Esta  a verdade. E a chamada imprensa legal faz o mesmo.  algo que no existe 
hoje em dia.  repugnante. Agarram em pessoas inocentes, como a senhora e a sua famlia, e arrastam-nas pela lama.  o jogo mais maldoso que pode existir e contudo 
provar que existiu "verdadeira malcia"  a coisa mais difcil deste mundo. J nem sequer se trata de malcia, mas sim de ganncia, de indiferena pela condio 
humana.
        "A senhora j pagou por aquilo que fez. Sofreu muito. Tinha dezassete anos. No devia ser obrigada a passar por isto, nem a senhora nem a sua famlia. Mas 
pouco posso fazer para a ajudar. Vamos ficar atentos e, se surgir alguma coisa em que nos seja possvel processar, f-lo-emos. Mas deve estar preparada tambm para 
isso. Os processos legais s alimentam e encorajam o escndalo. Os tubares gostam de ver sangue na gua.
        - Isso no  muito encorajador, senhor Goldsmith - disse Charles, parecendo deprimido.
        - No, no estou a ser - sorriu com tristeza. Gostava de Charles e tinha pena de Grace. Mas as leis no eram feitas para proteger pessoas como eles. As leis 
eram feitas para as transformar em vtimas.
        O escndalo alimentado artificialmente pelos jornalistas continuou durante semanas. Os filhos de Grace e de Charles regressaram  escola, com relutncia. 
Felizmente as frias de Vero comeavam da a uma semana e a famlia foi para Connecticut. Mas a passou-se mais ou menos a mesma coisa. Ttulos nos jornais, fotgrafos, 
imprensa. Continuaram a aparecer entrevistas na televiso de pessoas que se declaravam amigas de Grace e das quais Grace nunca ouvira falar. A nica coisa boa em 
tudo aquilo foi David Glass ter aparecido  luz. Telefonou. Vivia agora em Van Nuys e tinha quatro filhos. Sentia-se terrivelmente infeliz por saber o que se estava 
a passar e o que Grace estava a sofrer outra vez. Mas sabia que nada se podia fazer para deter as mentiras e a m-lngua. E sabia to bem como Grace que se falasse 
 imprensa a favor dela, tudo quanto dissesse seria distorcido. Ficara feliz por saber que, para alm do temporal que se abatera sobre ela, Grace fizera um bom casamento 
e tinha filhos. Pediu desculpa por no ter dado notcias durante tanto tempo. Era agora o scio principal da firma do sogro. Depois confessou timidamente que, quando 
fora para a Califrnia, a mulher, Tracy, tinha cimes de Grace e que por isso  que ele deixara de lhe escrever. Mas sentira-se compelido a telefonar-lhe agora e 
Grace gostou de o ouvir. David tambm sabia que a imprensa no queria os factos: estava vida de escndalo. O que as pessoas queriam saber era que ela atacara os 
guardas na priso e dormira com mulheres. No queriam saber se ela se sentira vulnervel e aterrorizada, se era uma rapariga boa e decente. S queriam o que era 
feio. Tanto David como Charles concordaram que o melhor a fazer era dar um passo atrs e deixar que eles se esgotassem em si mesmos, sem fazer comentrios.
        Mas, mesmo passado um ms, o furor ainda no abrandara. E os principais tablides continuavam a apresentar histrias a respeito dela. Na TV tinham entrevistado 
toda a gente da cadeia, excepto o porteiro, e Grace sentiu que era altura de aparecer e dizer qualquer coisa. Ela e Charles passaram uma tarde inteira a falar com 
o director da campanha de Charles, e finalmente concordaram em dar uma conferncia de imprensa. Talvez isso pusesse cobro ao escndalo.
        - No por - disse Charles - mas, se tudo correr bem, talvez no seja prejudicial.
        A conferncia ficou marcada para a semana anterior ao aniversrio de Grace e seria transmitida por uma importante rede televisiva. Foi feita grande publicidade 
e desde a vspera comearam a aparecer cmaras de televiso junto da casa. Isso era angustioso para os filhos deles. Agora no gostavam de ir a parte alguma nem 
de ver ningum. E Grace sabia o que isso era. De cada vez que ia  mercearia, havia sempre algum que se aproximava dela e iniciava uma conversa aparentemente inocente 
e que ia sempre acabar com perguntas sobre a sua vida na priso. No importava se a conversa era iniciada a falar sobre meles ou sobre carros, acabavam sempre por 
ir ter ao mesmo lugar perguntando-lhe se o pai realmente a violara, ou se fora traumatizante mat-lo, ou se havia realmente muitas lsbicas na priso.
        Grace queixava-se disso a Charles e ele mal podia acreditar. Aquilo sucedia-lhe principalmente quando estava sozinha com os filhos.
        - Sinto-me como Bonnie e Clyde - disse ela a Charles, depois de uma mulher lhe ter gritado de dentro de um carro, quando ela se encontrava parada numa estao 
de servio: "Pum! Pum! Foi assim que disparaste, no foi?" s vezes o que lhe diziam chegava a dar-lhe vontade de rir. Era absurdo. E, embora muitas vezes dissessem 
tambm coisas a Charles, nunca o faziam to maldosamente como em relao a Grace. Recebera at uma carta irritante da parte de Cheryl Swanson, dizendo-lhe que j 
estava reformada, que se divorciara de Bob, o que no surpreendeu Grace, e que no compreendia por que motivo  que ela nunca lhe dissera que tinha estado presa. 
- Porque ela nunca me teria contratado disse para Charles, dando-lhe a carta para ele ler. Recebia agora muitas cartas e telefonemas daquele gnero. Recebeu at 
uma folha em branco manchada de sangue, onde estava escrita a palavra "Assassina", que eles entregaram  Polcia. Mas tambm recebera uma carta simptica de Winnie, 
que estava agora em Filadlfia, oferecendo-lhe a sua amizade e o seu apoio, e outra do padre Tim, que se encontrava na Florida, como capelo de uma comunidade. Dizia-lhe 
que rezava por ela e que se lembrasse que era filha de Deus e que Ele a amava.
        Grace lembrou-se constantemente disso no dia da entrevista. Fora tudo cuidadosamente preparado e os directores da campanha de Charles viram as perguntas 
que iriam ser feitas, ou pelo menos assim pensaram. A verdade  que essas perguntas desapareceram misteriosamente e, logo que a entrevista comeou, perguntaram a 
Grace o que significara para ela ter tido relaes com o pai.
        - O que  que isso significou para mim? J alguma vez trabalhou com vtimas de abusos? J viu o que as pessoas que abusam das crianas lhes fazem? Violam-nas... 
mutilam-nas... matam-nas... torturam-nas... queimam com cigarros os seus bracinhos e rostos... queimam-nas nos radiadores... fazem uma poro de coisas feias... 
J perguntou a alguma dessas crianas o que significou para elas sentirem gua a ferver cair-lhes sobre a cara, ou os braos serem-lhe quase arrancados dos ombros? 
Quando as pessoas lhes fazem coisas dessas, isso significa muito para elas. Significa que ningum as ama... que esto em perigo constante... que vivem aterrorizadas 
a todo o momento.  o que isso significa... e foi o que significou para mim. - Foi um depoimento impressionante e o entrevistador ficou abalado e surpreendido quando 
Grace se calou.
        - Bem... eu... ns... estou certo de que todos os seus apoiantes gostariam de saber como se sente por o facto de ter estado presa ter sido tornado pblico.
        - Triste... com pena... fui vtima de alguns crimes terrveis, cometidos dentro da santidade da famlia. E eu fiz tambm uma coisa terrvel, matando o meu 
pai. Mas j o tinha pago antes e voltei a pag-lo depois. Creio que, revelando-o desta maneira, fazendo escndalo, fazendo sensacionalismo  custa do sofrimento 
da nossa famlia, atormentando os meus filhos e o meu marido, fazem algo que no serve qualquer propsito.  feito de modo a embaraar-nos, e estragar-nos a vida 
e no para informar o pblico. - Falou ento das pessoas que davam entrevistas, que afirmavam conhec-la quando ela nunca as tinha visto, dizendo mentiras para se 
tornarem importantes. No mencionou o nome do tablide, mas disse que todas as histrias que publicara a respeito dela eram mentiras. E o entrevistador sorriu.
        - No pode esperar que as pessoas acreditem naquilo que lem nesses tablides, senhora Mackenzie.
        - Ento porqu publicar tais coisas? - disse Grace com firmeza.
        O entrevistador fez a Grace inmeras perguntas infelizes, mas questionou Grace acerca do Ajudem as Crianas e do trabalho dela com as crianas vtimas de 
abusos. Ela falou-lhes de St. Mary e de St. Andrew's e tambm da sua organizao. Fez uma splica em prol das crianas em toda a parte, para que no tivessem de 
passar por aquilo que ela passara. Apesar da m vontade manifesta por parte do entrevistador, e das perguntas incmodas que lhe fazia, Grace transformou a entrevista 
em algo de profundamente comovente e muito simptico e depois disso toda a gente a felicitou. Charles sentiu-se particularmente orgulhoso dela e passaram uma tarde 
tranquila depois de as cmaras de televiso terem desaparecido da casa deles. Fora uma poca terrvel para ela, mas pelo menos dissera o que queria dizer.
        Passaram o aniversrio de Grace em casa e Abigail tambm recebeu os seus amigos. Mas s porque os pais tinham insistido. Grace estava muito calada, sentada 
junto da piscina com Charles. Sentia-se ainda abalada com tudo aquilo e no tinha vontade de ir a parte nenhuma. As pessoas continuavam a abord-la, mesmo nas filas, 
nos bancos e noutros locais pblicos. Sentia-se mais feliz em casa, longe da vista dos outros, e receava sair, mesmo com Charles. Apesar da campanha, foi um Vero 
muito tranquilo.
        Em Agosto, finalmente, tudo parecia ter voltado ao normal. Deixou de haver fotgrafos acampados no exterior, e h semanas que a fotografia dela no aparecia 
nas capas dos tablides.
        - Acho que comeas a ser menos popular - disse Charles, gracejando. Conseguira arranjar uma semana para estar junto dela e estava satisfeito por o ter feito. 
A asma dela piorara, pela primeira vez desde h muitos anos, e sentia-se doente. Charles achava que devia ser stress, mas dessa vez Grace adivinhou antes dele: estava 
grvida.
        - No meio de toda esta confuso? - exclamou Charles, chocado, mas ao mesmo tempo feliz. Os filhos tinham-lhes proporcionado as maiores alegrias no decorrer 
dos anos. No entanto sentia-se preocupado com a mulher. O beb devia nascer em Maro e Grace estava grvida de dois meses, o que significava que os primeiros tempos 
da gravidez tinham sido de grande agitao para ela. Na altura das eleies a gravidez teria cinco meses. Charles queria que ela descansasse e no se enervasse muito. 
Quando voltaram para Washington, depois das frias, Charles costumava queixar-se:
        - Quando esse beb nascer, terei cinquenta e nove anos. Quando ele ou ela acabarem a universidade, terei oitenta.
        - Oh, cala-te - dizia Grace. - Daqui a pouco pareo mais velha do que tu, por isso no te lamentes. Pareces ter trinta anos.
        Isso era quase verdade. Charles no parecia ter trinta anos, mas no seria difcil darem-lhe quarenta. Mal fora tocado pelo tempo, mas Grace, aos trinta 
e nove anos, tambm no estava nada mal.
        Em Setembro j se encontravam em Washington. Por causa da gravidez e da campanha contra Grace, Charles fizera praticamente toda a campanha sozinho.
        Abigail entrou para o curso secundrio nesse ano. Andrew foi para o segundo ano e tinha agora uma nova namorada, a filha do embaixador da Frana. Matt comeava 
a terceira classe com a habitual compra de nova mochila, lpis, canetas e todo o gnero de equipamentos e material escolar.
        No sabia ainda se preferia almoar na cantina da escola ou levar o almoo de casa. Para Matt cada dia era ainda uma aventura.
        Ainda no lhe tinham dito que iam ter outro beb. Grace achava que era demasiado cedo. Estava apenas grvida de trs meses e tinham decidido esperar at 
ao aniversrio de Matt, em Setembro. Grace planeara uma festa para ele. Pouco a pouco recomeara a sair com Charles. Era difcil estar no meio das pessoas, sabendo 
que o seu feio passado se tornara conhecido e passara a fazer parte de todas as conversas. Mas nada fora escrito a respeito dela, nos jornais, e Grace comeava a 
sentir remorsos por no fazer campanha com o marido.
        Numa quente tarde de Setembro, no dia anterior  festa de Matt, estava Grace a comprar algumas coisas de que precisava, como talheres de plstico, sodas 
e gelados para a festa, no Sutton Place Gourmet, quando viu, junto da caixa, algo que quase a fez desmaiar. A ltima edio do tablide Thrilf acabara de sair, e 
dessa vez Charles no fora avisado. Na capa havia uma fotografia dela, nua, com a cabea atirada para trs e os olhos fechados. Tinha duas caixas pretas a cobrirem-lhe 
os seios e outra na zona pbica, mas alm disso o fotgrafo nada deixara  imaginao. Tinha as pernas abertas e parecia estar no auge da paixo. O ttulo dizia:
"Mulher de Senador Fez Porno em Chicago". Grace julgou que ia vomitar enquanto tirava as revistas do escaparate, estendendo  empregada da caixa uma nota de cem 
dlares para as pagar. Por momentos no soube o que estava a fazer.
        - Leva-as todas? - perguntou a empregada, surpreendida. Grace disse que sim com a cabea, ofegante. Precisava agora constantemente de usar o inalador.
        - Tem mais? - perguntou.
        - Tenho, l atrs. Tambm as quer?
        - Sim. - Comprou cinquenta exemplares da revista nojenta, alm das coisas de que precisava para a festa de Matt, e correu para o carro, como se tivesse acabado 
de comprar todos os exemplares publicados. E, enquanto seguia ao volante do carro, a chorar, pensava como tinha sido estpida. No podia comprar as revistas todas. 
Era como querer esvaziar o oceano com uma chvena de ch.
        Grace correu para casa logo que chegou, mas Charles estava sentado na cozinha com um exemplar da revista na mo e um ar espantado. O seu principal adjunto 
acabara de ver a revista e levara-lhe uma para ele ver. No tinham sido avisados. O ajudante de Charles viu a expresso de Grace e saiu imediatamente. O marido olhou-a 
verdadeiramente chocado pela primeira vez. Nunca o vira to cansado e to trado e v-lo assim quase a matou.
        - O que  isto, Grace?
        - No sei. - Sentara-se ao lado dele a chorar. Todo o seu corpo tremia. - No sei...
        - No podes ser tu. - Mas parecia ela. Via-se a cara dela. Embora tivesse os olhos fechados, era facilmente reconhecvel. Ento... subitamente... Grace compreendeu... 
ele devia t-la despido... devia ter-lhe tirado tudo... A nica coisa que ela tinha era uma fita preta em volta do pescoo. Ele devia ter-lha posto, para ficar mais 
sexy, enquanto ela dormia. O autor da fotografia era Marcus Anders. Grace fez-se ainda mais plida quando reparou nisso. E Charles reparara no olhar dela.
        - Sabes quem tirou isto?
        Grace disse que sim, desejando morrer ali mesmo, desejando, para bem dele, nunca o ter encontrado, nem ter tido filhos dele.
        - O que  isto, Grace? - Pela primeira vez em dezasseis anos, Charles falou-lhe num tom glido. - Quando foi isto?
        - No tenho a certeza de o ter feito - respondeu ela, sufocada com as suas prprias palavras, sentando-se lentamente  mesa da cozinha. - Sa algumas vezes 
com um fotgrafo em Chicago. Contei-te isso. Ele quis-me tirar umas fotografias e na agncia tambm queriam.
        - Queriam que fizesses fotografias pornogrficas? - perguntou Charles, chocado.
        - Era uma agncia de modelos. - Grace sentia a vida a fugir-lhe. J no podia lutar mais, no podia defender-se para sempre. Ir-se-ia embora, se ele quisesse. 
Faria tudo o que ele quisesse. - Queriam que eu fosse modelo fotogrfico e eu consenti em tirar algumas fotografias. ramos amigos. Eu confiava nele. Gostava dele. 
Foi o primeiro homem com quem sa. As minhas companheiras de casa detestavam-no. Eram muito mais espertas do que eu. Ele levou-me ao seu estdio, ps msica a tocar, 
serviu-me um copo de vinho... e drogou-me. Contei-te tudo isso h muito tempo. - Mas Charles j no se lembrava. - Creio que devo ter desmaiado. Fiquei completamente 
inconsciente e ele deve-me ter tirado fotografias nessa altura, mas eu tinha uma camisa de homem vestida. Nunca me despi.
        - Como podes ter a certeza disso?
        Grace olhou-o de frente. Nunca lhe mentira e no ia comear agora.
        - No sei. No sei nada. Julguei que ele me tinha violado, mas no o fez. Uma amiga minha levou-me a uma mdica e ela disse que nada sucedera. Tentei recuperar 
os negativos, mas ele no mos deu. As minhas companheiras de casa disseram-me ento que era melhor eu no pensar mais no assunto. Ele precisava de uma autorizao 
minha para publicar as fotografias, se eu estivesse reconhecvel. Se no estivesse, no me importava. Bem os quis recuperar, mas no consegui. A certa altura, quis-me 
dar a entender que eu assinara uma autorizao de publicao, mas logo a seguir deu-me a impresso de que no o fizera. Quando sa de l estava to drogada que mal 
conseguia ver.
        "Mais tarde, ele mostrou as fotos ao dono da agncia e por isso  que ele me assediou. Disse-me que as fotos estavam escaldantes, falou na camisa de homem 
que eu tinha vestida e por isso pensei que no tivesse havido nada de grave. No vi as fotografias. Nunca mais voltei a v-lo. Nunca pensei estar nesta situao, 
nem casar com uma pessoa importante e ser vulnervel. -        Agora ele podia fazer o que quisesse. E as fotos eram terrveis. Pareciam verdadeiramente pornogrficas. 
Tinha apenas uma fita preta que nunca vira, ao pescoo. E ao olhar para a fotografia, Grace reparou que parecia drogada. Aos seus prprios olhos, parecia completamente 
inconsciente. Mas para um estranho, predisposto a ver ali algo de obsceno, no precisava de mais nada. Grace achava inacreditvel que algum pudesse fazer uma coisa 
daquelas. Marcus destrura a vida dela com uma simples fotografia. Grace ficou sentada a olhar para Charles, acabrunhada, pela dor, ao ver o desgosto no rosto dele. 
Ter morto o pai em legtima defesa j fora suficientemente mau. Nada do que ele lhe pudesse fazer seria pior. Preferia que ele lhe tivesse batido.
                - Eu no fiz isso, Charles - murmurou em voz baixa, a chorar. Tinha a certeza de que a fotografia de Marcus fora o fim do seu casamento. Como poderia 
explicar aquilo aos eleitores, aos media, aos filhos? - No fiz isso, Charles. No o fiz - disse ela. - Estava drogada.
        - Que tola... que tola foste... - No podia neg-lo. - E que patife ele devia ser para te obrigar a fazer isso. - Grace disse que sim com a cabea atravs 
das lgrimas, incapaz de dizer fosse o que fosse em sua prpria defesa. Momentos depois Charles pegou no jornal e subiu sozinho para o quarto. Grace no o seguiu. 
Estava desorientada e pensou que na segunda-feira, depois da festa de Matt, teria de os deixar. No podia continuar a faz-los passar por tudo aquilo.
                A fotografia apareceu no noticirio dessa noite e o escndalo foi to grande que todas as redes de televiso e todos os jornais e revistas comearam 
a telefonar-lhes. Os adjuntos de Charles tentavam explicar que naturalmente se tratava de um engano, que a rapariga da foto apenas se parecia com ela, e que a Sra. 
Mackenzie no se encontrava disponvel para fazer qualquer comentrio. O pior  que no dia seguinte transmitiram uma entrevista com Marcus. Tinha cabelo branco e 
um aspecto miservel, mas disse com ar lascivo que a foto era na verdade de Grace Mackenzie e que tinha uma autorizao assinada por ela para o provar. Mostrou essa 
autorizao para todos verem e explicou que ela se deixara fotografar por ele, dezoito anos antes, em Chicago.
        - Era uma menina verdadeiramente escaldante - disse, sorrindo. E realmente parecia-o.
        - Teria nessa altura grandes dificuldades econmicas? - perguntou o entrevistador, fingindo querer encontrar uma razo para ela ter feito isso.
        - No, de modo algum - disse, sorrindo. - Gostava disso. H mulheres que gostam.
        - E deu-lhe autorizao para utilizar a fotografia comercialmente?
        - Com certeza - respondeu, mostrando-se ofendido. Mostraram novamente a fotografia e depois passaram a outro assunto, enquanto Grace olhava para o ecr com 
uma expresso de dio. Nunca lhe dera tal autorizao e quando Goldsmith, o advogado encarregado de processar quem fosse passvel disso, lhes telefonou, ela declarou 
formalmente que nunca assinara qualquer autorizao a Marcus Anders.
        - Veremos o que podemos fazer, Grace. Mas se posou para essa fotografia, Grace, e lhe deu autorizao para a publicar, no h nada a fazer.
        - No assinei qualquer autorizao. No assinei coisa alguma.
        - Talvez ele a tenha forjado. Vou fazer tudo o que puder. Mas no se pode apagar o que as pessoas viram, Grace. No se pode voltar atrs e desfazer o que 
est feito. Se h dezoito anos posou para essa fotografia, devia saber que ela havia de aparecer  luz para a assombrar. - E depois, num tom preocupado, perguntou: 
- H outras? No sabe quantas ele lhe tirou?
        - No fao ideia - gemeu ela.
        - Se o jornal comprou as fotos a Marcus Anders de boa-f, e se ele disse que tinha autorizao do modelo e lha apresentou, ento eles esto protegidos.
        - Porque est toda a gente protegida menos eu? Porque hei-de ser sempre eu a parte culpada? - Era como se estivesse a ser espancada e violada outra vez. 
Grace era outra vez uma vtima. No era muito diferente de ser violada noite aps noite pelo pai. A nica diferena era o pai j no o fazer e os outros continuarem. 
No era justo, por Charles estar na poltica, poderem destruir a vida dela e da famlia. Tinham usufrudo de dezasseis anos maravilhosos, mas agora a vida deles 
transformara-se num pesadelo. Era como se tivesse voltado  priso. Sentia-se impotente contra as mentiras. A verdade nada significava. Tudo o que fizera, tudo E 
para que vivera, tudo que construra, fora destrudo.
        Nessa tarde Grace viu uma cpia da autorizao e no duvidou de que a tivesse assinado. A letra era trmula e um pouco larga, mas reconhecia a sua assinatura. 
Nem podia acreditar no que via. Talvez ele a tivesse feito assinar quando ainda estava semiconsciente.
        A festa de Matthew no foi alegre. Toda a gente vira ou ouvira falar da fotografia que aparecera no tablide. Os pais que iam deixar os filhos l em casa, 
olhavam Grace de uma forma estranha, ou pelo menos ela julgou isso. Charles encontrava-se por perto para cumprimentar as pessoas, mas os dois mal se falavam desde 
a noite anterior e Charles dormira no quarto de hspedes. Precisava de tempo para pensar e para absorver o que se passava.
        Nessa manh tinham falado aos filhos na fotografia. Matthew no compreendeu bem, mas Andrew e Abigail compreendiam. Andrew ficou com um ar angustiado e Abigail 
comeou a chorar. No podia acreditar que a me estivesse a faz-los passar por tudo aquilo. Como podia ela ter feito tais coisas?
        - Como pode fazer-nos sermes sobre o modo como nos comportamos, sobre a moralidade, dizer-me para no dormir com rapazes, quando procedeu assim? Suponho 
que foi forada a fazer isso, tal como o seu pai a forou? Quem a forou dessa vez, mam? - Grace perdeu o controlo e deu uma bofetada na filha. Depois pediu-lhe 
desculpa, mas no podia aguentar mais. Estava cansada das mentiras e do preo que todos estavam a pagar por elas.
        - Eu nunca fiz isso, Abigail. Sabendo o que estava a fazer, pelo menos. Fui drogada e enganada por um fotgrafo em Chicago, quando era ainda muito nova e 
estpida. Mas tanto quanto sei, nunca posei para essa fotografia.
        - Sim, com certeza. - Mas era mais do que Grace podia suportar. No ia falar mais com eles. Meia hora mais tarde, Abigail saiu para passar o sero com uma 
amiga e Andrew foi ver a namorada.
        Matthew gostou da sua festa de aniversrio, e mais tarde Grace preparou-lhe o jantar. Abby telefonou a dizer que passava a noite em casa da amiga e Grace 
no se ops. Andrew chegou a casa s nove, mas no os incomodou. Charles estava no escritrio, novamente a trabalhar, e Grace percebeu o que tinha a fazer. Quando 
entrou no quarto deles para ir buscar uns papis, Charles fingiu no estar preocupado, mas ficou surpreendido ao ver Grace fazer uma mala.
        - Que se passa? - perguntou calmamente.
        - Acho que j sofreste o suficiente - respondeu Grace, de costas voltadas para ele. A mulher estava a encher duas grandes malas e ele ficou perturbado. Fora 
duro para ela, mas tinha o direito de se sentir aborrecido. Qualquer pessoa teria ficado chocada. Mas ele estava disposto a deixar que o passado dela morresse tranquilamente. 
Ainda no lhe dissera, mas estava lentamente a dar a volta  situao. Umas coisas eram mais duras de aceitar do que outras. Precisava apenas de tempo para absorver 
o que estava a suceder. Julgava que Grace compreendera isso, mas aparentemente ela no compreendia.
        - Para onde vais? - perguntou calmamente.
        - Para Nova Yorque, talvez.
        - Para arranjares emprego? - Charles sorriu, mas ela no viu.
        - Sim, como estrela porno. Agora terei muitas propostas.
        - Ento, Grace - disse Charles, aproximando-se mais dela. - No sejas tola.
        - Tola? Achas que  isso? - disse, voltando-se para ele. - Que estar sujeita a uma coisa destas  ser tola? Achas uma questo de tolice destruir a carreira 
do marido e chegar ao ponto de os filhos me odiarem?
        - Eles no te odeiam. Apenas no compreendem. Nenhum de ns compreende.  difcil compreender por que motivo algum querer fazer-te mal.
        -  assim mesmo. Toda a minha vida tem sido o mesmo. J devia estar habituada. No te preocupes: sem mim pode ser que ganhes as eleies. - Mostrava-se zangada, 
magoada e vencida.
        - Isso no  to importante para mim como tu - disse gentilmente.
        - Tretas! - respondeu Grace com dureza. Mas nesse momento odiava-se pelo que lhe fizera, por o ter amado, por pensar que podia deixar o passado para trs. 
Viera tudo agarrado a ela como latas a tilintar agarradas  sua cauda, cheirando a tudo quanto era podre.
        Charles voltou a descer as escadas e ambos passaram uma noite solitria, cada um em seu stio.
        No dia seguinte de manh, Grace preparou o pequeno-almoo para Charles, Andrew e Matthew, e Charles fez questo de lhe dizer outra vez para no ir a parte 
nenhuma. Referia-se  mala que a vira arranjar na noite anterior, mas em frente dos filhos ela fingiu no perceber. E saram todos. Charles tinha uma poro de reunies 
importantes e focos de escndalo para apagar, e no teve tempo para lhe telefonar at ao meio-dia. Quando ligou, no obteve resposta.
        Nessa altura j Grace h muito que sara. Escrevera a cada um deles na noite anterior, sentada na cama, com as lgrimas a carem-lhe pelas faces, de tal 
modo que molhava a carta e tinha de voltar a escrever, s para lhes dizer como os amava e como tinha pena da dor que lhes causara. Disse a cada um deles para tomarem 
conta do pap, para serem bons para ele. A carta mais difcil foi para Matt. Ele era ainda muito pequeno. Provavelmente no entenderia por que motivo ela os deixava. 
Fazia-o por eles. Fora ela a isca que fizera aproximar os tubares e agora tinha de se afastar deles o mais possvel, para que ningum os magoasse mais. Iria para 
Nova Yorque passar alguns dias e depois talvez fosse para Los Angeles. Poderia arranjar um emprego at chegar a altura do nascimento do beb.
        Depois d-lo-ia a Charles... ou talvez o marido o deixasse ficar com ela. Quando saiu, sentia-se perturbada, confusa e chorava. A empregada viu-a sair e 
ouvia-a soluar desesperadamente na garagem, mas receou ir falar-lhe. Isso poderia ser considerado uma intromisso. Sabia qual o motivo que fazia Grace chorar. Ela 
prpria chorara ao ver a fotografia no jornal.
        Mas Grace no saiu de carro. Chamara um txi e esperou fora da porta, ao lado das suas malas. A empregada viu o txi afastar-se, mas no teve a certeza se 
Grace ia l dentro. Julgava a patroa ainda na garagem preparando-se para se dirigir a algum stio antes de ir buscar Matthew  escola. Mas Grace pedira a uma amiga 
para o trazer, e deixara uma longa e angustiante carta para Charles, no quarto deles, juntamente com as cartas para os filhos.
        O motorista do txi seguiu o mais rapidamente possvel para o Dules Airport, sempre a conversar. Viera do Ir e disse a Grace como se sentia feliz nos Estados 
Unidos e que a mulher dele ia ter um beb. Falava incessantemente e Grace nem o ouvia. Sentiu-se mal-disposta ao ver que ele tinha o jornal com a fotografia dela 
em cima do banco da frente, ao seu lado, e olhava-a por cima do ombro para falar com ela, por isso embateu na parte detrs de outro txi, sendo logo a seguir apanhado 
por dois carros que vinham a seguir, demasiado perto deles. Os quatro veculos ficaram enfaixados uns nos outros e levaram mais de meia hora para sairem dali. Veio 
a Polcia, mas como ningum ficara ferido, procedeu-se apenas  troca de nmeros das matrculas, das cartas de conduo e dos seguros. A Grace aquilo pareceu infindvel, 
mas de qualquer modo no tinha para onde ir. Podia partir em qualquer altura, pois o seu bilhete no tinha marcao para um determinado voo.
        - Est bem? - O motorista mostrou-se preocupado. Receava que algum pudesse queixar-se ao patro, mas Grace disse-lhe que no o faria. - Veja - disse ele, 
apontando para a revista e fazendo com que Grace se sentisse tomada de pnico -, ela  parecida consigo! - Aquilo era um cumprimento, mas Grace no o tomou como 
tal. -  uma bonita rapariga, hen? Uma bonita mulher. - Olhou com admirao para a foto que supostamente seria de Grace, mas que a ela prpria dava a impresso de 
no ser, e continuou: - Diz aqui que  casada com um congressista. Um tipo com sorte! - Era assim que as pessoas pensavam. Um tipo com sorte? Era uma pena Charles 
no pensar o mesmo, mas quem o poderia censurar?
        O txi deixou-a no aeroporto e Grace sentiu um pequeno alto no pescoo no stio em que batera quando do choque dos carros e sentia-se um pouco rgida, mas 
no era nada de especial. No queria de modo algum arranjar complicaes para o motorista. E conseguiu apanhar o voo previsto. S ao aterrar no aeroporto em Nova 
Yorque  que percebeu que estava a perder sangue. Mas era pouco e, quando chegasse ao hotel, poderia descansar e ficar bem. Quando da gravidez de Matt tivera tambm 
o mesmo e o mdico dissera-lhe para descansar e no sucedera nada.
        Deu o endereo do Carlyle ao motorista. O hotel ficava em Madison, na Rua Setenta e Seis Leste. Grace fizera a reserva a partir do avio. Ficava apenas a 
meia dzia de quarteires do stio onde vivera e registara-se com o nome de Grace Adams. Deram-lhe um pequeno quarto, forrado com chiniz florido, e levaram-lhe as 
duas malas ao quarto. Grace deu uma gorjeta ao rapaz que lhe levou as malas e ele saiu. Ningum ali parecera notar a semelhana dela com a da estrela porno cuja 
fotografia se encontrava nos jornais.
        Estendeu-se sobre a cama, exausta, e pensou se Charles j teria chegado a casa e encontrado as cartas. Ela no iria telefonar. Fora melhor partir assim. 
Sabia que se falasse com eles, especialmente com Charles ou com Matt, no teria foras para se manter afastada.
        Grace sentia-se completamente exausta e continuava a ter uma ligeira dor no pescoo, alm de umas dores no baixo abdmen e nas costas. Sabia que no era 
nada, mas nem teve foras para ir  casa de banho. Deixou-se ficar estendida, sentindo-se fraca e triste. O quarto comeou ento a girar lentamente  sua volta e 
ela mergulhou na escurido.
        Acordou por volta das quatro da manh e as dores na barriga eram agora realmente fortes. Virou-se de lado e gemeu de dor. Mal as podia suportar. Permaneceu 
ali, dobrada sobre si durante muito tempo, e depois olhou para a cama sobre a qual se encontrava deitada. Estava suja de sangue e as calas dela tambm. Sabia que 
precisava de fazer alguma coisa rapidamente, pois depressa iria desmaiar de novo. Mas estar de p era to doloroso que ela quase perdeu os sentidos. Agarrou na carteira 
e rastejou at  porta, depois de vestir a gabardina que levara consigo. Ps-se de p, chamou o elevador, e entrou nele toda dobrada. O rapaz do elevador olhou-a 
e nada disse. Reparou que o empregado da recepo a olhava, assim como o porteiro. Grace chegou por fim  porta e o ar fresco da noite de Setembro fez-lhe bem.
        - Deseja um txi, miss? - perguntou o porteiro, mas ela disse que no com a cabea, tentando endireitar-se, mas sem conseguir. Uma dor sbita f-la soltar 
uma exclamao abafada e os joelhos perderam a fora. Grace teve de se agarrar ao brao do porteiro para no cair.
        - Sente-se bem? - perguntou o homem.
        - Estou bem... tenho um pequeno problema...
        Ao princpio o porteiro julgou que ela estivesse embriagada, mas quando olhou bem para ela, viu que estava com dores. E pareceu-lhe vagamente familiar. Mas 
tinham tantos clientes habituais e estrelas de cinema, que s vezes era difcil saber quem conheciam ou no conheciam. - Eu ia apenas... ao hospital...
        - Porque no vai de txi? Est aqui mesmo um. Pode atravessar Park Avenue e deix-la l. Eu prprio a levava, mas no posso deixar a porta - explicou o homem. 
Grace concordou ento em ir de txi. Mal podia andar. O porteiro indicou ao motorista que a levasse a Lenox Hill e ela deu cinco dlares ao porteiro e outros cinco 
ao motorista.
        - Obrigada, vou ficar bem - disse, para os tranquilizar. Mas no tinha aspecto disso. Depois de atravessarem Park Avenue e entrarem no espao reservado s 
urgncias, o motorista voltou-se para trs e no a viu. Grace escorregara do banco e estava cada no fundo do carro, inconsciente.

CAPTULO 15

        Quando levavam Grace, numa maca, para a sala das urgncias, ela viu luzes a girarem por cima da sua cabea e ouviu rudos. Ouviu tambm sons metlicos e 
algum a cham-la pelo seu nome. Disseram-no vezes e vezes sem conta e depois fizeram-lhe qualquer coisa que lhe provocou uma dor terrvel. Tentou sentar-se e det-los. 
O que estavam a fazer... iam mat-la... era terrvel... porque no paravam... nunca sentira tamanha dor na sua vida. Gritou, tudo ficou escuro e fez-se silncio.
        O telefone tocou na casa de Washington. Eram cinco e meia da manh, mas Charles no dormia. Estivera acordado toda a noite, rezando para que ela lhe telefonasse. 
Fora um idiota. Fizera mal em ter reagido daquela maneira, mas estavam todos exaustos pelos constantes ataques dos media. Aquilo fora um choque. Mas a ltima coisa 
que queria era perder Grace. Dissera aos filhos que ela fora a Nova iorque por causa de uma reunio de Ajudem as Crianas, e que estaria de regresso dentro de dias, 
o que lhe daria algum tempo para a encontrar. No tinha a certeza onde ela se encontraria. Ligara toda a noite para a casa de Connecticut, mas Grace no estava l. 
Ligara para o Carlyle, em Nova iorque, e no havia l ningum com o nome Mackenzie. Pensou se ela estaria num hotel qualquer em Washington, escondida. Quando o telefone 
tocou, teve esperanas de que fosse ela. Mas no era.
        - Senhor Mackenzie? - A voz no lhe era famliar. O nome dele estava no bilhete de identidade apenas como Charles Mackenzie. E a carta de conduo dela dizia 
Grace Adams Mackenzie.
        - Sim? - Pensou se seria um telefonema annimo como muitos, e lamentou ter atendido. Depois do aparecimento da fotografia, as cartas e os telefonemas tinham 
recomeado em fora.
        - Temos aqui uma Grace Mackenzie - disse a voz completamente impessoal.
        - Quem fala? - Teria ela sido raptada? Estaria morta?... Oh, Deus...
        - Estou a falar do Lenox Hill Hospital, em Nova iorque. A senhora Mackenzie acaba de sair da sala de operaes. "Oh, no... o beb..." sentiu um aperto no 
corao... teria havido um acidente... - Foi trazida pelo motorista de um txi, com uma grave hemorragia... - "oh, no.. - o beb! Mas agora s podia pensar em Grace.
        - Ela est bem? - perguntou com voz rouca e assustada, mas a enfermeira tranquilizou-o.
        - Perdeu muito sangue, mas no lhe quisemos fazer uma transfuso. O seu estado  estvel e no  considerado grave. - Ento por momentos a voz humanizou-se. 
- Perdeu o beb... lamento.
        - Obrigado. - Charles teve de conter a respirao e pensar no que havia de fazer. - Ela est consciente? Posso falar-lhe?
        - Est na sala de recuperao. Deve ficar l at s oito e meia ou s nove horas. Querem que a tenso arterial suba antes de a enviarem para um quarto, e 
agora est ainda bastante baixa. No creio que a mudem at amanh de manh.
        - E poder sair?
        - No creio. - A enfermeira parecia surpreendida. - No me parece que tenha foras para isso. Tem na mala uma chave do Carlyle Hotel. Liguei para l, mas 
disseram que no estava ningum com ela.
        - Obrigado. Muito obrigado por me ter telefonado. Estarei a o mais depressa possvel. - Saltou da cama logo que pousou o auscultador e rabiscou um bilhete 
para os filhos, dizendo-lhes que tinha uma reunio muito cedo. Vestiu-se em cinco minutos, sem se barbear e dirigiu-se para o aeroporto. Chegou l s seis e meia 
e apanhou o avio das sete. Vrios comissrios de bordo reconheceram-no mas no lhe disseram nada. Limitaram-se a levar-lhe os jornais, sumo, um bolo e um caf, 
como fizeram a toda a gente, e deixaram-no em paz. Charles passou quase todo o voo a olhar para fora, para a janela.
        Aterraram s oito e meia e ele chegou a Lenox Hill pouco depois das nove. Estavam justamente a levar Grace para o quarto quando ele chegou. Seguiu atrs 
da maca e Grace pareceu surpreendida e muito tonta quando o viu.
        - Como chegaste aqui? - perguntou, com ar confuso. Os seus olhos fechavam-se constantemente e ela estava muito plida e com um ar exausto.
        - Vim de avio - sorriu, parando junto dela e segurou-lhe meigamente nas mos. No fazia ideia se ela j saberia da perda do beb.
        - Creio que ca - disse vagamente.
        - Onde?
        - No me lembro... estava no txi, em Washington, e chocmos... - No tinha a certeza se seria um sonho ou no... - Depois tive dores terrveis... - Olhou-o, 
subitamente preocupada. - Onde estou eu?
        - Ests em Lenox hil, em Nova iorque - disse carinhosamente, sentando-se numa cadeira junto da cama, mas sem nunca lhe largar a mo. Estava assustado com 
o aspecto dela e desejava falar com o mdico.
        - Como  que vim para aqui?
        - Creio que foi um motorista de txi que te trouxe. Desmaiaste no carro dele.          - Bbeda outra vez, creio. - Sorriu, mas sem dizer coisa alguma. Grace 
comeou a chorar. Tocara na barriga e sentira-a lisa. Com trs meses de gravidez tivera ali um pequeno altinho a crescer e agora j no o tinha. Lembrou-se ento 
da dor terrvel que sentira na noite anterior e do sangue que perdera. Ningum lhe dissera coisa alguma acerca do beb. - Grace... minha querida... amo-te mais do 
que tudo... quero que saibas isso. No te quero perder. - Grace chorava agora mais, por ele, pelo beb que tinham perdido, pelos filhos. Tudo era to difcil... 
to triste...
        - Perdi o beb, no perdi? - Olhou para ele para obter a confirmao e ele disse que sim com a cabea. Ento choraram ambos e ele abraou-a.
        - Tenho muita pena. Devia ter percebido que tu te preparavas para te ires embora. Quase morri quando li a tua carta.
        - Deste as cartas aos midos?
        - No. Guardei-as. Queria encontrar-te e levar-te para casa. Se eu tivesse sido suficientemente esperto para no te deixar sair, no terias tido o acidente 
e... - estava convencido de que a culpa fora toda sua.
        - No digas isso... talvez tenha sido apenas do stress a que todos ns temos estado sujeitos... e talvez no fosse a altura certa, com tanta coisa que tem 
sucedido.
        -  sempre a altura certa... quero ter outro filho teu - disse apaixonadamente. Falaram durante um bocado e ele acariciou-lhe o cabelo e beijou-lhe a face. 
Da a pouco Grace adormeceu e Charles foi falar com o mdico, mas a conversa no foi encorajadora. Ela perdera muito sangue e durante uns tempos no deveria sentir-se 
bem. Disse tambm que, embora ela viesse a poder conceber outra vez, no recomendava que o fizesse. Tinha muitas cicatrizes de leses internas e admirava-se dela 
ter engravidado to frequentemente. O mdico sugeriu depois que Charles a levasse para o hotel e descansasse alguns dias antes de ir para casa.
        Depois de chegar a Washington, devia estar de cama pelo menos mais uma semana. Um aborto espontneo e a grave hemorragia que ela tivera no eram coisas para 
se encarar de nimo leve.
        Foram para o hotel nessa tarde e Grace ficou admirada por se sentir to fraca. Mal podia andar e Charles levou-a ao colo do elevador para o quarto e deitou-a 
na cama. Depois telefonou para lhe levarem uma refeio ao quarto. Grace estava triste, mas sentiam-se bem os dois juntos e o quarto era muito confortvel. Charles 
telefonou para Washington e disse aos seus adjuntos que s regressaria da a uns dias. Em seguida ligou para a empregada domstica e pediu-lhe que dissesse aos filhos 
que ele se encontrava em Nova iorque com a me e que s regressariam dois dias mais tarde. Ela prometeu ficar com eles at chegarem e disse que levaria Matt  escola. 
Estava tudo em ordem.
        - Tudo resolvido. Agora s  preciso que te ponhas boa e que esqueas o que se passou.
        Todavia, depois de eles sarem do hospital, a enfermeira que se encontrava na recepo comentou para o mdico:
        - Sabe quem eles so? - O mdico no fazia ideia nenhuma. O nome de Mackenzie no lhe dizia nada. - Era o congressista Mackenzie, de Connecticut, e a mulher, 
a estrela porno. No l os jornais?
        - No - respondeu o mdico, sem achar graa. Estrela porno ou no, aquela mulher tivera muita sorte em no ter morrido esvada em sangue. Depois pensou se 
as actividades "porno" teriam alguma coisa a ver com as cicatrizes internas que observara. Mas no teve tempo para pensar mais nisso. Passou toda a tarde na sala 
de operaes. A doente que sara no era problema dele.
        No hotel, Charles fez com que Grace dormisse o mais possvel e na manh seguinte ela sentia-se melhor. Tomou o pequeno-almoo e sentou-se numa cadeira. Mais 
tarde quis dar uma volta com o marido, mas sentiu que no tinha foras para isso. Nem podia crer como se sentia enfraquecida. Charles telefonou ao seu antigo obstetra 
e ele foi suficientemente amvel para ir ali v-la. Deu-lhe uns comprimidos e umas vitaminas e disse-lhe que tinha de ser paciente. E quando acompanhou o mdico 
ao elevador, Charles falou-lhe do que dissera o mdico do hospital a respeito das cicatrizes. Mas o obstetra no se mostrou impressionado. Tinha-as h anos e nunca 
lhe haviam dado problemas.
        - Em todo o caso, ter de ter cuidado, Charles. Perdeu muito sangue e provavelmente est muito anmica.
        - Bem sei. Tem passado um mau bocado ultimamente.
        - Tenho visto. Nem voc nem ela mereciam isto. Lamento.
        Charles agradeceu ao mdico e, depois de ele se afastar voltou para o quarto, pediu que lhe levassem as refeies ao quarto e passaram a tarde a ver filmes 
antigos. No dia seguinte Charles levou Grace at ao aeroporto numa limusina e a sentou-a numa cadeira de rodas para entrar no avio. Chegara a pensar em ir de carro, 
mas achou que isso seria mais cansativo. Viajaram em primeira classe e  sada Charles alugou outra cadeira de rodas para transportar Grace pelo aeroporto. Mas Grace 
fez-lhe subitamente sinal para parar, ao passarem por um quiosque onde vendiam jornais. E ficaram ambos parados, a olhar, como se tivessem sido siderados pelo que 
viam. Sara uma nova edio do tablide e na primeira pgina lia-se, em grandes letras "Esposa de Senador Vai Secretamente a Nova iorque para Abortar." Grace comeou 
logo a chorar e Charles nem sequer se deu ao trabalho de comprar um exemplar. Limitou-se a conduzi-la pelo aeroporto com grande velocidade. Num dos cartazes via-se 
uma grande fotografia dela tirada numa festa uns meses antes. Grace ainda estava a chorar quando ele parou a cadeira junto do carro que ali deixara dois dias antes. 
Charles abriu a porta do automvel para ela entrar, com uma expresso tensa. Nunca mais a iam deixar em paz? Aparentemente, no.
        Charles ajudou-a a sentar-se e deu a volta para entrar por sua vez no carro. Depois voltou-se para ela com um olhar que a comoveu profundamente.
        - Amo-te... No podemos deixar que eles nos destruam... ou te destruam a ti... temos de ultrapassar isto.
        - Eu sei - disse Grace, mas no podia parar de chorar.
        Pelo menos dessa vez, o noticirio das dezoito no fez qualquer comentrio ao assunto. Tratava-se de material exclusivo do tablide. Nessa noite falaram 
disso aos filhos, mas afirmaram-lhes que era mentira. Disseram que Grace sofrera um acidente de viao num txi, em Nova iorque, o que era quase verdade. Sofrera, 
de facto, mas tinha sido em Washington, e ela perdera um beb. Mas Grace achava que eles no deviam saber isso e portanto no lhes falou do aborto.
        No dia seguinte Grace ainda no se estava a sentir muito bem, mas os filhos mostravam-se muito carinhosos para ela. At mesmo Abigail, que lhe levou o pequeno-almoo 
 cama.  hora do almoo, Grace foi  sala de jantar e, na altura em que bebia uma chvena de ch, olhou ocasionalmente para a janela. L fora encontrava-se uma 
pequena multido empunhando cartazes onde se lia: "Assassina"; "Assassina de Bebs", "Defensora do Aborto". Viam-se fotos de fetos abortados e Grace teve uma crise 
de asma assim que as viu.
        Quando ligou para Charles, ele disse-lhe que chamasse a Polcia imediatamente. Os polcias chegaram meia hora mais tarde e os manifestantes passaram para 
o outro lado da rua, mas mantiveram-se ali. Nessa altura j chegara uma equipa da televiso com uma cmara e aquilo transformou-se num verdadeiro circo. Charles 
chegou a casa pouco antes disso. Comeava a pensar se alguma vez voltariam a ter uma vida normal. Recusou-se a fazer qualquer comentrio para a televiso, mas disse-lhes 
que a mulher sofrera um acidente de viao e que se encontrava doente. Agradecia por isso que se retirassem para deixar de haver ali tanta confuso e rudo.
        Nessa tarde, quando os filhos voltaram para casa, os manifestantes haviam desaparecido e apenas a equipa da televiso permanecia ali. Grace, muito plida, 
estava na cozinha a preparar o jantar.
        - No podias esperar mais uma semana antes de comeares a pr as tuas foras  prova? - sugeriu ele.
        - No, no posso - respondeu Grace com firmeza. E, com grande surpresa de todos, comeram um jantar muito agradvel. Abby parecera ter acalmado logo que a 
me partira e agora mostrava-se simptica e desejosa de a ajudar. Era difcil saber o qu, mas algo a fizera mudar. Talvez fosse apenas por ter sofrido muito e perceber 
que precisavam de se ajudar uns aos outros. Andrew fez um comentrio sobre os vampiros que se encontravam l fora e que a sua vontade era de os enviar para a Lua, 
da janela do seu quarto. Todos riram, at mesmo Grace, mas aconselhou-o a no fazer isso.
        - No precisamos de ver mais vezes o nome de Mackenzie nos jornais - disse com ar sombrio.
        Mais tarde, enquanto arrumavam a cozinha, Abby perguntou-lhe calmamente:
        - Aquilo sobre o aborto no foi verdade, pois no?
        - No, querida, no foi.
        - Eu tambm achei que no.
        - Eu nunca faria um aborto. Amo muito o teu pai e gostaria de ter outro beb.
        - Achas que sim?
        - Talvez. No sei. Com todas estas coisas, o pap tem sido sujeito a uma grande presso.
        - Tambm a mam - disse Abby com simpatia. - Falei com a me de Nicole a respeito disto e ela disse que tinha realmente pena de ti, pois eles dizem mentiras 
para estragar a vida das pessoas. Isso fez-me perceber como deve ter sido duro para ti o que se tem passado, e eu tornei as coisas ainda piores - disse, com lgrimas 
nos olhos.
        - No tornaste - Grace inclinou-se e beijou-a.
        - Desculpa, mam. - As duas abraaram-se durante um longo momento, caladas. Depois subiram as escadas de brao dado e Charles sorriu ao observ-las.
        A vida tornou-se de novo pacfica nos dias seguintes, com excepo das cartas cheias de dio que lhes escreviam acerca do suposto aborto. Mas no fim da semana 
apareceu no Thrill nova fotografia. Grace tinha a mesma fita preta em volta do pescoo e a mesma ausncia de roupas. Era essencialmente uma fotografia igual  anterior, 
mas numa posio ligeiramente diferente e um pouco mais sugestiva. E  claro que aparecia a mesma suposta "autorizao" assinada por Grace.
        - De que estamos  espera? - disse Grace, furiosa, a Goldsmith. - Que publiquem um lbum completo?
        Contudo, Goldsmith voltou a dizer que no tinham qualquer motivo para processar o jornal. Se Marcus tinha as fotografias e tinha tambm a autorizao assinada 
por Grace, podia publicar o que quisesse, visto ela ser casada com uma figura pblica. As celebridades no tinham direito a qualquer privacidade, por isso no podiam 
alegar "invaso da privacidade", nem provar que perdiam rendimentos, nem que a publicao fora feita com real malcia.
        - Achas que podemos chamar esse patife, esse Marcus, e tentar comprar-lhe outras fotografias, se ele as tiver? - perguntou Grace a Charles. Mas ele abanou 
a cabea.
        - No podemos. Isso seria o mesmo que pagar chantagem e ele podia no as vender. Ou podia conservar algumas. No temos maneira de controlar isso. Fotografias 
daquelas de uma pessoa como tu valem muito dinheiro.
        - Isso  bom para ele. Talvez devssemos ter uma comisso.
        Grace estava furiosa, mas nada podia fazer. Na semana seguinte participou ao lado de Charles num dos eventos da campanha e viu que as pessoas, apesar de 
tudo, continuavam a cumpriment-la afectuosamente. Mas tudo aquilo continuava a ser perturbante e desmoralizador.
        Duas semanas mais tarde apareceu uma terceira fotografia e dessa vez Matt vinha a chorar da escola. Quando Grace lhe perguntou o que se tratava, ele disse 
que um dos amigos dele lhe tinha chamado a ela um nome feio. Grace sentiu-se como se tivesse sido esbofeteada ao ouvir isso.
        - Que nome? - Grace tentou mostrar-se calma, mas no o estava...
        - Bem sabe. Aquele comeado por p...
        Grace abraou-o, sentindo-se terrivelmente infeliz. Apetecia-lhe fugir, mas sabia que no o podia fazer. Tinha de ficar e lutar.
        Matthew voltou a ouvir o mesmo no dia seguinte e no outro e nessa noite Grace e Charles tiveram uma discusso. Grace queria tirar os filhos da escola e lev-los 
para Connecticut, mas ele disse-lhe que ela no podia fugir. Tinham de se aguentar e lutar. Grace argumentou que no podiam destruir a famlia por causa da sua maldita 
campanha. Mas no se tratava disso e eles sabiam-no. Sentiam-se ambos frustrados pela sua impotncia e precisavam de gritar com algum, visto nada poderem fazer 
para acabar com o que se estava a passar.
        No entanto, Matthew no entendia isso e, quando Grace foi ao quarto dele para lhe dar um beijo, no o encontrou na cama. Perguntou a Abby onde  que ele 
tinha ido, mas ela encolheu os ombros e apontou para o quarto dele. Estava a falar ao telefone com Nicole e no o vira. Andrew nao o vira tambm. Foi ter com Charles, 
que se encontrava na sala, ainda aborrecido, e perguntou-lhe se tinha visto Matthew.
        - No est l em cima? - Entreolharam-se e Charles compreendeu a preocupao de Grace e comearam a procur-lo por toda a parte. No estava em parte alguma. 
- No podia ter sado - disse Charles, preocupado. - T-lo-amos visto.
        - No. Podamos no ver. - E depois, em voz mais baixa: - Achas que ele nos ouviu discutir?
        - Talvez. - Charles parecia ainda mais aflito do que ela. Estava preocupado com um rapto se Matt tivesse ido para a rua sozinho. Washington era uma cidade 
perigosa depois de anoitecer. Subiram outra vez as escadas e foram ao quarto dele e encontraram o bilhete que ele lhes deixara.
        "No voltem a discutir por minha causa. Vou-me embora. Beijos, Matt. Mam e pap, gosto muito de vocs. Digam adeus por mim ao Kisses. " Era o nome do lavrador 
cor de chocolate que Charles lhes oferecera. E ficara com esse nome porque Grace dissera que parecia uma pequena pilha de Hershey Kisses.
        - Para onde  que julgas que ele possa ter ido? - disse Grace, assustada.
        - No sei. Vou chamar a Polcia - respondeu Charles com uma expresso tensa.
        - A notcia vai parar aos jornais - disse nervosamente Grace.
        - No me interessa. Quero encontr-lo esta noite, antes que lhe acontea alguma coisa. - Estavam ambos apavorados e os polcias garantiram-lhes que o encontrariam 
o mais depressa possvel. Disseram que era uma coisa bastante vulgar nos midos da idade dele e que geralmente no se afastavam muito de casa. Pediram-lhes uma lista 
dos melhores amigos dele e uma fotografia dele. Charles e Grace ficaram em casa,  espera dele para o caso de voltar. Mas os polcias estavam de volta, com ele, 
meia hora mais tarde. Estava a comprar Hostess Twinkies numa loja a dois quarteires de distncia, sentindo muita pena de si mesmo. Tinham-no visto logo e ele no 
se fizera rogado para voltar para casa. Estava pronto para isso.
        - Porque fizeste isso? - perguntou Grace, ainda abalada pela sua fuga. Nem podia acreditar que o filho tivesse feito aquilo. Nenhum dos filhos dela fugira. 
Mas jamais tinham sido sujeitos a tal presso.
        - No queria que discutissem por minha causa - disse Matt com tristeza. Mas tivera medo de estar sozinho na rua e estava satisfeito por ter voltado.
        - No discutimos por tua causa. Estvamos apenas a conversar.
        - No, no estavam. Ouvi-os discutir.
        - Toda a gente discute uma vez ou outra - explicou Charles, sentando-se e puxando-o para os seus joelhos. A Polcia acabara de sair e prometera no dizer 
nada aos jornais. Devia poder haver algo de privado nas vidas deles, mesmo que fosse apenas o filho de oito anos ter fugido de casa durante meia hora. Nada mais 
era sagrado.
        - A mam e eu gostamos muito de ti, sabes isso.
        -Sim sei, mas ultimamente tem sido uma trapalhada to grande. Na escola esto sempre a dizer coisas e a mama anda sempre a chorar.
        Grace sentiu-se culpada ao ouvir aquelas palavras. Na verdade, ultimamente chorava muito. Mas quem no choraria?
        - Lembra-te do que te disse outro dia - explicou Charles. - Precisamos de ser fortes. Todos ns. Uns pelos outros. No podemos fugir, nem desistir. S temos 
de nos manter unidos.
        - Sim, est bem - disse ele, meio convencido, mas satisfeito por estar outra vez em casa. Fora uma tolice fugir e ele bem o sabia.
        A me foi com ele para o quarto e meteu-o na cama. Nessa noite todos se deitaram cedo. Grace e Charles estavam exaustos e Matthew adormeceu praticamente 
no momento em que pousou a cabea na almofada. Kisses deitou-se aos ps da cama dele e adormeceu tranquilamente.
        Infelizmente, na semana seguinte apareceu outra fotografia. Dessa vez Grace fora apanhada de frente, com os olhos muito abertos numa expresso de surpresa, 
como se algum tivesse acabado de lhe fazer algo de muito chocante e deliciosamente sensual. Tratava-se da srie de fotografias mais erticas que ela j vira, e 
pouco a pouco estavam a faz-la enlouquecer.
        Ligou ento para as informaes, pensando porque teria esperado tanto tempo para fazer aquilo. Marcus no estava em Chicago, nem em Nova iorque. Ligara para 
o Thrill e tinham-lhe dado a morada dele. Era perfeito. Porque no se lembrara disso mais cedo? Sabia que tinha de o fazer. J no lhe importava o que lhe pudesse 
suceder. Tinha de agir.
        Abriu o cofre e tirou de l o revlver de Charles. Em seguida meteu-se no carro e dirigiu-se para a morada que escrevera num papel. Os filhos estavam na 
escola e Charles fora trabalhar. Ningum sabia aonde ela ia, nem o que tencionava fazer. Mas ela sabia. Planeara tudo e tinha de o fazer, custasse o que custasse.
        Tocou  porta do estdio de F. Street e ficou surpreendida quando abriram a porta sem perguntarem quem era. Isso queria dizer ou que se tratava de um estdio 
grande e muito cheio de trabalho ou muito miservel... Com um estdio cheio de equipamento caro, as pessoas deviam ser mais cuidadosas. Mas felizmente para ela no 
o eram.
        Foi tudo to fcil que Grace se admirou de no ter pensado nisso mais cedo. A porta abriu-se e ela viu que no estava ali mais ningum a no ser Marcus. 
Nem sequer tinha um ajudante. Inclinado para a cmara, de costas voltadas para ela, fotografava uma taa com fruta colocada sobre uma mesa. Estava sozinho e nem 
sequer a vira.
        - Ol, Marcus. - A voz no lhe era famliar depois de tantos anos. Era uma voz lenta e sensual e parecia feliz por o ver.
        - Quem ? - Marcus voltou-se e ficou a olh-la com um leve sorriso, sem a reconhecer imediatamente, e pensando quem poderia ser. Gostava do aspecto dela 
e... ento, subitamente, percebeu quem ela era e ficou imvel. Grace apontava-lhe uma arma e sorria.
        - J devia ter feito isto h semanas - disse simplesmente. - No sei como no me lembrei mais cedo. Agora pouse a mquina. No tente fotografar-me ou disparo 
e estrago tambm a mquina. Agora. - A voz dela era dura e nada sensual e ele colocou a mquina fotogrfica sobre a mesa, cuidadosamente.
        - Ento, Grace... nada de brincadeiras... eu estou apenas a ganhar a vida.
        - No me agrada a maneira como o faz - declarou Grace peremptoriamente.
        - Fica linda nas fotografias. Deixe-me pegar na mquina.
        - No o deixo pegar em coisa alguma. Considero-o um nojo, um pedao de lodo. Disse-me que eu nunca tinha sido fotografada sem roupa.
        - Menti.
        - E deve ter-me feito assinar a autorizao quando eu estava praticamente inconsciente. - Grace falava de um modo glido e toda ela era fria concentrada 
mas controlava totalmente a situao. O que estava a fazer fora inteiramente premeditado. Desta vez seria de facto homicdio voluntrio. Ia mat-lo. Ao olh-la, 
Marcus percebeu isso. Forara demasiado a nota e ela no aguentara mais. No se importava com o que lhe pudessem fazer depois. Sobrevivera uma vez. De qualquer modo 
valia a pena, sucedesse o que sucedesse.
        - Vamos, Grace... no seja intolerante. So belas fotografias... Olhe... dou-lhe o resto dos negativos.
        - No quero saber disso para coisa alguma. Vou-lhe rebentar os testculos e depois mato-o. Para isso no  necessria qualquer autorizao. Apenas esta arma.
        - Por amor de Deus, Grace. Desista. So apenas fotografias.
        -No.  a minha vida estragada... a do meu marido... dos meus filhos...
        - Ele deve ser um palhao... tem de ser para a suportar... H dezanove anos, mesmo drogada, parecia uma pedra. No era nada divertido estar consigo. - Marcus 
era repugnante e se estivesse menos tensa, Grace teria percebido que estava completamente drogado. Utilizava o dinheiro que recebera do tablide para manter o seu 
vcio. - Mesmo nessas circunstncias parecia um pedao de gelo. - O homem era repugnante, nojento e estava drogado, mas Grace ficou com a certeza de que nada se 
passara entre eles.
        - Nunca dormiu comigo.
        - Isso  que dormi. Tenho fotografias que o provam.
        - Mete-me nojo. - Ele comeou ento a gemer, a dizer que ela no tinha o direito de ir ali interferir na maneira como ele ganhava a vida.
        - No passa de um patife repugnante - disse Grace, destravando a arma com um estalido que sobressaltou ambos.
        - No vai fazer isso, pois no, Grace? - gemeu.
        - Vou, sim.  o que merece.
        - Vai outra vez para a priso - disse ele num tom gemebundo, enquanto o nariz lhe comeava a pingar de um modo pattico. Os ltimos dezanove anos no lhe 
tinham corrido bem. Deitara a mo a muitas coisas no decorrer dos anos, poucas elas legais.
        - No me importo de voltar para l - disse friamente Grace. - Voc estar morto. Ser uma consolao.
        - V... eu dou-lhe as fotografias... no me mate... s iam publicar mais duas... tenho uma sua com um....... uma verdadeira beleza... dou-lha de graa... 
- Marcus chorava desesperadamente.
        - Quem tem as fotografias? Que tipo? - No se encontrava mais ningum no estdio. - Grace tinha a certeza disso. Ou teria entrado quando ela estava a dormir? 
Era repugnante pensar que assim fora.
        - Tenho-as... no cofre... vou busc-las.
        - O diabo  que vai. Provavelmente tem l uma arma. No preciso delas.
        - No as quer ver? So lindas!
        - S quero v-lo estendido no cho a sangrar como um porco que  - respondeu Grace, sentindo a mo a tremer. E ao olhar para Marcus, lembrou-se de repente 
de Charles... e de Matthew... se matasse Marcus nunca mais os veria, a no ser, talvez, na priso, se a fossem visitar... Quando pensou nisso sentiu que afinal o 
que queria apenas era estar junto deles, abra-los... - Levante-se! ordenou com dureza a Marcus. Ele levantou-se, sempre a gemer e a chorar. - E deixe de gemer. 
No passa de um miservel pedao de merda.
        - Grace, por favor no dispare.
        Grace recuou para a porta e ele percebeu que ela ia disparar dali. E s podia chorar e suplicar-lhe que no o fizesse.
        - Para que quer viver? - perguntou, furiosa. Ele no valia nada. Nem a vida dela, nem sequer o tempo que estava a perder com ele. Como podia ela ter pensado 
que valia a pena mat-lo? - Para que quer viver? Por dinheiro? Para destruir as vidas das outras pessoas? Nem sequer merece que lhe d um tiro. - E com essas palavras, 
Grace voltou-se e correu pelas escadas abaixo, antes de ele pensar em a seguir. Chegou  rua e meteu-se no carro antes que ele pudesse atravessar a sala. Marcus 
limitou-se a ficar sentado no cho a chorar, incapaz de acreditar que ela o poupara. Convencera-se que Grace o mataria e tivera razo at aos ltimos cinco minutos. 
V-lo sentado no cho, a chorar, suplicante, drogado, fizera-a voltar  realidade.
        Foi para casa, guardou a arma e telefonou a Charles.
        - Preciso de falar contigo - disse ansiosamente. No queria dizer-lhe coisa alguma ao telefone, pois podia algum ouvir, mas queria que ele soubesse o que 
estivera prestes a fazer. Quase cometera uma loucura. Mas, graas a Deus, recuperara a tempo o bom senso.
        - Podes esperar at ao almoo?
        - Est bem. - Sentia-se ainda toda a tremer. A essa hora podia estar a ser presa e ir a caminho da priso por toda a vida. Nem podia crer que tivesse sido 
to estpida. O que a levara a fazer aquilo tinham sido as mentiras, a vergonha, a humilhao.
        - Ests bem? - perguntou Charles, preocupado.
        - ptima. H muito que no me sentia to bem.
        - O que  que fizeste? Mataste algum? - gracejou.
        - No, realmente no matei - respondeu Grace, parecendo vagamente divertida.
        - Encontramo-nos no Le Rivage,  uma.
        - L estarei. Amo-te.
        H muito tempo que no almoavam juntos e Grace sentiu-se feliz quando o viu aparecer. Charles pediu um copo de vinho. Grace nunca bebia ao almoo e raramente 
ao jantar. Depois escolheram o almoo. Enquanto esperavam, Grace foi-lhe contando, em voz baixa, o que se tinha passado. Ele empalideceu quando ouviu o que a mulher 
lhe dizia. Estava petrificado. Grace percebia agora como fora disparate o que fizera, mas por um momento achara que valia a pena.
        - Talvez Matt tenha razo. Se no me porto bem, ainda me ds um tiro - disse Charles num murmrio, e ela riu.
        -  bom no esqueceres isso. - Mas Grace sabia que no voltaria a fazer tal coisa. Fora um momento de loucura, mas mesmo no auge da sua fria no o fizera 
e estava satisfeita. Marcus Anders no valia o tiro que ela lhe desse.
        - Bem, acho que a tua histria ultrapassa de longe o que tenho para te contar - disse Charles. Nem podia sequer imaginar o horror que seria se ela tivesse 
morto Marcus Anders. No suportava sequer pensar nisso, embora pudesse perceber a provocao. Ele prprio seria capaz de fazer o mesmo se o tivesse visto. Mas graas 
a Deus que ela recuperara o bom senso. O que ela lhe contou, s reforou a sua ideia de que tomara a deciso certa nessa manh.
        - Vou-me retirar da campanha, Grace. No vale a pena. Estamos a estragar a nossa felicidade, a nossa vida, por causa da poltica.  o que eu te disse em 
Nova iorque. Quero voltar a sentir-me feliz. J passmos por demasiadas coisas. No precisamos disto. Tenho pensado muito no assunto. Que preo teramos ainda de 
pagar? Qual o preo da glria?
        - Tens a certeza de que  isso que queres fazer? - Grace sentia-se culpada por o ter feito abandonar a sua carreira poltica. - Que irs fazer?
        - Hei-de arranjar alguma ocupao. Seis anos de Washington j chegam. Creio que  o bastante por agora.
        - Voltars? Voltaremos? - perguntou tristemente.
        - Talvez. Duvido. O preo  demasiado alto para alguns de ns. H pessoas que conseguem que tudo se passe sem problemas. No sucedeu isso connosco. Havia 
muita coisa no teu passado. Demasiadas pessoas tinham inveja de ns. Creio que o que ns temos, o nosso relacionamento, os nossos filhos, causam inveja a muita gente. 
H muito quem seja infeliz e invejoso. No podemos estar sempre a preocupar-nos com essas pessoas. Mas tambm no podemos lutar contra elas para sempre. Tenho cinquenta 
e nove anos e estou cansado, Grace.  tempo de dobrarmos as nossas tendas e irmos para casa. - Tinha j anunciado uma conferncia de imprensa para o dia seguinte, 
enquanto Grace se encontrava a ameaar matar Marcus Anders. A ironia de tudo isso era espantosa.
        Nessa noite disseram aos filhos e eles ficaram desapontados. Estavam habituados a que o pai estivesse na poltica e no gostavam de voltar para Connecticut 
a tempo inteiro. Disseram todos que era maador, excepto no Vero.
        - Na verdade - disse Charles por fim -, tenho pensado que uma mudana de cenrio nos faria bem a todos. E se fssemos  Europa, para Londres, ou para Frana, 
ou talvez mesmo para a Suia, durante um ou dois anos?
        Abby mostrou-se horrorizada e Andrew cauteloso.
        - Que h na Sua, pap?
        - Vacas - respondeu Abby com ar desdenhoso. - E chocolates.
        - Isso  bom - disse Matthew. - Gosto de vacas e de chocolates. Podemos levar o Kisses?
        - Sim, a no ser que vamos para Londres.
        - Ento no podemos ir para Londres - declarou imediatamente Matthew.
        Todos sabiam que o voto de Andrew seria a Frana visto que a namorada dele iria para Paris passar dois anos. O pai dela ia ser transferido para o Quai d'Orsay 
e ela j lhe dissera isso.
        - Posso trabalhar em Paris na sucursal da nossa firma ou na nossa sucursal de Londres, se eu voltar para a firma, ou poderemos viver com pouco dinheiro e 
cultivarmos os nossos vegetais em qualquer stio. Temos muitas opes. - Sorriu para a famlia reunida  sua volta. Pensava nessa mudana desde que tinham comeado 
os ataques nos jornais. Mas fosse o que fosse que fizessem a seguir, era altura de deixarem Washington, e todos sabiam isso. Era um preo demasiado alto a pagar 
por ele e pela sua famlia.
        Telefonara a Roger Marshall e pedira-lhe desculpa da sua deciso, e Roger dissera que compreendia perfeitamente e que achava que talvez pudessem surgir novas 
oportunidades interessantes num futuro prximo. Mas era demasiado cedo para Charles as querer conhecer.
        Na manh seguinte, durante a conferncia de imprensa, Charles mostrou-se distinto e digno, parecendo aliviado ao dizer aos jornalistas ali reunidos que se 
retirava da corrida para o Senado por motivos pessoais.
        - A sua deciso est relacionada com as fotografias para as quais a sua mulher posou h anos? Ou  por o seu registo criminal ter vindo a pblico em Junho 
ltimo?
        Eram todos uns verdadeiros patifes. Abrira-se uma nova era no jornalismo e no se revelara simptica. Houvera tempos em que nada daquilo se teria passado. 
Agora s diziam mentiras, as notcias eram tratadas com maldade e m-f. Queriam atingir constantemente os visados, como se lhes estivessem a espetar um estilete 
na carne, e s ficavam satisfeitos quando esse estilete vinha sujo de sangue de vsceras. Tinham a impresso errnea que era disso que os seus leitores gostavam.
        - Tanto quanto sei - afirmou fitando-os nos olhos -, a minha mulher nunca posou para fotografias nenhumas, meus senhores.
        - E sobre o aborto? Foi verdade?... Regressar ao Congresso dentro de dois anos?... Tem outros objectivos polticos em mente?... Que diz a um lugar no Governo? 
O presidente fez-lhe alguma proposta se for reeleito?  verdade que a sua mulher entrou em filmes pornogrficos em Chicago?...
        - Muito obrigado, senhoras e senhores, pela vossa bondade e cortesia nos ltimos seis anos. Adeus e obrigado. - Terminou como o perfeito cavalheiro que sempre 
fora, e saiu da sala sem sequer olhar para trs. Da a dois meses, no termo do seu mandato no Congresso, ir-se-ia embora e tudo aquilo ficaria para trs.


CAPTULO 16

        A ltima fotografia apareceu no Thrill duas semanas depois de Charles ter desistido da corrida ao Senado, e nessa altura deu-se um anticlmax, mesmo para 
Grace. Marcus vendera-a um ms antes e no conseguiu impedir que eles a publicassem, apesar de todos os seus queixumes. Um negcio era um negcio e ele vendera-a 
e gastara o dinheiro. Mas vivia aterrorizado com medo que Grace voltasse com a arma para o matar, e dessa vez talvez disparasse mesmo. Tinha medo de sair de casa 
e resolveu deixar a cidade. Decidiu no vender a fotografia, de que falara a Grace, com um tipo. Era uma grande foto e parecia uma coisa real. Mas com essa ela mat-lo-ia 
de certeza e o jornal tambm j no se mostrava interessado. Mackenzie desistira de ser senador e a foto j no teria impacte. Quem  que se iria preocupar com a 
mulher dele?
        Todavia, trs dias depois de a fotografia ser publicada, os servios da campanha de Charles receberam um telefonema. Era de um homem de Nova iorque que tinha 
um laboratrio de fotografia e a quem Marcus ficara a dever uma poro de dinheiro. Anders recebera meio milho de dlares graas a ele e gastara-o todo sem pagar 
ao homem que estava ao telefone. Alm disso, o homem do laboratrio sabia que Anders andava a fazer algo ilegal. Ao princpio no desconfiara, mas depois as fotos 
continuaram a aparecer e ele estranhara. Quando percebeu o que estavam a fazer a Grace Mackenzie, resolveu dar o alarme, tanto mais que nada ganhara com o seu trabalho.
        O homem chamava-se Jose Cervantes e era o melhor em truques fotogrficos em Nova iorque. Provavelmente em todos os Estados Unidos. Fazia belos retoques para 
fotgrafos respeitveis e algumas montagens fotogrficas, quando lhe pagavam bem, para tipos como Marcus Anders. Era capaz de pegar na cabea de Margaret Thatcher 
e de a pr no corpo de Arnold Schwarzenegger. Precisava apenas de uma pequena costura e pronto. Estava feita a magia! Explicou que nas fotos de Grace bastara-lhe 
a tira preta em redor do pescoo para colocar a cabea dela em qualquer corpo. Escolhera fotografias de nus bem lascivos, em posies bastante sugestivas, e juntara-lhes 
a cabea de Grace. Ao princpio Marcus dissera-lhe que se tratava de uma brincadeira. S quando viu as fotos no jornal  que compreendera o que o fotgrafo estava 
a fazer. Mas Marcus j tinha todo o seu trabalho nas mos dele. As fotografias originais eram, como Grace recordava, com uma camisa branca de homem e algumas com 
calas de ganga azuis. O que facilitara o trabalho deles fora a expresso do rosto de Grace, recostada sobre a pele, drogada e semiconsciente. Parecia que estava 
a ter sexo na altura em que tinham sido tiradas.
        A histria foi publicada e divulgada e o jornal que publicou as fotos ficou sujeito a ser processado. O Sr. Goldsmith, o advogado, ficou encantado e deduziu 
acusao pela prtica de crime de fraude e de injrias, contra Marcus Anders, mas este desaparecera e dizia-se que tinha ido para a Europa.
        Marcus e o dono do tablide tinham feito aquilo para se divertirem e obterem lucros e para provarem que o podiam fazer, sem realmente se importarem com isso. 
Isso era verdade para o fotgrafo, o forjador, o editor do jornal; e os Mackenzies tinham sido as vtimas.
        Mas estavam novamente sos de corpo e alma quando fecharam a casa em Washington e foram passar o Natal em Connecticut. Depois regressaram para fechar a casa 
em R. Street. Tinha sido rapidamente vendida a um novo congressista, vindo do Alabama.
        - Irs sentir a falta de Washington? - perguntou Grace quando se encontravam deitados lado a lado, na ltima noite que iam passar em Georgetown. No tinha 
a certeza se ele sentia ou no pena de partir. De certo modo ela no tinha, mas por outro lado receava que Charles ficasse sempre com a ideia de que deixara um assunto 
por acabar. Mas ele disse-lhe que no. Durante os seis anos que estivera no Congresso fizera muita coisa e aprendera inmeras e importantes lies. A mais importante 
fora que a famlia significava muito mais para ele do que o seu trabalho. Sabia que tomara a deciso correcta. Tinham sofrido o bastante para uma vida inteira. No 
entanto, isso tornara os filhos mais fortes e todos eles mais unidos.
        Charles recebera vrias propostas, desde empresas do sector privado, de uma ou duas fundaes importantes e,  claro, da sua firma de Nova iorque, mas ainda 
no se decidira. Iam fazer exactamente aquilo que ele dissera: passar de seis a oito meses na Europa. Iriam  Sua,  Frana e a Inglaterra. J entrara em contacto 
com dois colgios em Genebra e em Paris. Kisses ficaria com uns amigos em Greenwich at eles regressarem, no Vero. Nessa altura j teria tomado uma deciso quanto 
ao seu futuro. E talvez, se ela quisesse, pudessem ter outro filho. Se assim no fosse, sentir-se-iam satisfeitos como estavam. Para Charles todas as portas se encontravam 
abertas.
        No dia seguinte, Grace estava j no carro com os filhos quando o telefone tocou. Charles estava a dar uma ltima volta pela casa para ter a certeza de que 
no tinham deixado ficar nada para trs, mas s encontrara uma bola de futebol de Matt e um par de sapatilhas velhas na porta das traseiras. De resto, toda a casa 
estava vazia.
        O telefonema era do Departamento de Estado, de um homem que Charles conhecia apenas vagamente. Charles sabia que ele era muito prximo do presidente, mas 
tivera poucos contactos com ele. Sabia, no entanto, que era amigo de Roger Marshall.
        - O presidente gostaria de lhe falar ainda hoje, se tiver tempo. - Charles sorriu e abanou a cabea. Nunca falhava. Talvez lhe quisesse dizer apenas adeus 
e obrigado pelo bom trabalho. Mas parecia-lhe pouco provvel.
        - Estamos agora de partida para Connecticut. Deixamos esta casa. Os midos j esto no carro.
        - Querer passar por aqui s por uns minutos? Estou certo de que arranjaramos algo para eles fazerem. O presidente tem dez minutos livres s dez e quarenta 
e cinco. Convm-lhe?
        Charles teve vontade de lhe perguntar porqu, mas claro que no o faria, e se no queria fechar nenhumas portas atrs de si, muito menos fecharia a do Gabinete 
Oval.
        - Suponho que sim, se puderem suportar trs garotos barulhentos e um co.
        - Eu tenho cinco - disse o outro, rindo - e um porco que a minha mulher me ofereceu pelo Natal.
        - Ento vamos j.
        Os filhos ficaram muito impressionados ao saberem que iam parar na Casa Branca para se despedirem.
        - Aposto que ele no faz isto a toda a gente - disse orgulhosamente Matt, desejando ter algum a quem contar.
        - De que se trata? - perguntou Grace, enquanto ele conduzia a carrinha por Pennsylvania Avenue.
        O veculo deles era o menos elegante a entrar na Casa Branca, pensava Charles, depois de ter dito a Grace, com sinceridade, que no fazia ideia de qual o 
motivo que os levara a cham-lo ali.
        - Querem que concorras  Presidncia daqui a quatro anos - disse Grace, sorrindo. - Diz-lhes que no tens tempo.
        - Sim, claro. - Riu e saiu do carro, deixando-os l, mas apareceu um ajudante para os convidar a entrar. Iam oferecer aos garotos uma pequena volta pela 
Casa Branca, enquanto um jovem marine se encarregaria de passear Kisses. Havia uma atmosfera amigvel e simptica, tpica da administrao actual. Gostavam de crianas, 
de ces, de pessoas. E de Charles.
        No Gabinete Oval, o presidente disse a Charles que lamentava que ele deixasse a corrida para o Senado, mas compreendia. H alturas na vida em que  preciso 
tomar decises pessoais e pr de lado o interesse do pas. Charles disse por sua vez que agradecia o apoio que lhe fora dado, que iria ter saudades de Washington 
e esperava que voltassem a encontrar-se.
        - Eu tambm tinha esperanas disso. - O presidente sorriu e quis saber quais eram os planos de Charles e ele contou-lhe. Iam partir para a Sua, para duas 
semanas de esqui. - O que  que pensa da Frana? - perguntou num tom de conversa o presidente, e Charles explicou-lhe que iriam  Normandia e  Bretanha e que j 
fizera alguns contactos para pr os filhos numa escola em Paris. 
        - Quando pensa voltar? - perguntou pensativamente.
        - Por volta de Fevereiro ou Maro provavelmente. Vamos ficar at a escola fechar, em Junho. Depois iremos a Inglaterra durante um ms e regressaremos ento 
a casa. Acho que nessa altura estarei pronto para voltar ao trabalho.
        - E se for em Abril?
        - Senhor presidente? - Charles no o compreendeu bem e o presidente sorriu.
        - Estava a perguntar-lhe o que pensaria de voltar a trabalhar em Abril.
        - Nessa altura tenciono estar ainda em Paris - respondeu directamente. No tinha qualquer inteno de voltar a Washington antes de um ano, ou mesmo dois, 
e no queria regressar aos Estados Unidos antes do Vero.
        - Isso no  problema - disse o presidente. - O nosso actual embaixador em Frana deseja regressar em Abril para se reformar. No tem passado bem neste ltimo 
ano. Que diz do lugar de embaixador em Frana durante dois ou trs anos? E nessa altura poderemos falar a respeito das eleies. Vou precisar de homens competentes 
dentro de quatro anos, Charles. Gostaria de o ver entre eles.
        - Embaixador em Frana? - Charles foi totalmente apanhado de surpresa. Nunca poderia imaginar tal coisa, mas parecia-lhe a oportunidade de uma vida. - Posso 
trocar impresses sobre o assunto com a minha mulher?
        - Com certeza.
        - Telefonar-lhe-ei.
        - Leve o tempo que quiser.  um bom lugar, Charles. Creio que lhe agradar.
        - Creio que nos agradar a todos. - Charles estava encantado. E a porta das traseiras de Washington estava-lhe aberta para quando ele quisesse.
        Prometeu informar o presidente da sua deciso dentro de dias. Os dois homens apertaram as mos e Charles voltou para o carro, parecendo muito satisfeito. 
Grace percebeu logo que algo se passara l em cima e estava morta por saber o que era. Levaram uma eternidade para meter outra vez os filhos e o co no carro. Por 
fim entraram e logo que Charles ps o carro em andamento perguntaram todos ao mesmo tempo o que lhe queria o presidente.
        - Nada de importante - disse Charles para os arreliar, enquanto o carro se afastava da Casa Branca. - O habitual. Desejou-nos uma boa viagem, disse para 
no me esquecer de escrever.
        - Pap! - gritou Abigail, e Grace deu-lhe uma cotovelada amigvel.
        - No nos vais dizer?
        - Talvez. E se no disser?
        - Se no dizes depressa empurro-te para fora do carro - ameaou Grace.
        -  melhor fazeres o que ela diz - avisou Matt, e o co comeou a ladrar furiosamente como se tambm quisesse saber.
        - Pronto, pronto. Ele disse que ramos as pessoas mais malcomportadas que conhece e nunca mais nos quer ver por aqui. - Charles riu e gritaram todos em unssono 
que no tinha graa e queriam saber. - Portmo-nos to mal, com efeito, que quer que fiquemos na Europa. - Na verdade custara-lhes dizerem adeus aos seus amigos 
depois de viverem ali seis anos, mas estavam excitados com a ida para o estrangeiro, e Andrew estava ansioso por ir ver a sua namorada em Paris.
        Charles olhou de soslaio para Grace.
        - Ofereceu-me o lugar de embaixador em Paris - disse-lhe rapidamente, enquanto os filhos continuavam a fazer uma grande algazarra l atrs.
        - Ofereceu? - Mostrou-se assombrada. - Agora?
        - Em Abril.
        - O que  que disseste?
        - Disse que te vinha dizer, e aos nossos filhos e que depois lhe daria a resposta. O que  que pensas?
        - Creio que somos umas pessoas cheias de sorte - disse com convico. De facto, tinham passado quase inclumes pelas chamas do inferno, e continuavam juntos. 
- E sabes uma coisa? - murmurou num sussurro, chegando-se mais para ele.
        - O que ?
        Grace falou de modo que os filhos no ouvissem:
        - Creio que estou grvida.
        Charles olhou-a com um sorriso e respondeu tambm em voz baixa, mas suficientemente alto para ser ouvido no banco de trs.
        - Terei oitenta e dois anos quando esse acabar a universidade e se formar. Ou talvez seja melhor deixar de contar. Suponho que teremos de lhe chamar Franois.
        - Franoise - corrigiu Grace, e ele riu.
        - Gmeos. Isso quer dizer que vamos? - perguntou delicadamente.
        - Parece que sim, no parece? - Os midos no banco de trs cantavam canes francesas a plenos pulmes e Grace sorria, feliz.
        -Importas-te de ter l o beb? - perguntou Charles um pouco preocupado.
        -  No. No posso imaginar um stio que me agrade mais do que Paris.
        - Isso significa que sim?
        Grace disse que sim com a cabea.
        - Creio que sim.
        - O presidente disse que gostaria de voltar a ver-me aqui dentro de dois ou trs anos para as prximas eleies. Mas no sei, no tenho a certeza de querer 
voltar a passar por tudo isto outra vez.
        - Talvez para a prxima vez no seja o mesmo. Talvez se cansem.
        - Depois do que aquele patife fez com as fotografias, talvez nessa altura sejamos os proprietrios do Thrill - disse Charles sorrindo com uma certa tristeza. 
- Goldsmith vai estar muito atarefado.
        - Podamos pegar-lhe fogo - disse Grace. - Seria uma boa ideia.
        - Gostava de o fazer. - Charles sorriu, inclinou-se e beijou-a. De certa maneira, ao ouvir os filhos a cantar animadamente no banco de trs, e ao ver Grace 
a seu lado, parecia-lhe que o pesadelo dos ltimos meses nunca sucedera.
        - Au revoir, Washington! - gritaram os midos quando atravessaram o Potomac.
        Charles olhou para o local onde tantos sonhos tinham nascido e tantos haviam morrido e encolheu os ombros.
        - At  vista.
        Grace chegou-se mais para ele e sorriu, olhando para fora, pela janela.

FIM
